{"id":72837,"date":"2022-03-06T09:15:16","date_gmt":"2022-03-06T12:15:16","guid":{"rendered":"https:\/\/catolicanet.net\/wp-cnet\/?p=72837"},"modified":"2022-03-06T11:41:05","modified_gmt":"2022-03-06T14:41:05","slug":"as-tentacoes-do-deserto-cartas-do-padre-jesus-priante","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/catolicanet.net\/wp-cnet\/as-tentacoes-do-deserto-cartas-do-padre-jesus-priante\/","title":{"rendered":"As Tenta\u00e7\u00f5es Do Deserto &#8211; Cartas do Padre Jesus Priante"},"content":{"rendered":"<p style=\"text-align: justify;\">QUARESMA: CONSCI\u00caNCIA PASCAL DA EXIST\u00caNCIA.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">O termo grego &#8220;quaresma&#8221;, quarenta dias, faz alus\u00e3o a longos tempos em diferentes epis\u00f3dios b\u00edblicos: 40 dias do Dil\u00favio, 40 anos do povo de Israel no deserto, 40 dias e noites de Mois\u00e9s na montanha a espera de receber de Deus as T\u00e1buas da Lei, 40 dias de penit\u00eancia do povo de N\u00ednive, 40 dias passados por Jesus no monte das tenta\u00e7\u00f5es e outros momentos da hist\u00f3ria da Salva\u00e7\u00e3o. Todos eles relacionados com uma situa\u00e7\u00e3o existencial de sofrimento, de pecado e morte, convidando o povo \u00e0 penit\u00eancia e \u00e0 convers\u00e3o.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Esta mentalidade b\u00edblica, preside a maneira de entender em n\u00f3s, cat\u00f3licos, os 40 dias da quaresma, que impr\u00f3priamente foram incorporados no nosso calend\u00e1rio lit\u00fargico no s\u00e9culo VI, empobrecendo a grandeza da P\u00e1scoa.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Usando o t\u00edtulo da grande obra de Proust: &#8220;Em Busca do Tempo Perdido&#8221;, tamb\u00e9m n\u00f3s temos de recuperar o tempo perdido do<br \/>\nmist\u00e9rio pascal, o grande sacramento de nossa Salva\u00e7\u00e3o e chave \u00fanica que Deus nos deu para ler o sentido de nossa exist\u00eancia e da hist\u00f3ria deste mundo que habitamos.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Durante os cinco primeiros s\u00e9culos, nossa Salva\u00e7\u00e3o pascal era celebrada, com o mesmo realismo que aconteceu pela primeira vez em Jerusal\u00e9m na morte e na Ressurrei\u00e7\u00e3o de Cristo.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Celebrava-se anualmente de maneira solene e todo domingo na Eucaristia. Mais tarde, por raz\u00f5es menos pascais, passou a ser celebrada nos dias de semana, como fazemos hoje. A incorpora\u00e7\u00e3o da mem\u00f3ria dos m\u00e1rtires e santos e certos acontecimentos salv\u00edficos, assim como a diversifica\u00e7\u00e3o dos tempos lit\u00fargicos escureceu o esplendor da P\u00e1scoa, o mist\u00e9rio da nossa Salva\u00e7\u00e3o, conforme o expressamos na Eucaristia: &#8220;Anunciamos, Senhor, a vossa morte e proclamamos a vossa Ressurrei\u00e7\u00e3o, enquanto esperamos vossa vinda&#8221;. Este \u00e9 o Mist\u00e9rio da nossa F\u00e9. \u00c9 claro que para exprimir sua plenitude era preciso acreditar que aquele que morre e Ressuscita na P\u00e1scoa para nos salvar \u00e9 o pr\u00f3prio Deus feito homem. Da\u00ed que, com certa retic\u00eancia, pois o povo crist\u00e3o dos primeiros s\u00e9culos n\u00e3o renunciava \u00e0 sua F\u00e9 Pascal, foi incorporado o Mist\u00e9rio da Encarna\u00e7\u00e3o, o Natal, a partir do s\u00e9culo IV . Ainda assim, relacionado com a P\u00e1scoa. Por isso at\u00e9 nossos dias, na Espanha, o Natal \u00e9 chamado de &#8221; P\u00e1scoa do Natal\u201d.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">A Quaresma, mais do que tempo penitencial ou prepara\u00e7\u00e3o para a P\u00e1scoa,como costumamos dizer, tem de ser um tempo para tomarmos consci\u00eancia da nossa exist\u00eancia pascal, presente na mesma cria\u00e7\u00e3o, como passo do nada ao ser, das trevas, \u00e1 luz (Gn.1, 1) Deus poderia ter criado as estrelas e planetas fixos no firmamento, sem a sucess\u00e3o dos dias e das noites, assim como os entes vivos sem sua necessidade de repouso e sono. Criou o universo em movimento porque era destinado a ser eterno e glorioso. De fato, s\u00f3 Deus \u00e9 (Jav\u00e9 = aquele que \u00e9)<br \/>\npuro ser em si mesmo, sem necessidade de existir ou sair de si (ex-sistere = sa\u00edda, \u00eaxodo). As criaturas nao sao,existem a caminho do ser e da vida em Deus. A Cria\u00e7\u00e3o \u00e9, pois, uma P\u00e1scoa a ser celebrada em plenitude na morte e Ressurrei\u00e7\u00e3o de Cristo. At\u00e9 Ele, n\u00f3s e o universo viviamos, desde o \u201cBig Bang\u201d, em permanente quaresma. Na manh\u00e3 do glorioso domingo em que Cristo Ressuscitou dentre os mortos, n\u00f3s e toda a cria\u00e7\u00e3o, emprendemos, como nos diz S\u00e3o Paulo, viagem em \u201ccortejo triunfal&#8221;, atr\u00e1s de Cristo, para o Reino de Deus. Os que viemos por \u00faltimo a este planeta, conforme se nos revela Gn.1, n\u00e3o desmentido pela ci\u00eancia, seguindo a l\u00f3gica de Deus, &#8220;os ultimos ser\u00e3o os primeiros\u201d, somos os primeiros a participarmos do triunfo de Cristo ressuscitado.