{"id":70331,"date":"2021-10-03T09:00:40","date_gmt":"2021-10-03T12:00:40","guid":{"rendered":"https:\/\/catolicanet.net\/wp-cnet\/?p=70331"},"modified":"2021-10-01T14:28:49","modified_gmt":"2021-10-01T17:28:49","slug":"o-amor-se-fez-carne-e-habita-entre-nos-cartas-do-padre-jesus-priante","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/catolicanet.net\/wp-cnet\/o-amor-se-fez-carne-e-habita-entre-nos-cartas-do-padre-jesus-priante\/","title":{"rendered":"O Amor se fez carne e habita entre n\u00f3s &#8211; Cartas do Padre Jesus Priante"},"content":{"rendered":"<p style=\"text-align: justify;\">Um dos atributos ou nomes, entre os mais de 300, que podemos encontrar na B\u00edblia referindo-se a Deus, \u00e9 o Amor. &#8220;Deus \u00e9 Amor&#8221;. Por isso, ao longo dos s\u00e9culos, tornou-se popular o slogan latino: &#8220;Ubi caritas ibi Deus&#8221;, onde est\u00e1 o Amor, a\u00ed est\u00e1 Deus. Da mesma maneira que, como verdade fundamental da nossa F\u00e9, confessamos: &#8220;E o Verbo (Deus) se fez homem&#8221;, tamb\u00e9m podemos dizer com toda propriedade: O Amor se fez carne e habita entre n\u00f3s. Teilhard de Chardin percebe este Amor divino na pr\u00f3pria mat\u00e9ria. &#8220;O Universo, dizia, est\u00e1 \u2018amorizado\u2019&#8221;, impregnado de Amor. De fato, nada existe sem essa atra\u00e7\u00e3o amorosa em todos e cada um dos entes. As part\u00edculas at\u00f4micas e subat\u00f4micas que constituem fisicamente as coisas abra\u00e7am-se magneticamente. O mesmo acontece na imensid\u00e3o estelar das gal\u00e1xias. A for\u00e7a da gravita\u00e7\u00e3o que as atraem mutuamente s\u00e3o mais do que frias cordas de sujei\u00e7\u00e3o. Assim como acontece no mundo subat\u00f4mico, no mundo sideral tudo se move ou est\u00e1 vivo, porque \u00e9 feito de Amor. &#8220;A vida \u00e9 movimento&#8221;, afirma Arist\u00f3teles. &#8220;E a vida \u00e9 Deus&#8221; (Jo.1). S\u00e3o Jo\u00e3o une o Amor \u00e0 vida dizendo: &#8220;Quem ama vive, e quem n\u00e3o ama permanece na morte&#8221;, no seu pr\u00f3prio nada. A vida \u00e9 Amor imortal. O Amor n\u00e3o mata nem pode morrer. &#8220;Amar, afirma Gabriel Marcel, \u00e9 dizer: voc\u00ea n\u00e3o morrer\u00e1&#8221;. Ningu\u00e9m pode amar realmente o que caduca e morre. A Psicologia chega tamb\u00e9m a esta conclus\u00e3o. Se uma pessoa estivesse absolutamente convicta de n\u00e3o amar nem ser amada, fatalmente se suicidaria. O desamor, como o \u00f3dio, produz morte.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Ultimamente temos criado o conceito sociol\u00f3gico da &#8220;Civiliza\u00e7\u00e3o do Amor&#8221;, a \u00fanica cultura que nos torna humanos e preserva a vida das pessoas e dos povos. &#8220;Ama e faz o que quiserdes&#8221;, diz Santo Agostinho.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">O Amor cumpre toda lei, nos revelou Jesus, e nos torna filhos de Deus. Entretanto, a hist\u00f3ria particular e das na\u00e7\u00f5es mostra-nos desamor, guerras, \u00f3dio e morte. Trag\u00e9dia esta que se radica em pretender desvincular o Amor da sua fonte, que \u00e9 Deus. Sem Ele \u00e9 imposs\u00edvel a paz.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Nenhuma fraternidade \u00e9 poss\u00edvel sem uma e a mesma paternidade divina. O polite\u00edsmo foi e continua a ser origem de guerras e conflitos, assim como sem esp\u00edrito fraterno \u00e9 imposs\u00edvel invocar um Deus verdadeiro. Um Deus que n\u00e3o seja Pai de todos n\u00e3o existe, e uma fraternidade sem este Pai comum \u00e9 imposs\u00edvel, assim como todo humanismo ateu \u00e9 um tr\u00e1gico humanismo. Tese confirmada pela Revolu\u00e7\u00e3o Francesa e o alienante Comunismo.