{"id":70863,"date":"2021-10-24T09:00:21","date_gmt":"2021-10-24T12:00:21","guid":{"rendered":"https:\/\/catolicanet.net\/wp-cnet\/?p=70863"},"modified":"2021-10-22T11:32:31","modified_gmt":"2021-10-22T14:32:31","slug":"paraiso-saudade-ou-esperanca-cartas-do-padre-jesus-priante","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/catolicanet.net\/wp-cnet\/paraiso-saudade-ou-esperanca-cartas-do-padre-jesus-priante\/","title":{"rendered":"&#8220;Para\u00edso, Saudade ou Esperan\u00e7a?&#8221; &#8211; Cartas do Padre Jesus Priante"},"content":{"rendered":"<p style=\"text-align: justify;\">Na d\u00e9cada de 1980, Carlos Mesters publicava no Brasil um pequeno e emblem\u00e1tico livro com esse t\u00edtulo. Nele desmentia o mito do Para\u00edso que, porque nunca existiu, nunca foi perdido. No entanto ser\u00e1 sempre nossa grande UTOPIA (um \u201cn\u00e3o lugar\u201d) sem a qual nao podemos superar as TOPIAS (situa\u00e7\u00f5es) deste mundo DIST\u00d3PICO, onde tudo est\u00e1 fora de lugar e n\u00e3o encontramos o descanso e paz.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Todos experimentamos a vida de maneira inquieta. Como afirma Baudelaire, sempre pensamos ser um mais felizes no lugar onde n\u00e3o estamos. &#8220;A infelicidade est\u00e1 a\u00ed, ao nosso lado\u201d , dizia Schopenhauer, \u201ca felicidade \u00e9 o que sempre procuramos e nunca encontramos&#8221;. Nossa cultura primig\u00eania, segundo o antrop\u00f3logo Chatwin em &#8220;Songlines&#8221;, pegadas dos cantos de todos os povos, \u00e9 o nomadismo.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Nascemos e vivemos a caminho. N\u00e3o s\u00f3 n\u00f3s, todo o universo move-se, esticando seu espa\u00e7o, milh\u00f5es de quil\u00f4metros por hora, sem encontrar repouso. Nada est\u00e1 acabado. Este mundo n\u00e3o \u00e9 tudo o que ser\u00e1. Tudo navega sem retorno ao infinito. A teoria da Palingenesis, professada por alguns fil\u00f3sofos da antiga Gr\u00e9cia, segundo a qual, a cada 10.000 anos, a realidade nossa e das coisas repetir\u00e1 o mesmo percurso, que \u00e9 a mesma teoria de alguns cientistas de nosso tempo sobre a sucess\u00e3o cont\u00ednua de novos mundos, \u00e9 um grande mito. Einstein e Hawking at\u00e9 chegaram a imaginar um tempo curvo que nos devolveria nosso passado. A grande verdade, j\u00e1 constatada por Her\u00e1clito (s\u00e9c. VI a.C) \u00e9 que &#8220;tudo se move&#8221;, e essa realidade nos questiona: De onde viemos e para onde vamos? S\u00f2 a f\u00e9 nos brinda uma resposta: &#8220;Viemos de Deus e a Deus voltamos&#8221;. Sem Deus tudo \u00e9 noite, e o dia uma luz de artif\u00edcio. &#8220;Fizeste-me , Senhor, para Ti, e meu cora\u00e7\u00e3o inquieto est\u00e1 at\u00e9 descansar em Ti&#8221;, confessava Santo Agostinho.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Outra leitura existencial \u00e9 m\u00ectica e sem sentido, embora a leitura de nosso retorno a Deus seja tamb\u00e9m misteriosa a exceder nossa compreens\u00e3o.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">&#8220;ASSIM FALA O SENHOR: EIS QUE TRAGO DE VOLTA O MEU POVO&#8221;(Jer. 31,7-9).