{"id":73064,"date":"2022-03-20T09:00:25","date_gmt":"2022-03-20T12:00:25","guid":{"rendered":"https:\/\/catolicanet.net\/wp-cnet\/?p=73064"},"modified":"2022-03-19T17:53:00","modified_gmt":"2022-03-19T20:53:00","slug":"o-acontecer-da-salvacao-cartas-do-padre-jesus-priante","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/catolicanet.net\/wp-cnet\/o-acontecer-da-salvacao-cartas-do-padre-jesus-priante\/","title":{"rendered":"O Acontecer da Salva\u00e7\u00e3o &#8211; Cartas do Padre Jesus Priante"},"content":{"rendered":"<p style=\"text-align: justify;\">Lutero dizia que seu \u00fanico e maior problema era se podia ou n\u00e3o ser salvo. Entrou num convento agostiniano para resolver seu problema existencial e saiu frustrado, deixando nas m\u00e3os de Deus o seu tr\u00e1gico dilema, humanamente imposs\u00edvel de resolver.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">De fato, a \u201cSalva\u00e7\u00e3o pertence a Deus&#8221;. S\u00f3 pela F\u00e9 temos esta feliz esperan\u00e7a; embora n\u00e3o seja propriamente a F\u00e9 o que nos salva, pois, se assim fosse, seria escasso o n\u00famero dos seus felizardos. Jesus, apesar de pedir aos seus disc\u00edpulos e ouvintes terem F\u00e9, prognosticou para o fim dos tempos a possibilidade de n\u00e3o encontrar F\u00e9 na terra (Lc. 18,8) e recriminava a seus ouvintes por n\u00e3o acreditarem na mensagem da sua Salva\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Pela F\u00e9 e n\u00e3o pela raz\u00e3o, cren\u00e7as ou m\u00e9ritos pr\u00f3prios, sabemos que, de fato, todos seremos salvos: justos e pecadores, crentes e ateus. A diferen\u00e7a em ter ou n\u00e3o ter F\u00e9, diz Santo Agostinho, \u00e9 a mesma que existe entre quem v\u00ea e um cego, ambos vivem, mas um v\u00ea e o outro n\u00e3o v\u00ea. N\u00e3o \u00e9 o mesmo sofrer um naufr\u00e1gio ou a queda de um avi\u00e3o, para quem<br \/>\ncr\u00ea e espera sua Salva\u00e7\u00e3o de Deus e quem carece desta esperan\u00e7a.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Para quem n\u00e3o cr\u00ea, o \u00fanico problema que torna absurda a vida, \u00e9 a morte. Se morremos, nada tem sentido. Unamuno, ateu, o maior pensador espanhol do s\u00e9culo XX, costumava dizer: \u201cS\u00f3, tenho um problema: a morte. E este problema \u00e9 ainda mais tr\u00e1gico porque morro, mas n\u00e3o posso e nem consigo morrer&#8221;. De fato, racionalmente \u00e9 imposs\u00edvel matar de vez a vida. O suicida, afirma Pascal, n\u00e3o busca a morte sen\u00e3o uma outra vida, pois n\u00e3o quer viver a vida presente, muitas vezes insuport\u00e1vel. O instinto de vida ou impulso vital \u00e9 inato em todo ser vivo. Por isso, \u00e9 imposs\u00edvel morrer. A imortalidade \u00e9 imperativa e postulado de nosso ser. E esta vida que de maneira irresist\u00edvel queremos e buscamos, tem de ser feliz. De outra maneira seria contradit\u00f3ria. Por isso o \u201cinferno&#8221;, \u00e9 lugar da morte eterna, sem vida. &#8220;Somos sonhados para a vida&#8221;, diz o papa Francisco, que todos j\u00e1 temos em Cristo ressuscitado. At\u00e9 Ele, as religi\u00f5es e filosofias nos brindavam uma esperan\u00e7a incerta de viver ap\u00f3s a morte, como um postulado da raz\u00e3o, incapaz de morrer, ou como consolo, diz Unamuno, aos que temos nascido para morrer. Freud via na religi\u00e3o ou cren\u00e7a uma ilus\u00e3o e Marx, o \u00f3pio do povo. Mas sem essa ilus\u00e3o ou \u00f3pio, a vida real seria tr\u00e1gica e &#8220;paix\u00e3o in\u00fatil&#8221; (Sartre). De qualquer maneira, todos alimentamos um desejo e uma esperan\u00e7a de viver, superando o limite intranspon\u00edvel da morte.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">O mito de Gilgamesh, que o povo da antiga Mesopot\u00e2mia cultuava h\u00e1 mais de 4.000 anos, mostra-nos que essa flor m\u00e1gica da vida que buscamos e queremos, n\u00e3o a encontramos neste mundo. Com toda verdade temos de confessar: \u201cO Senhor \u00e9 minha luz e minha Salva\u00e7\u00e3o&#8221; (Sl. 27). Entretanto, estas palavras proclamadas por um crente antes de Cristo, expressavam apenas o desejo de todo ser humano que, n\u00e3o encontrando resposta ao problema da morte e ao problema ainda maior do pecado, no limite do desespero ou da ang\u00fastia existencial, como interpreta Kierkegaard a F\u00e9, nossa \u00fanica sa\u00edda \u00e9 arriscar-nos a crer ou esperar nossa Salva\u00e7\u00e3o em Deus, como fez Abra\u00e3o. N\u00e3o porque<br \/>\ntemos certeza da mesma, sen\u00e3o porque n\u00e3o temos outra sa\u00edda existencial. \u201cA certeza da<br \/>\nSalva\u00e7\u00e3o veio \u00e0 terra em Cristo. N\u00e3o foi dado ao ser humano outro nome no qual possamos ser Salvos a n\u00e3o ser Jesus Cristo\u201d (At. 4). Aderir a esta verdade exige a Fe, dom de Deus e, ao mesmo tempo, ato livre e querido de toda pessoa pelo qual, em certo momento da sua vida, decidimos, como afirma Pascal, &#8220;apostar&#8221;, radical e absolutamente, a sorte da nossa vida em Deus. N\u00e3o podemos acender duas velas, como costuma dizer o povo, uma a Deus e outra ao dem\u00f4nio<br \/>\nou \u00eddolo. Enquanto Deus n\u00e3o for tudo para n\u00f3s, carecemos da verdadeira e \u00fanica F\u00e9 que nos faz conhecer, de maneira segura e certa, nossa Salva\u00e7\u00e3o. &#8220;F\u00e9 a posse do que esperamos e o conhecimento do que n\u00e3o vemos.