<br \/>\nAntes de n\u00f3s, muitos milh\u00f5es de anos antes, nos precederam as plantas e os animais. Nossos parentes mais pr\u00f3ximos, os s\u00edmios, tinham j\u00e1 200 milh\u00f5es de anos antes de nascer o ser humano. Na nova cria\u00e7\u00e3o inaugurada por Cristo, somos n\u00f3s, no devir das gera\u00e7oes, seus primeiros habitantes. Finalmente, no fim dos tempos, todas as criaturas que povoam o universo celebrar\u00e3o tamb\u00e9m sua P\u00e1scoa, para serem plenamente<br \/>\nem Deus.(Ap.21) E haver\u00e1 Novos C\u00e9us e Nova Terra e o mar das l\u00e1grimas n\u00e3o mais existir\u00e1.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Tamb\u00e9m a P\u00e1scoa judaica que celebra a sa\u00edda da escravid\u00e3o do Egito tem seu verdadeiro sentido na P\u00e1scoa de Cristo. Nenhum progresso ou liberta\u00e7\u00e3o humana nos basta se n\u00e3o passarmos do pecado e morte \u00e0 vida eterna. Esta passagem ou<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">P\u00e1scoa acontece para n\u00f3s e para toda a cria\u00e7\u00e3o na morte e Ressurrei\u00e7\u00e3o de Cristo, presente at\u00e9 o fim dos tempos. Se tiv\u00e9ssemos essa consci\u00eancia Pascal, a dor, o pecado e a morte n\u00e3o escureceriam o horizonte de nosso caminho e as alegrias terrenas n\u00e3o deteriam a marcha triunfal de nossos passos. O passo da morte \u00e0 vida em Cristo, \u00e9 tudo quanto precisamos saber e esperar para os que temos nascido neste vale do pecado, da morte e das l\u00e1grimas. Se a morte, que nos persegue a cada dia, fosse a \u00faltima palavra, nossa luta pela vida seria uma paix\u00e3o in\u00fatil, nossas cren\u00e7as relgiosoas e todo o saber humano seriam irrelevantes. Os caminhos sobre os quais escrevemos nossas aventuras e desventuras encontram dire\u00e7\u00e3o e sentido s\u00f3 em Cristo Ressuscitado. Por isso, com toda verdade, Ele nos disse: &#8220;Eu sou o caminho, a verdade e a vida.&#8221;<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">QUARESMA: CONSCI\u00caNCIA DE CONVERS\u00c3O<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Convers\u00e3o \u00e9 uma das palavras mais frequentes nos textos b\u00edblicos e na nossa espiritualidade. Na Quaresma a usamos como atributo da mesma. Mas qual \u00e9 o verdadeiro sentido do termo Convers\u00e3o? Seu sentido latino nos veio do termo grego &#8220;metanoia&#8221;, que significa mudan\u00e7a de mentalidade ou de pensamento (meta = detr\u00e1s, al\u00e9m ou mudan\u00e7a, e noia, de nous, = mente) A convers\u00e3o ou metan\u00f3ia \u00e9 um giro radical sobre nossa maneira de pensar, ser e agir ap\u00f3s termos descoberto que a vida nos vem de Deus. Se Ele n\u00e3o infundir seu sopro vital em n\u00f3s, seremos um punhado de p\u00f3 ou mol\u00e9culas inertes. A convers\u00e3o, mais do que uma mudan\u00e7a moral, \u00e9 uma mudan\u00e7a existencial. A quaresma, dentro do seu sentido pascal, convida-nos a pensar nossa exist\u00eancia de uma outra maneira. Antes de Cristo eramos, como Abra\u00e3o confessou, &#8220;cinza e p\u00f3&#8221; (Gn.18,27). Por isso inauguramos o tempo quaresmal com o rito das cinzas, para tomarmos consci\u00eancia de n\u00f3s mesmos. Infelizmente, a maneira de celebra-lo n\u00e3o nos impacta. Fizemos dele algo sagrado e at\u00e9 supersticioso, ao inv\u00e9s de ser espelho da nossa pr\u00f3pria exist\u00eancia. O fato de receber a cinza no alto da cabe\u00e7a, que n\u00e3o nos permite ve-la com nossos olhos, oculta seu verdadeiro sentido. Tamb\u00e9m, depois do Conc\u00edlio Vaticano II, costumanos usar a f\u00f3rmula lit\u00fargica: &#8220;Convertei-vos e crede no Evangelho&#8221;, no lugar de: &#8220;Lembra-te que \u00e9s p\u00f3 e ao p\u00f3 has de voltar&#8221;. Inclusive, usar cinza, mais por higiene, e nao simples p\u00f3 do barro, empobrece esse s\u00edmbolo. Com a &#8220;crema&#8221; da crema\u00e7\u00e3o dos defuntos tambem maquiamos nossa realidade existencial. O rito das cinzas seria muito mais significativo e proveitoso para tomarmos consci\u00eancia da nossa convers\u00e3o se, colocando um pequeno punhado delas ou de p\u00f3 nas m\u00e3os, como faz\u00edamos no meu tempo como p\u00e1roco na Igreja de Santa Rosa de Lima, na cidade de S\u00e3o Paulo, as contempl\u00e1ssemos, por alguns momentos, suplicando a Deus: &#8220;Senhor, d\u00e1-me a vida&#8221;.