{"id":73259,"date":"2022-04-03T09:00:58","date_gmt":"2022-04-03T12:00:58","guid":{"rendered":"https:\/\/catolicanet.net\/wp-cnet\/?p=73259"},"modified":"2022-04-03T12:51:33","modified_gmt":"2022-04-03T15:51:33","slug":"a-dimensao-historica-da-salvacao-cartas-do-padre-jesus-priante","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/catolicanet.net\/wp-cnet\/a-dimensao-historica-da-salvacao-cartas-do-padre-jesus-priante\/","title":{"rendered":"A Dimens\u00e3o Hist\u00f3rica da Salva\u00e7\u00e3o &#8211; Cartas do Padre Jesus Priante"},"content":{"rendered":"<p style=\"text-align: justify;\">A Salva\u00e7\u00e3o n\u00e3o \u00e9 uma utopia nem uma ideologia, mas uma &#8220;economia\u201d, isto \u00e9, uma s\u00e9rie org\u00e2nica de acontecimentos nos\u00a0quais Deus \u00e9 o protagonista.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">H\u00e1 &#8220;sinais&#8221; que nos revelam algo que vai al\u00e9m do prefixado, que n\u00e3o pode ser notado pela observa\u00e7\u00e3o racional e que se rege pela lei cient\u00edfica de causa e efeito, pela l\u00f3gica dedutiva ou pela constata\u00e7\u00e3o de fatos da Hist\u00f3ria comum, da qual Her\u00f3doto (s\u00e9c. V a.C.), segundo C\u00edcero, \u00e9 seu fundador.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Embora o termo grego &#8220;hist\u00f3ria&#8221; signifique pesquisa ou busca, o que pretende \u00e9 narrar a veracidade dos fatos, n\u00e3o seu sentido transcendente. A Hist\u00f3ria comum \u00e9 problem\u00e1tica e incerta, pois os fatos s\u00e3o irrevers\u00edveis, portanto, imposs\u00edveis de contar ou recompor.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Os fatos t\u00eam tantas vers\u00f5es quanto historiadores. No s\u00e9culo XVII, J.B. Vico identificou o fato com a mesma realidade. &#8220;O fato \u00e9 o pr\u00f3prio ser&#8221;. S\u00f3 existe o que acontece ou vem a ser.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Wittgenstein diz: \u201ca realidade \u00e9 a totalidade dos fatos\u201d.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Arist\u00f3teles considerava o fato a realidade que passou a ser em &#8220;ato&#8221;. O que previamente era um ser, tamb\u00e9m real, em estado potencial, torna-se, ele mesmo, atual no espa\u00e7o e no tempo. Assim, uma semente, ser potencial da espiga, n\u00e3o pode ser uma figueira. Cada coisa ou fato tem sua pr\u00f3pria realidade substancial e permanente; por\u00e9m, pela \u00f3ptica da hist\u00f3ria comum, s\u00e3o apenas monumentos inertes de um passado. Na Hist\u00f3ria da Salva\u00e7\u00e3o, os fatos n\u00e3o morrem, nem ficam nos museus da mem\u00f3ria, eles s\u00e3o criativos e mem\u00f3ria de futuro, portadores de vida e Salva\u00e7\u00e3o, que s\u00f3 os olhos da F\u00e9 podem contemplar.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">O te\u00f3logo franc\u00eas Chenu apela \u00e0 necessidade de recuperar a historicidade da realidade dos fatos e sua narrativa para ver neles a Salva\u00e7\u00e3o de Deus. N\u00e3o se trata, diz ele, de uma an\u00e1lise est\u00e1tica dos acontecimentos ou das ideias, cren\u00e7as feitas ou mesmo da B\u00edblia, mas de enxergar os &#8220;vivos&#8221; e salv\u00edficos dos fatos emergentes. Pertence ao papa Jo\u00e3o XXIII a express\u00e3o &#8220;sinais dos tempos&#8221;, novo objeto da nossa F\u00e9, assim como o termo &#8220;aggiornamento&#8221; que nos torna crentes e videntes de nosso tempo.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">O princ\u00edpio de historicidade impede todo tipo de dogmatismo ou verdade congelada.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">O te\u00f3logo Uruguaio J. Segundo, na d\u00e9cada de 1980, falava de &#8220;Evolu\u00e7\u00e3o dos Dogmas&#8221;.<br \/>\nNo campo da ci\u00eancia, Popper dizia que toda verdade cient\u00edfica \u00e9 &#8220;false\u00e1vel&#8221;, isto \u00e9, sujeita a ser desmentida por novas descobertas. Na \u00e9tica, a historicidade, faz da consci\u00eancia um laborat\u00f3rio de valores, personaliza e socializa a lei natural dentro das circunst\u00e2ncias em que se vive. No passado, antes do Conc\u00edlio Vaticano II, n\u00e3o se via clara a rela\u00e7\u00e3o entre o pensamento ou cren\u00e7a e a realidade, complexa demais para ser confinada em dogmas. N\u00e3o significa que tudo seja relativo ou indiferente, sen\u00e3o que tudo se relaciona de maneira din\u00e2mica \u00e0 procura da Verdade e da Vida que excede a todo acontecimento hist\u00f3rico. A probabilidade, tanto no pensar, como no agir, \u00e9 inerente \u00e0 Hist\u00f3ria. Os erros, te\u00f3ricos e pr\u00e1ticos, s\u00e3o verdades ou fatos que ainda n\u00e3o chegaram a ser no seu tempo.