{"id":75464,"date":"2022-08-20T09:12:07","date_gmt":"2022-08-20T12:12:07","guid":{"rendered":"https:\/\/catolicanet.net\/wp-cnet\/?p=75464"},"modified":"2022-08-22T16:14:37","modified_gmt":"2022-08-22T19:14:37","slug":"sentir-com-a-igreja-sao-bernardo-de-claraval","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/catolicanet.net\/wp-cnet\/sentir-com-a-igreja-sao-bernardo-de-claraval\/","title":{"rendered":"Sentir com a Igreja &#8211; S\u00e3o Bernardo de Claraval"},"content":{"rendered":"<p style=\"text-align: justify;\">\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0 Dia 20 de agosto, celebramos S\u00e3o Bernardo de Claraval (1090-1153), importante monge cisterciense do s\u00e9culo XII e chamado de Doutor Mel\u00edfluo. Trata-se de um homem atual a muitos t\u00edtulos. Fa\u00e7o um recorte dessa sua atualidade em dois desses aspectos apenas: sua vida contemplativa cisterciense e seus escritos que inauguram a escola de espiritualidade cisterciense.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0 Ele nasceu, no ano de 1090, no castelo de Fontaine-les-Dijon, Fran\u00e7a, numa fam\u00edlia que, al\u00e9m dele, tinha outros seis filhos: uma menina e cinco meninos. Embora um tanto t\u00edmido, era piedoso e estudioso, por isso, foi levado pelos pais at\u00e9 os afamados c\u00f4negos de S\u00e3o Vorle, em Ch\u00e2tillon. Com esses sacerdotes, aprendeu a ler e a escrever em latim, aprofundou-se na Sagrada Escritura e em autores cl\u00e1ssicos tais como Virg\u00edlio, C\u00edcero e Hor\u00e1cio. J\u00e1 adolescente \u2013 ap\u00f3s perder sua m\u00e3e \u2013 retorna \u00e0 casa paterna com uma d\u00favida comum a essa idade e ao seu contexto sociocultural: Que rumo seguir? Tornar-se cavaleiro e namorador como v\u00e1rios de seus amigos ou entregar-se totalmente a Deus na vida religiosa?<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0 \u00c9 Pierre Rich\u00e9, professor em\u00e9rito da Universidade de Paris, medievalista, cuja carreira foi iniciada com uma tese sobre S\u00e3o Bernardo, em 1947, quem registra essa fase da vida do nosso monge: \u201cQuando, aos 16 anos, retorna ao castelo da fam\u00edlia, Bernardo \u00e9 um rapag\u00e3o robusto e espigado, perfeitamente talhado para exercer o of\u00edcio de cavaleiro. Reencontra seus amigos cobertos com longos mantos, fac\u00e3o em punho, prontos para partir para a ca\u00e7a ou envergando a coura\u00e7a guerreira. Acontece, por\u00e9m, que Bernardo se sente chamado para outra exist\u00eancia. Sua m\u00e3e acaba de morrer. Pois bem, dela recebeu ele o gosto pelo estudo e pela medita\u00e7\u00e3o. Durante certo tempo, hesita, sentindo-se sujeito a algumas tenta\u00e7\u00f5es, pois as jovens buscam a companhia do garboso adolescente\u201d (<em>Vida de S\u00e3o Bernardo<\/em>. S\u00e3o Paulo: Loyola, 1981, p. 12). Depois de uma experi\u00eancia de vida em comum com alguns familiares e amigos, Bernardo ingressa no mosteiro de Cister, na Fran\u00e7a, rec\u00e9m-fundado por tr\u00eas santos monges vindos de Molesmes: S\u00e3o Roberto, Santo Alberico e Santo Est\u00eav\u00e3o Harding.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0 O que teria desviado o nobre Bernardo da vida de sacerdote diocesano ou do monaquismo beneditino de Cluny e o atra\u00eddo para o, ent\u00e3o, chamado \u201cnovo mosteiro\u201d da nascente Ordem Cisterciense? \u2013 Parece-nos que Dom Lu\u00eds Alberto Ruas Santos, O. Cist., tem uma resposta precisa: a solid\u00e3o orante temperada pela comunidade fraterna e a grande pobreza. Sim, \u201cos mosteiros da Ordem Cisterciense ofereciam um alto grau de solid\u00e3o, seja pelo afastamento da sociedade e da trama de seus relacionamentos, seja pela estrita disciplina de sil\u00eancio que neles vigorava, com longas horas dedicadas \u00e0 <em>lectio<\/em> \u2013 leitura orante