{"id":70641,"date":"2021-10-16T09:20:51","date_gmt":"2021-10-16T12:20:51","guid":{"rendered":"https:\/\/catolicanet.net\/wp-cnet\/?p=70641"},"modified":"2021-10-15T13:22:11","modified_gmt":"2021-10-15T16:22:11","slug":"sinodo-e-colegialidade","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/catolicanet.net\/wp-cnet\/sinodo-e-colegialidade\/","title":{"rendered":"S\u00ednodo e colegialidade"},"content":{"rendered":"<p style=\"text-align: justify;\">\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0 O Santo Padre, o Papa Francisco, convocou, para outubro de 2023, a 16\u00aa Assembleia Ordin\u00e1ria do S\u00ednodo dos Bispos, que tem por tema \u201cPor uma Igreja sinodal: comunh\u00e3o, participa\u00e7\u00e3o e miss\u00e3o\u201d e ser\u00e1 o ponto alto do processo de escutas diocesanas, nacionais e continentais. Na nossa Arquidiocese de S\u00e3o Sebasti\u00e3o do Rio de Janeiro, a abertura dos trabalhos ser\u00e1 no pr\u00f3ximo domingo dia 17 de outubro, como em todas as dioceses do mundo. Da\u00ed o nosso ardoroso convite \u00e0 sua empenhada participa\u00e7\u00e3o na ora\u00e7\u00e3o e nas demais atividades propostas.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0 Em seu <em>Discurso<\/em>, de 9 de outubro \u00faltimo, o Papa ressaltou alguns pontos oportunos do aspecto sinodal na Igreja e das metas que guiam este grande S\u00ednodo na luz de Deus (sentido vertical) e na preocupa\u00e7\u00e3o com todos os seres humanos, especialmente para com os que mais sofrem (sentido horizontal). Na ocasi\u00e3o, o Pont\u00edfice afirmou: \u201cTenho a certeza de que o Esp\u00edrito nos guiar\u00e1 e conceder\u00e1 a gra\u00e7a de avan\u00e7armos em conjunto, de nos ouvirmos mutuamente e iniciarmos um discernimento no nosso tempo, tornando-nos solid\u00e1rios com as fadigas e os anseios da humanidade. Reitero que o S\u00ednodo n\u00e3o \u00e9 um parlamento, o S\u00ednodo n\u00e3o \u00e9 uma investiga\u00e7\u00e3o sobre as opini\u00f5es; o S\u00ednodo \u00e9 um momento eclesial, e o protagonista do S\u00ednodo \u00e9 o Esp\u00edrito Santo. Se n\u00e3o estiver o Esp\u00edrito, n\u00e3o haver\u00e1 S\u00ednodo\u201d. Em outros termos, no S\u00ednodo, \u00e9 o Esp\u00edrito Santo quem, de fato, age pela media\u00e7\u00e3o humana. A\u00ed est\u00e1 o mist\u00e9rio da m\u00e3e Igreja, institui\u00e7\u00e3o, ao mesmo tempo, divina, como divino \u00e9 Jesus Cristo, seu fundador (cf. Mt 16,18-19), e humana, pois \u00e9 formada por n\u00f3s seres humanos falhos (cf. Rm 7,19-20), mas que recebemos, por meio dessa mesma Igreja, os recursos necess\u00e1rios para alcan\u00e7armos a nossa grande meta: ser santos como o Pai celeste \u00e9 santo (cf. Mt 5,48).<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0 Pensando no aspecto humano do S\u00ednodo, o Papa faz um alerta oportuno e balizador sobre tr\u00eas perigos que podem afet\u00e1-lo: o formalismo, o intelectualismo\u00a0e o imobilismo. S\u00e3o palavras do Santo Padre: \u201cO primeiro \u00e9 o risco do <em>formalismo<\/em>. Pode-se reduzir um S\u00ednodo a um evento extraordin\u00e1rio, mas de fachada, precisamente como se algu\u00e9m ficasse a olhar a bela fachada de uma igreja sem nunca entrar nela. Pelo contr\u00e1rio, o S\u00ednodo \u00e9 