&#8221; (Hb.11,1)<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Pela F\u00e9 a esperan\u00e7a \u00e9 j\u00e1 realidade, diz S\u00e3o Greg\u00f3rio Nazianzeno (s\u00e9c. IV).<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">O acontecer da Salva\u00e7\u00e3o pode ser contemplado de tr\u00eas maneiras:<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">HIST\u00d3RIA SAGRADA<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">At\u00e9 metade do s\u00e9culo XX, o agir salv\u00edfico de Deus era conhecido atrav\u00e9s das narrativas b\u00edblicas do povo de Israel, que cham\u00e1vamos Hist\u00f3ria Sagrada, diferente da hist\u00f3ria do mundo ou do agir humano. Outros povos tem tamb\u00e9m suas hist\u00f3rias sagradas.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">O profano e o sagrado eram dois campos separados. At\u00e9 nossos dias temos esta mentalidade<br \/>\nsalv\u00edfica divina como hist\u00f3ria sagrada. De uma pessoa religiosa dizemos que deixou o mundo, sua hist\u00f3ria profana, para se &#8220;consagrar&#8221; a Deus e viver uma hist\u00f3ria sagrada. Dicotomia que a antropologia desmente. Mircea Eliade, possivelmente o maior estudioso do fen\u00f4meno religioso, considera o ser humano essencialmente religioso. Uma pessoa sem religi\u00e3o \u00e9 an\u00f4mala. Jung ia mais longe: \u201csem f\u00e9 n\u00e3o podemos ser mentalmente equilibrados\u201d.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">A dimens\u00e3o religiosa, afirma M. Eliade \u00e9 anterior e fundamenta o profano. O mito, hist\u00f3ria sagrada, n\u00e3o s\u00f3 precede as filosofias e as ci\u00eancias, como tamb\u00e9m as acompanha para poder pensar com sentido nossa exist\u00eancia humana e o mundo que habitamos. \u00c9 poss\u00edvel n\u00e3o acreditar no Papai Noel andando pelos telhados e entrando pelas janelas, mas n\u00e3o sabemos responder ao por que n\u00e3o cremos nele. Nosso saber emp\u00edrico- eficiente, ao conferir os dados da evid\u00eancia, faz desaparecer o desconhecido, mas faz tamb\u00e9m aumentar o Mist\u00e9rio.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">No passado, o desconhecido era visto com temor, hoje com ang\u00fastia de vazio. Na d\u00e9cada de 1970, Horkheimer, um dos maiores pensadores do s\u00e9culo XX na Alemanha, reconhecia merecido e necess\u00e1rio lugar da teologia no campo do saber cient\u00edfico, O saber sagrado nos mostra que o \u00eaxito e o fracasso, alegrias e tristezas n\u00e3o s\u00e3o a realidade \u00faltima, conclus\u00e3o que as ci\u00eancias humanas n\u00e3o nos podem dar. A cren\u00e7a religiosa capta o rugido do ser aberto ao novo a culminar em Cristo, demasiado homem para ser s\u00f3 homem e que, ap\u00f3s dois mil anos, nos interpela e provoca hoje mais do que nunca.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">No s\u00e9culo VI a.C., Xenofanes, pretendeu se libertar dos mitos dizendo: \u201dporque se os cavalos pensassem, pintariam os deuses como cavalos&#8221;. Plat\u00e3o, mais tarde, fugindo dos mitos, acabou inventando o m\u00edtico mundo celeste das id\u00e9ias. Seu disc\u00edpulo Arist\u00f3teles, escolheu ficar na terra \u00e0 procura da \u201dsubst\u00e2ncia&#8221; de um frango que at\u00e9 hoje ningu\u00e9m encontrou no curral das coisas.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">A cultura secular que o Iluminismo e positivismo nos legaram, dessacralizou as coisas, mas estas se rebelam e nos remetem ao mist\u00e9rio perguntando-nos: Por que h\u00e1 ser e n\u00e3o nada? Para que serve nossa liberdade? Sem o mist\u00e9rio, saber sagrado, diz Gabriel Marcel, a vida torna-se irrespir\u00e1vel.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">O fen\u00f4meno religioso que os mitos e hist\u00f3rias sagradas narram n\u00e3o \u00e9 fruto de uma mentalidade primitiva e subdesenvolvida como Comte disse, nem do<br \/>\nconv\u00edvio social, segundo Durkheim, menos ainda neurose como afirma Freud ou &#8220;\u00f3pio do povo&#8221; segundo Marx, mas constitutivo do ser humano. C\u00edcero deriva o termo religi\u00e3o do<br \/>\nlatim \u201cre-elegendo\u201d (ler de novo) a vida na sua rela\u00e7\u00e3o necess\u00e1ria com Deus, e chamava negligentes (pregui\u00e7osos) os n\u00e3o religiosos.