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">A hist\u00f3ria da Salva\u00e7\u00e3o pode ser lida ou contemplada de quatro maneiras:<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">NA PR\u00d3PRIA HIST\u00d3RIA<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">O termo evangelho, \u201cboa not\u00edcia&#8221;, sugere que a Salva\u00e7\u00e3o \u00e9 fato ou not\u00edcia e n\u00e3o uma doutrina, ideologia ou utopia. Santo Ign\u00e1cio de Loyola legou aos seus disc\u00edpulos os jesu\u00edtas a espiritualidade de ver Deus presente em todas as coisas pelo dom que ele chamou do &#8220;discernimento dos esp\u00edritos&#8221;, isto \u00e9, percebendo o que vem de Deus e o que n\u00e3o vem Dele. A Salva\u00e7\u00e3o revela-se no acontecer cotidiano, recomendava ler os epis\u00f3dios evang\u00e9licos (ditos e feitos de Jesus) imaginando-se estarem presentes neles.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">De Enoque, que significa em hebraico \u201candar com Deus\u201d, se diz que foi arrebatado ao C\u00e9u sem passar pela morte porque &#8220;andou com Deus&#8221; (Hb. 11,6). Mais do que fazer tudo em nome de Deus, como costumamos dizer, \u00e9 preciso viver nosso dia a dia, nas alegrias e tristezas, tendo presente a Deus. V\u00ea-Lo caminhando conosco na rua, no trabalho, nas nossas refei\u00e7\u00f5es, &#8220;quando deitamos ou levantamos &#8220;(Sl. 139,2).<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Vemos a Salva\u00e7\u00e3o de maneira presencial, na pr\u00f3pria Hist\u00f3ria, nos &#8220;milagres&#8221;, aqueles que interrompem a lei natural ou naqueles que permitem ver seu curso de maneira diferente. O povo costuma chamar &#8220;gra\u00e7a&#8221; genericamente a todo fato salv\u00edfico, como pode ser uma cura, a supera\u00e7\u00e3o de uma dificuldade ou crise. H\u00e1 um livro, n\u00e3o lembro agora seu autor, intitulado &#8220;Honestidade com Deus\u201d, que nos convida n\u00e3o s\u00f3 a sermos educados com Deus, mas a reconhecermos Seus dons. Honestamente, dificilmente poder\u00edamos contar a hist\u00f3ria de nossa vida sem a presen\u00e7a ativa e Salvadora de Deus. Superar os riscos da inf\u00e2ncia n\u00e3o foi algo apenas natural, assim como superar nossas aventuras e desventuras e suportar os sofrimentos inerentes \u00e0 nossa condi\u00e7\u00e3o humana e terrena. Tamb\u00e9m na dor podemos ver a Salva\u00e7\u00e3o. Nesta mesma perspectiva, na Hist\u00f3ria, contemplamos nossa Salva\u00e7\u00e3o nos &#8220;sinais&#8221; sacramentais, particularmente o Batismo e a Eucaristia, essencialmente pascais, que mant\u00e9m sempre atual o passo do pecado e da morte \u00e0 Vida Eterna, nosso grande e insol\u00favel problema existencial. Experimentar a Salva\u00e7\u00e3o na hist\u00f3ria pessoal ou na do mundo \u00e9 uma grande espiritualidade, que consiste em mover-se e viver no mundo do invis\u00edvel, conforme se nos revela Hb. 11,1: &#8220;F\u00e9 a maneira de ter o que esperamos e o meio de conhecer e ver o que n\u00e3o vemos.&#8221;<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">ATRAV\u00c9S DA HIST\u00d3RIA<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Na d\u00e9cada de 1980, o discurso teol\u00f3gico incorpora a &#8220;media\u00e7\u00e3o da Hist\u00f3ria&#8221; no Mist\u00e9rio da nossa Salva\u00e7\u00e3o. Os fatos s\u00e3o caminho ou meios nos quais e pelo quais Deus realiza seu plano irrevers\u00edvel de Salva\u00e7\u00e3o. S\u00e3o Paulo o expressa dizendo: &#8220;Tudo coopera para nosso bem&#8221; (Rm. 8,28). At\u00e9 o pecado, segundo S\u00e3o Francisco de Salles (s\u00e9c. XVII) \u00e9 como adubo que nos faz crescer em bem e santidade. Antes dele o tinha dito S\u00e3o Paulo: &#8220;onde est\u00e1 o pecado, a\u00ed est\u00e1 a gra\u00e7a&#8221;(Rm 5,20). E Santo Agostinho: \u201cDeus n\u00e3o permitiria o mal se n\u00e3o fosse para tirar dele maior bem&#8221;.