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Na d\u00e9cada de 1940, Jacques Maritain, contra Sartre, afirmava: &#8220;S\u00f3 o Cristianismo nos faz verdadeiramente humanos&#8221;, pois s\u00f3 Cristo nos revelou um s\u00f3 Deus e Pai de todos. Sem o Deus de Jesus Cristo, nem sequer conseguimos ter consci\u00eancia de uma &#8220;esp\u00e9cie humana&#8221;, o que significa que, no propalado &#8220;progresso&#8221;, n\u00e3o superaremos o n\u00edvel existencial das plantas e dos animais, irmanadas cada uma na sua esp\u00e9cie para preservarem sua vida. O ser humano \u00e9 a \u00fanica esp\u00e9cie vivente capaz de se autodestruir. Sequioso de imortalidade, pois n\u00e3o se pode pensar a vida racionalmente como mortal, entre todos os entes vivos, \u00e9 o \u00fanico que, para viver, precisa conhecer e invocar o Deus Amor, Pai e M\u00e3e de todos n\u00f3s e de toda a Cria\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Um Novo Mandamento<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Nascidos do Amor, vivemos em e por Amor. O Amor n\u00e3o \u00e9 mandamento, mas necessidade existencial. Cristo o sublimou introduzindo um &#8220;mandamento novo&#8221;, um amor que era desconhecido na cultura de todos os povos: o Amor aos inimigos, cume de todo humanismo e identidade dos filhos de Deus.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">O Amor aos inimigos, afirma o antrop\u00f3logo Cowbell, consta s\u00f3 na cultura crist\u00e3. Ele \u00e9 meta imposs\u00edvel de atingir pelo ser humano, mas a ela somos predestinados, para amar como Deus nos ama, e termos a Vida que Ele tem.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">As \u00e1guas do Amor que tanto precisamos beber neste mundo para viver, se tornar\u00e3o fonte inesgot\u00e1vel em n\u00f3s para dar, como Deus faz conosco, vida feliz aos outros.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">&#8220;N\u00e3o mais haver\u00e1 sede&#8221;, pois seremos fonte que &#8220;jorra a Vida Eterna&#8221;(Jo.4). O Reino de Deus \u00e9 um Reino de Amor, que se faz presente neste mundo na medida em que amamos a Deus e ao nosso pr\u00f3ximo, assim como todas as criaturas, frutos do Amor de Deus.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">A beleza salvar\u00e1 o mundo, diz Dostoievski. Nada \u00e9 belo sem Amor para dar e receber. A beleza \u00e9 o eros do Amor imortal.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">&#8220;N\u00c3O \u00c9 BOM QUE O HOMEM ESTEJA S\u00d3&#8221; (Gn. 2,18-24)<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\u2018Ningu\u00e9m faz uma festa sozinho\u2019.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">&#8220;S\u00f3 existe um inferno: a solid\u00e3o&#8221;, afirma Gabriel Marcel. Arist\u00f3teles (s\u00e9c. IV a.C) dizia que um homem solit\u00e1rio ou \u00e9 Deus ou \u00e9 uma besta. Errava nesta afirma\u00e7\u00e3o, pois nem Deus \u00e9 solit\u00e1rio nem as bestas vivem isoladas. A vida, como a felicidade, s\u00f3 \u00e9 poss\u00edvel se for partilhada. Ningu\u00e9m faz uma festa sozinho.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Uma das penas mais terr\u00edveis \u00e9 encerrar algu\u00e9m numa cela solit\u00e1ria. Tudo o que existe est\u00e1 relacionado e \u00e9 interdependente. Dependemos indiretamente de toda a humanidade para tomar uma x\u00edcara de caf\u00e9. N\u00e3o somos indiv\u00edduos, mas comunidade, rela\u00e7\u00e3o e Amor. O pr\u00f3prio Deus, Trindade, n\u00e3o quis viver sem n\u00f3s e seus anjos. A &#8220;paix\u00e3o e morte de Cristo&#8221; a nos dar Sua Vida encontra seu verdadeiro sentido n\u00e3o como pre\u00e7o da nossa &#8220;reden\u00e7\u00e3o&#8221;, mas como apre\u00e7o e Amor por n\u00f3s. Nenhum Amor rom\u00e2ntico \u00e9 t\u00e3o sublime como a paix\u00e3o e morte de Cristo, que tendo n\u00f3s amado nos amou at\u00e9 o extremo de dar Sua Vida. S\u00f3 esse Amor \u00e9 capaz de cruzar a fronteira do pecado e da morte. O que nos assemelha e faz-nos filhos de Deus \u00e9 o Amor.