<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">O Ex\u00edlio do povo de Israel na Babil\u00f4nia, assim como sua escravid\u00e3o no Egito,revelam nossa condi\u00e7\u00e3o existencial neste mundo. Todos nascemos e vivemos escravos e desterrados e, ao mesmo tempo, destinados a sermos livres e felizes na &#8220;terra dos viventes&#8221;(Sl.29). Fomos chamados e predestinados por Deus para uma vida eterna e feliz. Levamos essa voz no instinto de vida e felicidade, inato em todo ser vivo. O profeta Jeremias, no s\u00e9culo VI a.C. , faz ressoar essa voz no meio do seu povo exilado, dizendo em nome de Deus: &#8220;Eis que trago de volta o meu povo&#8221;. O Sl.125 ecoa esta alegria: &#8220;Quando o Senhor fez voltar os exilados de Si\u00e3o, ficamos como quem sonha: nossa boca se encheu de risos e nossa l\u00edngua de can\u00e7\u00f5es&#8221;. E compara este<br \/>\nparadigm\u00e1tico acontecimento de salva\u00e7\u00e3o ao semeador que, com certa tristeza, &#8220;chorando\u201d, leva as sementes ao campo, sem saber se as circunst\u00e2ncias ambientais lhe ser\u00e3o favor\u00e1veis. Mas, ap\u00f3s a exuberante colheita,&#8221;volta exultante trazendo os feixes&#8221;.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Viemos a este mundo na dor e nas l\u00e1grimas, mas temos de retornar felizes dizendo: &#8220;Que alegria quando me disseram: vamos \u00e0 casa do Senhor&#8221;(Sl 122). Se diz que, no Jap\u00e3o, quando uma crian\u00e7a nasce, as pessoas que lhe rodeiam choram e, quando morre, a festejam. Jesus professou esta mesma filosofia existencial: &#8220;Sa\u00ed do Pai e vim ao mundo. Agora deixo este mundo e volto ao Pai&#8221; (Jo.16,28). E acrescentou: &#8220;Eu vou e voltarei para-vos levar comigo&#8221; (Jo.14,3). Fazendo de si mesmo nosso pr\u00f3prio caminho. Agora, com Ele, \u00e9 mais f\u00e1cil e seguro irmos a Deus, ap\u00f3s este nosso ex\u00edlio.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Deus nos predestinou antes de vir a este mundo para termos Sua mesma vida divina, eterna e feliz. \u00c9 um dom irrevog\u00e1vel e um porvir irrevers\u00edvel, contrariando a tese de Freud: &#8220;N\u00e3o consta na natureza que fomos programados para sermos felizes&#8221;. Nosso futuro feliz n\u00e3o \u00e9 loteria do deus arbitr\u00e1rio Fortuna, nem conquista promet\u00eaica de nossos m\u00e9ritos. Ela \u00e9 projeto da Cria\u00e7\u00e3o de Deus, realizado em Cristo Ressuscitado em favor de todos, embora ainda que, por breve tempo, tenhamos de beber as l\u00e1grimas de nosso desterro. Temos por certa e segura a Vida Eterna e feliz em Cristo e, ao mesmo tempo, sofremos na presente condi\u00e7\u00e3o o pecado, a dor e a morte, seguindo a l\u00f3gica da encarna\u00e7\u00e3o de Deus.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">J\u00e1, mas ainda n\u00e3o.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Oscar Cullmann conciliava esta aparente contradi\u00e7\u00e3o existencial da Salva\u00e7\u00e3o dizendo: &#8220;J\u00e1, mas ainda n\u00e3o&#8221;. Estamos salvos na esperan\u00e7a (Rm.8). Esperan\u00e7a qualificada pelo papa Bento XVI, de &#8220;substancial&#8221;, isto \u00e9, real, segura e certa. Ela nos permite relativizar nossas alegrias e tristezas neste mundo, pois s\u00e3o passageiras, e nos brinda a Vida, imortal e gloriosa, s\u00f3 poss\u00edvel em Deus. Viver sem vida, dizia Santo Irineu (s\u00e9c. II) \u00e9 imposs\u00edvel para n\u00f3s e para Deus. Ele \u00e9 o Deus de vivos e sua gl\u00f3ria \u00e9 que, Nele, todos vivamos felizes eternamente. Por isso, culturalmente, identificamos o inferno com a morte eterna, sem Deus que, para Ele e para n\u00f3s, \u00e9 algo imposs\u00edvel. De fato, Deus n\u00e3o nos d\u00e1 seu amor e vida separados Dele nem de todas suas criaturas. Seu plano de Salva\u00e7\u00e3o \u00e9 divino, comunit\u00e1rio e c\u00f3smico. Nossa vida feliz e a do pr\u00f3prio Deus s\u00e3o incompletas at\u00e9 o fim dos tempos, quando tudo estiver em comunh\u00e3o com Ele.