{"id":72191,"date":"2022-01-09T09:13:41","date_gmt":"2022-01-09T12:13:41","guid":{"rendered":"https:\/\/catolicanet.net\/wp-cnet\/?p=72191"},"modified":"2022-01-09T09:13:41","modified_gmt":"2022-01-09T12:13:41","slug":"cartas-do-padre-jesus-priante-a-plenitude-do-misterio-da-encarnacao","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/catolicanet.net\/wp-cnet\/cartas-do-padre-jesus-priante-a-plenitude-do-misterio-da-encarnacao\/","title":{"rendered":"Cartas do Padre Jesus Priante &#8211; A Plenitude do Mist\u00e9rio da Encarna\u00e7\u00e3o"},"content":{"rendered":"<p>BATISMO DO SENHOR<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Neste domingo encerramos o Tempo do Natal, no qual celebramos o Mist\u00e9rio dos Mist\u00e9rios: a Encarna\u00e7\u00e3o de Deus no ser humano e, por extens\u00e3o, em toda a cria\u00e7\u00e3o. At\u00e9 Cristo, Deus e Mundo eram duas realidades separadas. Foi assim que a filosofia grega as contemplou. Deste dualismo \u00f4ntico foi herdeira a<br \/>\ncultura ocidental. Miquel \u00c2ngelo a estampou no seu famoso quadro da Cria\u00e7\u00e3o, representando a sa\u00edda e separa\u00e7\u00e3o de Ad\u00e3o da m\u00e3o de Deus. Cristo, nossa Paz, veio unir essas m\u00e3os e reconciliar o mundo com seu criador. Em Cristo, n\u00f3s e o universo, incluindo o mundo dos anjos, entramos em comunh\u00e3o com Deus. Nisso consiste a grandeza do Mist\u00e9rio da Encarna\u00e7\u00e3o. Mist\u00e9rio dos Mist\u00e9rios,que celebramos no Tempo do<br \/>\nNatal.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Contrariando a S\u00e3o Paulo, que fundamenta a f\u00e9 na ressurrei\u00e7\u00e3o de Cristo, pensamos, com os crist\u00e3os da Igreja Oriental, que o fundamento de nossa f\u00e9 e esperan\u00e7a de salva\u00e7\u00e3o radica no fato de Deus ter-se feito homem. De nada nos serviria vencer o pecado e a morte pela ressurrei\u00e7\u00e3o de Cristo se n\u00e3o formos divinizados. No Reino dos C\u00e9us ser\u00edamos apenas honrados e felizardos h\u00f3spedes, mas n\u00e3o plenamente felizes, pois continuar\u00edamos na nossa condi\u00e7\u00e3o de criaturas sem acabar de preencher o vazio de nosso ser e nossa vida. Por isso, em hebraico, o termo &#8220;allem&#8221; ou &#8220;allam&#8221; para expressar a outra vida, tem o sentido de infinito e, ao mesmo tempo, eterno. Dimens\u00e3o \u00f4ntica que s\u00f3 teremos se formos realmente filhos consangu\u00edneos de Deus, divinizados pela Encarna\u00e7\u00e3o dele na pessoa de Jesus Cristo.<br \/>\nA Encarna\u00e7\u00e3o de Deus, revelada \u00e9 celebrada no Tempo do Natal, acontece no ser humano e em toda a cria\u00e7\u00e3o sob diferentes aspectos ou dimens\u00f5es. Na pessoa concreta de Jesus, fruto do ventre materno de uma mulher da nossa esp\u00e9cie e, assim, ser verdadeiro homem igual a n\u00f3s, mas, por ser Deus, \u00e9 tamb\u00e9m fruto do esperma, eterno e infinito do Esp\u00edrito Santo a fecundar o \u00f3vulo finito e c\u00edclico de Maria, realizando-se a comunh\u00e3o de Deus com o ser humano e, tamb\u00e9m, com sua Cria\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">A Encarna\u00e7\u00e3o divina abrange uma dimens\u00e3o humana maior. Ela acontece n\u00e3o s\u00f3 no seio de Maria, mas dentro do ser humano pleno: homem e mulher, no n\u00facleo familiar do casal Jos\u00e9 e Maria. De fato, como se nos revela em Gn. 1, Deus criou o homem,&#8221;e o criou homem e mulher&#8221;. Um n\u00e3o pode ser humano sem o outro. Somos antropologicamente andr\u00f3ginos. Nada mais absurdo e anti<br \/>\n-humano do que a t\u00e3o propalada &#8220;ideologia de g\u00eanero&#8221;, instrumentalizada por alguns partidos pol\u00edticos.