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">O fim salv\u00edfico \u00e9 o \u00fanico fim do homem. A gra\u00e7a \u00e9 interior \u00e0 natureza, da qual (a gra\u00e7a) nem o ateu pode sair, afirma K.Rahner. Na mesma linha, Von Balthasar diz: &#8220;O estado de natureza \u00e9 pura abstra\u00e7\u00e3o ou subtra\u00e7\u00e3o. A ordem da Cria\u00e7\u00e3o \u00e9 a ordem da gra\u00e7a e da Salva\u00e7\u00e3o&#8221;. A Encarna\u00e7\u00e3o de Deus em Jesus \u00e9 necess\u00e1ria e torna a Hist\u00f3ria com Ele meio da Salva\u00e7\u00e3o do mundo. O expressamos dizendo \u201cE o Verbo se fez carne e habitou entre n\u00f3s&#8221;, isto \u00e9, se fez hist\u00f3ria salv\u00edfica at\u00e9 o fim, como Ele prometeu:\u201d Eu estarei convosco todos os dias at\u00e9 o fim dos tempos \u201c(Mt. 28). A Hist\u00f3ria \u00e9 pascal: passo constante da morte \u00e0 vida. Por isso, ca\u00f3tica e dolorosa, at\u00e9 atingir sua glorifica\u00e7\u00e3o. Contemplada como meio de Salva\u00e7\u00e3o, a experimentamos atrav\u00e9s da espiritualidade da Cruz. Nossos limites, car\u00eancias, dores, luta pela vida, pecados e mortes, s\u00e3o meios nos quais e pelos quais Deus nos Salva.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">O cristianismo, desde o ponto de vista racional, \u00e9 a \u00fanica filosofia que encontra sentido positivo no absurdo do sofrimento e da morte.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Nas primeiras gera\u00e7\u00f5es crist\u00e3s era perguntado ao candidato ao Batismo: \u201cQual \u00e9 tua cruz?&#8221; Ele narrava sua vida pessoal com seus sofrimentos e problemas. A seguir lhe perguntavam: \u201cPara que lhe serve essa sua cruz?&#8221;, ao que respondia: \u201dPara minha Salva\u00e7\u00e3o&#8221;.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Sem essa sabedoria, de fato, carecemos da F\u00e9 crist\u00e3 e n\u00e3o somos disc\u00edpulos de Cristo: \u201cSe algu\u00e9m quer me seguir, tome sua cruz\u201d (Mt. 10,38).<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Contra o chamado evangelho da prosperidade, pelo qual vamos a Cristo em busca de milagres, caindo na &#8220;tenta\u00e7\u00e3o da Hist\u00f3ria&#8221;, isto \u00e9, procurar a Salva\u00e7\u00e3o fora Dela, precisamos crer que, precisamente, na nossa realidade concreta, pessoal ou do mundo, se faz presente nossa Salva\u00e7\u00e3o por obra e gra\u00e7a de Deus. Por isso, podemos partir deste mundo em qualquer momento de nossa vida sem por isso deixar algo por esperar ou terminar. Nem tudo o que nos acontece e vivemos \u00e9 vontade de Deus, nem fruto da vontade do ser humano e mesmo da lei c\u00f3smica. A Hist\u00f3ria \u00e9 um leque de possibilidades, mas o que acontece, os fatos, \u00e9 meio do qual Deus serve para nossa Salva\u00e7\u00e3o. A leitura da Hist\u00f3ria que fazemos pela F\u00e9 deixa de ser hist\u00f3ria comum, que narra a morte de seus protagonistas, para se tornar a Hist\u00f3ria da Salva\u00e7\u00e3o, viva e vivificante. A Hist\u00f3ria vivida como \u201cmeio de Salva\u00e7\u00e3o&#8221; implica aceitar a tese de K.Rahner, segundo qual a Salva\u00e7\u00e3o afeta a toda a Hist\u00f3ria do mundo criado e a todo homem. N\u00e3o existem duas Hist\u00f3rias, diz ele, a Hist\u00f3ria da Salva\u00e7\u00e3o de Deus leva dentro a hist\u00f3ria do mundo e vice-versa, embora dela poucos tenham consci\u00eancia. Esta tese influenciou o Conc\u00edlio Vaticano II e hoje \u00e9 preferida por boa parte dos te\u00f3logos. O Cardeal Dani\u00e9lou, embora reconhecendo \u201ccrist\u00e3os an\u00f4nimos\u201d nas pessoas n\u00e3o evangelizadas, considerava &#8220;necess\u00e1ria&#8221; a evangeliza\u00e7\u00e3o para tornar consciente ao mundo a Salva\u00e7\u00e3o de Cristo.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">NO PRINC\u00cdPIO DA HIST\u00d3RIA<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Podemos contemplar a hist\u00f3ria da Salva\u00e7\u00e3o como um retorno ao tempo origin\u00e1rio, em forma de \u201creden\u00e7\u00e3o&#8221;. Esta vis\u00e3o prevaleceu na hist\u00f3ria do cristianismo, especialmente desde o s\u00e9culo XI com Santo Anselmo. A realidade factual na qual nos encontramos \u00e9 de uma natureza ou mundo &#8220;ca\u00eddo&#8221;, escravizado ao pecado e morte, que precisa um Redentor, que precisa satisfazer a justi\u00e7a de Deus com o pre\u00e7o do seu sofrimento, e a morte de Cristo, somado ao nosso. Este horizonte salv\u00edfico s\u00f3 \u00e9 entendido desde a premissa do &#8220;pecado original&#8221; no qual nascemos, que performa nossa exist\u00eancia e a realidade do mundo que habitamos, onde o mal (pecado e morte) nos configura.