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Ernest Becker em &#8220;The Denial of Death&#8221; diz: &#8220;Negar a realidade da nossa pr\u00f3pria morte \u00e9 passar a vida com pequenos paliativos, ignorando a trag\u00e9dia de n\u00f3s mesmos&#8221;. Trabalhando como capel\u00e3o durante quatro anos no Cemit\u00e9rio da Almudena, o maior de toda Europa, em Madrid, certo dia deparei no epit\u00e1fio de uma t\u00famulo: &#8220;Eu vivo, os outros est\u00e3o mortos&#8221;. Com essa ironia rom\u00e2ntica, tentamos viver todos, fazendo de conta que s\u00e3o os outros a morrer, como certo pregador dizia ao seus ouvintes: &#8220;Todos voc\u00eas morrer\u00e3o, e eu provavelmente&#8221;. Essa \u00e9 nossa maior aliena\u00e7\u00e3o, reconhecia Roger Garaudy ap\u00f3s ter curtido fanaticamente a ilus\u00e3o comunista de um para\u00edso terrestre. Perguntava aos crist\u00e3os: &#8220;Pour vous qui est Jesus Chist? &#8220;Ele mesmo respodia: &#8220;Em Cristo morrem todos os deuses e nasce o verdadeiro homem&#8221;. Convers\u00e3o significa tomarmos consci\u00eancia de estarmos confinados em quatro muros intransponiveis: dor, culpa, derrota na luta pela vida e a morte. Resta-nos, diz Jaspers, olhar para o alto, seguindo as palavras do Sl.121: &#8220;Levanto meus olhos para os montes, de onde me vir\u00e1 o auxilio. O auxilio me vem do Senhor, que fez o c\u00e9u e a terra&#8221;. A dimens\u00e3o moral da convers\u00e3o consiste em fazer da Lei do dever um exerc\u00edcio constante de F\u00e9, fixando, no itiner\u00e1rio da nossa exist\u00eancia, nossos olhos em Jesus Cristo, de quem esperamos a Salva\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Convers\u00e3o \u00e9 permanente renascer, sentir palpitar cheio de vida o p\u00f3 da nossa exist\u00eancia. Para quem n\u00e3o puder participar do rito das cinzas da quarta-feira, sem necesidade de buscar cinzas na Par\u00f3quia, pode celebrar este rito quaresmal contemplando um punhado de p\u00f3, cinza ou terra, nas suas m\u00e3os, suplicando profundamente: &#8220;Senhor, da-me a Vida.&#8221;<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">QUARESMA: CONSCI\u00caNCIA EVANG\u00c9LICA<\/p>\n<p>Infelizmente, mais do que evangelizados, fomos adoutrinados e fizemos do Evangelho um c\u00f3digo de preceitos morais a condicionarem nossa Salva\u00e7\u00e3o. Salvam-se os justos, os pecadores ser\u00e3o condenados. Dificilmente, como temos dito outras vezes, a respeito da &#8220;\u00c9tica da F\u00e9\u201d, somos capazes de passarmos do regime da Lei de Mois\u00e9s, que n\u00e3o podemos cumprir, ao Regime da Gra\u00e7a que Cristo nos d\u00e1, sem m\u00e9rito nosso.<br \/>\nNeste sentido, a f\u00f3rmula quaresmal no rito das cinzas: &#8220;Convertei-vos e crede no Evangelho&#8221;, tem espl\u00eandido sentido, tamb\u00e9m pascal. Certa vez uma pessoa em S\u00e3o Paulo dizia-me paradoxalmente: &#8220;Quanto mais peco, mais perto de Deus me sinto&#8221;. N\u00e3o pelo fato de pecar, mas pelo fato de tomar consci\u00eancia, como S\u00e3o Jer\u00f4nimo diz, de n\u00e3o poder n\u00e3o pecar. Da mesma maneira como nos definimos mortais, tamb\u00e9m somos existencialmente pecadores. &#8220;S\u00f3 Deus \u00e9 Santo&#8221;.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">S\u00e3o Paulo diz que foi o pr\u00f3prio Deus quem nos \u201cencerrou a todos no pecado&#8221; para dar-nos o \u201cplus\u201ddo amor, Sua Miseric\u00f3rdia. Vale a pena ler a maravilhosa Exorta\u00e7\u00e3o Apost\u00f3lica do Papa Francisco publicada no ano 2013, com o t\u00edtulo &#8220;Alegria do Evangelho&#8221;. Nada mais feliz do que saber que em Cristo, ao qual estamos unidos somaticamente, como a cabe\u00e7a ao corpo, temos por segura e certa nossa gloriosa Salva\u00e7\u00e3o. Ter\u00edamos de praticar de maneira mais consciente e significativa o rito do &#8220;sinal da cruz&#8221;, dizendo toda vez que o fazemos: &#8220;Com Cristo passarei do pecado e da morte \u00e0 vida eterna&#8221;. Uma maneira espl\u00eandida de celebrar em todo momento nossa P\u00e1scoa. Crer na boa not\u00edcia da nossa Salva\u00e7\u00e3o tamb\u00e9m nos faz melhores pessoas. Quem tem garantida e segura a sua vida n\u00e3o precisa guarda-la ou defende-la no cofre do seu egoismo. Cristo \u00e9 quem nos a garante: &#8220;Eu vim para que todos tenham vida.