um percurso de efetivo discernimento espiritual, que n\u00e3o empreendemos para dar uma bela imagem de n\u00f3s mesmos, mas a fim de colaborar melhor para a obra de Deus na hist\u00f3ria. Assim, quando falamos de uma Igreja sinodal, n\u00e3o podemos contentar-nos com a forma, mas temos necessidade tamb\u00e9m de subst\u00e2ncia, instrumentos e estruturas que favore\u00e7am o di\u00e1logo e a intera\u00e7\u00e3o no Povo de Deus, sobretudo entre sacerdotes e leigos. Isto requer a transforma\u00e7\u00e3o de certas vis\u00f5es verticalizadas, distorcidas e parciais sobre a Igreja, o minist\u00e9rio presbiteral, o papel dos leigos, as responsabilidades eclesiais, as fun\u00e7\u00f5es de governo, etc.\u201d.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\u201cUm segundo risco \u00e9 o do <em>intelectualismo<\/em> (da abstra\u00e7\u00e3o, a realidade vai para um lado e n\u00f3s, com as nossas reflex\u00f5es, vamos para outro): transformar o S\u00ednodo numa esp\u00e9cie de grupo de estudo, com interven\u00e7\u00f5es cultas, mas alheias aos problemas da Igreja e aos males do mundo; uma esp\u00e9cie de \u2018falar por falar\u2019, onde se pensa de maneira superficial e mundana, acabando por cair nas habituais e est\u00e9reis classifica\u00e7\u00f5es ideol\u00f3gicas e partid\u00e1rias, e alheando-se da realidade do santo Povo de Deus, da vida concreta das comunidades espalhadas pelo mundo\u201d.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\u201cPor fim, pode haver a tenta\u00e7\u00e3o do <em>imobilismo<\/em>: dado que \u2018se fez sempre assim\u2019 (Francisco, <em>Exort. ap. Evangelii gaudium<\/em>, 33) \u2013 esta afirma\u00e7\u00e3o \u2018fez-se sempre assim\u2019 \u00e9 um veneno na vida da Igreja \u2013, \u00e9 melhor n\u00e3o mudar. Quem se move neste horizonte, mesmo sem se dar conta, cai no erro de n\u00e3o levar a s\u00e9rio o tempo que vivemos. O risco \u00e9 que, no fim, se adotem solu\u00e7\u00f5es velhas para problemas novos: um remendo de pano cru, que acaba por criar um rasg\u00e3o ainda maior (cf. Mt 9,16). Por isso, \u00e9 importante que o caminho sinodal seja verdadeiramente tal, que seja um processo em desenvolvimento; envolva, em diferentes fases e a partir da base, as Igrejas locais, num trabalho apaixonado e encarnado, que imprima um estilo de comunh\u00e3o e participa\u00e7\u00e3o orientado para a miss\u00e3o\u201d. Estejamos, pois, abertos a este <em>kair\u00f3s<\/em> ou a este momento oportuno da gra\u00e7a de Deus, ou\u00e7amos a sua voz e, sobretudo, n\u00e3o fechemos o nosso cora\u00e7\u00e3o (cf. Sl 94,7-8).<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0 Isso posto \u2013 por caracterizar bem, a meu ver, o pensamento do Santo Padre a respeito do S\u00ednodo \u2013 volto-me aos fundamentos da assembleia sinodal, dado que para alguns ela poderia significar como a divis\u00e3o entre os Bispos e o Papa em nome de uma colegialidade democr\u00e1tica etc. Ora, \u00e9 tudo o oposto dessa cr\u00edtica infundada o que se d\u00e1 na Igreja. Como, no entanto, fundamentar isso que acabamos de afirmar? \u2013 Fundamentamos nossa afirma\u00e7\u00e3o no comportamento dos Ap\u00f3stolos, pois essa fase hist\u00f3rica \u00fanica projeta luz ardente sobre o comportamento