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">A celebra\u00e7\u00e3o da Sagrada Fam\u00edlia ap\u00f3s o dia de Natal, visa nos revelar a Encarna\u00e7\u00e3o de Deus na esp\u00e9cie humana. Deus se faz homem e mulher, homem pleno. Oito dias depois do seu nascimento, segundo a narrativa evang\u00e9lica, foi circuncidado, rito cultural pelo qual todo judeu era inserido no seu povo.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">A cultura \u00e9 nossa segunda natureza. Todos nascemos duas vezes: biologicamente e culturalmente, Deus se encarnou na cultura judaica, por isso dir\u00e1 \u00e0 Samaritana: &#8220;a salva\u00e7\u00e3o vem dos judeus&#8221; (Jo.4). Todas as culturas, entretanto, est\u00e3o interconectadas. Por isso, Jesus, al\u00e9m de ser culturalmente judeu, \u00e9 tambem chin\u00eas, russo, brasileiro e cidad\u00e3os em todos os povos.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Sao Justino (s\u00e9c. II) fala, nesse sentido, das &#8220;sementes do Verbo&#8221; presentes em todas as culturas. O Conc\u00edlio Vaticano II reafirma essa tese dizendo: &#8220;Tudo o que \u00e9 humano tem rela\u00e7\u00e3o e comunh\u00e3o com Cristo&#8221;. (Gs.1) Deus se fez homem, homem e mulher, judeu e habitante de todos os povos. A Ele corresponde com toda propriedade o t\u00edtulo de cosmopolita, habitante do universo, nascendo em neste nosso planeta azul, sede da vida e epicentro da cria\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Geocentrismo<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Ptolomeu estava certo. A Terra \u00e9 o centro do universo, pois nela Deus se encarnou para divinizar toda a cria\u00e7\u00e3o. O gigante telesc\u00f3pio James Webb, lan\u00e7ado esses dias pela NASA, servir\u00e1, mais do que para ver as gal\u00e1xias, para elas nos fazer ver que este nosso \u00fanico mundo que habitamos repousa sobre Cristo, a estrela de Bel\u00e9m da qual todas as estrelas recebem seu fulgor. Ele \u00e9 o verdadeiro \u201cBig-Bang\u201d da nova cria\u00e7\u00e3o, n\u00e3o mais sujeita \u00e0 caducidade e ao mal.<br \/>\nEncarna os espa\u00e7os e tamb\u00e9m os tempos. Por isso nasce dentro da hist\u00f3ria, no devir dos tempos, que o expressamos quando dizemos &#8220;Se fez carne e habitou entre n\u00f3s&#8221;.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Um dos momentos mais eloquentes da liturgia da Noite de Natal \u00e9 quando, no seu in\u00edcio, proclamam-se as Calendas, um breve hist\u00f3rico do tempo no qual Jesus nasceu, &#8220;Quando Quirino era governador da S\u00edria&#8221;. Porque se encarnou na Hist\u00f3ria ou &#8220;se fez carne&#8221;, Ele n\u00e3o \u00e9 mito ou lenda. Cristo \u00e9 a personagem do planeta que goza de maior n\u00famero de fontes a provar sua historicidade, assim como aquele que mais p\u00e1ginas ocupa na literatura universal. \u00c9 mais dif\u00edcil negar com rigor cient\u00edfico sua realidade hist\u00f3rica do que afirma-la. Est\u00e1 inserido no passado, presente e futuro como homem e, ao mesmo tempo, como Deus, nos introduz na eternidade. Com Ele o tempo n\u00e3o caduca, se faz eterno. Era o que expressavamos no Intr\u00f3ito da Missa antes do Conc\u00edlio Vaticano II: &#8220;Entrarei no altar do Senhor, do Deus da minha eterna juventude&#8221;.