{"id":70643,"date":"2021-10-17T08:41:53","date_gmt":"2021-10-17T11:41:53","guid":{"rendered":"https:\/\/catolicanet.net\/wp-cnet\/?p=70643"},"modified":"2021-10-15T13:46:45","modified_gmt":"2021-10-15T16:46:45","slug":"o-misterio-ar-que-nos-permite-respirar-cartas-do-padre-jesus-priante","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/catolicanet.net\/wp-cnet\/o-misterio-ar-que-nos-permite-respirar-cartas-do-padre-jesus-priante\/","title":{"rendered":"O Mist\u00e9rio, ar que nos permite respirar &#8211; Cartas do Padre Jesus Priante"},"content":{"rendered":"<p style=\"text-align: justify;\">O termo Mist\u00e9rio tem duplo sentido: o que \u00e9 secreto e o que est\u00e1 al\u00e9m da nossa capacidade racional de entender e de sermos n\u00f3s mesmos. Sem nossa abertura ao Mist\u00e9rio, afirma Gabriel Marcel, nossa vida torna-se irrespir\u00e1vel. A realidade e a verdade das coisas existentes, assim como dos fatos, \u00e9 superior \u00e0 nossa poss\u00edvel compreens\u00e3o humana.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Conhecemos apenas as apar\u00eancias, mas n\u00e3o a realidade em si mesma. Continua v\u00e1lido o princ\u00edpio aristot\u00e9lico: &#8220;Nada est\u00e1 no entendimento, sem antes passar pelos sentidos&#8221;. O<br \/>\nm\u00e1gico conhecimento que Arist\u00f3teles pensou obter pela milagrosa &#8220;abstra\u00e7\u00e3o&#8221; da mente, capaz de capturar a &#8220;subst\u00e2ncia&#8221; ou realidade profunda das coisas, \u00e9 mais conjectura e ilus\u00e3o do que verdade. De fato, conhecemos, por exemplo, os objetos feitos de madeira (uma mesa, cadeira, arm\u00e1rio ou t\u00e1bua) mas n\u00e3o o que \u00e9 a madeira. Um franc\u00eas, seguindo esta tese do mist\u00e9rio da realidade, n\u00e3o vai \u00e0 padaria comprar p\u00e3o sem a faca do partitivo &#8220;du&#8221;, para poder cortar uma por\u00e7\u00e3o do &#8220;p\u00e3o&#8221; que todas as padarias do mundo n\u00e3o podem ter ou fazer. A &#8220;subst\u00e2ncia&#8221; ou realidade do p\u00e3o em si mesma n\u00e3o cabe nos nossos sentidos nem na nossa raz\u00e3o. Este exemplo aplica-se a todo ente. Santo Tom\u00e1s de Aquino conta que certa pessoa dedicou 30 anos para conhecer o que era uma formiga, e acabou confessando no fim da sua \u00e1rdua pesquisa ignorar seu ser mais ainda do que quando come\u00e7ou. &#8220;Sei que nada sei&#8221;, era a grande convic\u00e7\u00e3o do pai da consci\u00eancia, S\u00f3crates (s\u00e9c. V aC) .<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Nicolas de Cusa (s\u00e9c. XIV) chamou essa sabedoria socr\u00e1tica &#8220;douta ignor\u00e2ncia&#8221;. Popper professa essa mesma ignor\u00e2ncia cient\u00edfica, dizendo que toda verdade \u00e9 &#8220;false\u00e1vel&#8221;, isto \u00e9, o que hoje sabemos tem de ser desmentido amanh\u00e3. Tudo \u00e9 mist\u00e9rio porque tudo existe e subsiste em Deus, maior do que nossa raz\u00e3o, do que n\u00f3s e do mundo que habitamos.<br \/>\nH\u00e1 dois enigmas ou mist\u00e9rios que n\u00e3o podemos desvendar: a Cria\u00e7\u00e3o e a Salva\u00e7\u00e3o ou, de outra maneira, a origem e o fim da realidade existente. Por que h\u00e1 ser e n\u00e3o nada? Como e para que veio \u00e0 luz o ser das coisas que chamamos universo? Como se acendeu a sublime fa\u00edsca da vida? Por que tudo o que conhecemos caduca e morre? De onde viemos e para onde vamos?