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">N\u00e3o podemos existir neste mundo sem pecado, dor e morte. A gra\u00e7a de Deus que nos Salva em Cristo \u00e9 externa a n\u00f3s e ao mundo, por isso, de alguma maneira, condicionada aos nossos m\u00e9ritos para receb\u00ea-la\u2026 Santo Agostinho resumiu esta perspectiva salv\u00edfica da hist\u00f3ria dizendo: \u201cQuem te criou sem ti, n\u00e3o te salvar\u00e1 sem ti&#8221;. Se antes de Cristo, Redentor do mundo, a Salva\u00e7\u00e3o era imposs\u00edvel, n\u00e3o fica menos problem\u00e1tica a mesma pelo fato que exige nossa &#8220;quota&#8221; de participa\u00e7\u00e3o e m\u00e9ritos para receb\u00ea-la com a contribui\u00e7\u00e3o de Cristo. A pergunta que os<br \/>\nfariseus fizeram a Jesus continua em n\u00f3s: \u201cS\u00e3o poucos os que se salvam?&#8221; (Lc. 13,23) A Salva\u00e7\u00e3o, contemplada como reden\u00e7\u00e3o, remete-nos ao princ\u00edpio da Hist\u00f3ria, quando viv\u00edamos em um<br \/>\nPara\u00edso com Deus, do qual fomos expulsos pelo pecado, esperando agora que, com Cristo, possamos retornar.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Mas, existe outra interpreta\u00e7\u00e3o mais positiva e favor\u00e1vel nesta perspectiva de retorno ao tempo origin\u00e1rio da Cria\u00e7\u00e3o. S\u00e3o Paulo nos brinda quando nos revela o mist\u00e9rio da predestina\u00e7\u00e3o: \u201cFomos predestinados antes da Cria\u00e7\u00e3o do mundo para sermos Salvos&#8221; (Rm. 8,29). \u201cDesde a eternidade Deus nos destinou para sermos seus filhos&#8221; (Ef. 1,5). Significa que, n\u00f3s e o mundo, estamos neste mundo, mas, como disse Jesus \u201cn\u00e3o pertencemos a este mundo&#8221; (Jo. 17). Como o lend\u00e1rio Ulisses, sofremos a dor &#8220;nost\u00e1lgica&#8221; e a perigosa travessia de nosso retorno a nossa P\u00e1tria e casa paterna de Deus. A miss\u00e3o Salvadora de Cristo consiste em ser Ele o &#8220;caminho&#8221; dessa od\u00edsiaca viagem. Ele \u00e9 o princ\u00edpio original dos tempos da Cria\u00e7\u00e3o e Salva\u00e7\u00e3o. (Jo.1,1) O pecado original ou mal deste mundo \u00e9 inerente \u00e0 mesma Cria\u00e7\u00e3o que, para sair de Deus, teve de sofrer a ferida do cord\u00e3o umbilical cortado do Seu seio para poder existir na Hist\u00f3ria (tempo e lugar) para retornar e entrar em comunh\u00e3o eterna com Deus, realizada pela sua Encarna\u00e7\u00e3o em Jesus de Nazareth. Finalmente, neste horizonte salv\u00edfico de retorno aos prim\u00f3rdios, contam tamb\u00e9m os &#8220;fatos misteriosos dos mitos&#8221;, n\u00e3o menos reais e hist\u00f3ricos, que precedem aos fatos propriamente hist\u00f3ricos. Dentre os incont\u00e1veis mitos dos povos, que nos remetem ao &#8220;tempo origin\u00e1rio&#8221; foram escolhidos, como grandes significantes da hist\u00f3ria da Salva\u00e7\u00e3o revelada ao povo de Israel, os narrados nos onze primeiros cap\u00edtulos do G\u00eanesis: Cria\u00e7\u00e3o do mundo e de Ad\u00e3o e Eva, o &#8220;pecado original&#8221;, a origem do sofrimento, luta pela vida e morte, do fratric\u00eddio de Caim e de todas as viol\u00eancias e guerras; o Dil\u00favio universal, in\u00edcio das grandes extin\u00e7\u00f5es do planeta (os ge\u00f3logos contabilizam cinco, hoje estamos a beira de uma sexta) e a Torre de Babel, origem das na\u00e7\u00f5es, culturas e l\u00ednguas, que nos separam e nos confrontam. Dentro desses mitos da origem, subjace uma necessidade e esperan\u00e7a de Salva\u00e7\u00e3o, expressada na inata religiosidade humana \u00e0 procura de Deus, t\u00e3o necess\u00e1ria como a pr\u00f3pria exist\u00eancia, que se faz<br \/>\nMist\u00e9rio (al\u00e9m da hist\u00f3ria) em Cristo.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">NO FIM DA HIST\u00d3RIA<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Esta \u00e9 a vis\u00e3o escatol\u00f3gica da hist\u00f3ria da Salva\u00e7\u00e3o \u00e9 partilhada pela maior parte dos te\u00f3logos no nosso tempo. Enquanto estamos neste mundo, podemos ignorar e at\u00e9 negar a exist\u00eancia de Deus. Mesmo com a vinda de Cristo, sua morte e Ressurrei\u00e7\u00e3o, como argumentava pensador romano Celso (s\u00e9c.II), contra o otimismo dos crist\u00e3os, tudo segue igual. Continuamos a sofrer e morrer. Entretanto, como consta numa carta dirigida por um crist\u00e3o an\u00f4nimo a tal Diogneto de Roma, que indagava saber a raz\u00e3o que animava aos crist\u00e3os a viverem com alegria sua F\u00e9 no meio das tribula\u00e7\u00f5es, o que nos torna diferentes \u00e9 nossa &#8220;esperan\u00e7a de Salva\u00e7\u00e3o&#8221; em Cristo. Como o resto das pessoas, sofremos, lutamos pela vida e morremos, mas aguardamos uma vida feliz no fim da nossa vida pessoal e, no fim da Hist\u00f3ria, para todos. At\u00e9 o fim dos tempos ignoramos a raz\u00e3o pela qual crescem juntos o joio e o trigo, o bem e o mal, a vida e a morte. Aparentemente tudo termina mal neste mundo.