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Deus encarnou-se em nossas lutas e trabalhos, por isso, at\u00e9 seus 30 anos, viveu em Nazar\u00e9, ganhando o p\u00e3o de cada dia com seu trabalho. A tradi\u00e7\u00e3o nos legou que foi carpinteiro, mas as narrativas evang\u00e9licas sugerem um contato familiar com o campo, o que significaria que poderia ter sido com Jos\u00e9, seu pai, campon\u00eas, meeiro. Outros acreditam ter Ele trabalhado na constru\u00e7\u00e3o do anfiteatro romano de S\u00e9fora (sic), poucos quil\u00f4metros de Nazar\u00e9, por isso usa frequentemente o termo grego &#8220;hip\u00f3crita\u201d contra os fariseus, relacionado com os artistas, que representam o que de fato n\u00e3o s\u00e3o. De qualquer maneira, incorporou o trabalho na sua vida, n\u00e3o como escravid\u00e3o ou castigo, sen\u00e3o como atividade humana e divina.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">N\u00e3o menos sublime \u00e9 sua encarna\u00e7\u00e3o nas crian\u00e7as, nos mais pobres e necessitados. Nasce crian\u00e7a e pobre em Bel\u00e9m, num pres\u00e9pio e s\u00e3o os pastores, iletrados e sem preconceitos, suas primeiras testemunhas. O papa Francisco na sua homilia de Natal disse: \u201cJesus entrou neste nosso mundo pela porta da pequenez.\u201d E nesse mundo dos mais pobres e humildes, a come\u00e7ar pelas crian\u00e7as, \u00e9 que o podemos ver encarnado, como se nos revela em Mt.24.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Hoje, penso serem as casas das irm\u00e3s de Teresa de Calcut\u00e1 o ber\u00e7o mais vivo do Natal de Jesus. Verdadeiras &#8220;casas do p\u00e3o &#8220;, ou autentico Bel\u00e9m. Em S\u00e3o Paulo temos uma dessas casas onde ver Jesus.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Finalmente, Deus se encarnou na nossa dor, morte e pecado (Is.53). Uma das teses da teologia \u00e9: &#8220;O que Cristo n\u00e3o assumiu, n\u00e3o O salvou&#8221;. Somos salvos por um processo divino de osmose. N\u00e3o fomos externamente redimidos sen\u00e3o interiormente assumidos e divinizados.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">O Batismo do Senhor que celebramos neste domingo s\u00f3 tem sentido dentro do Mist\u00e9rio da Encarna\u00e7\u00e3o. Cristo n\u00e3o foi batizado para nos dar exemplo nem sequer para iniciar sua miss\u00e3o prof\u00e9tica na trilha de Jo\u00e3o Batista, nem menos ainda para ser purificado dos seus pecados. Da mesma maneira que n\u00e3o \u00e9 evang\u00e9lico afirmar com Santo Anselmo (s\u00e9c. XI) que Cristo se fez homem para &#8220;pagar&#8221; ou satisfazer a justi\u00e7a de Deus com sua paix\u00e3o e morte a d\u00edvida de nossos pecados,mas para tornar-nos seus filhos. Pena que o maravilhoso S\u00e3o Irineu (s\u00e9c. II), arauto do mist\u00e9rio da Encarna\u00e7\u00e3o, recentemente declarado pelo Papa Francisco Doutor da Igreja, enquanto Santo Anselmo ainda n\u00e3o o foi, n\u00e3o tenha inspirado nossa F\u00e9 crist\u00e3. Nos teria poupado medos e ang\u00fastias na nossa rela\u00e7\u00e3o com Deus, assim como Cristo seria mais glorioso e necess\u00e1rio e amado por cada um de n\u00f3s.