&#8221; (Jo.10,10) &#8220;A vontade de Deus \u00e9 que ninguem se perca&#8221; (Jo.6,40). Se dependesse de n\u00f3s, ningu\u00e9m se salvaria e a esperan\u00e7a de viver ficaria vazia.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Feuerbach, pai do ate\u00edsmo moderno, pretendendo negar o esplendor do Evangelho, reafirmava: &#8220;No Evangelho\u201d, dizia, \u201cquanto mais pobre somos, mais rico \u00e9 Deus. Por isso, s\u00f3 no ser humano podemos ter um Deus rico. Vivamos sem Deus e seremos ricos&#8221;. Muitas vezes n\u00f3s todos pensamos assim, de maneira anti-evang\u00e9lica: \u201c\u00c9 Deus quem nos tira as alegrias, as coisas e a vida. Resta-nos conquista-la por n\u00f3s mesmos. \u2018Salve-se quem puder\u2019. A cruz n\u00e3o \u00e9 caminho de vida sen\u00e3o tres paus de tortura e de desespero.\u201d Sem um \u2018esp\u00edrito de pobres\u2019, o Reino dos C\u00e9us carece de valor. Por isso, Jesus promete seu Reino aos pobres de esp\u00edrito, aos que esperam a vida s\u00f3 de Deus. No fim da nossa viagem terrena, todos , sem exce\u00e7\u00e3o, chegaremos ao C\u00e9u com as m\u00e3os vazias para assim Deus ser tudo em n\u00f3s.&#8221;Somos capacidade de Deus&#8221; diz Santo Agostinho, quanto mais vazio estiver o recipiente de nossa exist\u00eancia maior capacidade tem para Deus. Tudo de melhor temos a esperar em Cristo. Este futuro glorioso \u00e9 que temos de anunciar ao mundo, com nossas palavras e maneira de viver, certos de termos a vida eterna em Cristo. Nosso verdadeiro &#8220;metaverso&#8221; \u00e9 o Reino dos C\u00e9us.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">&#8220;MEU PAI ERA UM ARAMEU ERRANTE. DESCENDO AO EGITO TORNOU-SE UMA GRANDE NA\u00c7\u00c3O E ALI FOI ESCRAVIZADA. CLAMAMOS AO SENHOR E ELE NOS LIBERTOU E CONDUZIU A ESTA TERRA ONDE CORRE LEITE E MEL&#8221; (Dt. 26,4-10)<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Estas palavras do livro do Deuteron\u00f4mio s\u00e3o o Credo primordial do povo de Israel. Sobre essa confiss\u00e3o legada de gera\u00e7ao em gera\u00e7\u00e3o fundamenta-se sua rela\u00e7\u00e3o com Deus e interpreta\u00e7\u00e3o do sentido da sua hist\u00f3ria. O Deus que nos libertou da escravid\u00e3o do Egito nos libertar\u00e1 de toda escravid\u00e3o. Essa \u00e9 a esperan\u00e7a do povo de Israel at\u00e9 o presente. &#8220;Hoje escravos, amanh\u00e3 livres&#8221;. Com esta palavras encerram a celebra\u00e7ao da sua P\u00e1scoa. No entanto, Jesus disse, Abra\u00e3o com seu povo desejou ver o meu dia (Jo. 8). De fato, s\u00f3 Ele \u00e9 quem nos salva da maior escravid\u00e3o: o pecado, a dor e a morte, e nos faz habitar na verdadeira Terra que emana leite e mel, s\u00edmbolos da vida feliz. A hist\u00f3ria do homem e de toda a cria\u00e7\u00e3o \u00e9 uma hist\u00f3ria de liberta\u00e7\u00e3o ou de Salva\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">O que nos parece natural est\u00e1 ordenado ao sobrenatural. Santo Tom\u00e1s de Aquino, referindo-se ao ser humano, disse ter sido ordenado para Deus (ordo hominis ad Deum) mas \u00e9 extensivo a toda a cria\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">A criatura busca e encontra seu ser e vida em seu Criador.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">S\u00f3 fazendo-nos viol\u00eancia interna e externamente podemos entender nossa exist\u00eancia e a exist\u00eancia do mundo sem Deus.&#8221;Para onde irei longe do Teu Espirito? Para onde posso ir longe da Tua presen\u00e7a? &#8221; (Sl. 139)<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Em todos os caminhos percorridos ou a percorrer sempre encontraremos Deus a nos perguntar: &#8220;Viandante, para onde vai?&#8221; Durante tres milh\u00f5es de anos, tempo que a antroplogia calcula a presen\u00e7a do ser humano neste planeta, fomos, como Abra\u00e3o, errantes. Nossa cultura primordial \u00e9 o nomadismo. S\u00f3 faz escasos 10.000 anos que nos tornamos sedent\u00e1rios, mas, em nossas p\u00e1trias e territ\u00f3rios, continuamos a ser n\u00f4mades, errantes e peregrinos. Somos estrangeiros morando en tendas, diz S\u00e3o Paulo, nossa cidade e nossa morada est\u00e1 no Ceu. Na carta aos Corintios, refuta a mentalidade judaica ainda remanescente em alguns crist\u00e3os de pensarem num Reino terrestre. Apenas uma longa e pr\u00f3spera vida, como pr\u00eamio de nossas boas obras, pensavam, era tudo o que podemos esperar de Deus. S\u00e3o Paulo lhes diz: \u201cSe for para este mundo que temos projetada nossa esperan\u00e7a, somos de todas as criaturas a mais dignas de pena.