<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Por que e para que existe o mal? Tudo quanto existe abisma-se no Mist\u00e9rio. Ignoramos sua origem e sua finalidade \u00faltima. O que temos por certo \u00e9 que, n\u00f3s e este mundo que conhecemos, tem de ser de outra maneira. Atribuir a origem do universo a uma casual explos\u00e3o de uma bola de gude de incomensur\u00e1vel densidade, como pretende explicar a teoria do Big-Bang, \u00e9 o maior dos mitos e contr\u00e1rio \u00e0 toda ci\u00eancia. Mas a cren\u00e7a num Deus Criador que do nada fez tudo quanto existe, tamb\u00e9m mergulha-nos no mist\u00e9rio, pois um Deus que s\u00f3 pode ser poderoso e bom, jamais poderia ser racionalmente autor do mal. Este mist\u00e9rio chamado da &#8220;iniquidade&#8221; nos acompanhar\u00e1 at\u00e9 o fim dos tempos. &#8220;Por que existe o joio (mal) no meio do trigo (bem)? &#8221; perguntaram os disc\u00edpulos a Jesus. Ele limitou-se a dizer: &#8220;Um inimigo fez isso&#8221;. Mas quem e com que poder esse misterioso inimigo faria isso?. Um deus mau negaria a exist\u00eancia do Deus bom, pois nenhum deles seria Deus, limitando-se mutuamente o poder . Topamos assim com esse outro grande Mist\u00e9rio, o Mist\u00e9rio da Salva\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Atribuir o mal ao pecado de Ad\u00e3o ou dos anjos diab\u00f3licos, carece de todo fundamento racional. Uma simples criatura, terrena ou celestial, n\u00e3o teria capacidade para produzir tamanho mar de l\u00e1grimas que conhecemos.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">A Salva\u00e7\u00e3o, explicada em termos de repara\u00e7\u00e3o ou reden\u00e7\u00e3o duma ordem paradis\u00edaca perdida pelo pecado, para salvar a &#8220;justi\u00e7a&#8221; de Deus, compromete seu amor e a sua bondade. Entender o mal como &#8220;car\u00eancia do bem&#8221; em um mundo ainda inaacabado seria mais coerente e racional, mas nos levaria a perguntar: por que Deus n\u00e3o criou o mundo pleno de ser e vida desde sua origem?&#8230; O mist\u00e9rio continua e ainda fica maior com a vinda de Jesus Cristo, com a \u00fanica finalidade de nos Salvar. Por que Deus se fez homem a morrer crucificado, impotente, acusado de blasfemo e malfeitor? Nenhuma explica\u00e7\u00e3o racional desvenda esse mist\u00e9rio. No entanto, assim como um mundo n\u00e3o criado por Deus n\u00e3o pode ser pensado sensatamente, menos ainda a Salva\u00e7\u00e3o desse mesmo mundo do seu mal atrav\u00e9s de um Deus crucificado, conforme se nos revelam as leituras deste domingo.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">&#8220;QUEM PODERIA CRER NO QUE NOS FOI REVELADO?&#8230; DEPOIS DOS SEUS SOFRIMENTOS E MORTE, O SERVO DE DEUS VER\u00c1 A LUZ E SER\u00c1 CUMULADO DE VIDA&#8221; (Is. 53,1-11).<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">O Mist\u00e9rio da Salva\u00e7\u00e3o revelado por Deus ao profeta Isa\u00edas carece de toda l\u00f3gica racional . Como \u00e9 poss\u00edvel que nos venha \u00e0 sa\u00fade atrav\u00e9s do mesmo veneno do pecado, da dor e da morte? Em J\u00f2 5, o esc\u00e2ndalo ainda \u00e9 maior: &#8220;Deus fere para curar&#8221; E S\u00e3o Paulo concorda com este absurdo dizendo: &#8220;Deus nos encerrou no pecado para ser misericordioso conosco&#8221; ( Rm.3).<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">O profeta Isa\u00edas inicia este paradoxal poema ou c\u00e2ntico do Mist\u00e9rio da Salva\u00e7\u00e3o perguntando o que n\u00e3o podemos entender nem mesmo pela F\u00e9: &#8220;Quem poderia crer?