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Encerramos o Tempo do Natal (Encarna\u00e7\u00e3o de Deus) com o Batismo do Senhor como o melhor colof\u00e3o deste Mist\u00e9rio. Cristo foi batizado, &#8220;mergulhado&#8221; nas \u00e1guas das nossas dores, pecados e mortes para sermos glorificados. Expressamos essa realidade com maior \u00eanfase quando confessamos: &#8220;Creio que desceu aos infernos&#8221; para elevar-nos ao C\u00e9u.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Em Cristo, todos fomos batizados, sepultados com Ele, para com Ele ressuscitar.&#8221; (Rm.6) Isso explicaria a raz\u00e3o pela qual n\u00e3o constar nos evangelhos de haver Cristo batizado seus disc\u00edpulos ou alguma outra pessoa, como fez Jo\u00e3o Batista. Se Ele ordenou :&#8221;Ide ao mundo pregar a boa nova da salva\u00e7\u00e3o, batizando a todos os povos&#8221;, seu sentido sacramental consiste em tornar presente em n\u00f3s o Batismo de Jesus, da mesma maneira que em toda Eucaristia fazemos presente, de maneira real, a morte e a ressurrei\u00e7\u00e3o de Cristo, como se fosse pela primeira vez, enquanto esperamos sua volta. N\u00e3o somos n\u00f3s os batizados, mas Cristo que se batiza, termo grego que significa mergulhar (baptizein).<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Dimens\u00f5es e Significados do Batismo<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Para S\u00e3o Paulo o batismo tem sentido pascal, passo da morte para a vida em Cristo. Em S\u00e3o Jo\u00e3o, significa novo nascimento, como filhos de Deus (Jo.3). Nas primeiras gera\u00e7\u00f5es crist\u00e3s, o Batismo era chamado &#8220;selo&#8221;, marca indel\u00e9vel pela qual \u00e9ramos consignados propriedade de Cristo, nosso \u00fanico Senhor, \u00e0 maneira como em muitas fazendas marcam com ferro incandescente seu gado. Na teologia dizemos que o Batismo &#8220;imprime car\u00e1ter&#8221; indel\u00e9vel. Depois de Deus ter-se feito homem, n\u00e3o podemos mais n\u00e3o ser de Cristo e, em Cristo, de Deus. &#8220;Ele nos criou e a Ele pertencemos&#8221; (Sl.95). Pelo rito do Batismo externamos e celebramos essa maravilha que o Batismo de Cristo realizou em favor de todos. Sem a celebra\u00e7\u00e3o deste Sacramento privariamos o mundo e a n\u00f3s mesmos deste sublime Mist\u00e9rio da Salva\u00e7\u00e3o. O Batismo tamb\u00e9m tinha nas primeiras gera\u00e7\u00f5es crist\u00e3s o sentido de &#8220;coroa&#8221; da gl\u00f3ria de Deus em n\u00f3s, e tamb\u00e9m de Luz, por isso recebemos uma vela acesa no C\u00edrio Pascal , s\u00edmbolo de Cristo. Os batizados eram chamados &#8220;iluminados&#8221;, os que enxergam o sentido da vida e do mundo no qual vivemos. A poeira do tempo tem sepultado seu sentido salv\u00edfico e divino para lhe dar outros menos evang\u00e9licos. Santo Agostinho atribuiu ao Batismo o efeito de lavar o pecado original, na mesma linha das ablu\u00e7\u00f5es da tradi\u00e7\u00e3o judaica e de outros