&#8221; (Marx, como judeu, foi fiel \u00e0 cren\u00e7a do seu povo. Sonhou um para\u00edso terrestre, embora n\u00e3o como ben\u00e7\u00e3o de Deus, sen\u00e3o como fruto da luta de classes e o progresso humano. S\u00f3 no fim do s\u00e9culo II a.C. o povo judeu abre-se \u00e0 cren\u00e7a de uma vida eterna ou numa possivel Ressurrei\u00e7\u00e3o &#8220;no \u00faltimo dia&#8221;, mas apenas como postulado da raz\u00e3o e de maneira obscura. Era imposs\u00edvel que os m\u00e1rtires macabeus pudessem ser mais fieis na sua f\u00e9 do que o pr\u00f3prio Deus. Entretanto, carecendo do fato hist\u00f3rico da Ressurrei\u00e7\u00e3o, inaugurada por Cristo, a esperavam para no &#8220;\u00faltimo dia&#8221;, fim da hist\u00f3ria, reservada aos fieis no cumprimento da Lei, deixa a esperan\u00e7a da poss\u00edvel Ressurrei\u00e7\u00e3o t\u00e3o insegura como incerta, pois ningu\u00e9m pode merece-la, como constatou S\u00e3o Paulo em si mesmo.Assim sendo, sem a Ressurrei\u00e7\u00e3o de Cristo, que tamb\u00e9m \u00e9 nossa, todos continuariamos eternamente errantes, sem rumo nem meta. Conclus\u00e3o \u00e0 qual tamb\u00e9m chegou Kant na sua Raz\u00e3o Pr\u00e1tica, confessando que teve de deixar a raz\u00e3o para dar lugar \u00e0 f\u00e9, pois cumprir o dever moral \u00e9 proeza imposs\u00edvel.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Nunca ser\u00e1 demais insistir que nosso \u00fanico futuro \u00e9 Cristo. Errantes seriam as estrelas, n\u00f3s e todas as criaturas se Cristo n\u00e3o nos tivesse aberto a porta do ser e da vida com sua Ressurrei\u00e7\u00e3o. A grande conclus\u00e3o do ser humano foi-nos brindada, inspirado pelo Esp\u00edrito Santo, pela boca do rude pescador de Galileia, Pedro: &#8220;N\u00e3o temos na terra outro nome no qual possamos ser salvos a n\u00e3o ser o de Jesus Cristo. &#8221; (At.4)<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">&#8220;AO TEU ALCANCE EST\u00c1 A PALAVRA DA F\u00c9: SE CONFESSARES COM TUA BOCA E TEU CORA\u00c7AO QUE JESUS \u00c9 O SENHOR (DEUS) RESSUSCITADO DENTRE OS MORTOS, SER\u00c1S SALVO&#8221; (Rm.10,8-13)<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Assim como o texto anterior do AT foi o primeiro credo do povo de Israel, este de S\u00e3o Paulo o foi para o povo crist\u00e3o. A morte \u00e9 nosso ocaso inevit\u00e1vel. Se a este limite acrescentamos o pecado ou a culpa, fatalmente, como Camus disse, s\u00f3 nos cabe o desespero.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Confessar que Jesus \u00e9 o pr\u00f3prio Deus a vencer a morte e o pecado do mundo \u00e9 a \u00fanica resposta possivel \u00e0 nossa problem\u00e1tica existencial. Est\u00e1 ao nosso alcance reconhecer esta verdade porque nossa raz\u00e3o jamais encontrar\u00e1 outra sa\u00edda se quer, fiel \u00e0 sua l\u00f3gica. &#8220;Para onde iremos? S\u00f3 Tu tens Palavras de vida eterna&#8221; (Jo.6,59). Podemos desafiar a todas as ci\u00eancias, religi\u00f5es e filosofias, confessando n\u00e3o haver uma outra solu\u00e7\u00e3o para nosso duplo problema, pecado e a morte, que humanamente n\u00e3o<br \/>\npodemos vencer. Da morte at\u00e9 poder\u00edamos &#8220;camuflar&#8221; uma saida atrav\u00e9s da ideia da imortalidade mediante a ideia de uma possivel reencarna\u00e7\u00e3o ou da alma imortal separada do seu corpo. At\u00e9 a Ressurrei\u00e7\u00e3o de Cristo este conceit, nutria o credo das religi\u00f5es. Falsa ideia, pois a reencarna\u00e7\u00e3o prolonga a morte e uma vida apenas de almas despersonaliza nosso ser. N\u00e3o seriamos n\u00f3s mesmos a viver ap\u00f3s esta vida, mas s\u00f3 algo de n\u00f3s. A imortalidade \u00e9 apenas uma ideia, a Ressurrei\u00e7\u00e3o \u00e9 fato, que nos garante, n\u00e3o s\u00f3 a imortalidade, mas a vida gloriosa e feliz de n\u00f3s mesmos em Deus.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Cristo, diz S\u00e3o Paulo, \u00e9 o &#8220;primog\u00eanito dos mortos&#8221;, o primeiro a Ressuscitar. Deixou seu sepulcro vazio, como prova visivel para seus disc\u00edpulos. Se tivesse deixados seus restos mortais, como todos deixaremos no sepulcro, teria sido humanamente imposs\u00edvel aos seus discipulos se tornarem testemunhas do acontecimento da Sua Ressurrei\u00e7\u00e3o e \u00e0 humanidade s\u00f3 restaria pensar esta vida como o grande poeta espanhol Adolfo Becquer diz: &#8220;Hoje, como ontem, amanh\u00e3 falamos como hoje, um horizonte cinza e andar, andar e andar. \u201c Cristo condescendeu com seus disc\u00edpulos para lhes revelar que pela Ressurrei\u00e7\u00e3o seremos n\u00f3s mesmos, em corpo e alma, os que viveremos eternamente no seu Reino, dexando apenas no cemit\u00e9rio em p\u00f3 ou cinza nossos &#8220;restos mortais&#8221;, nossa condi\u00e7\u00e3o terrestre de pecado, dor e morte na qual nascemos e vivemos neste mundo. Sao Paulo tamb\u00e9m teve a experi\u00eancia quase f\u00edsica da Ressurrei\u00e7\u00e3o de Cristo a caminho de Damasco, tornado-se o maior arauto da mesma, sobre a qual fundamenta-se nossa F\u00e9 e nossa esperan\u00e7a. Em Cristo, disse, todos morremos e nele todos ressuscitaremos, pois somos seu corpo. Depende de cada um de n\u00f3s sentir e amadurecer esta verdade com a boca e com o cora\u00e7\u00e3o, se, de fato, queremos e esperamos viver eternamente.