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">A estrutura sexual das plantas e dos animais, incluindo o ser humano, tem de ser entendida como reflexo do Amor de Deus em n\u00f3s.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Ao longo dos tempos, influenciados por Santo Agostinho (s\u00e9c. V) , a rela\u00e7\u00e3o sexual era interpretada como fonte de reprodu\u00e7\u00e3o, preterindo e, at\u00e9, considerando pecaminoso o Amor prazeiroso do sexo. 90% dos pecados que ocupavam a consci\u00eancia do povo no passado eram de car\u00e1ter sexual. Eram<br \/>\nisentos desse pecado os sacramentalmente casados, n\u00e3o importava tanto se sua rela\u00e7\u00e3o sexual era fruto de aut\u00eantico Amor. As prostitutas, disse Jesus, vos precedem no Reino dos C\u00e9us. H\u00e1 mais pecado no sexo sem Amor do que no sexo com Amor\u2026O Conc\u00edlio Vaticano II devolveu o Amor ao sexo, afirmando que sua finalidade n\u00e3o \u00e9 apenas de reprodu\u00e7\u00e3o, como tamb\u00e9m de Amor. Por isso, nem toda rela\u00e7\u00e3o sexual \u00e9 reprodutiva naturalmente.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Os dez por cento dos homossexuais encontram aqui tamb\u00e9m seu lugar no Amor. O Amor \u00e9 reprodutivo porque produz vida, a come\u00e7ar, fisicamente, trazendo ao mundo um filho ou uma filha, mas tamb\u00e9m mais vida em toda pessoa amada. Com maior for\u00e7a e generosidade, de maneira mais sublime e plena, quando esse Amor nos une a Deus e a toda a humanidade. O Amor sexual \u00e9 mais \u201cer\u00f3tico e apaixonado\u201d naqueles que, renuciando ao casamento, dedicam todo seu Amor a tornar conhecido o Amor Eterno de Deus, que nos faz imortais, irm\u00e3os uns dos outros e filhos de Deus.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">O Amor aos mais pobres de maneira desinteressada, pode gerar sentimento mais er\u00f3tico e prazeiroso do que o Amor mais encantador e rom\u00e2ntico. Inclusive este Amor n\u00e3o sexual, mas nem por isto menos Amor, produz ocitocina, horm\u00f4nio do mesmo Amor ligado \u00e0 vida.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">O cap\u00edtulo segundo do G\u00eanese, escrito cinco s\u00e9culos antes que o cap\u00edtulo primeiro, narra-nos de maneira grandiosa a Cria\u00e7\u00e3o do ser humano. Tendo criado Ad\u00e3o do barro (irmanado com a mat\u00e9ria c\u00f3smica) Deus infundiu nele um profundo sono, para significar a grandeza, al\u00e9m da raz\u00e3o, do Amor que nasceria da rela\u00e7\u00e3o com sua mulher Eva, tirada de uma costela para ser carne da sua carne. At\u00e9 o s\u00e9culo XVI, com o anatomista Ves\u00e1lio, acreditava-se que o homem tinha uma costela a menos do que a mulher. Este mito supera toda explica\u00e7\u00e3o cient\u00edfica sobre a origem do sexo. Os rabinos interpretam este relato dizendo: Deus n\u00e3o tirou Eva da cabe\u00e7a de Ad\u00e3o para ela n\u00e3o ser superior ao homem; nem dos p\u00e9s, para n\u00e3o ser sua escrava; a tirou de uma costela para ser sua companheira para viverem em comunh\u00e3o de vida e de Amor.