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Santo Tom\u00e1s de Aquino concebe o ser humano enquanto ordenado a Deus (Ordo hominis ad Deum).<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Desmitizar ou dessacralizar nossa cultura, diz Barth, leva-nos a jogar a crian\u00e7a com a mesma \u00e1gua com a qual a banhamos. Sem Deus, o ser humano, \u00e9 mero mam\u00edfero nem sequer evolu\u00eddo. A Hist\u00f3ria \u00e9 uma e s\u00f3 pode ser sagrada para ser humana, embora, para ser Salv\u00edfica, precisa conhecer a lei da gra\u00e7a que nos veio em Cristo.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">No regime da Lei, que nos obriga a merecermos nossa pr\u00f3pria Salva\u00e7\u00e3o, a hist\u00f3ria sagrada \u00e9 apenas relato grandioso de um passado origin\u00e1rio, distante de n\u00f3s mesmos. De fato, Deus libertou seu povo da escravid\u00e3o, mas a escravid\u00e3o continua na humanidade. Davi venceu o gigante Golias, mas os pobres deste mundo s\u00e3o dominados e vencidos pelos poderosos. Ser\u00e1 preciso entender a hist\u00f3ria sagrada na sua dimens\u00e3o de futuro, como um passado que garante a Salva\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">HIST\u00d3RIA DA SALVA\u00c7\u00c3O<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Depois do Conc\u00edlio Vaticano, a Hist\u00f3ria Sagrada que, como dizemos acima \u00e9 a \u00fanica hist\u00f3ria do mundo, \u00e9 contemplada como um acontecer dos tempos regidos pela gra\u00e7a Salvadora de Cristo, que o profeta Isa\u00edas vislumbrou: &#8220;Todos ver\u00e3o a Salva\u00e7\u00e3o de nosso Deus&#8221; (Is. 52,10). A Salva\u00e7\u00e3o segue seu curso desde os prim\u00f3rdios da Cria\u00e7\u00e3o ainda que tenha de trilhar os caminhos tortuosos do pecado. H\u00e1 um fio condutor inquebrant\u00e1vel que une todos os fatos da hist\u00f3ria e criaturas ao Reino de Deus. \u201cSomos de Deus e a Ele pertencemos\u201d (Sl 100,3).<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Lact\u00e2ncio, chamado o C\u00edcero crist\u00e3o, do s\u00e9culo III, derivou o termo Religi\u00e3o do latim \u201dre- ligando&#8221; (duplamente ligados) a Deus Criador como suas Criaturas e ao Deus Salvador como filhos Seus em Cristo.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Na hist\u00f3ria, vista apenas como sagrada, Deus nos precede e acompanha. Na sua perspectiva salv\u00edfica, transcende a pr\u00f3pria hist\u00f3ria. O passado n\u00e3o mais \u00e9 mem\u00f3ria sen\u00e3o \u201cmemorial\u201d, prolepse (antecipo) prot\u00f3tipo e causa exemplar da mesma Salva\u00e7\u00e3o esperada no futuro, presente em Cristo Ressuscitado.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Os grandes acontecimentos da hist\u00f3ria sagrada vividos pelo povo de Israel, foram pre\u00e2mbulos desse futuro glorioso. A voca\u00e7\u00e3o de Abra\u00e3o, a liberta\u00e7\u00e3o da escravid\u00e3o do Egito, as proezas do rei Davi, o retorno do Ex\u00edlio e outros fatos reais ou lend\u00e1rios, n\u00e3o por isso menos hist\u00f3ricos, fizeram da hist\u00f3ria sagrada narrada no AT uma hist\u00f3ria de crescente esperan\u00e7a. Se Deus nos tirou no passado da escravid\u00e3o do Egito, Ele nos libertar\u00e1 de toda outra escravid\u00e3o. Esta \u00e9 a l\u00f3gica da F\u00e9 e da esperan\u00e7a, incipiente no povo de Israel, \u00e0 luz do grande acontecimento da sua liberta\u00e7\u00e3o do Egito, epicentro da sua f\u00e9 e mem\u00f3ria de futuro, celebrado na P\u00e1scoa, por isso, ao termo do rito pascal se diz: \u201cHoje (ainda hoje) escravos, mas amanh\u00e3 livres&#8221;. O sonhado amanh\u00e3 do povo de Israel tornou-se presente na manh\u00e3 da Ressurrei\u00e7\u00e3o de Cristo. Desde esse radiante amanhecer, \u201cn\u00e3o somos mais escravos, sen\u00e3o filhos, herdeiros da vida eterna pela gra\u00e7a de Deus&#8221; (Gl. 4,7).<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">A Ressurrei\u00e7\u00e3o de Cristo \u00e9 o \u00fanico fato da hist\u00f3ria do mundo que une o passado e o futuro. Tudo quanto aconteceu, acontece e acontecer\u00e1, consuma-se em Cristo, memorial e vis\u00e3o (flashforward) de nosso futuro que, por estarmos na estrada do tempo ou da hist\u00f3ria, percebemos s\u00f3 pela F\u00e9, por isso, muitas vezes, vacilantes, o experimentamos de maneira insegura e incerta.