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Temos um outro \u201chandicap\u201d, al\u00e9m da morte, que as religi\u00f5es n\u00e3o podem \u201ccamuflar&#8221;: o pecado.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Todos nascemos sujeitos \u00e0 lei do dever, que ningu\u00e9m pode cumprir, ainda que fossemos as montanhas ou os mosteiros. Quando Jesus declarou a um paral\u00edtico: &#8220;teus pecados te s\u00e3o perdoados&#8221;, os fariseus, fan\u00e1ticos da lei, disseram: &#8220;S\u00f3 Deus pode perdoar os pecados&#8221;. At\u00e9 Cristo ningu\u00e9m tinha, nem poderia ter certeza do perd\u00e3o dos pecados. As religi\u00f5es regiam-se pelo crit\u00e9rio da justi\u00e7a da raz\u00e3o: Deus premia os que cumprem seus mandamentos e castiga seus violadores. Dentro desta justi\u00e7a, o mesmo povo de Israel, o povo mais pr\u00f3ximo de Deus antes de Cristo, reconhecia a impossibilidade de se salvar sem o perd\u00e3o dos pecados: &#8220;Se o Senhor tiver em conta nossos pecados, quem poder\u00e1 se salvar?&#8221; (Sl 129) Ningu\u00e9m, de fato. As palavras do perd\u00e3o foram ouvidas pela primeira na terra do l\u00e1bios de Cristo. Antes, como a imortalidade, o perd\u00e3o era pura ideia.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">A Posse do que Esperamos<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Em Cristo e com Cristo, nem a morte nem o pecado nos podem separar de Deus (Rm.8). Mas isso nos foi revelado s\u00f3 em Cristo. Nele morrem as filosofias e religi\u00f5es e nasce a F\u00e9 que nos faz sentir realmente, segura e certa, nossa Salva\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Nele, diz S\u00e3o Greg\u00f3rio Nacianzeno (s\u00e9c. IV) a esperan\u00e7a n\u00e3o \u00e9 mais esperan\u00e7a sen\u00e3o posse do que esperamos.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Quem confessa com todo seu ser que Jesus \u00e9 o pr\u00f3prio Deus, morto e Ressuscitado, tem plena certeza de possuir, j\u00e1 neste mundo, a vida eterna.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">&#8220;JESUS FOI TENTADO DURANTE 40 DIAS NO DESERTO PELO DIABO\u201d (Lc. 4,1-13)<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Temos neste realato evang\u00e9lico a mais sublime interpreta\u00e7\u00e3o da exist\u00eancia humana. Dificilmente as ci\u00eancias nos poderiam diagnosticar melhor nossa problem\u00e1tica existencial, assim como sua verdadeira resposta. A vida \u00e9 um exerc\u00edcio permanente de liberdade ou &#8220;tentativas&#8221; (tenta\u00e7\u00f5es) de realizar-nos como pessoas. O texto mostra-nos tres, que o mesmo Jesus experimentou:<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">A TENTA\u00c7AO DO P\u00c3O: &#8220;Se \u00e9s o Filho de Deus, ordena que esta pedra se transforme em p\u00e3o&#8221;.<br \/>\n&#8221; Primeiro viver, depois filosofar&#8221;, dizia C\u00edcero. Epicuro (s\u00e9c. IV a.C.) expressava essa mesma filosofia de vida com seu imortal slogan: &#8220;carpe diem&#8221;. O consumismo configura a cultura de nosso tempo. N\u00e3o sabemos estar parados sem levar algo \u00e0 boca. Tentamos preencher nosso vazio fazendo de nossa vida um tubo digestivo, embora nos deixe ainda mais vazios, como alguns jovens lamentavam em Paris na decada de 1960: &#8220;Que adianta termos p\u00e3o se morremos de t\u00e9dio&#8221;. Julio Verne imaginou o fim do mundo como um ato de loucura do ser humano devourando o ar. Jesus respondeu a est\u00e1 tenta\u00e7\u00e3o ou falsa tentativa de encontrar a vida dizendo: &#8220;N\u00e3o s\u00f3 de p\u00e3o vive o o homem&#8221;, talvez recitando: &#8220;Minha alma tem sede de Deus&#8221; (Sl.42).