&#8221; No entanto, o Messias, o mesmo Deus na pessoa de Jesus de Nazar\u00e9, encarnou esta profecia e Nele ela foi cumprida, carregando nossos pecados, nossas dores e mortes, para serem transformados gloriosamente pela Sua morte e Ressurrei\u00e7\u00e3o. Esta, nos diz Sao Paulo, \u00e9 a \u00fanica raz\u00e3o que fundamenta nossa F\u00e9. Mas, o Mist\u00e9rio da Salva\u00e7\u00e3o continua do mesmo jeito. Cristo nos Salvou na Sua paix\u00e3o, morte e Ressurrei\u00e7\u00e3o, mas este drama permanece, com maior intensidade se cabe na nossa exist\u00eancia e no mundo que habitamos. O sol da Ressurrei\u00e7\u00e3o que apenas &#8220;transpareceu&#8221; aos olhos dos disc\u00edpulos de Jesus e a outras pessoas de Jerusal\u00e9m na manh\u00e3 de domingo ap\u00f3s sua crucifix\u00e3o continua oculto nas nuvens do pecado, da dor e da morte que paira sobre n\u00f3s. Racionalmente, todos ter\u00edamos os mesmos argumentos para crer ou n\u00e3o crer, pois a Salva\u00e7\u00e3o, que tornou-se fato em Cristo, s\u00f3 ser\u00e1 desvendada para n\u00f3s no fim da nossa vida terrena e, no fim dos tempos, para toda a Cria\u00e7\u00e3o. A posteriori, da mesma maneira que uma cria\u00e7\u00e3o sem seu Deus criador torna-se mais enigm\u00e1tica e escura, tamb\u00e9m, se n\u00e3o nos abrimos ao mist\u00e9rio da Salva\u00e7\u00e3o de um Deus crucificado, morto e Ressuscitado, nossa exist\u00eancia fica asfixiada, v\u00edtima do pecado, da dor e da morte que n\u00e3o podemos vencer. \u00c9 bom que exista um Deus criador e que este mesmo Deus seja tamb\u00e9m Salvador. Ambos mist\u00e9rios alongam-se no horizonte da esperan\u00e7a que nos reporta a uma vida eterna e feliz em Deus. A B\u00edblia n\u00e3o nos revela o porqu\u00ea do sofrimento da vida presente, mas sim o valor e a finalidade derivados do mesmo, que \u00e9 nossa Salva\u00e7\u00e3o. Jesus o qualificou de &#8220;necess\u00e1rio&#8221; (Lc.24) e S\u00e2o<br \/>\nPaulo o ratifica: &#8220;porque \u00e9 atrav\u00e9s de muitos sofrimentos que entraremos na Vida Eterna&#8221;.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">A Salva\u00e7\u00e3o se torna mais problem\u00e1tica e misteriosa quando desvinculamos os dois p\u00f3los que , unidos, a tornam luminosa: o polo negativo do pecado, dor e morte; e o polo positivo da Ressurrei\u00e7\u00e3o. Se ficarmos apenas na trag\u00e9dia da vida terrena, sujeita a todo tipo de mal, a ang\u00fastia e o desespero s\u00e3o nossa \u00fanica sa\u00edda. &#8220;Quem n\u00e3o se angustia est\u00e1 de m\u00e1 f\u00e9&#8221; dizia Sartre. E S\u00e3o Paulo, ele nos considera as criaturas mais desgra\u00e7adas da Cria\u00e7\u00e3o se vivermos apenas para este mundo. Tamb\u00e9m n\u00e3o podemos ficar no triunfo glorioso da Ressurrei\u00e7\u00e3o, que s\u00f3 temos, embora de maneira segura e certa, no claro-escuro da esperan\u00e7a. Por isso, segundo o grande te\u00f3logo alem\u00e3o Von Balthasar, o s\u00edmbolo mais emblem\u00e1tico e sublime do Mist\u00e9rio da nossa Salva\u00e7\u00e3o \u00e9 o<br \/>\nC\u00edrio Pascal. Nele aparece a luz que surge da mat\u00e9ria inerte da cera, significando a vit\u00f3ria do pecado e da morte em Cristo Ressuscitado.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">No entanto, nesse mesmo C\u00edrio Pascal, s\u00e3o inseridos cinco graus de incenso, s\u00edmbolos das cinco chagas de Cristo crucificado, para nos revelar que, mesmo j\u00e1 salvos, dor, pecado e morte permanecem em n\u00f3s e no mundo, que somos seu Corpo, at\u00e9 o fim dos tempos, quando toda a Cria\u00e7\u00e3o seja revestida de gl\u00f3ria, livre de todo mal. Esse final feliz, inaugurado na pessoa de Jesus de Nazar\u00e9, ap\u00f3s sua morte, acontece em cada um de n\u00f3s ao deixarmos este vale de l\u00e1grimas. A Salva\u00e7\u00e3o precisa passar por esse vale escuro do sofrimento e da morte, mas unidos a Cristo. Seu morrer \u00e9 nosso morrer e sua Ressurrei\u00e7\u00e3o \u00e9 a nossa Ressurrei\u00e7\u00e3o. Esta leitura pascal, ainda que misteriosa, \u00e9 a \u00fanica poss\u00edvel para dar sentido \u00e0 nossa exist\u00eancia e ao mundo que habitamos.