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\u201cCaminhamos pela F\u00e9 e n\u00e3o pela vis\u00e3o&#8221; (2Cor. 5,7). Entretanto, da mesma maneira que as estrelas a cintilar na noite prometem e garantem radiante amanhecer, tamb\u00e9m, no nosso dia a dia, passando pelo vale escuro do pecado, da dor e morte, a Ressurrei\u00e7\u00e3o de Cristo nos comunica, como certa e segura, a Salva\u00e7\u00e3o aos que cremos, pois a hist\u00f3ria n\u00e3o \u00e9 apenas sagrada sen\u00e3o acontecer salv\u00edfico. N\u00e3o mais lemos a hist\u00f3ria pessoal ou do mundo com a nostalgia de um para\u00edso perdido, nem inseguros de ser ele nosso destino. Lembro o choque emocional que me proporcionou ao ler, na d\u00e9cada de 1970,o pequeno livro de Carlos Mesters, \u201cPara\u00edso, Saudades ou Esperan\u00e7a?&#8221; Ainda o pecado original me reportava a um passado feliz perdido, a ser recuperado por m\u00e9ritos pr\u00f3prios e pelo sofrimento e a morte de Cristo. A hist\u00f3ria ainda n\u00e3o era em mim de Salva\u00e7\u00e3o da qual tomei consci\u00eancia no ano 1975 ao inserir na minha exist\u00eancia o acontecimento da Ressurrei\u00e7\u00e3o de Cristo. Eu tinha ouvido dela, mas como fato constitutivo da minha hist\u00f3ria e da hist\u00f3ria do mundo. A partir daquele momento, alegrias e tristezas, \u00eaxitos e fracassos, vida e morte, passaram a ser momentos do meu futuro glorioso. Comecei ler o livro da vida, como faz o povo judeu na sua literatura, invertendo a ordem das p\u00e1ginas, a partir da \u00faltima p\u00e1gina da hist\u00f3ria, que \u00e9 a Ressurrei\u00e7\u00e3o de Cristo. S\u00f3 esta p\u00e1gina ilumina e d\u00e1 sentido a todos os acontecimentos de nossa vida e do mundo.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">O HOJE DE NOSSA SALVA\u00c7\u00c3O<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">A hist\u00f3ria sagrada nos remete a um passado; a hist\u00f3ria da Salva\u00e7\u00e3o e a um futuro glorioso. Por isso, S\u00e3o Paulo nos diz que somos Salvos na esperan\u00e7a. (Rm. 8)<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Psicologicamente, todo futuro, como costumamos dizer, \u00e9 \u201cobscuro&#8221; e a esperan\u00e7a muito alongada nos poderia levar ao desespero. O te\u00f3logo Oscar Cullmann percebeu esse \u201chandicap\u201d, interpretando a Salva\u00e7\u00e3o como um \u201cj\u00e1, mas ainda n\u00e3o&#8221;. De fato, em v\u00e1rias passagens b\u00edblicas, particularmente do NT, revela-se o \u201dj\u00e1 da nossa Salva\u00e7\u00e3o\u201d, &#8220;esse tempo que chamamos hoje&#8221; (Hb. 3,13).<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Na noite em que Jesus nasceu em Bel\u00e9m, os anjos anunciaram aos pastores que cuidavam dos seus rebanhos no campo: \u201dHoje nasceu-nos o Salvador&#8221; (Lc. 4,21).<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">No in\u00edcio da sua vida prof\u00e9tica, na sinagoga de Nazar\u00e9, ap\u00f3s ter lido uma passagem do profeta Isa\u00edas, Jesus disse aos ali congregados: &#8220;Hoje se cumprem as palavras de Salva\u00e7\u00e3o que acabam de ouvir&#8221; (Lc. 4 21). Estando em casa de Zaqueu, tido como pecador p\u00fablico, detestado e condenado pelo povo, Jesus lhe diz: &#8220;Hoje chegou a Salva\u00e7\u00e3o nesta casa&#8221; (Lc. 19,9). Ao malfeitor criminoso que morria crucificado ao seu lado, Jesus lhe disse: \u201cHoje estar\u00e1s comigo no Para\u00edso&#8221; (Lc. 24,43). Na teologia chamamos a esse hoje salv\u00edfico \u201ckair\u00f3s\u201d, oportunidade singular ou momento no qual acontece nossa Salva\u00e7\u00e3o, no qual a eternidade se faz presente na estrada do tempo em todos os acontecimentos.&#8221; At\u00e9 os cabelos da vossa cabe\u00e7a est\u00e3o todos contados e nem um s\u00f3 fio deles se perder\u00e1&#8221; (Lc. 21,28).<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Nada acontece por acaso ou arbitrariamente, assim como nada est\u00e1 fatalmente predeterminado, nem pela natureza das coisas, nem pela vontade de Deus, pois negaria a liberdade de Deus, da qual nos fez part\u00edcipes.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">A Hist\u00f3ria \u00e9 o acontecer no horizonte de infinitas possibilidades, objeto da vontade livre de Deus e tamb\u00e9m da nossa, como Ele nos revela na cura do Cego de Jeric\u00f3, a quem Jesus pergunta: \u201cQue queres que te fa\u00e7a?&#8221;. Ambas as vontades, de Deus e do cego, n\u00e3o estavam determinadas. A cura salv\u00edfica acontecia naquele &#8220;hoje&#8221; ou momento.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Nem tudo o que acontece \u00e9 vontade de Deus, nem vontade do homem. O pecado, \u201cmist\u00e9rio da iniquidade&#8221;, em n\u00f3s e no mundo, distorce a hist\u00f3ria da Salva\u00e7\u00e3o, mas n\u00e3o a pode destruir, porque Deus a assumiu em Cristo e seguir\u00e1 seu curso at\u00e9 ser consumada no fim dos tempos. Esta aventura salv\u00edfica do ser humano e da Cria\u00e7\u00e3o, por vezes, ca\u00f3tica e tr\u00e1gica, ter\u00e1 um final glorioso e feliz, porque \u201ca Salva\u00e7\u00e3o pertence ao Deus&#8221;.