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">A literatura apocal\u00edptica nos revela que a Salva\u00e7\u00e3o ser\u00e1 precedida por uma grande cat\u00e1strofe. Em n\u00edvel pessoal \u00e9 mais do que evidente. O tempo encurva nosso corpo e nossas mentes. Resta-nos esperar em Deus.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">A Teologia da Esperan\u00e7a<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">A Teologia da esperan\u00e7a ou escatol\u00f3gica, que contempla a Salva\u00e7\u00e3o no fim da Hist\u00f3ria, tem em Moltmann, Pannenberg e muitos outros, seus mais eloquentes arautos, confirmando a tese de S\u00e3o Paulo: &#8220;Somos Salvos na esperan\u00e7a&#8221; (Rm. 8). Uma esperan\u00e7a, diz o Papa Bento XVI, que \u00e9 &#8220;substancial&#8221;, segura e certa porque o que esperamos est\u00e1 j\u00e1 realizado em favor de n\u00f3s e do mundo em Cristo Ressuscitado, antecipa\u00e7\u00e3o e garantia de nossa Salva\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Oscar Culmann a exprime dizendo: &#8220;j\u00e1, mas ainda n\u00e3o&#8221;. J\u00e1 estamos Salvos, mas ainda esperamos sua manifesta\u00e7\u00e3o ao deixarmos a estrada do tempo. O sentido do arcano mist\u00e9rio da Salva\u00e7\u00e3o orienta-se pela percep\u00e7\u00e3o de Deus presente e oculto na Hist\u00f3ria. O Conc\u00edlio Vaticano II (Gs. 9) afirma que a Igreja \u00e9 a era final da Hist\u00f3ria, epifania da verdade e da gra\u00e7a, &#8220;sinal e instrumento da Salva\u00e7\u00e3o do mundo\u201d e portadora da &#8220;feliz esperan\u00e7a&#8221; de todos, que \u00e9 o mesmo Cristo. Poder\u00edamos afirmar que o \u00fanico fato hist\u00f3rico certo para todos os tempos \u00e9 que a Igreja (comunh\u00e3o sens\u00edvel de pessoas em Cristo) permanecer\u00e1 at\u00e9 o fim deste mundo, conforme Cristo prometeu: &#8220;O poder dos infernos (todo mal) n\u00e3o lhe far\u00e1 sucumbir (Mt. 16).<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Mercaba<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Ainda que tenhamos de sair deste planeta para habitarmos outro, a &#8220;mercaba&#8221; da Igreja ir\u00e1 conosco. At\u00e9 a Parusia, ou apari\u00e7\u00e3o gloriosa de Cristo haver\u00e1 duas ou mais pessoas reunidas em seu nome (Mt. 8) suplicando e aguardando por Ele. S\u00e3o Paulo acrescenta a este fato que nos remete ao fim da Hist\u00f3ria, a exist\u00eancia do povo de Israel. Sua convers\u00e3o a Cristo ser\u00e1 sinal da Sua vinda gloriosa. Tamb\u00e9m poder\u00edamos pressagiar com a mesma certeza dos fatos, a perman\u00eancia da cidade de Jerusal\u00e9m, sacramento e emblema da esperan\u00e7a de todos os povos chamados a viverem na Cidade do C\u00e9u. Pena que est\u00e1 maravilhosa vis\u00e3o escatol\u00f3gica da Salva\u00e7\u00e3o, pela qual esperamos \u201dnovos C\u00e9us e nova terra&#8221;, foi escurecida pela doutrina t\u00e9trica dos &#8220;nov\u00edssimos&#8221; (morte, ju\u00edzo, purgat\u00f3rio, inferno e para\u00edso). Um final assim, ningu\u00e9m deseja esperar, por isso, a Vida e a Hist\u00f3ria s\u00f3 podem ter uma leitura tr\u00e1gica.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">&#8220;ASSIM DIZ O SENHOR: VOU REALIZAR UMA COISA NOVA, QUE J\u00c1 EST\u00c1 APARECENDO: N\u00c3O A VEDES? (Is. 43,16-21)<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">O texto pertence ao tempo do Ex\u00edlio do povo judeu na Babil\u00f4nia (Iraque) no s\u00e9culo VI. a. C. L\u00e1 permaneceu cinquenta anos. Prodigiosamente, sem qualquer progn\u00f3stico humano, o rei Ciro da P\u00e9rsia (Iram) ordena e facilita seu retorno a Jerusal\u00e9m e ajudar\u00e1 na reconstru\u00e7\u00e3o do seu Templo. Um profeta, que aqui se autodenomina Isaias, para dar continuidade ao esp\u00edrito do primeiro Isaias, dois s\u00e9culos antes, cheio de otimismo, vislumbrando um futuro feliz para a humanidade com a vinda de um Messias, anuncia tamb\u00e9m a interven\u00e7\u00e3o Salvadora de Deus na Hist\u00f3ria, servindo-se dos fatos e de seus protagonistas humanos. Esta narrativa b\u00edblica confirma a tese acima exposta: \u201cA Salva\u00e7\u00e3o atrav\u00e9s da Hist\u00f3ria\u201d. Mas tamb\u00e9m sugere a outra perspectiva salv\u00edfica: \u201cA Salva\u00e7\u00e3o na Hist\u00f3ria\u201d, isto \u00e9, ela mesma \u00e9 a hist\u00f3ria da Salva\u00e7\u00e3o em todos seus acontecimentos. Por isso, nos convida a &#8220;ver&#8221; a a\u00e7\u00e3o salv\u00edfica de Deus, nas alegrias e nas tristezas, na morte e na vida.