{"id":76096,"date":"2022-09-23T10:23:16","date_gmt":"2022-09-23T13:23:16","guid":{"rendered":"https:\/\/catolicanet.net\/wp-cnet\/?p=76096"},"modified":"2022-09-23T14:26:36","modified_gmt":"2022-09-23T17:26:36","slug":"a-gloria-de-ser-inutil","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/catolicanet.net\/wp-cnet\/a-gloria-de-ser-inutil\/","title":{"rendered":"A gl\u00f3ria de ser in\u00fatil"},"content":{"rendered":"<h2 class=\"subtitle\" style=\"text-align: justify;\">Uma reflex\u00e3o lind\u00edssima. Se voc\u00ea tiver condi\u00e7\u00f5es de acompanhar um texto um pouco mais elaborado, n\u00e3o deixe de ler at\u00e9 o fim<\/h2>\n<p style=\"text-align: justify;\">Mesmo sem concordar, compreendo muito bem a l\u00f3gica da eutan\u00e1sia e a esmagadora maioria das pesquisas a favor da mesma. Vejam as perguntas feitas\u2026 Se tiver de escolher entre a inevit\u00e1vel degrada\u00e7\u00e3o de uma morte lenta e uma ador\u00e1vel enfermeira que vem para coloc\u00e1-lo a dormir suavemente, o resultado ser\u00e1 unanimemente a favor da segunda proposta. A eutan\u00e1sia \u00e9 o \u00faltimo passo no tapete ensanguentado da cultura da morte. H\u00e1 muito que decidimos ser os \u00e1rbitros da vida nascente e escolher quem merece viver ou morrer, pelo que nada nos impede de sermos os \u00e1rbitros da vida terminal. A grande transgress\u00e3o j\u00e1 foi cometida h\u00e1 muito tempo.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>Uma l\u00f3gica consistente com a paganiza\u00e7\u00e3o<\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">A cantora Dalida queria \u201cmorrer no palco ao som da ribalta\u201d. Posso compreender que se contentasse com uma \u201cmorte suave\u201d, segundo a etimologia da palavra, numa boa cama se poss\u00edvel, porque n\u00e3o numa cl\u00ednica na Su\u00ed\u00e7a impecavelmente limpa com um fundo de m\u00fasica comercial relaxante, antes de acabar polvilhada no Lago de Genebra para ser utilizada como alimento para as carpas. Se considerarmos o corpo humano como um material biodegrad\u00e1vel e n\u00e3o o memorial de uma pessoa prometida \u00e0 ressurrei\u00e7\u00e3o, tenhamos, pelo menos, piedade da carpa.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Esta l\u00f3gica de \u201cescolher a pr\u00f3pria morte\u201d, ou escolh\u00ea-la para aqueles que j\u00e1 n\u00e3o s\u00e3o capazes de faz\u00ea-lo, uma deriva inescap\u00e1vel que vemos em pa\u00edses que j\u00e1 legalizaram a morte dos fracos, parece ser inteiramente consistente com a paganiza\u00e7\u00e3o do mundo. As<em>\u00a0pater familias<\/em>\u00a0romanas tinham o direito de vida e morte sobre seus filhos, e Esparta eliminava aqueles que tinham o menor defeito. Se esquecermos o fundamento crist\u00e3o da nossa antropologia ocidental, nomeadamente a encarna\u00e7\u00e3o de Deus na nossa carne e a sua entrada no sofrimento e na morte, o que d\u00e1 a cada pessoa, mesmo a mais desonrada ou obscura, uma nobreza incompar\u00e1vel, os velhos dem\u00f3nios do ter e do poder sempre nos alcan\u00e7ar\u00e3o. Porque, no fim de contas, apesar das justifica\u00e7\u00f5es humanistas e dos sentimentos chorosos, e apesar dos dramas \u2013 altamente instrumentalizados \u2013 que ferem a nossa terra com l\u00e1grimas, \u00e9 tamb\u00e9m uma quest\u00e3o de dinheiro. Os cuidados paliativos ir\u00e3o sempre custar mais do que uma inje\u00e7\u00e3o letal.