e meditada da Palavra de Deus \u2013 e \u00e0 ora\u00e7\u00e3o privada, e ao mesmo tempo o consolo de uma comunidade fraterna. Por outras palavras, havia na vida cisterciense uma boa dose de eremitismo dentro de um quadro de comunh\u00e3o fraterna pr\u00f3pria ao cenobitismo e ao ideal de vida apost\u00f3lica. Enfim, os cistercienses quiseram ser <em>pauperes Christi<\/em>, pobres de Cristo, ou seja, pobres com o Cristo pobre e, com isso, encontraram a terceira tend\u00eancia do monaquismo reformado do s\u00e9culo XI\u201d (<em>S\u00e3o Bernardo de Claraval: vida e obra do \u00faltimo dos Padres da Igreja<\/em>. Campinas: Ecclesiae, 2021, p. 44). Aqui, est\u00e1 o primeiro aspecto da vida de Bernardo e que lhe oferecer\u00e1 o norte: a contempla\u00e7\u00e3o despojada ou a busca de Deus sem entraves.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0 O monge santo d\u00e1 grande vigor \u00e0 nova Ordem Cisterciense e, mais do que fundar o c\u00e9lebre mosteiro de Claraval (\u201cVale Claro\u201d) para onde fora enviado, inaugura uma profunda e marcante escola de espiritualidade, a cisterciense, ainda que destacados autores a insiram entre os beneditinos dada a base comum que \u00e9 a Regra de S\u00e3o Bento ou a santa Regra. Como quer que seja, os cistercienses tem os pontos que diferem do tronco comum beneditino, de modo que Dom Bernardo Olivera, OCSO, antigo abade geral da Ordem Cisterciense da Estrita Observ\u00e2ncia ou Trapista, escreve que \u201cexiste uma \u2018espiritualidade cisterciense\u2019 (f\u00e9 levada \u00e0 vida com uma forma determinada), distingu\u00edvel das outras espiritualidades, inclusive mon\u00e1stica. Alguns dos elementos dessa espiritualidade seriam: a import\u00e2ncia da experi\u00eancia pessoal e comunit\u00e1ria, a afetividade, a Regra de S\u00e3o Bento sem acr\u00e9scimos, a caridade cenobita e contemplativa, a unanimidade, a amizade, a santa Humanidade de Jesus Cristo, a devo\u00e7\u00e3o mariana&#8230; N\u00e3o faltam os que opinam que n\u00e3o se pode falar de uma espiritualidade propriamente cisterciense (J. Lecrercq). Mas, existe sim, gra\u00e7as aos cistercienses, e sobretudo a S\u00e3o Bernardo de Claraval, uma \u2018teologia da espiritualidade ou da m\u00edstica\u2019\u201d (<em>Introducci\u00f3n a los Padres e Madres cistercienses de los siglos XII e XIII<\/em>. Burgos: Fonte\/Monte Carmelo, 2020, p. 45). Da\u00ed a pergunta: a quantas pessoas, dentro e fora dos mosteiros, essa profunda espiritualidade j\u00e1 ajudou e ajudar\u00e1 ao longo da hist\u00f3ria?<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0 C\u00e9lebre entre seus escritos \u00e9 o Coment\u00e1rio ao C\u00e2ntico dos C\u00e2nticos que nosso santo escreveu, fruto de suas medita\u00e7\u00f5es aos monges. Pierre Rich\u00e9, o famoso medievalista j\u00e1 citado, \u00e9 quem destaca: \u201cBernardo explica vers\u00edculo por vers\u00edculo nos sentidos aleg\u00f3rico e m\u00edstico. Com admir\u00e1vel dom\u00ednio, com uma arte raramente alcan\u00e7ada, Bernardo dedica os nove primeiros serm\u00f5es ao beijo, sem jamais perturbar-se, nem perturbar seus ouvintes. Quando \u00e9 levado a falar da sexualidade, ele age com calma e sem complexos, pois vive s\u00f3bria e castamente, gra\u00e7as \u00e0 leitura e \u00e0 ora\u00e7\u00e3o. Ele passa sem dificuldade do canto nupcial ao da uni\u00e3o m\u00edstica. Conduz seus monges do jardim \u00e0 adega, da adega ao quarto. O jardim \u00e9 o da cria\u00e7\u00e3o, da reconcilia\u00e7\u00e3o vinda do Salvador, da colheita, do fim do mundo. As adegas guardam os aromas, os unguentos e o vinho, isto \u00e9, as tr\u00eas regras de vida segundo a disciplina, a natureza e a gra\u00e7a. Tudo isso requer um longo encaminhamento. O beijo da alma e do Verbo de Deus mal acaba de se realizar, eis que corre o risco de findar bruscamente. Bernardo confidencia aos seus monges que seu di\u00e1logo com Cristo \u00e9 muitas vezes dif\u00edcil. Desde o come\u00e7o em que o Verbo se retirou, tudo isso come\u00e7a imediatamente a enlanguescer no torpor e arrefece\u201d (<em>Vida de S\u00e3o Bernardo<\/em>, p. 63).