<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">O Jejum para Descobrir a Fome de um Outro P\u00e3o<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">A pr\u00e1tica do jejum, presente em todas as religi\u00f5es, nos ajuda a vencer esta tenta\u00e7\u00e3o quando praticada, n\u00e3o como penit\u00eancia, mas para descobrir a fome de um outro p\u00e3o, &#8220;da Palavra de Deus&#8221; (Am.8,11). O jejum carateriza o ser humano. Os animais e as plantas nao jejuam porque sua vida depende do que possam comer. Pelo jejum, n\u00e3o imposto, mas volunt\u00e1rio no tornamos mais humanos e conscientes de que a vida nos vem de Deus.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">O jejum \u00e9 tambem festivo. N\u00e3o podemos ir a um banquete com o est\u00f4mago cheio. Por isso, n\u00f3s cat\u00f3licos, costumamos jejuar na vespera das grandes festas da F\u00e9.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Certa pessoa dizia num grande shopping: &#8220;como \u00e9 dificil encontrar Deus aqu\u00ed&#8221;. A par\u00e1bola do rico, desfrutando de fastuosos banquetes, e o pobre L\u00e1zaro, nos revela a falsa tentativa e enganosa tenta\u00e7\u00e3o do consumismo, tao presente em nossos dias. Nem rezar mais fazemos antes de nossas refei\u00e7\u00f5es.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">A TENTA\u00c7AO DO SUCESSO:<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">&#8220;Se \u00e9s o Filho de Deus, atira-te desde o cimo da torre do Templo, pois os anjos, como est\u00e1 escrito, n\u00e3o permitir\u00e3o trope\u00e7ar nas pedras&#8221;.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">O sucesso, a fama \u00e9 uma fome mais \u00e1vida do que a fome do p\u00e3o.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Sermos famosos, estrelas a brilhar no mundo, leva-nos a arriscar a pr\u00f3pria vida. Jesus foi conduzido pelo diabo ao templo de Jerusal\u00e9m. O povo judeu<br \/>\ncostumava esperar a vinda do Messias embaixo da sua torre. Era s\u00e1bado e o lugar estava cheio. Lhe era suficiente a Jesus mostrar \u00e0quele povo flutuar sobre o ar como em outro momento caminharia sobre as \u00e1guas para ser aclamado Messias.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Hybris<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Quem de n\u00f3s rejeita o aplauso e a gl\u00f3ria neste mundo? A autoafirma\u00e7\u00e3o e aprova\u00e7\u00e3o dos outros \u00e9 instintivo no ser humano. Quando nos deixamos levar por este instinto ou hybris, n\u00e3o temos receio de pisar sobre os outros para aumentar nossa grandeza. Todos levamos dentro de n\u00f3s um rei Sol, deixando os servos nas masmorras. Esta tenta\u00e7\u00e3o ou tentativa de nos realizar pelo sucesso \u00e9 tamb\u00e9m chamada tenta\u00e7\u00e3o da Hist\u00f3ria, isto \u00e9, n\u00e3o aceitarmos nossa realidade, com seus limites, car\u00eancias e sofrimentos, que chamamos cruz, como caminho para a vida. At\u00e9 buscamos pela nossa F\u00e9 mais os milagres, que s\u00e3o apenas sinais, do Reino de Deus. Jesus respondeu a est\u00e1 tenta\u00e7\u00e3o dizendo &#8220;Nao tentar\u00e1s ao Senhor, teu Deus&#8221;.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">A sabedoria de Deus supera nossos planos de vida.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Muitas vezes uma doen\u00e7a ou um fracasso podem ser nosso melhor rem\u00e9dio e maior sucesso. Tudo de melhor temos de fazer por n\u00f3s e pelos outros, assim como agradecer a Deus todo bem, mas lambem temos de ver a gra\u00e7a de Deus atuando em nossos sofrimentos.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">A ora\u00e7\u00e3o \u00e9 o melhor rem\u00e9dio para vencer a falsa ilus\u00e3o do sucesso ou as gl\u00f3rias deste mundo, reconhecendo que somos um punhado de p\u00f3 a espera do sopro vital de Deus.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">A TENTA\u00c7AO DO TER:<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">&#8220;Eu te darei os reinos da terra se, prostrado, me adorar.&#8221;<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">O desejo de ter \u00e9 uma outra tenta\u00e7\u00e3o ou tentativa de realizar-nos, embora, ao inv\u00e9s de nos satisfazer, cria em n\u00f3s maior preocupa\u00e7\u00e3o e ins\u00f4nia. O deus dinheiro tem hoje templos mais grandiosos que os dedicados ao Deus da Cria\u00e7\u00e3o. Jesus, j\u00e1 no Seu tempo, percebeu essa idolatria dizendo: &#8220;Nao podeis servir a Deus e ao dinheiro&#8221; (Mt.6). E exigiu sua ren\u00fancia total para entrar no seu Reino. &#8220;\u00c9 mais f\u00e1cil um camelo entrar pelo olho de uma agulha do que um rico no Reino dos C\u00e9us&#8221;. Seus discipulos lhe disseram: &#8220;Ent\u00e3o quem se poder\u00e1 salvar?&#8221;- Ele respondeu: &#8221; Isso \u00e9 imposs\u00edvel ao ser humano, s\u00f3 possivel para Deus&#8221;(Mt.19,24).