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">N\u00e3o estamos s\u00f3s, \u201cjogados&#8221; \u00e0 nossa sorte. \u00c9 claro que antes de Cristo, o pr\u00f3prio profeta Isa\u00edas, anterior ao Isa\u00edas do Ex\u00edlio, contemplou o ser humano cego, &#8220;apalpando as paredes&#8221;, incapaz de ver sua Salva\u00e7\u00e3o. O pr\u00f3prio Abra\u00e3o, pai da F\u00e9, \u201cdesejou ver o dia de Cristo&#8221; (Jo. 8). Sua miss\u00e3o, declarou na Sinagoga de Nazar\u00e9, foi abrir os olhos dos cegos. \u201cEu vim para que vejam os que n\u00e3o v\u00eaem&#8221; (Jo. 9,39).<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Embora S\u00e3o Paulo afirme que a F\u00e9 (vis\u00e3o do invis\u00edvel) entra pelo ouvido (Rm. 10,10), a prega\u00e7\u00e3o que anuncia a Salva\u00e7\u00e3o fundamenta-se no testemunho dos que presenciaram ocularmente a pessoa de Jesus, seus milagres, morte e Ressurrei\u00e7\u00e3o. &#8220;O que temos visto com nossos olhos, isso vos anunciamos&#8221; (1 Jo.1,1). Algo extraordin\u00e1rio teve de presenciar aquela d\u00fazia de rudes galileus, ao quais se uniram outras testemunhas como eles, para se lan\u00e7ar ao mundo anunciando a Salva\u00e7\u00e3o que nos veio por um crucificado. Se dependesse apenas da prega\u00e7\u00e3o do que ouviram, a evangeliza\u00e7\u00e3o n\u00e3o teria acontecido do jeito que historicamente aconteceu dentro de um mundo greco-romano, culturalmente crescido. Porque os doze ap\u00f3stolos O viram vivo ap\u00f3s ter sido enterrado, era imposs\u00edvel reter para si este acontecimento inaudito e singular do qual dependeria a \u00fanica verdadeira esperan\u00e7a do mundo.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Se diz que uma imagem vale mais do que mil palavras. A verdade, segundo Arist\u00f3teles, relaciona-se com a evid\u00eancia. Mas s\u00f3, metaforicamente, a raz\u00e3o &#8220;v\u00ea&#8221; a verdade fora dos fatos contemplados com os olhos, que podemos interpretar de m\u00faltiplas maneiras, mas jamais neg\u00e1-los.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">A Hist\u00f3ria da Salva\u00e7\u00e3o, narrada na B\u00edblia, consiste numa s\u00e9rie de acontecimentos ou fatos atribu\u00eddos a Deus e percebidos ocularmente pelo povo de Israel, particularmente pelos seus profetas. Fundamentados nesses fatos, sens\u00edveis ou misteriosos, o povo cr\u00ea e espera a Salva\u00e7\u00e3o de Deus. S\u00e3o Paulo atribuiu a si pr\u00f3prio o t\u00edtulo de ap\u00f3stolo porque tamb\u00e9m ele &#8220;viu&#8221; Cristo Ressuscitado a caminho de Damasco (1Cor. 15), embora S\u00e3o Lucas se lhe negue, pois n\u00e3o conheceu Jesus carnalmente.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Deus mostra sua Salva\u00e7\u00e3o &#8220;visivelmente&#8221; de muitas maneiras sem quebrantar seu plano: a Salva\u00e7\u00e3o pela F\u00e9. Por ela vemos o invis\u00edvel (Hb. 11,1) e tamb\u00e9m o vis\u00edvel. Um ateu ou uma pessoa carente de F\u00e9 n\u00e3o v\u00ea os milagres de Deus. Ao longo da Hist\u00f3ria, s\u00e3o contadas numerosas &#8220;apari\u00e7\u00f5es&#8221; ou vis\u00f5es de Cristo, a Virgem, pessoas Ressuscitadas que, per se, s\u00e3o invis\u00edveis por carecerem de uma corporeidade material, entretanto, por serem &#8220;corporais&#8221;, transformados pela Ressurrei\u00e7\u00e3o, podem aparecer e tornar-se vis\u00edveis. Entretanto, n\u00e3o podemos ver Deus Pai, o Esp\u00edrito Santo ou os anjos, que s\u00e3o incorp\u00f3reos. Deles apenas podemos ter &#8220;sinais&#8221;. S\u00e3o estes sinais que, pela F\u00e9, podemos ver nos fatos de cada dia, e assim sendo, a pergunta do profeta Isa\u00edas ser\u00e1 v\u00e1lida para todos os tempos: &#8220;N\u00e3o vedes?\u201d<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">S\u00e3o Paulo, em Rm 1, n\u00e3o isenta de culpa os que n\u00e3o v\u00eaem Deus na grandeza do universo com mais de 500 milh\u00f5es de gal\u00e1xias e mais de 100 milh\u00f5es de corpos celestes, cada uma. &#8220;Contemplando os c\u00e9us estrelados, pergunto-me, o que \u00e9 o homem para dele Vos lembrar, Oh Deus?