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Se Cristo n\u00e3o ressuscitou e n\u00f3s com Ele, v\u00e3 \u00e9 nossa f\u00e9 e absurda a nossa vida. Mas sem a Sua morte de cruz, a Ressurrei\u00e7\u00e3o seria mito e ilus\u00e3o. A Salva\u00e7\u00e3o \u00e9 essencialmente escatol\u00f3gica, refere-se ao fim da Hist\u00f3ria, pessoal e universal.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">&#8220;TEMOS UM SUMO SACERDOTE,QUE ATRAVESSOU OS C\u00c9US, JESUS, FILHO DE DEUS&#8230; PERMANE\u00c7AMOS FIRMES NESSE F\u00c9&#8230; E APROXIMEMOS-NOS DO TRONO DA GRA\u00c7A&#8221; (Hb.4,14-16).<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Embora com reminisc\u00eancias de uma mentalidade religiosa, inerente ao ser humano na cultura de todos os povos que ainda n\u00e3o conhecem Cristo, que entendem a Salva\u00e7\u00e3o como uma reconcilia\u00e7\u00e3o ou &#8220;religa\u00e7\u00e3o&#8221; com Deus atrav\u00e9s de sacerdote ou mediador, o texto nos revela o Mist\u00e9rio da Salva\u00e7\u00e3o de maneira mais sublime, n\u00e3o pelos nossos m\u00e9ritos, mas pela gra\u00e7a de Deus , que \u00e9 Cristo. Ele atravessou os c\u00e9us no dia da Sua Ascens\u00e3o e nos leva consigo, para &#8220;estarmos onde Ele est\u00e1&#8221; (J\u00f4.14).<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">O papa Le\u00e3o Magno (s\u00e9c.V), comentando o Mist\u00e9rio da Ascens\u00e3o de Jesus, diz que este fato, presenciado por seus disc\u00edpulos, \u00e9 a maior prova de nossa Salva\u00e7\u00e3o. Se Ele, cabe\u00e7a da humanidade e de toda a Cria\u00e7\u00e3o, est\u00e1 fora das \u00e1guas do mar do pecado e da morte, no qual estamos ainda mergulhados, todos, com Ele, Cristo Jesus, seremos Salvos, pois ningu\u00e9m se afoga apenas tendo os p\u00e9s ou corpo na \u00e1gua se nossa cabe\u00e7a, o pr\u00f3prio Jesus Cristo, est\u00e1 fora dela. Cristo \u00e9 mais do que Sumo Sacerdote ou Pont\u00edfice, ponte, mediador, da nossa Salva\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">O Mist\u00e9rio da Encarna\u00e7\u00e3o que nos une onticamente a Deus, n\u00e3o se restringe \u00e0 pessoa hist\u00f3rica de Jesus de Nazar\u00e9, Ele se fez &#8220;carne&#8221; na nossa carne humana e, por extens\u00e3o, em toda a Cria\u00e7\u00e3o, para sermos divinizados. Na sua carne pessoal, santa e divina, em Bel\u00e9m, assumiu nossa carne de pecado, dor e morte, morrendo numa cruz, e n\u00e3o como castigo ou &#8220;redentor&#8221; de um mundo escravizado ao mal,<br \/>\nmas como dom e a maneira de Deus nos Salvar. Se, para Deus criar o mundo, teve de se separar dele, na dor, como a crian\u00e7a do seu lar materno, pela sua gra\u00e7a salvadora em Cristo, retornamos ao mesmo seio materno divino de onde sa\u00edmos. Cristo \u00e9 o &#8220;trono soberano da gra\u00e7a&#8221;, o pr\u00f3prio Deus que nos une a Ele. Admirado, S\u00e3o Paulo, exultava de alegria dizendo: &#8220;\u00c9 um Mist\u00e9rio t\u00e3o alto, t\u00e3o alto, que n\u00e3o o posso compreender&#8221;. Mas t\u00e3o necess\u00e1rio que, sem ele, n\u00e3o podemos viver.