{"id":73177,"date":"2022-03-28T09:58:07","date_gmt":"2022-03-28T12:58:07","guid":{"rendered":"https:\/\/catolicanet.net\/wp-cnet\/?p=73177"},"modified":"2022-03-28T16:59:11","modified_gmt":"2022-03-28T19:59:11","slug":"quantas-vezes-julguei-que-o-outro-era-tolo-porque-nao-se-enquadrava-nas-minhas-expectativas","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/catolicanet.net\/wp-cnet\/quantas-vezes-julguei-que-o-outro-era-tolo-porque-nao-se-enquadrava-nas-minhas-expectativas\/","title":{"rendered":"Quantas vezes julguei que o outro era tolo porque n\u00e3o se enquadrava nas minhas expectativas?"},"content":{"rendered":"<h2 class=\"subtitle\" style=\"text-align: justify;\">O 1\u00b0 de Abril, Dia dos Tolos, d\u00e1-nos a oportunidade de considerar a sabedoria dos &#8220;santos tolos&#8221; entre n\u00f3s<\/h2>\n<p style=\"text-align: justify;\">Todo 1\u00b0 de Abril celebramos coletivamente o conceito de ser tolo. Os meus filhos gostam de me atacar sorrateiramente quando saem de esconderijos debaixo das camas e atr\u00e1s das portas. Tentam convencer-me de que um elefante escapou do jardim zool\u00f3gico e est\u00e1 a comer os narcisos no nosso quintal. Assim que olho pela janela para ver esta criatura maravilhosa, eles dissolvem-se em risadinhas. Enganaram o seu pai!<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Como sociedade, parece-me que temos uma rela\u00e7\u00e3o conflituosa com a ideia de ser um tolo. Ningu\u00e9m, claro, quer ser rotulado de idiota. E no entanto, h\u00e1 certos momentos em que usamos a palavra aprovando, talvez at\u00e9 invejosamente.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Estou a pensar, em particular, na ideia de um Santo Tolo. Um Santo Tolo \u00e9 normalmente um eremita, um santo particularmente estranho, ou talvez mesmo aquele paroquiano \u00fanico, maravilhosamente idealista na sua igreja que marcha ao ritmo de um coro ang\u00e9lico diferente. Este tipo de tolos \u2013 o de uma pessoa que \u00e9 supremamente distanciada dos cuidados deste mundo \u2013 \u00e9 at\u00e9 celebrado na B\u00edblia na descri\u00e7\u00e3o de S\u00e3o Paulo como tendo-se tornado um tolo por Cristo.<\/p>\n<div class=\"wp-block-aleteia-heading3\" style=\"text-align: justify;\">\n<h3>A hist\u00f3ria de um tolo santo<\/h3>\n<\/div>\n<p style=\"text-align: justify;\">H\u00e1 um livro que adoro chamado Laurus, escrito por Eugene Vodolazkin. Conta a hist\u00f3ria de um Santo Tolo chamado Arseny que, durante toda a sua vida, encontra-se em desacordo com a sociedade. Ele vive como um eremita no bosque, indo ocasionalmente \u00e0 cidade para mendigar p\u00e3o, se for preciso. Os habitantes da cidade t\u00eam em parte medo dele, em parte acham gra\u00e7a.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Suspeito que o seu medo adv\u00e9m do fato dele procurar um modo de vida radicalmente diferente e preocupa-os que a sua presen\u00e7a denuncie a sua pr\u00f3pria exist\u00eancia, mais materialista e apegada.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\u00c9 por isso que muitas vezes riem dele. Isto ajuda-os a ignorar o qu\u00e3o desconfort\u00e1veis ele os faz sentir. No entanto, nos seus momentos mais honestos, esgueiram-se para visit\u00e1-lo na sua caverna na floresta para pedir conselhos, ora\u00e7\u00e3o, e o seu dom como curandeiro. O Santo Tolo, ao que parece, possui grande sabedoria.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">H\u00e1 um incidente particular no livro que ficou comigo muito depois de o ter lido. A certa altura, Arseny \u00e9 agredido por um bando de jovens rapazes.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Eles o jogam numa cerca de t\u00e1buas. V\u00e1rios pares de m\u00e3os pressionam-no para dentro das t\u00e1buas, embora ele n\u00e3o resista. O rapaz cujas m\u00e3os permanecem livres prega as bordas da camisa de Arseny \u00e0s t\u00e1buas. Arseny observa os rapazes a rir e depois ele tamb\u00e9m ri.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">O que me surpreende \u00e9 o que acontece a seguir.<\/p>\n<blockquote class=\"wp-block-quote\"><p>Ele fica quieto quando (os rapazes) fogem. Resta apenas um rapaz, e ele aproxima-se de Arseny e abra\u00e7a-o. E chora. O cora\u00e7\u00e3o de Arseny afunda porque sabe que este rapaz tem pena dele mas tem vergonha de mostrar na frente dos outros\u2026 Ele beija o rapaz na testa e foge porque o seu cora\u00e7\u00e3o est\u00e1 pronto a rebentar. Arseny engasga-se com os seus solu\u00e7os. Ele corre e os solu\u00e7os sacodem-no e as l\u00e1grimas voam das suas bochechas em todas as dire\u00e7\u00f5es, germinando todo o tipo de plantas humildes \u00e0 beira da estrada.