&#8221; (Sl. 8).<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\u201cDuas coisas me admiram, dizia Kant, o C\u00e9u estrelado e o imperativo do dever moral dentro de mim\u201d. Tamb\u00e9m o uso das imagens nos ajuda a ver o invis\u00edvel.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">&#8220;TUDO CONSIDERO PERDA E LIXO AP\u00d3S TER CONHECIDO (VISTO) CRISTO&#8230; PROSSIGO ATR\u00c1S DELE PARA VER SE O ALCAN\u00c7O, POIS J\u00c1 FUI ALCAN\u00c7ADO POR ELE&#8221; (Ef. 3,8-14)<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Todo conhecimento filos\u00f3fico ou cient\u00edfico n\u00e3o passa de um diagn\u00f3stico de m\u00e9dico forense a constatar a &#8220;causa mortis&#8221; de um cad\u00e1ver, pois a vida, como afirma Wittgenstein, n\u00e3o tocam sequer com um dedo.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">S\u00e3o Paulo, pela sabedoria que nos revelam suas cartas, poderia ser considerado uma das mentes mais prodigiosas da hist\u00f3ria humana. Foi o primeiro a encontrar sentido no sofrimento e na morte, onde toda raz\u00e3o topa com seu limite e as cren\u00e7as religiosas com esc\u00e2ndalo.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Culturalmente, podemos afirmar, que a mente ocidental, n\u00e3o s\u00f3 \u00e9 mais paulina do que aristot\u00e9lica, como tamb\u00e9m crist\u00e3. De qualquer maneira, a radicalidade a que chega S\u00e3o Paulo, ap\u00f3s ter sido fan\u00e1tico judeu e versado na cultura greco-romana do seu tempo: \u201cTudo considero perda e lixo ap\u00f3s ter conhecido a Cristo&#8221; &#8211; \u00e9 a conclus\u00e3o a qual ter\u00edamos de chegar cada um de n\u00f3s, para realmente crer que a Salva\u00e7\u00e3o nos vem s\u00f3 de Cristo.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">A filosofia \u00e9 definida como atividade mental para resolver o problema da vida. E s\u00f3 temos um problema, afirma Unamuno, que morremos e, se morremos tudo<br \/>\ncarece de sentido.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Lutero via como \u00fanico problema poder ou n\u00e3o se salvar. O pecado, de fato, \u00e9 maior problema maior do que a pr\u00f3pria morte. Precisamente, a resposta e a solu\u00e7\u00e3o destes problemas que humanamente n\u00e3o temos como superar, a resposta e solu\u00e7\u00e3o as temos s\u00f3 em Cristo Ressuscitado. \u00danico fato que d\u00e1 sentido ao devir da Hist\u00f3ria, ao ser humano e \u00e0 toda a Cria\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\u201cSe Cristo n\u00e3o Ressuscitou v\u00e3 \u00e9 nossa F\u00e9\u201d, diz S\u00e3o Paulo. N\u00f3s acrescentamos, tamb\u00e9m \u00e9 vazia toda ci\u00eancia, todo progresso, hoje t\u00e3o amb\u00edguo, pois enquanto a \u201cintelig\u00eancia&#8221; e o poder das m\u00e1quinas crescem, o ser humano fica mais d\u00e9bil e primitivo.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Sem Cristo, defendia Maritain contra Sartre na d\u00e9cada de 1940, n\u00e3o \u00e9 poss\u00edvel um verdadeiro humanismo, s\u00f3 Ele e Nele podemos ser fraternos, filhos de um Pai de todos, assim como lutar por um mundo melhor que n\u00e3o se esgota na Hist\u00f3ria.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Gra\u00e7as a Cristo, todo o \u201chumanismo\u201d sem Cristo, s\u00f3 pode ser um &#8220;humanismo tr\u00e1gico&#8221;, foi assim que o contemplou o povo da antiga Gr\u00e9cia, ber\u00e7o da filosofia.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">&#8220;NINGU\u00c9M TE CONDENOU?&#8230; EU TAMB\u00c9M N\u00c3O TE CONDENO.\u201d (jo. 8,1-11)<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Apresentaram os escribas e fariseus a Jesus uma mulher ad\u00faltera que, pela lei de Mois\u00e9s, teria de morrer apedrejada. Jesus, inclinando-se, escreveu na terra com o dedo esta frase.