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Para a mitologia grega, a m\u00fatua e apaixonante rela\u00e7\u00e3o amorosa entre o homem e a mulher tinha como origem sua condi\u00e7\u00e3o de androginia primordial. Homem e mulher eram um s\u00f3 corpo, que foi secionado pelo deus Eros. Dai o termo latino sexo, de secare, que significa dividir, para se procurarem amorosa e eroticamente um ao outro.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Friedman, em seu livro &#8220;Ser\u00e1 que Ningu\u00e9m se Envergonha?&#8221;, diz que casar \u00e9 sentir-se andr\u00f3gino, necessitado e parte vital do outro. Este \u00e9 o sentido b\u00edblico de &#8220;Ser\u00e3o uma s\u00f3 carne&#8221;. Eu costumava dizer no Curso de Noivos: \u2018Ningu\u00e9m se case, se pode viver sem a pessoa que ama&#8217;. O pensador espanhol Unamuno chamava sua mulher de &#8220;meu costume&#8221;.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Mas se o casamento \u00e9 t\u00e3o sublime, por que h\u00e1 tantos div\u00f3rcios? N\u00e3o porque faltem terapias e conselhos, mas porque se carece da sua m\u00edstica de comunh\u00e3o. M\u00edstico \u00e9 aquele que vive n\u00e3o pensando em si, mas em comunh\u00e3o com Deus e, no casamento, com o outro, unido a Deus. Toda divis\u00e3o ou separa\u00e7\u00e3o vital \u00e9 diab\u00f3lica, que em grego significa o que est\u00e1 dividido ou separado. \u00c0 maneira de c\u00e9lula cancerosa, divorciada do corpo, o que est\u00e1 dissociado, acaba matando e, ao mesmo tempo, morrendo, v\u00edtima do seu pr\u00f3prio ego\u00edsmo.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Uma das verdades que mais impactou minha F\u00e9 \u00e9: &#8220;Creio na comunh\u00e3o dos santos&#8221;, na uni\u00e3o comum de ser e vida com Deus, Seus santos e anjos e, por extens\u00e3o, com toda a Cria\u00e7\u00e3o. Esta verdade nos mostra a impossibilidade de morrer e sermos infelizes. Como o c\u00e2ncer, bastaria, uma s\u00f3 indiv\u00edduo isolar-se e separar-se da comunh\u00e3o vital para matar Deus e Suas criaturas. Consola-nos que Cristo veio salvar-nos deste pecado diab\u00f3lico de excomunh\u00e3o, reconciliando-nos e tornando-nos Nele um s\u00f3 Corpo, imortal e glorioso, capaz de amar como Deus nos ama.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">&#8220;EIS-ME AQUI, JUNTO COM OS FILHOS QUE DEUS ME DEU PARA TEREM COMIGO A MESMA CARNE E SANGUE&#8221; (Hb. 2,9-11)<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Encarnado em Jesus de Nazar\u00e9, Deus uniu-se com o ser humano e com toda a Cria\u00e7\u00e3o. Da mesma maneira que Eva nasceu da costela de Ad\u00e3o, para se tornar carne da sua carne, na cruz, do costado aberto de Jesus, dormindo no sono da morte, nasceu a nova humanidade e a nova Cria\u00e7\u00e3o, para se tornarem concorp\u00f3reos e consangu\u00edneos de Deus. Este parentesco divino, revelado na B\u00edblia \u00e0 maneira humana, sob a figura de esposo\/ esposa, pai e filho em rela\u00e7\u00e3o a Deus Criador e Salvador, em Cristo, Deus feito homem, nos faz tamb\u00e9m fraternos: &#8220;Ele n\u00e3o se envergonha de nos chamar de irm\u00e3os&#8221; (Hb.2,11).<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Como dissemos na reflex\u00e3o do domingo passado, a grande met\u00e1fora da B\u00edblia, que vai al\u00e9m das palavras e das ideias, \u00e9 que Deus &#8220;desceu&#8221; e Se fez um de n\u00f3s. O mist\u00e9rio da Encarna\u00e7\u00e3o, para os crist\u00e3os da Igreja cat\u00f3lica ortodoxa, \u00e9 mais sublime que a pr\u00f3pria Ressurrei\u00e7\u00e3o. Por esta somos vivificados. Pela Sua Encarna\u00e7\u00e3o, divinizados. Este Mist\u00e9rio supera nossa raz\u00e3o, incapaz de pensar, como defendia Descartes, a n\u00e3o ser de &#8220;maneira clara e distinta&#8221;, isto \u00e9, separando a realidade das coisas, constitu\u00eddas por uma quantitativa por\u00e7\u00e3o de mat\u00e9ria que as individualiza, para serem &#8220;enformadas&#8221; de maneira concreta.