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">S\u00e3o Paulo faz esta leitura otimista da Hist\u00f3ria: \u201dtudo coopera para nossa Salva\u00e7\u00e3o&#8221; (Rm. 8,28). As l\u00e1grimas, diz o grande poeta hindu Tagore, s\u00e3o estrelas na noite de um radiante amanhecer, e a as alegrias s\u00e3o lampejos de um dia feliz. Nosso otimismo salv\u00edfico n\u00e3o repousa no passado vitorioso acontecido, nem na esperan\u00e7a de um futuro melhor. Fundamenta-se no sol sem<br \/>\nocaso do &#8220;hoje&#8221; no qual Cristo Ressuscita em cada momento da Hist\u00f3ria. Por isso Jesus nos recomendou ficar em permanente vigil\u00e2ncia. S\u00f3 dorme quem espera mais um dia. Quem vigia, espera no hoje de cada dia.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Perguntaram ao novi\u00e7o Jesu\u00edta S\u00e3o Luiz Gonzaga, seus companheiros, enquanto jogavam no p\u00e1tio: \u201cQue voc\u00ea faria se agora Cristo lhe chamasse para ir com Ele? &#8211; Continuaria jogando, pois o estou esperando hoje&#8221;.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">No s\u00e9culo XVII, \u00e0 raiz do terremoto que destruiu a cidade de Lisboa (1o. de novembro de 1755), Leibniz defendia a tese de que este mundo que habitamos \u00e9 o melhor dos mundos que Deus poderia ter Criado. Nada mais contr\u00e1rio ao plano salv\u00edfico de Deus que nos projeta a Novos C\u00e9us e Nova Terra onde o mar (pecado e morte) n\u00e3o mais existe (Ap.21,1). O melhor dos mundos est\u00e1 por vir.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">A hist\u00f3ria n\u00e3o se esgota na Hist\u00f3ria. Nenhum momento ou mem\u00f3ria pode reter o acontecer da Salva\u00e7\u00e3o. Ele \u00e9 esse &#8220;going&#8221; cont\u00ednuo, ao mesmo tempo ,futuro e presente, um &#8220;hoje&#8221; ou &#8220;kair\u00f3s&#8221;, instante favor\u00e1vel que nos faz eternos.<br \/>\nPor isso, Deus &#8220;lembra-se das suas promessas de Salva\u00e7\u00e3o, n\u00e3o de nossos pecados\u201d, daquele passado sempre carente e imperfeito que n\u00e3o podemos reverter. A Salva\u00e7\u00e3o n\u00e3o pode ser entendida como uma reconstru\u00e7\u00e3o ou reden\u00e7\u00e3o, mas como uma nova Cria\u00e7\u00e3o. \u201ceis que eu venho e fa\u00e7o tudo novo&#8221; (Ap.21, 5). A grandeza de nossa F\u00e9 crist\u00e3, frente a todos os credos religiosos, reside radicalmente em que todo dia, em cada momento, nascemos de novo, sem o carma de nossas culpas nem a frustra\u00e7\u00e3o de n\u00e3o termos realizado nosso \u00faltimo sonho. \u201cHoje, diz S\u00e3o Paulo, a Salva\u00e7\u00e3o est\u00e1 mais pr\u00f3xima do que quando come\u00e7amos\u201d (Rm. 13,11)<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">DEUS REVELOU-SE A MOIS\u00c9S NUMA SAR\u00c7A ARDENTE QUE N\u00c3O SE CONSUMIA: &#8220;EU SOU AQUELE QUE SOU. O DEUS DOS TEUS PAIS, DE ABRA\u00c3O, ISAQUE E JAC\u00d3&#8221; (Ex.3,1-15)<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Este epis\u00f3dio b\u00edblico confirma a tese de Mircea Eliade: O sagrado fundamenta o profano. A iniciativa na hist\u00f3ria da Salva\u00e7\u00e3o \u00e9 sempre de Deus. Nele vivemos, existimos e somos (At.17,20). N\u00e3o s\u00f3 nos tem Criado, como tamb\u00e9m chamado. O epis\u00f3dio da sar\u00e7a ardente de Mois\u00e9s, mito ou lenda, torna nossa exist\u00eancia e a exist\u00eancia do mundo mais real e hist\u00f3rica, como afirma o historiador judeu Abba Eban. O nome de Deus revelado neste acontecimento, \u201cJav\u00e9\u201d, Aquele que \u00e9, n\u00e3o tem um sentido est\u00e1tico, mas ativo e presencial: Eu sou Aquele que est\u00e1 e Aquele que faz ser, Criador e Salvador. Deus n\u00e3o est\u00e1 distante, \u201cno C\u00e9u&#8221;, nem \u00e9 indiferente a tudo quanto nos acontece, como o concebeu Arist\u00f3teles (s\u00e9c. IV a.C.), que foi quem O definiu como &#8220;pensamento do Seu pr\u00f3prio pensamento\u201d, a Quem podemos amar, mas Ele n\u00e3o nos pode amar, pois seria infeliz, contaminado com nossas mis\u00e9rias ou necessitado de n\u00f3s para existir.