<br \/>\nNo sublime dito brasileiro: &#8220;Vai com Deus&#8221;, h\u00e1 mais sabedoria do que nas teologias de todos os tempos. Quem vai com Deus leva consigo a Vida, que por ser divina e eterna, nenhum para\u00edso a precede, nem nenhuma morte a interrompe. Ela est\u00e1 presente e operante em nosso cotidiano como &#8220;a\u00e7\u00e3o-dom&#8221; de Deus, embora, desde nossa condi\u00e7\u00e3o humana, podemos nos sentir privados dela por causa de nossos pecados. Jesus veio<br \/>\ncorrigir essa nossa \u00f3tica negativa da Salva\u00e7\u00e3o dizendo: &#8221; Eu n\u00e3o vim condenar sen\u00e3o salvar&#8221; .&#8221; Vim para que todos tenham Vida&#8221; (Jo.10,10). &#8221; Em Cristo n\u00e3o h\u00e1 mais condena\u00e7\u00e3o&#8221; (Rm.8,1). A condena\u00e7\u00e3o se faz presente na consci\u00eancia dos que carecem de F\u00e9. Or\u00edgenes (s\u00e9c. III) considerava a condena\u00e7\u00e3o como um sentimento pedag\u00f3gico para nossa propria convers\u00e3o ou retorno a Deus; sem o inferno o C\u00e9u se tornaria menos importante e desej\u00e1vel. &#8220;Ganha-se a Luz desde o inferno&#8221;, diz Loon Felipe, poeta espanhol exilado no M\u00e9xico. Kierkegaard (s\u00e9c. XIX) via na ang\u00fastia e no desespero a origem da F\u00e9. Quando tocamos nosso limite, resta-nos esperar por Deus. Ele existe, diz Santo Tom\u00e1s de Aquino, precisamente porque existe o mal, para dele nos libertar.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">A gl\u00f3ria de Deus escurece provisoriamente na sombra da cruz \u00e0 espera de brilhar radiante na Ressurrei\u00e7\u00e3o. N\u00e3o s\u00f3 a Ressurrei\u00e7\u00e3o \u00e9 o fundamento da nossa F\u00e9 , como defende S\u00e3o Paulo, tamb\u00e9m sua paix\u00e3o e morte. Sem a crucifix\u00e3o de Cristo, Sua Ressurrei\u00e7\u00e3o seria mais uma utopia, fruto de nosso desejo imperioso e instintivo de viver. O realismo da nossa Salva\u00e7\u00e3o consiste em que, na nossa condi\u00e7\u00e3o humana e c\u00f3smica, sujeita ao pecado, \u00e0 dor e \u00e0 morte, Cristo a faz Sua na Sua morte de cruz, como Deus encarnado. E na Sua Ressurrei\u00e7\u00e3o todos somos vivificados e divinizados gloriosamente.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">A Ressurrei\u00e7\u00e3o nos revela a Vida al\u00e9m da morte. A Encarna\u00e7\u00e3o mostra-nos que essa Vida para a qual fomos criados \u00e9 a mesma Vida de Deus. Imposs\u00edvel at\u00e9 de ser pensada por n\u00f3s, mas vontade inquebrant\u00e1vel de Deus, como nos revela a carta aos Hebreus.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">&#8220;TU \u00c9S MEU FILHO, HOJE EU TE GEREI&#8221; (Hb. 5,1-6)<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Se essa filia\u00e7\u00e3o divina fosse exclusiva de Cristo, dita afirma\u00e7\u00e3o n\u00e3o seria verdadeira, pois sendo Cristo o Filho eterno de Deus Pai, n\u00e3o poderia ser gerado &#8220;hoje&#8221;, na dimens\u00e3o hist\u00f3rica do tempo. Somos n\u00f3s, portanto, os que em Cristo somos gerados filhos de Deus, conforme se nos revela Jo.1: &#8220;Aquele que recebe a Cristo, torna-se filho de Deus. N\u00e3o nascido da carne e vontade humana, mas do pr\u00f3prio Deus&#8221;. E o ratifica na sua carta: &#8220;J\u00e1 somos filhos de Deus, embora isto seja algo n\u00e3o manifestado ainda&#8221; (1Jo.3,2). Nossa divindade \u00e9 radia\u00e7\u00e3o que ocorre ap\u00f3s a morte, na condi\u00e7\u00e3o de Ressuscitados. Custa-nos acreditar nessa grandeza. Seu mist\u00e9rio nos parece mentira embaixo da \u00e1rvore da Cruz e neste vaso de barro da vida terrena. A dicotomia natural e sobrenatural foi abolida em Cristo. O te\u00f3logo franc\u00eas, Blondel (s\u00e9c.XIX) e no nosso tempo Rahner, consideram o sobrenatural e transcendente uma essencial e constitutiva dimens\u00e3o humana. Depois de Cristo n\u00e3o \u00e9 mais poss\u00edvel sermos \u00f4ntica e antropologicamente ateus. Tertuliano (s\u00e9c.III) dizia: &#8220;O homem \u00e9 naturalmente crist\u00e3o&#8221; e, se de Cristo, tamb\u00e9m \u00e9 de Deus.