<\/p><\/blockquote>\n<div class=\"wp-block-aleteia-heading3\" style=\"text-align: justify;\">\n<h3>Julgando loucuras<\/h3>\n<\/div>\n<p style=\"text-align: justify;\">Quantas vezes julguei que outra pessoa era tola porque n\u00e3o se enquadrava bem nas minhas expectativas? Que sabedoria perdi por causa do meu orgulho? Porque deixo a opini\u00e3o dos outros moldar os meus pontos de vista t\u00e3o fortemente que at\u00e9 posso perder um milagre diante dos meus pr\u00f3prios olhos? Ao responder a estas perguntas, tenho de admitir que sou mais tolo do que gosto de pensar e os outros s\u00e3o muito mais s\u00e1bios.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">No seu outro mundo, os Santos Tolos dirigem a nossa aten\u00e7\u00e3o para o C\u00e9u. Ao faz\u00ea-lo, demonstram grande profundidade de sabedoria. Descobriram o que \u00e9 verdadeiramente importante e libertaram-se para busca-lo.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Quando Arseny morre, o seu corpo jaz ao lado do seu pequeno eremit\u00e9rio, liberando o cheiro de pinheiro como incenso. Uma corda \u00e9 amarrada aos seus p\u00e9s e o seu corpo \u00e9 arrastado para o cemit\u00e9rio. \u00c0 medida que o cortejo vai avan\u00e7ando, ouvem-se gritos da multid\u00e3o de 183.000 pessoas que vieram para testemunhar o enterro. Os muitos bispos que chegaram para prestar homenagem, barbas a flutuar ao vento, pegam na corda e ajudam a puxar Arseny atrav\u00e9s de um campo de trigo, os seus bra\u00e7os sem vida come\u00e7am a dedilhar a erva, tal como voc\u00ea ou eu dedicar\u00edamos um ter\u00e7o. \u00c9 uma imagem assombrosa, um enigma. Um funeral estranho para um homem que viveu uma vida estranha.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Ningu\u00e9m quer ser rotulado de tolo, bobo ou idiota. Ningu\u00e9m quer ser trapaceado. Mas n\u00e3o posso deixar de pensar que n\u00e3o sabemos o suficiente para decidir com precis\u00e3o quem \u00e9 tolo e quem n\u00e3o \u00e9. Seria uma boa ideia abrandar, esperar, andar mais devagar para termos tempo e espa\u00e7o para ponderar um tal mist\u00e9rio nos nossos cora\u00e7\u00f5es.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Tudo o que eu realmente sei \u00e9 que \u00e9 uma quest\u00e3o que vale a pena refletir. A sabedoria n\u00e3o vai com a multid\u00e3o. N\u00e3o \u00e9 uma quest\u00e3o c\u00ednica e pr\u00e1tica. N\u00e3o \u00e9 o evitar de chegar a quest\u00f5es idealistas sobre n\u00f3s pr\u00f3prios, o nosso lugar neste mundo, e a nossa viagem para fora dele.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">A sabedoria assume riscos. Faz perguntas grandes e corajosas e n\u00e3o tem medo de ser mal compreendida.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\u00c9 por isso que quando o meu filho dirige a minha aten\u00e7\u00e3o para fora da janela, no dia 1 de Abril, eu certifico-me de sempre olhar.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>O 1\u00b0 de Abril, Dia dos Tolos, d\u00e1-nos a oportunidade de considerar a sabedoria dos &#8220;santos tolos&#8221; entre n\u00f3s Todo 1\u00b0 de Abril celebramos coletivamente o conceito de ser tolo. Os meus filhos gostam de me atacar sorrateiramente quando saem de esconderijos debaixo das camas e atr\u00e1s das portas. Tentam convencer-me de que um elefante [&hellip;]<\/p>\n","protected":false},"author":1,"featured_media":73178,"comment_status":"open","ping_status":"closed","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"footnotes":""},"categories":[4],"tags":[],"class_list":["post-73177","post","type-post","status-publish","format-standard","has-post-thumbnail","hentry","category-cotidiano"],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/catolicanet.net\/wp-cnet\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/73177","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/catolicanet.net\/wp-cnet\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/catolicanet.net\/wp-cnet\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/catolicanet.net\/wp-cnet\/wp-json\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/catolicanet.net\/wp-cnet\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=73177"}],"version-history":[{"count":1,"href":"https:\/\/catolicanet.net\/wp-cnet\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/73177\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":73179,"href":"https:\/\/catolicanet.net\/wp-cnet\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/73177\/revisions\/73179"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/catolicanet.net\/wp-cnet\/wp-json\/wp\/v2\/media\/73178"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/catolicanet.net\/wp-cnet\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=73177"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/catolicanet.net\/wp-cnet\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=73177"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/catolicanet.net\/wp-cnet\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=73177"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}