<br \/>\nDeus, dizia, s\u00f3 pode ser solit\u00e1rio. No s\u00e9culo XVI o ser humano pretendeu ser apenas racional, substituindo a f\u00e9 pela ci\u00eancia. Movimento filos\u00f3fico que atingiu maior auge a partir do s\u00e9culo XVIII , at\u00e9 culminar com a \u201cmorte de Deus&#8221; proclamada por Nietzsche. Apagando a divina \u201csar\u00e7a ardente&#8221;, n\u00f3s e o mundo que habitamos, perdemos seu fundamento e coexist\u00eancia. Marx profeticamente o reconheceu: \u201cTudo o que \u00e9 s\u00f3lido desmancha-se no ar&#8221;. O soci\u00f3logo Bauman qualifica o tempo presente de \u201cl\u00edquido&#8221;, inconsistente. Nietzsche lamentava que a morte de Deus nos mergulhou \u201cnuma noite intermin\u00e1vel&#8221;. Heidegger, na sua tese doutoral &#8220;Ser e Tempo&#8221; (1929) via no ser das coisas uma realidade atirada (dasein), suspendida no abismo do seu pr\u00f3prio nada, definindo o ser humano:\u201d ser-para-morte&#8221;. De fato, sem nossa dimens\u00e3o religiosa, pela qual contemplamos o ser e a vida de tudo quanto existe alicer\u00e7ado no Ser de Deus, tudo carece de base e de sentido.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Os emblem\u00e1ticos Exerc\u00edcios Espirituais, possivelmente a<br \/>\nespiritualidade que mais influiu nos crist\u00e3os de ocidente, iniciam sua primeira medita\u00e7\u00e3o com o t\u00edtulo \u201dPrinc\u00edpio e Fundamento&#8221;. De fato, se podemos assentar nossa vida sobre outra base fora de Deus, nenhuma espiritualidade nos serve, os latinos teriam toda raz\u00e3o em denominar a \u201cmat\u00e9ria&#8221; (mater) nossa m\u00e3e, inerte e sem vida. O fen\u00f4meno religioso n\u00e3o \u00e9 acidental, mas constituinte do ser humano. &#8220;sar\u00e7a ardente que n\u00e3o se consome&#8221; que nenhum ateu pode extinguir. O ponto de partida da nossa dimens\u00e3o religiosa ou de rela\u00e7\u00e3o com Deus \u00e9 um sentimento profundo de depend\u00eancia e desejo infinito de todo ser humano, afirma Schleiermacher. Mas essa \u201crocha&#8221; inabal\u00e1vel ou pedra angular do universo s\u00f3 nos serviria para pensar n\u00e3o para viver, se dela n\u00e3o sair \u00e0 \u00e1gua da vida, como Deus revelou a Mois\u00e9s no deserto.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Deus n\u00e3o \u00e9 um ser g\u00e9lido ou tri\u00e2ngulo perfeito sem bra\u00e7os, como o concebe a ma\u00e7onaria, mas ser atuante de amor e miseric\u00f3rdia que chama a ser ao que n\u00e3o existe e d\u00e1 vida aos mortos. Dar a conhecer o nome significa na B\u00edblia entregar sua pr\u00f3pria pessoa a quem o revela. Por isso, o verdadeiro nome de Deus \u00e9 \u201cEmanuel&#8221;, Deus conosco. O povo de Israel o invocar\u00e1 como seu aliado, unido nas suas lutas. Cristo ir\u00e1 mais longe, nos unido em ser e vida ao proprio Deus.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">H\u00e1 um detalhe eloquente ao revelar, Deus, seu nome a Mois\u00e9s, na sar\u00e7a ardente. O texto alude a dois nomes divinos: &#8220;Eu sou aquele que sou&#8221; (Jav\u00e9) e &#8220;o Deus de vossos pais&#8221;. O Sarah ou Todo-Poderoso e o Eterno Jav\u00e9 misericordioso. O primeiro nome \u00e9 patrim\u00f4nio de todas as religi\u00f5es e nos relaciona com Deus com sentimento de temor. Sua grandeza nos faz indignos de lhe receber em nossa casa, como confessou o Centuri\u00e3o a Jesus (Mt. 8,8) e que n\u00e3o muito evangelicamente tamb\u00e9m n\u00f3s, cat\u00f3licos, confessamos, antes do rito da comunh\u00e3o. O segundo foi revelado em Cristo e nos faz sentir filhos de Deus no amor, livres de todo temor. Finalizando o coment\u00e1rio da &#8220;sar\u00e7a ardente&#8221;, manifesta\u00e7\u00e3o do sagrado em nossa vida profana, tamb\u00e9m n\u00f3s podemos contempl\u00e1-la no sol. Ele tamb\u00e9m arde h\u00e1 mais de cinco bilh\u00f5es de anos. Muitas culturas at\u00e9 o divinizaram, Mois\u00e9s tirou suas sand\u00e1lias para se aproximar da sar\u00e7a ardente em sinal de estar pisando em terra santa ou divina. Hoje o sol \u00e9 uma simples fornalha de h\u00e9lio que, apesar de ser fonte de vida, nele n\u00e3o ouvimos falar a Deus.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">S\u00e3o Francisco de Assis reconheceu no sol a sar\u00e7a ardente de Mois\u00e9s, o chamou irm\u00e3o, e cantou nele a gl\u00f3ria de Deus, lamentando t\u00ea-lo tido presente tanto tempo sem perceb\u00ea-lo.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Os C\u00e9u e a Terra Proclamam a Vossa Gl\u00f3ria<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Deus manifesta-se e nos fala de muitas maneiras. Todas as Criaturas revelam-nos sua presen\u00e7a. At\u00e9 confessamos isso quando dizemos: Deus est\u00e1 em todo lugar. \u201cMois\u00e9s reparou que a sar\u00e7a ardia sem se consumir e disse: Vou olhar mais de perto&#8221;. Vamos olhar mais de perto a flor que desabrocha, a semente que germina, o sol que acorda todos os dias, pois &#8220;Os c\u00e9us e a terra narram as maravilhas de Deus&#8221;.