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">O pante\u00edsmo: tudo \u00e9 Deus e Deus \u00e9 tudo, \u00e9 mais uma heresia da raz\u00e3o do que da f\u00e9, essencialmente m\u00edstica de comunh\u00e3o. Por isso, K. Raher dizia que o Cristianismo tem de ser m\u00edstico ou n\u00e3o ser\u00e1 crist\u00e3o. Entretanto, a Encarna\u00e7\u00e3o que nos une a Deus, nesta vida, continuar\u00e1 a ser um mist\u00e9rio, al\u00e9m de toda compreens\u00e3o racional e da pr\u00f3pria F\u00e9, pois esconde sua grandeza nas nuvens do sofrimento, do pecado e da morte, inerentes \u00e0 nossa condi\u00e7\u00e3o humana. Por isso, experimentamos a vida no nosso dia a dia como se Deus, unido a n\u00f3s, n\u00e3o existisse. Temos de enxugar nossas l\u00e1grimas e o suor da nossa fronte, at\u00e9 o dia da nossa gloriosa transforma\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">&#8220;O QUE DEUS UNIU O HOMEM N\u00c3O PODE SEPARAR. &#8221; (Mc. 10 ,2- 16).<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Intitulamos esta nossa reflex\u00e3o emblematicamente dizendo: E o Amor se fez carne e habita entre n\u00f3s. De fato, o Amor \u00e9 o mesmo Deus presente em todas as Suas criaturas, mas de maneira mais sublime, no ser humano, &#8220;encarnado&#8221; na uni\u00e3o do homem e da mulher. S\u00e3o Paulo, em Ef.5, o qualifica de &#8220;grande sacramento&#8221; ou sinal de Salva\u00e7\u00e3o para si e para o mundo. Se um casal acreditasse nessa grandeza, mais que humana, seria incapaz de se divorciar. O Sl. 127 promete felicidade e prosperidade ao casal fiel: &#8220;Ser\u00e1s aben\u00e7oado com teus filhos e os filhos dos teus filhos&#8221;.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">No in\u00edcio da Cria\u00e7\u00e3o Deus os fez homem e mulher para serem &#8220;uma so carne&#8221;. Em Gn. 1, h\u00e1 como uma dupla cria\u00e7\u00e3o do ser humano. Num primeiro momento: &#8220;Deus criou o homem \u00e0 Sua imagem&#8221; para ser senhor do mundo criado. A seguir, acrescenta: &#8220;Os criou homem e mulher&#8221;, para serem fecundos e povoar a terra. Eu costumava aludir a este texto na celebra\u00e7\u00e3o dos casamentos, mais de 20.000 ao longo do meu minist\u00e9rio paroquial, dizendo aos noivos que hoje eram criados de novo para n\u00e3o mais poderem ser e viver um sem o outro.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Alguns m\u00e9dicos neurologistas tem afirmado que a sexualidade est\u00e1 vinculada neurologicamente \u00e0 morte. Se consegu\u00edssemos romper a sinapse vida-e-morte programada no nosso c\u00e9rebro, ser\u00edamos assexuais e imortais como as bact\u00e9rias, que se multiplicam por mitose e, s\u00f3 podem ser destru\u00eddas por agentes externos a elas. Teoria mais de fic\u00e7\u00e3o do que cient\u00edfica. A Biblia nos revela que a sexualidade, dom de Deus, premiado de prazer, cumpre a miss\u00e3o criadora de, n\u00e3o s\u00f3 povoar a terra, como de receber os filhos dados por Deus para serem seus filhos, como Jesus, \u00e0 maneira humana, at\u00e9 completar o n\u00famero que, de antem\u00e3o Ele chamou, para viver eternamente com Ele no Seu Reino, como tamb\u00e9m tornar presente seu Amor encarnado em todo casal. Mais ainda, segundo S\u00e3o Paulo, o Amor vivificante do casal revela ao mundo o Amor fiel de Deus a garantir nossa Salva\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Todo div\u00f3rcio torna mais ateu o mundo e mais incerta nossa Salva\u00e7\u00e3o. Dir\u00edamos ser mais grave a dissolu\u00e7\u00e3o da Vida que une o casal, do que do pr\u00f3prio aborto. Este mata uma crian\u00e7a, o div\u00f3rcio p\u00f5e em quest\u00e3o a Vida de toda a humanidade.