posterior de cada filho(a) da Igreja. Afinal, a Jerusal\u00e9m celeste est\u00e1 colocada sobre doze fundamentos que trazem, cada um, o nome de um Ap\u00f3stolo (cf. Ap 21,14) e a fam\u00edlia de Deus, a Igreja, est\u00e1 fundada sobre o alicerce dos Ap\u00f3stolos e dos Profetas, com Cristo, a pedra angular (cf. Ef 2,20). E o que se conclui, com toda Tradi\u00e7\u00e3o, da doutrina dos Ap\u00f3stolos t\u00e3o bem explicitadas nos Conc\u00edlios Vaticano I (1869-1870) e Vaticano II (1962-1965)?<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0 Conclui-se que os Ap\u00f3stolos exerciam dois tipos espec\u00edficos de faculdades: <em>as extraordin\u00e1rias<\/em>, ou seja, cada Ap\u00f3stolo podia governar qualquer comunidade crist\u00e3 em qualquer parte do mundo; por conseguinte, podia escrever cartas dirigidas \u00e0 Igreja inteira. Em suma, pode-se dizer que cada Ap\u00f3stolo era bispo da Igreja toda e n\u00e3o de uma por\u00e7\u00e3o d\u2019Ela ou diocese apenas. Esses poderes se limitavam aos Ap\u00f3stolos. N\u00e3o se estenderam aos seus sucessores; e as <em>ordin\u00e1rias<\/em>, assim chamadas por serem faculdades que deveriam permanecer no cotidiano da Igreja. Estas, contudo, n\u00e3o eram (nem s\u00e3o) possu\u00eddas ou exercidas do mesmo modo. Diferencia-se de Pedro, o princ\u00edpio vis\u00edvel da unidade eclesial, para os demais Ap\u00f3stolos. Sim, o Pr\u00edncipe dos Ap\u00f3stolos, em tr\u00eas passagens assaz claras do Evangelho, tem faculdades que s\u00e3o exclusivas suas (cf. Lc 22,31-32; Mt 16,18-19; Jo 21,15-17). Da\u00ed se segue que Pedro \u00e9, por vontade de Cristo, o supremo Pastor de todo o rebanho do Senhor e tem primazia sobre os demais Ap\u00f3stolos aos quais lhe incumbe confirmar na f\u00e9, pois \u00e9 ele a pedra vis\u00edvel da Igreja. Isso a Tradi\u00e7\u00e3o muito bem entendeu ao tratar da infalibilidade do Romano Pont\u00edfice e, de forma clara, o expressou na Constitui\u00e7\u00e3o <em>Pastor Aeternus<\/em>, do Conc\u00edlio Vaticano I.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0 Para alguns, isso bastaria na vida da Igreja. Cristo disse a Pedro: \u201cEu te darei as chaves do Reino dos C\u00e9us: tudo o que ligares na terra ser\u00e1 ligado nos c\u00e9us, e tudo o que desligares na terra ser\u00e1 desligado nos c\u00e9us\u201d (Mt 16,19). Depois, disse tamb\u00e9m aos demais Ap\u00f3stolos junto com Pedro: \u201cEm verdade vos digo: tudo o que ligardes sobre a terra ser\u00e1 ligado no c\u00e9u, e tudo o que desligar\u00addes sobre a terra ser\u00e1 tamb\u00e9m desligado no c\u00e9u\u201d (Mt 18,18). A consequ\u00eancia l\u00f3gica que a Igreja tira dessas passagens \u00e9 a seguinte: o poder de ligar e desligar foi concedido integralmente s\u00f3 a Pedro, a rocha vis\u00edvel, e a Pedro junto com os outros onze. V\u00ea-se, assim, que a faculdade de governar a Igreja (ligar\/desligar) pode ser exercida s\u00f3 por Pedro (o Papa) ou por Pedro junto com os onze (o Papa e os Bispos em comunh\u00e3o com ele), nunca, por\u00e9m pelos onze sem Pedro (esta seria uma forma de Conciliarismo, sempre rejeitado pela Igreja). Dom Est\u00eav\u00e3o Bettencourt, OSB afirma: \u201cTudo o que Pedro possu\u00eda, ele o transmitiu ao Papa. Tudo