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">&#8220;N\u00c3O QUERO QUE IGNOREIS OS FATOS DO PASSADO A NOS SERVIR DE EXEMPLO\u201d (1Cor. 10,1-12)<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Os fatos do passado, reais ou lend\u00e1rios, cumprem uma dupla fun\u00e7\u00e3o. O papel da Hist\u00f3ria, \u201cmestra da vida&#8221;, como a definia C\u00edcero, e tamb\u00e9m promessa de futuro. Ortega y Gasset representava os fatos da Hist\u00f3ria como t\u00e1buas de um naufr\u00e1gio a flutuar no mar que nos mostram os perigos em nossa travessia pelo mar da vida. S\u00e3o Paulo adere em certa maneira a tal interpreta\u00e7\u00e3o da Hist\u00f3ria, remetendo-nos \u00e0 \u00e1rdua travessia do povo de Israel pelo deserto que, apesar de terem presenciado os sinais milagrosos de Deus, murmuraram e n\u00e3o confiaram Nele. R. Guardini faz uma leitura realista da Hist\u00f3ria e da nossa vida pessoal. Nossa exist\u00eancia, diz, n\u00e3o \u00e9 auto-inteligente nem segura. Ela \u00e9 prec\u00e1ria e desordenada, e considera o mito do pecado original a melhor explica\u00e7\u00e3o para a nossa realidade. A ci\u00eancia pretende superar este mito e acaba ficando cega ou, como afirma Wittgenstein, sem tocar a vida sequer com um dedo. Al\u00e9m de n\u00e3o ignorar os fatos, t\u00e1buas de um naufr\u00e1gio, ser\u00e1 preciso n\u00e3o esquecer a precariedade do pr\u00f3prio navio no qual viajamos, o pecado no qual temos nascido. A outra fun\u00e7\u00e3o da Hist\u00f3ria, no seu sentido positivo, \u00e9 contemplar os fatos salv\u00edficos de Deus, que sempre estar\u00e3o presentes no meio de todas as tempestades, como causa exemplar de uma realidade mais sublime,<br \/>\n\u201cprot\u00f3tipo&#8221; ou memorial de futuro.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">As desgra\u00e7as e males deste mundo nos revelam nossa prioridade e limite de sentido, e nos disp\u00f5em a esperar de Deus nossa Salva\u00e7\u00e3o. Os<br \/>\n\u00eaxitos e conquistas fortalecem essa nossa esperan\u00e7a. Se Deus nos cura de uma doen\u00e7a, nos curar\u00e1 de todas. Se nos chamou do nada para existir, nos chamar\u00e1 da morte para viver. Sem Deus as desgra\u00e7as tornam-se tr\u00e1gicas e tudo de bom, man\u00e1 ef\u00eamero.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Alegrias e tristezas s\u00e3o os fios que tecem nossa exist\u00eancia, porque Deus nos destinou para uma vida eterna e feliz.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Se n\u00e3o tiv\u00e9ssemos tristezas, as alegrias poderiam nos alienar, e se n\u00e3o tiv\u00e9ssemos alegrias poder\u00edamos desesperar.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">S\u00f3 existe um pecado, disse Hegel, na sua interpreta\u00e7\u00e3o da Hist\u00f3ria como um devir, at\u00e9 atingir o Absoluto: \u201cparar no finito&#8221;.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Santo Agostinho experimentou a vida como inquietude, almejando descansar em Deus.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">JESUS INTERPRETOU DOIS FATOS TR\u00c1GICOS ACONTECIDOS EM JERUSAL\u00c9M: A MORTE DE ALGUNS GALILEUS REBELDES CONTRA O DOM\u00cdNIO ROMANO, ORDENADA POR PILATOS A SER EXECUTADA NO ALTAR SAGRADO DO TEMPLO, E A MORTE DE 18 PESSOAS ESMAGADAS PELA QUEDA DA TORRE DE SILO\u00c9, DIZENDO:<br \/>\n&#8220;ACREDITAIS QUE POR TEREM SOFRIDO ESSA SORTE ERAM MAIS PECADORES DO QUE TODOS OS HABITANTES DE JERUSAL\u00c9M? N\u00c3O, EU VOS DIGO, MAS SE N\u00c3O VOS CONVERTERDES, PERECEREIS DO MESMO MODO. \u201d (Lc. 13,1-9)<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Nas trag\u00e9dias naturais n\u00e3o encontramos culpados, embora n\u00f3s possamos culpar a n\u00f3s mesmos e pensarmos ser um castigo de Deus ou uma prova para nossa F\u00e9.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Essa leitura hist\u00f3rica dos fatos, ao menos depois de Cristo, carece de sentido. Deus n\u00e3o causa o mal e nem sequer, como costumamos dizer, o permite.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">O mal c\u00f3smico remete-nos \u00e0 natureza da pr\u00f3pria Cria\u00e7\u00e3o que, para existir \u201cseparada&#8221; de Deus no tempo e no espa\u00e7o, estar\u00e1 sujeita ao mal at\u00e9 retornar a Deus. Mas tamb\u00e9m o mal, fruto da nossa perversidade: guerras, viol\u00eancia, injusti\u00e7as e todo tipo de mal infligido livremente pelo ser humano, tem de ser interpretado dentro do mist\u00e9rio da iniquidade.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">O pecado \u00e9 mais forte do que n\u00f3s. N\u00e3o por isso, nos exime de lutar contra ele, mas, como a morte, s\u00f3 Deus pode o vencer em n\u00f3s. A Vit\u00f3ria j\u00e1 \u00e9 antecipada em Cristo Ressuscitado, mas precisamos esperar at\u00e9 o fim de nossa vida pessoal e da hist\u00f3ria deste mundo, como Jesus nos revela na par\u00e1bola do Joio e trigo.