<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">N\u00e3o \u00e9 que Deus condene as riquezas, das quais precisamos para viver neste mundo, o que nos mostra \u00e9 que a vida que todos buscamos n\u00e3o depende da abund\u00e2ncia dos bens materiais (Lc. 12,15).<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">S\u00e3o Paulo apontava como resposta \u00e0 tenta\u00e7\u00e3o do ter os reinos da terra dizendo : &#8220;tendo como se n\u00e3o tiv\u00e9ssemos&#8221; (1Cor. 7,20). Jesus recomendava &#8220;dar em esmola tudo quanto temos&#8221; (Lc.11,41) isto \u00e9, termos os bens em favor de todos.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">O Fluxo dos Capitais<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">A pobreza n\u00e3o tem como causa o pecado do ter, mas do reter, violando a pr\u00f3pria lei da economia: fluxo de capitais e n\u00e3o&#8221;bolsas&#8221; ou bolsos para armacenar. Como a \u00e1gua parada apodrece, tamb\u00e9m os bens materiais retidos nas arcas de nosso ego\u00edsmo, s\u00e3o carcomidos.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Shem\u00e0 Israel<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">E o maior pecado \u00e9 tornar os bens materiais capital especulativo ou virtual que nem para satisfazer as necessidades servem, criando isso que os economistas chamam &#8220;bolhas&#8221; que explodem, deixando ricos e pobres mais vazios. Jesus condena essa idolatria do ter dizendo: &#8220;Adorar\u00e1s ao teu Deus, e s\u00f3 a Ele prestar\u00e1s culto&#8221;, lembrando: &#8220;Shem\u00e1,Israel, o Senhor \u00e9 teu Deus, O Senhor \u00e9 um&#8221;.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Os idolos deste mundo tudo nos podem dar, menos a vida. A esmola \u00e9 um grande ant\u00eddoto contra esta tenta\u00e7\u00e3o existencial. Por ela, mais do que ajudar aos pobres, nos ajuda a sermos mais n\u00f3s mesmos.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Jejum, ora\u00e7\u00e3o e esmola, mais do atos religiosos de obras boas tem de ser uma veradeira espirtiualidade ou maneira de viver mais humana e mais de Deus.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Padre Jesus Priante<br \/>\nEspanha<br \/>\nEdi\u00e7\u00e3o e intert\u00edtulos por Malcolm Forest. S\u00e3o Paulo<br \/>\nCopyright 2022 Padre Jesus Priante.<br \/>\nCompartilhe mencionando o nome do autor.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>QUARESMA: CONSCI\u00caNCIA PASCAL DA EXIST\u00caNCIA. O termo grego &#8220;quaresma&#8221;, quarenta dias, faz alus\u00e3o a longos tempos em diferentes epis\u00f3dios b\u00edblicos: 40 dias do Dil\u00favio, 40 anos do povo de Israel no deserto, 40 dias e noites de Mois\u00e9s na montanha a espera de receber de Deus as T\u00e1buas da Lei, 40 dias de penit\u00eancia do [&hellip;]<\/p>\n","protected":false},"author":1,"featured_media":72838,"comment_status":"open","ping_status":"closed","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"footnotes":""},"categories":[4,13],"tags":[],"class_list":["post-72837","post","type-post","status-publish","format-standard","has-post-thumbnail","hentry","category-cotidiano","category-featured"],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/catolicanet.net\/wp-cnet\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/72837","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/catolicanet.net\/wp-cnet\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/catolicanet.net\/wp-cnet\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/catolicanet.net\/wp-cnet\/wp-json\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/catolicanet.net\/wp-cnet\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=72837"}],"version-history":[{"count":1,"href":"https:\/\/catolicanet.net\/wp-cnet\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/72837\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":72839,"href":"https:\/\/catolicanet.net\/wp-cnet\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/72837\/revisions\/72839"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/catolicanet.net\/wp-cnet\/wp-json\/wp\/v2\/media\/72838"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/catolicanet.net\/wp-cnet\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=72837"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/catolicanet.net\/wp-cnet\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=72837"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/catolicanet.net\/wp-cnet\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=72837"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}