&#8221; Somos de Deus e a Ele pertencemos&#8221; lemos em um dos salmos. N\u00e3o \u00e9 Deus quem se separa de n\u00f3s por causa de nossos pecados, mas n\u00f3s que nos &#8220;sentimos&#8221; separados Dele, como revela a Par\u00e1bola do Filho Pr\u00f3digo. O pai n\u00e3o aceita a confiss\u00e3o do seu filho ao retornar \u00e0 sua casa: &#8220;N\u00e3o mere\u00e7o ser chamado e tido como seu filho&#8221;.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">No passado e ainda hoje no Brasil, havia uma introdu\u00e7ao na Eucaristia, antes da recita\u00e7\u00e3o do Pai-Nosso : &#8220;Seguindo os ensinamentos de Jesus ousamos dizer: Pai Nosso&#8221;. De fato, \u00e9 uma ousadia chamar Deus de Pai, sendo pecadores. Mas, a Gra\u00e7a de Deus transcende todo c\u00e1lculo humano. &#8220;O Esp\u00edrito (Gra\u00e7a) clama em nosso esp\u00edrito: &#8220;Abba, Pai&#8221; (Gl.4,6)<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">&#8220;SENHOR, QUE EU VEJA&#8221; (Mc. 10,46-52)<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">O epis\u00f3dio da cura do cego de Jeric\u00f3 foi usado na Igreja dos primeiros s\u00e9culos como paradigma catequ\u00e9tico da inicia\u00e7\u00e3o crist\u00e3 no itiner\u00e1rio da F\u00e9. Para pedir o dom da F\u00e8, que nos concede o Batismo, \u00e9 preciso sentir-se cego, n\u00e3o encontrar sentido na pr\u00f3pria vida, guiada pela raz\u00e3o. O profeta Isa\u00edas diz que todo ser humano nasce e vive nas trevas, &#8220;como cegos apalpando as paredes&#8221;. (Is.59,10). H\u00e1 uma cegueira da mente e uma outra n\u00e3o menos grave no cora\u00e7\u00e3o. Buscamos a verdade e raz\u00e3o das coisas, mas encontramos mais perguntas do que respostas. Ignoramos o verdadeiro ser do que existe, seu porqu\u00ea e para qu\u00ea. Como disse Plat\u00e3o, percebemos apenas sua sombra. Por que h\u00e1 o ser e n\u00e3o o nada? Que somos, n\u00f3s, Deus e o mundo? De onde viemos e para onde vamos? H\u00e1 vida ap\u00f3s a morte? Por que lutamos pela vida tendo por certa e inexor\u00e1vel a derrota da morte? Por que existe o mal? Se Cristo veio nos salvar, por que demora-se nossa Salva\u00e7\u00e3o do pecado, da dor e da morte, inclusive, at\u00e9 receamos nossa poss\u00edvel condena\u00e7\u00e3o? Se a F\u00e9 \u00e9 um dom de Deus, capaz de<br \/>\ntransportar montanhas, por que n\u00e3o temos essa F\u00e9 e vivemos dominados pela fragilidade e pelo medo?&#8230; No cora\u00e7\u00e3o, sede dos sentimentos, tamb\u00e9m somos cegos. Trope\u00e7amos continuamente uns nos outros. Nosso conv\u00edvio, no lar, nas cidades e no mundo, \u00e9 conflitivo. Escrevemos a hist\u00f3ria humana com sangue derramado pelo \u00f3dio, pelas guerras, injusti\u00e7as e pela viol\u00eancia. Por que n\u00e3o nos amamos e somos fraternos? Por que experimentamos nossa exist\u00eancia de maneira culpada, incapazes de evitar o mal e fazer o bem? Nossa cegueira \u00e9, pois, existencial, maneira de ser neste mundo.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Confirmados por quatro paredes<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Jaspers (s\u00e9c. XX) diz que todos n\u00f3s vivemos confinados por quatro muros intranspon\u00edveis: da dor, culpa, luta pela vida e da morte. Nossa \u00fanica sa\u00edda \u00e9 olharmos para o alto. O cego de Jeric\u00f3, que \u00e9 cada um de n\u00f3s, nos faz gritar: &#8220;Jesus, tem compaix\u00e3o de mim e faz que eu veja&#8221;. Nenhum outro nos pode conceder a vis\u00e3o ou sentido da vida, como Ele mesmo declarou: &#8220;Eu sou a Luz do mundo. Quem