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">&#8220;O FILHO DO HOMEM N\u00c3O VEIO PARA SER SERVIDO, MAS PARA SERVIR E DAR VIDA A TODOS&#8221; (Mc.10,35- 45)<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Jesus vai transformando a mentalidade dos seus disc\u00edpulos que, como todos os judeus, esperavam um Messias salvador triunfante, encarnado na figura do Filho do Homem, anunciado pelo profeta Daniel. N\u00e3o passava pelas suas cabe\u00e7as que esse real e verdadeiro Messias seria o contemplado pelo profeta Isa\u00edas,como um &#8220;servo sofredor&#8221;, impotente e crucificado. Empolgados pelo poder dos Seus numerosos milagres, Lhe seguiram, acreditando ser Ele verdadeiro rei a instaurar o &#8220;reino eterno&#8221; e universal prometido ao venerado rei Davi. N\u00e3o se equivocaram nessa expectativa gloriosa, mas o Messias Salvador e Rei, veio por outro caminho, imposs\u00edvel de aceitar e entender pela raz\u00e3o humana. Por isso, lhes repetia: &#8220;meu Reino n\u00e3o \u00e9 deste mundo&#8221; nem para este mundo, regido pelo poder e dom\u00ednio sobre os outros. Sua derrota \u00e9 seu triunfo, sua morte \u00e9 a vida, sua entrega e servi\u00e7o aos outros \u00e9 seu estandarte e trono de Rei. E deixou estabelecido para todos os tempos um novo Reino, Eterno e Glorioso, destinado ao servo e ao escravo. Na Sua ceia derradeira, antes da Crucifix\u00e3o, alertou aos seus disc\u00edpulos: &#8220;Todos vos escandalizareis de mim&#8221;. De fato, assim aconteceu. Vendo-Lhe impotente, humilhado e condenado \u00e0 morte de cruz como escravo malfeitor, na condi\u00e7\u00e3o de s\u00fadito do imp\u00e9rio romano, todos Lhe abandonaram. Esse mesmo esc\u00e2ndalo de um Deus crucificado nos impede de ver Jesus como nossa verdadeira Salva\u00e7\u00e3o, ao menos como gra\u00e7a incondicional, segura e certa. &#8220;Se Ele salva os outros, por que n\u00e3o salva a si mesmo e a n\u00f3s?&#8221;, questionava um dos crucificados que morria ao lado de Jesus. Se Ele \u00e9 o Salvador do mundo, porque temos ainda que sofrer tantas desgra\u00e7as e males?<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">O Mist\u00e9rio da Salva\u00e7\u00e3o cresce na medida em que buscamos uma explica\u00e7\u00e3o. Reembasa todas as conquistas logradas em dire\u00e7\u00e3o ao &#8220;ainda n\u00e3o&#8221; que sonhamos alcan\u00e7ar, assim como suscita em n\u00f3s uma feliz suspeita e esperan\u00e7a no abismo da nossa desgra\u00e7a: &#8220;Quem sabe se ainda podemos ser Salvos&#8221;.<br \/>\nAcusados pela conting\u00eancia deste mundo, \u00e9 irracional n\u00e3o nos abrir ao Mist\u00e9rio da nossa Salva\u00e7\u00e3o. De Lubac, ex\u00edmio te\u00f3logo franc\u00eas, dizia: &#8220;Nada mais absurdo do que, tendo como absolutamente certa nossa morte, n\u00e3o acreditarmos na Ressurrei\u00e7\u00e3o de Cristo&#8221;. Embora a Vida Eterna e a imortalidade sejam postuladas pela raz\u00e3o, pois \u00e9 racionalmente imposs\u00edvel morrer dentro de n\u00f3s, a Salva\u00e7\u00e3o que nos brinda essa vida imortal e feliz, s\u00f3 a &#8220;conhecemos&#8221; pela F\u00e9 que nos vai madurecendo ao longo da nossa exist\u00eancia na vontade de nos inserirmos no plano salv\u00edfico de Deus realizado em Cristo, servo na Sua Paix\u00e3o e morte e Rei e Senhor na Sua Ressurrei\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">O Filho do Homem, o rei e Senhor do universo, n\u00e3o veio para ser servido, mas para servir e dar a vida a todos. A tradu\u00e7\u00e3o que os Evangelhos fazem destas palavras de Jesus, e que n\u00f3s repetimos, n\u00e3o transmitem seu verdadeiro sentido Salvador, quando, ao inv\u00e9s de