<\/p>\n<div class=\"wp-block-aleteia-heading3\" style=\"text-align: justify;\">\n<h3>A perda da grande esperan\u00e7a<\/h3>\n<\/div>\n<p style=\"text-align: justify;\">Basicamente, perdemos a grande esperan\u00e7a, a da vida eterna; tudo o que nos resta \u00e9 a terra, que est\u00e1 a encolher como um espa\u00e7o de desgosto, e o tempo, que \u00e9 deixado \u00e0 sua pr\u00f3pria finitude. N\u00e3o h\u00e1 outra perspectiva al\u00e9m do rel\u00f3gio indefect\u00edvel, \u201cque diz sim, que diz n\u00e3o, que diz: estou \u00e0 tua espera\u201d. Se o homem nasce do acaso e vai em dire\u00e7\u00e3o ao nada, torna-se o barco b\u00eabado de Rimbaud que j\u00e1 n\u00e3o \u00e9 guiado pelos ventos e desce os rios impassivelmente. A obsess\u00e3o com o rel\u00f3gio substituiu a paci\u00eancia do eterno. O reflexo de sobreviv\u00eancia consiste, portanto, em evitar cuidadosamente qualquer ansiedade espiritual. Acima de tudo, n\u00e3o devemos despertar o chamado esquecido de um Deus que lentamente matamos, n\u00e3o sem dificuldade, na nossa consci\u00eancia emancipada. Somos simplesmente convidados a consumir a vida enquanto pudermos desfrutar dela, como um hamster bul\u00edmico a girar freneticamente na roda da sua jaula, porque cada hora que passa \u00e9 um passo em dire\u00e7\u00e3o ao nada.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Estas s\u00e3o as duas op\u00e7\u00f5es abertas ao ate\u00edsmo pr\u00e1tico e irrefletido que se tornou o ar comum do homem ocidental: excita\u00e7\u00e3o e depress\u00e3o. Tudo o que temos de fazer \u00e9 transmutar a busca metaf\u00edsica de significado numa obsess\u00e3o com a sa\u00fade e a exalta\u00e7\u00e3o do bem-estar, e depois tomar antidepressivos quando as nossas capacidades diminu\u00eddas nos impedem de nos divertir por a\u00ed. O terceiro ato consistir\u00e1 em \u201cpedir livremente\u201d a morte quando a sociedade nos impuser a imagem de sermos um desperd\u00edcio caro. Na realidade, estas escolhas sucedem-se inelutavelmente uma \u00e0 outra. Hemingway queimou a sua vida de bar em bar e de mulher em mulher antes de dar um tiro na cabe\u00e7a quando sentiu impot\u00eancia, diabetes e cegueira a aproximarem-se.<\/p>\n<div class=\"wp-block-aleteia-heading3\" style=\"text-align: justify;\">\n<h3>Fragilidade, uma fenda na coura\u00e7a dos cora\u00e7\u00f5es<\/h3>\n<\/div>\n<p style=\"text-align: justify;\">\u00c9 a can\u00e7\u00e3o de\u00a0<em>Starmania<\/em>: \u201cTudo o que queremos \u00e9 ser felizes, ser felizes antes de sermos velhos\u201d, como se \u201cser velhos\u201d fosse necessariamente ser infeliz. Como se a felicidade fosse monop\u00f3lio da juventude. No entanto, muitas coisas bonitas acontecem aos p\u00e9s da cama de uma pessoa moribunda. A fragilidade racha a coura\u00e7a dos cora\u00e7\u00f5es. Pensemos na magn\u00edfica can\u00e7\u00e3o de Aznavour,\u00a0<em>La Mamma<\/em>, onde as crian\u00e7as voltam de longe, mesmo as do sul da It\u00e1lia, mesmo o filho amaldi\u00e7oado, tocando suavemente can\u00e7\u00f5es ao viol\u00e3o e cantando a Ave Maria. Os n\u00f3s da vida s\u00e3o desatados perante a m\u00e3e moribunda. Pois os mais fr\u00e1geis d\u00e3o-nos o sentido do essencial e da gratuidade que faz a eminente dignidade da nossa vida humana: a de n\u00e3o servir para nada. A de estar infinitamente para al\u00e9m do utilitarismo. A de ser uma hist\u00f3ria sagrada. Somos servos in\u00fateis (Lc 17, 10). Esta \u00e9 a nossa gl\u00f3ria. Morrer com dignidade \u00e9 certamente beneficiar-se de cuidados que acalmam o sofrimento do esp\u00edrito e do corpo. Mas tamb\u00e9m \u00e9 morrer por nada, e ser amado de qualquer maneira. N\u00e3o pelo que se tem, mas pelo que se \u00e9.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Uma reflex\u00e3o lind\u00edssima. Se voc\u00ea tiver condi\u00e7\u00f5es de acompanhar um texto um pouco mais elaborado, n\u00e3o deixe de ler at\u00e9 o fim Mesmo sem concordar, compreendo muito bem a l\u00f3gica da eutan\u00e1sia e a esmagadora maioria das pesquisas a favor da mesma. 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