povos. O Batismo no rio Jord\u00e3o, Jo\u00e3o Batista realizava, entretanto, tinha um sentido diferente. Ele tinha uma dimens\u00e3o escatol\u00f3gica. Acreditava que o Ju\u00edzo Final de Deus era iminente e, n\u00e3o havendo tempo para a devida convers\u00e3o, era preciso purificar-se dos pecados. Mas tamb\u00e9m esse Batismo &#8220;pela \u00e1gua&#8221; purificadora deixava nossa pele igualmente exposta \u00e0 contamina\u00e7\u00e3o do pecado, como acontece em n\u00f3s se entendermos o Batismo como mera purifica\u00e7\u00e3o do pecado. Jo\u00e3o Batista percebeu essa defici\u00eancia, por isso, inspirado por Deus, apresenta a Jesus no Jord\u00e3o como aquele que batiza, n\u00e3o pela \u00e1gua mas no Esp\u00edrito Santo, Aquele que nos mergulha na vida de Deus. O Batismo foi tamb\u00e9m desvirtuado ao ser interpretado como<br \/>\numa filia\u00e7\u00e3o ou entrada na Igreja e n\u00e3o propriamente como incorpora\u00e7\u00e3o em Cristo, ao ponto de se dizer: &#8220;fora da Igreja n\u00e3o h\u00e1 salva\u00e7ao&#8221;. Por tanto, aquele que n\u00e3o se filia \u00e0 Igreja pelo Batismo n\u00e3o ser\u00e1 salvo, nem sequer as coitadinhas das crian\u00e7as que n\u00e3o tiveram tempo para serem batizadas, a elas lhes era reservado o Limbo, privadas de ver a Deus.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Jesus Cristo, Maior que o Mundo<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">At\u00e9 o Conc\u00edlio Vaticano II nos acompanhou essa anti-evang\u00e9lica mentalidade batismal. Sua grande e necess\u00e1ria revela\u00e7\u00e3o foi: &#8220;A Igreja n\u00e3o substitui a Cristo&#8221;. Ele \u00e9 maior que a Igreja e o mundo. Cabe \u00e0 Igreja apenas a fun\u00e7\u00e3o de ser &#8220;sinal e instrumento da salva\u00e7\u00e3o de Cristo&#8221;. Nossa f\u00e9 crist\u00e3, entretanto, \u00e9 eclesial porque Cristo prometeu estar conosco toda vez que nos reunimos em seu nome (Mt.18) e tamb\u00e9m porque nos salvamos unidos a Cristo com toda a humanidade. O Batismo tamb\u00e9m foi escurecido quando foi parcelado pelo chamado sacramento da Confirma\u00e7\u00e3o ou Crisma e, ambos, separados da Eucaristia no s\u00e9culo IV, perdendo seu verdadeiro sentido de uni\u00e3o a Cristo e, com isso, pondo em d\u00favida a efic\u00e1cia salvadora do Batismo no Esp\u00edrito Santo. A Igreja Cat\u00f3lica Ortodoxa n\u00e3o aderiu a esta pr\u00e1tica. Hoje, nesta Igreja, at\u00e9 uma crian\u00e7a rec\u00e9m-nascida, \u00e9 batizada, confirmada e faz sua comunh\u00e3o eucaristica no mesmo dia. A Igreja Cat\u00f3lica Romana restabeleceu esta unidade sacramental no ano 1972 para o batismo dos adultos. Na Hist\u00f3ria, quando se tomam rumos errados, perde-se o sentido das coisas e dos fatos. Custa mais desandar o passado do que prosseguir no caminho.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">&#8220;EIS MEU SERVO AMADO&#8230; NELE COLOQUEI MEU ESP\u00cdRITO E N\u00c3O DESCANSAR\u00c1 AT\u00c9 TER IMPLANTADO NA TERRA MINHA JUSTI\u00c7A.