<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0 Cumpre-nos lembrar que S\u00e3o Bernardo foi declarado Doutor da Igreja, o Doutor Mel\u00edfluo, em 1830, pelo Papa Pio VIII, e o Papa Bento XVI, hoje em\u00e9rito, o qualificou como o \u00faltimo dos Padres da Igreja. Disso se segue uma quest\u00e3o: Quem s\u00e3o esses Padres da Igreja? \u2013 \u201cPadres da Igreja s\u00e3o escritores (n\u00e3o necessariamente presb\u00edteros ou bispos) que, nos primeiros s\u00e9culos, contribu\u00edram para a exata elabora\u00e7\u00e3o e a precisa formula\u00e7\u00e3o das verdades da f\u00e9 em tempos de debates teol\u00f3gicos com escolas her\u00e9ticas\u201d (Dom Est\u00eav\u00e3o T. Bettencourt, OSB. <em>Hist\u00f3ria da Igreja<\/em>. Rio de Janeiro: Mater Ecclesiae, 2012, p. 16).<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Se os Padres da Igreja s\u00e3o dos primeiros s\u00e9culos \u2013 at\u00e9 o VIII, no Oriente, com S\u00e3o Jo\u00e3o Damasceno \u2013, como e por que S\u00e3o Bernardo, no s\u00e9culo XII, pode ser Padre da Igreja? \u2013 O Papa Bento XVI, em sua <em>Audi\u00eancia Geral<\/em> de 21\/10\/2009, nos responde o seguinte: o santo cisterciense foi \u201cchamado \u2018o \u00faltimo dos Padres\u2019 da Igreja, porque no s\u00e9culo XII, mais uma vez, renovou e tornou presente a grande teologia dos Padres\u201d. Nesta mesma Catequese, o Papa assegurava que \u201cas reflex\u00f5es, caracter\u00edsticas de um apaixonado por Jesus e Maria como S\u00e3o Bernardo, provocam ainda hoje de modo saud\u00e1vel n\u00e3o s\u00f3 os te\u00f3logos, mas todos os crentes. Por vezes, pretende-se resolver as quest\u00f5es fundamentais sobre Deus, sobre o homem e sobre o mundo unicamente com as for\u00e7as da raz\u00e3o. S\u00e3o Bernardo, ao contr\u00e1rio, solidamente fundamentado na B\u00edblia e nos Padres da Igreja, recorda-nos que sem uma f\u00e9 profunda em Deus, alimentada pela ora\u00e7\u00e3o e pela contempla\u00e7\u00e3o, por uma rela\u00e7\u00e3o \u00edntima com o Senhor, as nossas reflex\u00f5es sobre os mist\u00e9rios divinos correm o risco de se tornarem uma v\u00e3 pr\u00e1tica intelectual, e perdem a sua credibilidade. A teologia remete para a \u2018ci\u00eancia dos santos\u2019, para a sua intui\u00e7\u00e3o dos mist\u00e9rios do Deus vivo, para a sua sabedoria, dom do Esp\u00edrito Santo, que se tornam ponto de refer\u00eancia do pensamento teol\u00f3gico. Juntamente com Bernardo de Claraval, tamb\u00e9m n\u00f3s devemos reconhecer que o homem procura melhor e encontra mais facilmente Deus \u2018com a ora\u00e7\u00e3o do que com o debate\u2019. No final, a figura mais verdadeira do te\u00f3logo e de cada evangelizador permanece a do Ap\u00f3stolo Jo\u00e3o, que apoiou a sua cabe\u00e7a no cora\u00e7\u00e3o do Mestre\u201d.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Voltemo-nos, pois, com S\u00e3o Bernardo de Claraval, para Deus e, com os olhos fixos em Cristo (cf. Hb 12,2), sirvamos aos irm\u00e3os e irm\u00e3s que cotidianamente recorrem a n\u00f3s em busca de consolo nas suas n\u00e3o poucas nem pequenas ang\u00fastias existenciais.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">S\u00e3o Bernardo de Claraval, rogai por n\u00f3s!<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0 Dia 20 de agosto, celebramos S\u00e3o Bernardo de Claraval (1090-1153), importante monge cisterciense do s\u00e9culo XII e chamado de Doutor Mel\u00edfluo. Trata-se de um homem atual a muitos t\u00edtulos. 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