dizermos: veio dar a vida a todos, usamos a preposi\u00e7\u00e3o &#8220;por&#8221;, como se sua morte fosse pre\u00e7o e n\u00e3o dom da nossa Salva\u00e7\u00e3o. N\u00e3o somos Salvos &#8220;pelas suas chagas&#8221; mas nas suas chagas que permanecem abertas nos nossos sofrimentos, no pecado e na morte. A figura do servo sofredor que nos salva e se encarna em n\u00f3s, n\u00e3o \u00e9 passiva. N\u00e3o sofremos \u00e0 toa ou de maneira est\u00f3ica e masoquista, mas como gestantes de uma nova e eterna Vida. Cristo integrou na Sua morte e Ressurrei\u00e7\u00e3o, o pecado, a dor e a morte do mundo de maneira positiva no Mist\u00e9rio da Salva\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">A noite da cruz nos leva \u00e0 luz da vida. Tamb\u00e9m a figura do servo inspira nossa ativa miss\u00e3o neste mundo. N\u00e3o pleiteamos com nosso trabalho e esfor\u00e7o posicionar-nos acima dos outros, mas prestar nosso melhor e mais eficiente servi\u00e7o em favor de todos. &#8220;Neste mundo, disse Jesus, os reis e poderosos tiranizam os povos. Entre voc\u00eas n\u00e3o dever\u00e1 ser assim. Aquele que quiser ser o primeiro, seja o servo de todos&#8221;. Nesta maratona s\u00e3o poucos os que correm, nem sequer os que &#8220;profissionalmente&#8221; pela sua voca\u00e7\u00e3o s\u00e3o chamados a dedicar sua vida a servir e cuidar dos outros, como seriam os religiosos. O carreirismo clerical, adverte o Papa Francisco, est\u00e1 presente em todos os tempos.&#8221;Precisamos de pastores com cheiro de ovelhas&#8221;. Os &#8220;chap\u00e9us&#8221; nos fazem perder a cabe\u00e7a evang\u00e9lica.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">A fachada das faixas, hoje t\u00e3o rid\u00edculas no peito de nossos governantes, lhes dispensam suas m\u00e3os para servir. Entretanto, nada mais soberano e sublime do que ser \u00fatil e servidor dos outros. Lembro-me na Par\u00f3quia de Santa Rosa de Lima, em S\u00e3o Paulo,<br \/>\naqueles nossos &#8220;agapes&#8221; de comunh\u00e3o fraterna. Algumas pessoas serviam, esquecendo-se a si mesmas, t\u00e3o generosamente os alimentos aos outros o que lhes revestia de nobreza e eleg\u00e2ncia. Tinham alma de verdadeiras princesas e rainhas. Por isso, na Igreja Cat\u00f3lica, quando uma pessoa \u00e8 promovida a ser reconhecida como santa pela sua vida exemplar, o primeiro t\u00edtulo que recebe \u00e9 de &#8220;servo&#8221; , a seguir ser\u00e1 declarado beato e, finalmente, santo. Quem n\u00e3o for o \u00faltimo neste mundo n\u00e3o poder\u00e1 ser o primeiro no Reino dos C\u00e9us.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">A bandeira do crist\u00e3o \u00e9 o trapo de cozinha. O mais vil e desprez\u00edvel dos objetos da casa, mas o mais saud\u00e1vel e ben\u00e9fico de todos. Gra\u00e7as a ele, somos poupados das bact\u00e9rias que nos podem trazer muitas doen\u00e7as. Com os bra\u00e7os da mesma cruz de Nosso Senhor Jesus Cristo, sofrimento e servi\u00e7o, navegamos para o Reino de Deus.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Padre Jesus Priante<br \/>\nEspanha<br \/>\n(Edi\u00e7\u00e3o por Malcolm Forest. S\u00e3o Paulo.)<br \/>\nCopyright 2021 Padre Jesus Priante.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>O termo Mist\u00e9rio tem duplo sentido: o que \u00e9 secreto e o que est\u00e1 al\u00e9m da nossa capacidade racional de entender e de sermos n\u00f3s mesmos. Sem nossa abertura ao Mist\u00e9rio, afirma Gabriel Marcel, nossa vida torna-se irrespir\u00e1vel. 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