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">O Direito Can\u00f4nico (c\u00f3digo que rege a conduta religiosa dos cat\u00f3licos) atribui ao casamento duas propriedades: unidade e indissolubilidade. &#8220;O que Deus une, o homem n\u00e3o pode separar&#8221;. \u00c0 Igreja Cristo deu o poder de perdoar os pecados, mas n\u00e3o o de dissolver um casamento. \u00c9 claro que este casamento, uni\u00e3o de um homem e uma mulher unidos por Deus, pertence a uma minoria. A maior parte dos casamentos n\u00e3o passam de amig\u00e1vel ou contratual uni\u00e3o c\u00edvica, mesmo celebrados na Igreja. Jesus aceitou essa realidade apenas legal por causa da fragilidade humana.&#8221;Mas no princ\u00edpio (no plano salv\u00edfico de Deus) n\u00e3o foi nem assim&#8221;. Deus os fez homem e mulher como uma s\u00f3 carne para serem testemunhas e sinais da Salva\u00e7\u00e3o do mundo, testemunhas que nos revelam que, da mesma maneira que um casal permanece unido em corpo e alma, tamb\u00e9m n\u00f3s estamos unidos &#8220;carnalmente&#8221;, existencialmente a Deus. A uni\u00e3o sexual \u00e9 o sacramento desta uni\u00e3o e do Amor de Deus para com todos. O \u00eaxtase do seu prazer, querido por Deus, o mais forte de todos os prazeres humanos, segundo alguns te\u00f3logos, antecipa a felicidade da Ressurrei\u00e7\u00e3o. Tudo isso, referente ao casamento crist\u00e3o, \u00e9 o que S\u00e3o Paulo chamou de &#8220;grande sacramento&#8221;, sinal da Salva\u00e7\u00e3o do mundo a ser revelado pelos casais unidos por Deus, imensa minoria que, como o sal, a luz e o fermento, exercem com Cristo a miss\u00e3o Salvadora do mundo. O Direito Can\u00f4nico tamb\u00e9m diz que os frutos do casamento s\u00e3o: fecundidade (filhos), fidelidade (o amor n\u00e3o pode morrer) e o sacramento (sinal de Salva\u00e7\u00e3o do casal e do mundo). Faltando esses frutos, a \u00e1rvore do casamento ocupa um lugar inutilmente.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">O casamento \u00e9 plano salv\u00edfico de Deus e ideal do ser humano. At\u00e9 o fim dos tempos, como a Igreja, estar\u00e1 presente, como sinal da Salva\u00e7\u00e3o do mundo. Da mesma maneira que os santos, santificados por Deus, nos unem a Deus, o amor divino do casal &#8220;amoriza&#8221; e d\u00e1 vida ao mundo. S\u00f3 este casal, sacramento do Amor de Deus, pode usar com propriedade as palavras t\u00e3o propaladas\u00a0ao se referir \u00e0 rela\u00e7\u00e3o sexual\u00a0 &#8220;fazer amor&#8221;. S\u00f3 o\u00a0casal escolhido por Deus para viver este Amor transcendente de Deus na &#8220;carne&#8221;, sacramentalmente, faz e torna encarnado neste mundo o Amor Eterno de Deus, do qual todos participamos.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Padre Jesus Priante<br \/>\nEspanha<br \/>\n(Edi\u00e7\u00e3o por Malcolm Forest. S\u00e3o Paulo.)<br \/>\nCopyright 2021 Padre Jesus Priante.<br \/>\nDireitos Reservados.<br \/>\nCompartilhe mencionando o nome do autor.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Um dos atributos ou nomes, entre os mais de 300, que podemos encontrar na B\u00edblia referindo-se a Deus, \u00e9 o Amor. &#8220;Deus \u00e9 Amor&#8221;. Por isso, ao longo dos s\u00e9culos, tornou-se popular o slogan latino: &#8220;Ubi caritas ibi Deus&#8221;, onde est\u00e1 o Amor, a\u00ed est\u00e1 Deus. 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