cr\u00ea em mim tem a Luz da Vida&#8221; (Jo.8,12). O pr\u00f3prio Abra\u00e3o, pai da f\u00e9, almejou ver essa Luz (Jo.8). Em Ap.1,7 vem profetizado que todas as na\u00e7\u00f5es ver\u00e3o a Luz de Cristo. Sem Ele, n\u00f3s e o universo, carecemos de olhos, jazemos mergulhados numa intermin\u00e1vel noite, como reconheceu Nietzsche ap\u00f3s ter proclamado a &#8220;morte de Deus&#8221;. Precisamente, Deus, do s\u00e2nscrito, &#8220;di&#8221;, significa luz ou dia. Nossa maior cegueira consiste em acreditar que vemos com os olhos da \u201cdeusa raz\u00e3o\u201d. Por isso, Jesus diz aos que assim pensam: &#8220;Eu vim para que os que veem n\u00e3o vejam e os que n\u00e3o v\u00eaem vejam.&#8221; \u201cE quem me v\u00ea a Mim, v\u00ea a Deus&#8221; (Jo.14,19). O olhar que nos permite ver a Luz divina de Jesus neste mundo \u00e9 a F\u00e9, um ato de liberdade pelo qual decidimos radicalmente esperar a Vida s\u00f3 de Deus, descartando qualquer outra possibilidade, te\u00f3rica ou pr\u00e1tica. Nesse sentido, o papa S\u00e3o Pio X dizia que a Salva\u00e7\u00e3o que a F\u00e9 nos concede t\u00eam de ser objetiva e hist\u00f3rica, nem sequer a esperan\u00e7a dela nos serve. Temos de nos sentir j\u00e1 neste mundo filhos de Deus, portadores da Vida Eterna. &#8220;Antes eu acreditava, agora s\u00f3 creio em Deus&#8221; (Chesterton).<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Vejamos, brevemente, o itiner\u00e1rio da nossa F\u00e9 atrav\u00e9s da figura do cego de Jeric\u00f3.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">&#8220;O CEGO GRITOU: JESUS TEM COMPAIX\u00c3O DE MIM.&#8221;<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\u00c9 o grito que, numa situa\u00e7\u00e3o limite, tem at\u00e9 os ateus clamando: &#8220;Ai, meu Deus!&#8221; A F\u00e9 nasce da ang\u00fastia existencial, segundo Kierkegaard. \u00c9 preciso, como Jac\u00f3, sentir-se ferido de morte na noite da raz\u00e3o para se assegurar ao pesco\u00e7o de Deus. Todos acabaremos experimentando essa cegueira, antes ou depois, ainda que seja no desespero. Um dos turistas espaciais dos USA, dizia estes dias: &#8220;Quando ao sair do espa\u00e7o terrestre, seu manto azul desapareceu, vi a Deus. Talvez seja a experi\u00eancia da morte, trevas que d\u00e3o lugar \u00e0 luz&#8221;. \u00c9 claro que \u00e9 melhor ver j\u00e1, no caminho desta vida presente, encontrando pela F\u00e9 seu verdadeiro sentido.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">&#8220;ALGU\u00c9M DISSE AO CEGO: ELE TE CHAMA. DEIXANDO SEU MANTO, ELE DEU UM PULO E FOI AT\u00c9 JESUS.&#8221;<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Aquele manto era sua pr\u00f3pria casa, como podemos ver nos pobres que moram nas ruas. A F\u00e9 exige uma radicalidade de ren\u00fancia total at\u00e9 de n\u00f3s mesmos, para mergulhar com todo nosso ser em Deus. Pela F\u00e9, tudo o que temos o recebemos de Deus; sabemos ent\u00e3o viver, diz S\u00e3o Paulo, na abund\u00e2ncia e na indig\u00eancia, nas alegrias e tristezas. Tudo se torna relativo, porque Deus \u00e9 nosso \u00fanico absoluto. N\u00e3o \u00e9 f\u00e1cil dar esse pulo do cego de Jeric\u00f3, mas todos daremos.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">&#8220;JESUS LHE DISSE: QUE QUERES QUE EU TE FA\u00c7A? &#8211; QUE EU VEJA, RESPONDEU O CEGO.&#8221;<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\u00c9 o mesmo di\u00e1logo que tivemos no rito do Batismo: &#8220;Que pedes?&#8221;- &#8220;A F\u00e9&#8221;. O que te d\u00e1 a F\u00e9&#8221;- A Vida Eterna&#8221;. O batizando recebe do C\u00edrio Pascal, a Luz de Cristo, uma vela acesa, s\u00edmbolo da F\u00e9 a dar sentido e esperan\u00e7a \u00e0 sua vida. Por isso, os rec\u00e9m batizados eram chamados &#8220;iluminados&#8221;. Antes eram cegos, agora podem ver no meio da noite do sofrimento, do pecado e da morte.