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Consola-nos saber que o mal, o pecado e a morte, n\u00e3o t\u00eam futuro. O bem ser\u00e1 pleno. Esta esperan\u00e7a feliz que temos em Cristo, diz S\u00e3o Pedro, numa das suas cartas, nos purifica de nossos pecados e nos liberta da morte.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Porque existe o mal, afirma S\u00e3o Tom\u00e1s de Aquino, \u00e9 que existe Deus, para dele nos Salvar.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">A nossa Precariedade e a Salva\u00e7\u00e3o<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Jesus interpreta os males acontecidos em Jerusal\u00e9m: um cometido pela perversidade de Pilatos, o outro ocasionado por uma trag\u00e9dia natural, para nos revelar nossa precariedade e necessidade de esperar nossa Salva\u00e7\u00e3o de Deus. Nisto consiste o que chamamos convers\u00e3o.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">A Convers\u00e3o<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">N\u00e3o se trata de retificar uma conduta moral, que nunca podemos realizar, pois, na nossa condi\u00e7\u00e3o humana, o pecado \u00e9 nosso existencial ou maneira de ser, mas reconhecer que s\u00f3 em Cristo temos a vit\u00f3ria sobre o mal.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">A F\u00e9 n\u00e3o nos livra dos problemas nem de nossas defici\u00eancias, Ela lhes d\u00e1 sentido. Faz-nos passar pelo \u00e1rido deserto deste mundo \u00e0 terra florida do pa\u00eds dos vivos. O sentido \u00faltimo de n\u00f3s e do mundo se nos revela sempre de novo, ao mesmo tempo em que permanece oculto. O \u00faltimo sentido \u00e9 o limite do sentido, que nos faz transcender em Deus.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">O Mist\u00e9rio da Iniq\u00fcidade e a Douta Esperan\u00e7a<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">A raz\u00e3o postula a F\u00e9 para n\u00e3o se tornar irracional e insensata. Guerras, trag\u00e9dias, dor, doen\u00e7as, morte, injusti\u00e7as e todo tipo de mal, que chamamos de&#8221;mist\u00e9rio da iniq\u00fcidade\u201d, s\u00f3 encontram sentido na &#8220;douta esperan\u00e7a&#8221; da Salva\u00e7\u00e3o que temos em Cristo. A \u00fanica l\u00f3gica que encontramos no sofrimento, nosso verdadeiro problema existencial, pois, para a morte at\u00e9 podemos encontrar sentido na pr\u00f3pria natureza, mas n\u00e3o encontramos raz\u00e3o para explicar e entender por que sofremos. Na filosofia chamamos isto de &#8220;problema limite&#8221; que a raz\u00e3o n\u00e3o pode superar.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">As religi\u00f5es apelam \u00e0 justi\u00e7a de Deus, que castiga os maus e premia os bons, negando o verdadeiro Deus, revelado em Cristo: bom para com todos e Salvador do mundo. O sofrimento, ao qual o mesmo Deus assumiu, Jesus nos disse ser caminho &#8220;necess\u00e1rio&#8221; da nossa glorifica\u00e7\u00e3o. Pela cruz, \u00e0 Luz, tem sido o grande slogan do cristianismo . Ele \u00e9 loucura para a raz\u00e3o, esc\u00e2ndalo para toda cren\u00e7a apenas religiosa, mas sabedoria de Deus, nos diz S\u00e3o Paulo. Lutar e tentar evit\u00e1-lo faz parte do mesmo sofrimento que, \u00e0 maneira de parto doloroso, nos far\u00e1 passar \u00e0 vida eterna e feliz em Deus.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">No sofrimento, dizia Albert Camus, s\u00f3 cabe o desespero. Para n\u00f3s, que cremos em Cristo, s\u00f3 cabe a esperan\u00e7a da Salva\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Pereceremos como as v\u00edtimas de Jerusal\u00e9m acima citadas, sem essa feliz esperan\u00e7a, n\u00e3o porque os descrentes e ateus se condenem, porque todos seremos salvos, nos revelou Jesus: &#8220;Vim para que todos tenham vida&#8221; (Jo.10,10) &#8211; O que nos \u00e9 revelado, ao comentar, Jesus este epis\u00f3dio, \u00e9 ser Ele Quem de fato nos Salvar\u00e1. S\u00f3 Nele o mal \u00e9 transformado em bem e a morte em vida.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Padre Jesus Priante Espanha.<br \/>\nEdi\u00e7\u00e3o e intert\u00edtulos por Malcolm Forest. S\u00e3o Paulo.<br \/>\nCopyright 2022 Padre Jesus Priante.<br \/>\nDireitos Reservados.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Lutero dizia que seu \u00fanico e maior problema era se podia ou n\u00e3o ser salvo. Entrou num convento agostiniano para resolver seu problema existencial e saiu frustrado, deixando nas m\u00e3os de Deus o seu tr\u00e1gico dilema, humanamente imposs\u00edvel de resolver. De fato, a \u201cSalva\u00e7\u00e3o pertence a Deus&#8221;. 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