&#8221; (Is.42,1-7)<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Dentro do Mist\u00e9rio da Encarna\u00e7\u00e3o que celebramos no Tempo de Natal, seria mais apropriado e significativo para este domingo do Batismo do Senhor, o texto de Is.53, no qual se nos revela que o Messias ou Cristo salvador tomou sobre si nossas dores, pecados e mortes. Encarnou nossas mis\u00e9rias para sermos nele glorificados. Ele &#8220;desceu aos infernos&#8221;, realidade suprema do mal, para sermos salvos, revestidos da sua divindade. Com o Esp\u00edrito e poder de Deus, Cristo n\u00e3o descansar\u00e1 ate implantar a justi\u00e7a e salva\u00e7\u00e3o na terra, epicentro da cria\u00e7\u00e3o, a ser estendida a todo o universo. Essa proeza salv\u00edfica de Cristo, nos diz o texto acima da profecia de Isa\u00edas, ser\u00e1 feita sem &#8220;levantar sua voz, nem quebrar a cana rachada ou apagar a mecha que ainda fumega&#8221;. Com a paradoxal for\u00e7a de um cordeiro a renunciar \u00e0 Sua pr\u00f3pria vida, vencer\u00e1 o pecado e a morte do mundo. Por isso, Ele disse aos seus disc\u00edpulos, posteriormente ao seu Batismo no Jord\u00e3o: &#8220;Tenho de receber um outro Batismo, e sinto ang\u00fastia at\u00e9 que seja cumprido&#8221; (Lc.12,50). Referia-se \u00e0 Sua morte de cruz na qual Deus encarnou nossas dores, mortes e pecados. Mergulhando nessas \u00e1guas amargas, todos fomos batizados, sepultados na sua morte para nele ressuscitarmos.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">O Papa Le\u00e3o Magno (s\u00e9c.V) chamava o Batismo de &#8220;parto doloroso&#8221;. Em Bel\u00e9m Deus nasceu crian\u00e7a e na cruz homem pleno. Esse Batismo ser\u00e1 consumado quando a humanidade toda e a cria\u00e7\u00e3o forem em Cristo divinizadas.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">&#8220;DEUS ENVIOU SUA PALAVRA AOS FILHOS DE ISRAEL, ANUNCIANDO-LHES A BOA NOVA DA SALVA\u00c7\u00c3O EM CRISTO, QUE \u00c9 O SENHOR DEUS DE TODOS.&#8221; (At.10,34-38)<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Estas palavras foram proferidas pelo ap\u00f3stolo Pedro na casa do centuri\u00e3o romano Corn\u00e9lio, n\u00e3o pertencente ao povo de Israel que, at\u00e9 Cristo, tinha-se apropriado da ben\u00e7\u00e3o salv\u00edfica de Deus, como herdeiros da f\u00e9 de Abra\u00e3o. &#8220;Verifico, disse Pedro, que Deus n\u00e3o faz acep\u00e7\u00e3o de pessoas&#8221;. De fato, a salva\u00e7\u00e3o \u00e9 destinada a todos: bons e maus, mesmo aos que o mal diabo) retinha no inferno. A raz\u00e3o que Pedro d\u00e1 \u00e9: &#8220;porque Deus estava com Cristo, que \u00e9 Senhor e Deus de todos&#8221;. Na l\u00f3gica do mist\u00e9rio da Encarna\u00e7\u00e3o, Cristo nos salva porque \u00e9 Deus em n\u00f3s e n\u00f3s Nele. Nos prim\u00f3rdios do cristianismo, o Batismo era conferido a quem, ap\u00f3s ter sido evangelizado, confessava que Cristo era de fato Deus. Mergulhando numa pequena piscina, o batizando, sentia-se unido a Cristo na sua morte e ressurrei\u00e7\u00e3o. Saindo das \u00e1guas, de joelhos, recebia o Esp\u00edrito Santo atrav\u00e9s do gesto da imposi\u00e7\u00e3o das m\u00e3os do ap\u00f3stolo e da comunidade crist\u00e3 ali presente. Gesto sacramental t\u00e3o significativo que dever\u00edamos incorporar no nosso rito batismal. Posteriormente acrescentou-se a un\u00e7\u00e3o com \u00f3leo para significar que, pelo Batismo no Esp\u00edrito , o batizado tornava-se outro &#8220;ungido&#8221; ou Cristo. Da\u00ed o nome de crist\u00e3o, que significa outro e o mesmo