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">&#8220;O CEGO, VENDO, SEGUIU JESUS PELO CAMINHO.&#8221;<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Jesus ia a Jerusal\u00e9m, n\u00e3o para fazer turismo nem ver milagres, mas morrer na cruz onde se apagam todos os sois deste mundo. S\u00f3 aquele que tem a F\u00e9 cruza o vale da morte sem temer mal algum, pois a F\u00e9 nos concede a Vida Eterna e gloriosa de Cristo Ressuscitado. Aparentemente, afirma Santo Agostinho, n\u00e3o h\u00e1 diferen\u00e7a entre aquele que cr\u00ea e quem n\u00e3o cre. Ambos vivem neste mundo, mas um \u00e9 vidente e o outro cego. Um espera o amanhecer e o outro \u00e9 v\u00edtima do desespero da noite. Consola-nos a promessa de Jesus: &#8220;Eu vim para que os que nao v\u00eaem, vejam&#8221;. Finalmente, todos veremos a mesma Luz, que \u00e9 Deus.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">&#8220;TU \u00c9S MEU FILHO, HOJE EU TE GEREI&#8221; (Hb. 5,1-6)<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Padre Jesus Priante<br \/>\nEspanha<br \/>\n(Edi\u00e7\u00e3o por Malcolm Forest. S\u00e3o Paulo.)<br \/>\nCopyright 2021 Padre Jesus Priante.<br \/>\nDireitos Reservados.<br \/>\nCompartilhe mencionando o nome do autor, se poss\u00edvel.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Na d\u00e9cada de 1980, Carlos Mesters publicava no Brasil um pequeno e emblem\u00e1tico livro com esse t\u00edtulo. Nele desmentia o mito do Para\u00edso que, porque nunca existiu, nunca foi perdido. No entanto ser\u00e1 sempre nossa grande UTOPIA (um \u201cn\u00e3o lugar\u201d) sem a qual nao podemos superar as TOPIAS (situa\u00e7\u00f5es) deste mundo DIST\u00d3PICO, onde tudo est\u00e1 [&hellip;]<\/p>\n","protected":false},"author":1,"featured_media":70864,"comment_status":"open","ping_status":"closed","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"footnotes":""},"categories":[4,13],"tags":[],"class_list":["post-70863","post","type-post","status-publish","format-standard","has-post-thumbnail","hentry","category-cotidiano","category-featured"],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/catolicanet.net\/wp-cnet\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/70863","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/catolicanet.net\/wp-cnet\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/catolicanet.net\/wp-cnet\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/catolicanet.net\/wp-cnet\/wp-json\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/catolicanet.net\/wp-cnet\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=70863"}],"version-history":[{"count":1,"href":"https:\/\/catolicanet.net\/wp-cnet\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/70863\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":70865,"href":"https:\/\/catolicanet.net\/wp-cnet\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/70863\/revisions\/70865"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/catolicanet.net\/wp-cnet\/wp-json\/wp\/v2\/media\/70864"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/catolicanet.net\/wp-cnet\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=70863"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/catolicanet.net\/wp-cnet\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=70863"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/catolicanet.net\/wp-cnet\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=70863"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}