o que os Ap\u00f3stolos possu\u00edam, eles o transmitiram aos Bispos como colegiado, em seu conjunto, n\u00e3o a cada Bispo em particular; o col\u00e9gio (conjunto) dos Bispos \u00e9 herdeiro do col\u00e9gio dos Ap\u00f3stolos. Donde se segue que o col\u00e9gio dos Bispos unido ao Papa pode governar a Igreja, como o col\u00e9gio dos Ap\u00f3stolos unido a Pedro o podia. Nunca, por\u00e9m, o col\u00e9gio p\u00f4de ou poder\u00e1 agir sem Pedro ou sem o Papa, que \u00e9 a sua cabe\u00e7a leg\u00edtima institu\u00edda por Cristo\u201d (<em>Pergunte e Responderemos<\/em> n. 121, janeiro de 1970, p. 33).<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0 Recorda Dom Est\u00eav\u00e3o, \u201cquando se exerce o colegiado, n\u00e3o se estabelece na Igreja o regime parlamentar ou republicano. Na verdade, o Papa conserva sempre o seu lugar de vig\u00e1rio de Cristo e Primaz do col\u00e9gio dos Bispos. Ao Papa tocam sempre direitos pr\u00f3prios e exclusivos [&#8230;]. Caso se perguntasse por que o Senhor Jesus quis que haja na sua Igreja duplo sujeito ou duplo exerc\u00edcio de um \u00fanico poder supremo, poder-se-ia responder que esse duplo sujeito corresponde a duas notas caracter\u00edsticas da Igreja: esta \u00e9 <em>una<\/em> e \u00e9 <em>cat\u00f3lica<\/em>, universal. O exerc\u00edcio do governo por parte do Papa ou de maneira pessoal e direta corresponde \u00e0 nota de <em>unidade<\/em> da Igreja; favorece-a e preserva-a. Por sua vez, o exerc\u00edcio da colegialidade preserva ou fomenta a <em>catolicidade<\/em> ou <em>universalidade<\/em> da Igreja; possibilita melhor inser\u00e7\u00e3o da Igreja nas diversas regi\u00f5es e popula\u00e7\u00f5es do globo. Assim \u00e9 que o Catolicismo pode tentar chegar mais e mais ao ideal de um pluralismo sadio dentro da unidade\u201d (<em>idem<\/em>, p. 34-35).<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0 Recordo que os conceitos de colegialidade e sinodalidade est\u00e3o intimamente ligados: \u201cEnquanto o conceito de sinodalidade recorda o comprometimento e a participa\u00e7\u00e3o de todo o povo de Deus na vida e na miss\u00e3o da Igreja, o conceito de colegialidade precisa o significado teol\u00f3gico e a forma de exerc\u00edcio do minist\u00e9rio dos Bispos a servi\u00e7o da Igreja particular confiada ao cuidado pastoral de cada um e na comunh\u00e3o entre as Igrejas particulares no seio da \u00fanica e universal Igreja de Cristo, mediante a comunh\u00e3o hier\u00e1rquica do Col\u00e9gio episcopal com o Bispo de Roma\u201d (Comiss\u00e3o Teol\u00f3gica Internacional. <em>A Sinodalidade na vida e na miss\u00e3o da Igreja<\/em>. Bras\u00edlia: Ed. CNBB, 2018, n. 7).<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0 Rezemos, estudemos e participemos, com f\u00e9 e amor, deste 16\u00ba S\u00ednodo Ordin\u00e1rio!<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0 O Santo Padre, o Papa Francisco, convocou, para outubro de 2023, a 16\u00aa Assembleia Ordin\u00e1ria do S\u00ednodo dos Bispos, que tem por tema \u201cPor uma Igreja sinodal: comunh\u00e3o, participa\u00e7\u00e3o e miss\u00e3o\u201d e ser\u00e1 o ponto alto do processo de escutas diocesanas, nacionais e continentais. 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