Cristo, esperan\u00e7a messi\u00e2nica da salva\u00e7\u00e3o do mundo. S\u00e3o Greg\u00f3rio de Nisa (s\u00e9c. IV) interpreta o Batismo como um retorno ao Para\u00edso: &#8220;Fomos expulsos pelo pecado de Ad\u00e3o e agora, em Cristo, Deus volta a nos chamar, despojados da m\u00edseras vestes de folhas de figueira, e somos revestidos da t\u00fanica gloriosa da sua divindade&#8221;. Esta interpreta\u00e7\u00e3o batismal persiste no rito do Batismo, no qual o ne\u00f3fito recebe a &#8220;veste branca&#8221;, fazendo alus\u00e3o a Transfigura\u00e7\u00e3o de Cristo e a Sua Ressurrei\u00e7\u00e3o.Ser\u00e1 assim que todos despertaremos na eternidade, revestidos da mesma gl\u00f3ria de Cristo. Deixaremos a mortalha do pecado e a morte no cemit\u00e9rio e entraremos radiantes de luz no Reino dos C\u00e9us.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">&#8220;E TENDO SIDO BATIZADO JESUS POR JO\u00c3O BATISTA, O C\u00c9U SE ABRIU E O ESP\u00cdRITO SANTO DESCEU SOBRE ELE EM FORMA DE POMBA. E DO C\u00c9U VEIO UMA VOZ:&#8221;TU \u00c9S MEU FILHO AMADO. EU, HOJE, TE GEREI&#8221; (Lc. 3,15-22)<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">O Mist\u00e9rio da Encarna\u00e7\u00e3o atingiu seu ponto culminante. Deus, em Cristo, assumiu nossas dores, pecados e mortes nas \u00e1guas do Jord\u00e3o para nascermos com Ele divinizados, conforme nos revelam as palavras vindas do c\u00e9u: &#8220;Tu \u00e9s meu filho amado. Eu, hoje te gerei&#8221;. O Unig\u00eanito (n\u00e3o nascido ) Filho Eterno do Pai,nascia em n\u00f3s e<br \/>\nn\u00f3s Nele por obra e gra\u00e7a do Esp\u00edrito Santo. Uma das mais sublimes defini\u00e7\u00f5es que eu tenho conhecido a receb\u00ed do papa Francisco: &#8220;Deus \u00e9 Aquele que se d\u00e1&#8221;. N\u00e3o Aquele que d\u00e1 coisas ou gra\u00e7as mas d\u00e1 a Si mesmo. Deus \u00e9 Esp\u00edrito Santo , &#8220;Senhor (Deus) que d\u00e1 a vida&#8221;, como confessamos no Credo.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">A Pomba, o Esp\u00edrito Santo<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Certo dia em que os disc\u00edpulos pediram a Jesus que lhe ensinasse a rezar, lhes disse que deveriam pedir a Deus. com perseveran\u00e7a, todas as coisas, esperando Dele sempre a vida. E lhes garantiu que a recebem, pois, &#8220;se v\u00f3s, sendo maus, damos coisas boas aos nossos filhos, com maior raz\u00e3o vosso Pai do c\u00e9u vos dar\u00e1 o Esp\u00edrito Santo. &#8220;(Lc.11,13) que \u00e9 a mesma vida de Deus. A pomba que aparece no Jord\u00e3o a tornar vis\u00edvel a vinda do Esp\u00edrito Santo sobre Jesus e, Nele, a nos e a toda a cria\u00e7\u00e3o, faz refer\u00eancia aos prim\u00f3rdios, em Gn.1.: &#8220;O Esp\u00edrito de Deus pairava sobre as \u00e1guas dando forma a todas as coisas&#8221;. Pelo Esp\u00edrito, Deus comunicava Seu ser e vida ao mundo por Ele criado.