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\u00c9 a \u00fanica vez que os Evangelhos aludem a gesto de escrever por Jesus. De fato, nada deixou escrito. Ser\u00e3o seus disc\u00edpulos que ap\u00f3s mais de 20 anos da sua morte e Ressurrei\u00e7\u00e3o, recolheram algumas das suas prega\u00e7\u00f5es e milagres. Sabia Jesus escrever? Este epis\u00f3dio parece mostra-lo afirmativamente, embora, na \u00e9poca, aprender a ler era mais comum, mas escrever era pr\u00f3prio de uma elite privilegiada. Os meios materiais eram tamb\u00e9m muito escassos. Que teria Jesus escrito no ch\u00e3o? Se nos atentamos ao relato, teria escrito o que em outras circunst\u00e2ncias disse: \u201cEu vim Salvar e n\u00e3o condenar&#8221; (Lc. 19,10) ou \u201cEu quero miseric\u00f3rdia e n\u00e3o sacrif\u00edcio&#8221; (Mt. 9,13). Ele escreveu na terra, n\u00e3o em papiros que o tempo apaga, nem em t\u00e1buas de pedra que o pecado quebra, mas neste nosso planeta, a girar em busca da vida, que o pecado e a morte nos negam e que s\u00f3 o perd\u00e3o e a miseric\u00f3rdia de Deus nos pode dar. Aos que pretendem conquist\u00e1-la pela lei da justi\u00e7a, Jesus usa o chamado argumento &#8220;ad hominem&#8221;. Erguendo-se, disse: &#8220;Quem de vos estiver sem pecado, seja o primeiro a atirar uma pedra&#8221;. \u201cE come\u00e7ando pelos mais velhos, todos sa\u00edram um ap\u00f3s outro\u201d.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">S\u00e3o Jo\u00e3o chama mentirosos os que acreditam estarem sem pecado (1Jo.1,8). Nascemos no pecado, nele vivemos e com ele morreremos. S\u00f3 Deus tem o poder de tirar o pecado do mundo, assim como vencer a morte. Ambas vit\u00f3rias as temos conquistadas em Cristo Ressuscitado. O veredicto final contra nossos pecados j\u00e1 foi dado por Jesus na pessoa da mulher ad\u00faltera: \u201cNingu\u00e9m te condenou. Eu tamb\u00e9m n\u00e3o tenho condeno&#8221;.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Passamos a vida condenando os outros para nos justificarmos a n\u00f3s mesmos.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Freud chama esse processo psicol\u00f3gico de &#8221; mecanismo de defesa. &#8221; Diz-se que o maior amigo do homem n\u00e3o \u00e9 o cachorro sen\u00e3o o &#8220;bode expiat\u00f3rio\u201d. As palavras de Jesus: &#8220;N\u00e3o julgueis e n\u00e3o ser\u00e3o julgados&#8221; (L.6,37) tem um outro sentido mais sublime do que simples mandamento: Revela-nos que nem temos por que julgar-nos e condenar-nos a n\u00f3s mesmos nem aos outros, porque tamb\u00e9m Deus n\u00e3o nos julga nem condena.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">De S\u00e3o Jer\u00f4nimo (s\u00e9c. IV) se diz que, estando em Jerusal\u00e9m, costumava chorar pelos seus pecados frente a um crucifixo. Certo dia Cristo na cruz lhe disse: &#8220;Entrega-me teus pecados.\u201dDificilmente temos este sentimento. Oferecemos a Deus um sacrif\u00edcio ou boa obra, mas n\u00e3o nossos pecados. Com eles fazemos pedras para jogar contra os outros ou contra n\u00f3s mesmos pelo sentimento de culpa. No fim da vida, todos deixaremos essas pedras e, de m\u00e3os vazias, diremos: Obrigado porque me livrastes do pecado e da morte.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">A Gra\u00e7a Divina trabalha em n\u00f3s misteriosamente. Uma das acusa\u00e7\u00f5es dos fariseus contra Jesus era: &#8221; Ele come com os publicanos e pecadores&#8221;. E finalizou sua vida na cruz morrendo entre dois assassinos.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Muitas vezes me pergunto, como Deus pode suportar nossos pecados e os pecados do mundo.? Quanta maldade, de fato. Admira-nos Seu poder Criador. Mas Seu poder \u00e9 maior pela sua Miseric\u00f3rdia. \u00c9 mais f\u00e1cil chamar a ser o que n\u00e3o existe ou dar vida aos mortos, do que &#8220;descer aos infernos&#8221; de nossos pecados para sermos amados e glorificados. &#8220;A gra\u00e7a de Deus, diz Santo Agostinho, corre por este vale de l\u00e1grimas, do pecado e do nada&#8221;. Ela \u00e9 interior em cada um de n\u00f3s e do mundo criado, como o \u201cfermento na massa&#8221;.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Padre Jesus Priante.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Espanha.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Edi\u00e7\u00e3o e intert\u00edtulos por Malcolm Forest. S\u00e3o Paulo.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Copyright 2022 Padre Jesus Priante.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Direitos Reservados.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>A Salva\u00e7\u00e3o n\u00e3o \u00e9 uma utopia nem uma ideologia, mas uma &#8220;economia\u201d, isto \u00e9, uma s\u00e9rie org\u00e2nica de acontecimentos nos\u00a0quais Deus \u00e9 o protagonista. 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