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Essa simb\u00f3lica pomba, criadora e vivificante, aparece tamb\u00e9m na Arca de No\u00e9, quando as \u00e1guas do dil\u00favio do pecado sepultavam a vida (Gn.8). Se diz que saiu da Arca tr\u00eas vezes. Na terceira n\u00e3o mais retornou, pairando de novo sobre a cria\u00e7\u00e3o a recriar todas as coisas. No entanto, a for\u00e7a do pecado e a morte continuariam presentes na hist\u00f3ria, amea\u00e7ando a ru\u00edna da cria\u00e7\u00e3o. Por isso, o rei Davi, ap\u00f3s ter pecado, pede a Deus: &#8220;N\u00e3o retires de mim o teu Esp\u00edrito&#8230; pois sem Ele tudo retorna ao p\u00f3. &#8221; (Sl 50) O Esp\u00edrito de Deus criador e vivificante, n\u00e3o mais &#8220;paira&#8221; sobre o mundo criado, mas o invade e diviniza pela Encarna\u00e7\u00e3o do Filho de Deus. No seu Batismo, nos gera , em Cristo, tamb\u00e9m a n\u00f3s filhos na unidade do mesmo Deus.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">O Mist\u00e9rio da Encarna\u00e7\u00e3o, Mist\u00e9rio dos Mist\u00e9rios, celebrado no Tempo de Natal, torna certa e segura nossa salva\u00e7\u00e3o pois, n\u00e3o s\u00f3 Deus se faz homem, mas o homem se faz Deus. Por isso, sobre esse acontecimento \u00e9 que devemos fundamentar a esperan\u00e7a salv\u00edfica de nossa f\u00e9. A ressurrei\u00e7\u00e3o de Cristo cumpre a finalidade de certificar que, de fato, Jesus de Nazar\u00e9 \u00e9 Deus, que n\u00e3o veio fazer turismo no mundo, mas realizar sua salva\u00e7\u00e3o. Realidade meta-hist\u00f3rica, al\u00e9m do espa\u00e7o e do tempo, mas dentro da pr\u00f3pria Hist\u00f3ria (sucess\u00e3o de fatos) embora a vivamos na ponte da esperan\u00e7a, inquebrant\u00e1vel, certa e segura, que \u00e9 o pr\u00f3prio Cristo Jesus.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\n&#8220;J\u00e1, mas ainda n\u00e3o&#8221; de Culmann, \u00e9 a melhor leitura da Hist\u00f3ria da salva\u00e7\u00e3o,e que podemos ler \u00e0 luz do Mist\u00e9rio da Encarna\u00e7\u00e3o. Temos de tomar consci\u00eancia de nossa pequenez e precariedade, mas tamb\u00e9m de nossa grandeza em Cristo. Boris Pasternak, autor do Dr. Jivago, dizia: &#8220;Se n\u00e3o soubermos como catalogar um homem, escapando a toda defini\u00e7\u00e3o, \u00e9 porque esse homem est\u00e1 vivo. S\u00f3 os que temem pela sua precariedade e insignific\u00e2ncia humana precisam de etiquetas e t\u00edtulos. \u201cDe fato, os t\u00edtulos e trof\u00e9us deste mundo apenas escondem nossa mis\u00e9ria e nosso nada.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Somos Filhos de Deus<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Nosso \u00fanico e grandioso t\u00edtulo que nos faz gloriosos e imortais o recebemos com Cristo no Batismo: &#8220;Filhos de Deus&#8221;. O Batismo teria de ser celebrado a cada ano como anivers\u00e1rio da verdadeira vida que, em Cristo, j\u00e1 temos e ao mesmo tempo esperamos.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\nPadre Jesus Priante<br \/>\nEspanha<br \/>\n(Edi\u00e7\u00e3o e intert\u00edtulos por Malcolm Forest. S\u00e3o Paulo.)<br \/>\nCopyright 2021 Padre Jesus Priante.<br \/>\nDireitos Reservados.<br \/>\nCompartilhe mencionando o nome do autor.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>BATISMO DO SENHOR Neste domingo encerramos o Tempo do Natal, no qual celebramos o Mist\u00e9rio dos Mist\u00e9rios: a Encarna\u00e7\u00e3o de Deus no ser humano e, por extens\u00e3o, em toda a cria\u00e7\u00e3o. At\u00e9 Cristo, Deus e Mundo eram duas realidades separadas. Foi assim que a filosofia grega as contemplou. 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