{"id":70090,"date":"2021-09-18T16:00:37","date_gmt":"2021-09-18T19:00:37","guid":{"rendered":"https:\/\/catolicanet.net\/wp-cnet\/?p=70090"},"modified":"2021-09-17T16:38:41","modified_gmt":"2021-09-17T19:38:41","slug":"a-salvacao-e-fato-nao-ideia-cartas-do-padre-jesus-priante","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/catolicanet.net\/wp-cnet\/a-salvacao-e-fato-nao-ideia-cartas-do-padre-jesus-priante\/","title":{"rendered":"A Salva\u00e7\u00e3o \u00e9 Fato, N\u00e3o Ideia &#8211; Cartas do Padre Jesus Priante"},"content":{"rendered":"<p style=\"text-align: justify;\">A hist\u00f3ria \u00e9 a narrativa de fatos que, segundo o fil\u00f3sofo italiano J. Vico (s\u00e9c. XVII) identificam-se com o ser das coisas. &#8220;Factum est esse&#8221;, o fato \u00e9 o ser e vice-versa. Nada existe se n\u00e3o vier a acontecer ou se tornar fato, exceto Deus, que \u00e9 Aquele que \u00e9 (Jav\u00e9) eternamente, n\u00e3o condicionado ao espa\u00e7o e ao tempo, dimens\u00f5es de todo fato\u2026 embora, em rela\u00e7\u00e3o a n\u00f3s e ao mundo criado, Deus existe porque tamb\u00e9m se fez homem (fato) na pessoa de Jesus de Nazar\u00e9.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">A realidade, como fato, segue a l\u00f3gica da Cria\u00e7\u00e3o: &#8220;Deus disse&#8221; e Sua Palavra se fez de fato (Gn.1).<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">H\u00e1 uma historia de fatos que conduzem \u00e0 morte e uma outra que leva \u00e0 vida, ambas, unificadas em Cristo. Nele, todo o acontecer da Hist\u00f3ria \u00e9 um devir eterno e vital. Esta hist\u00f3ria sublimada por Cristo Ressuscitado, chamada Hist\u00f3ria da Salva\u00e7\u00e3o, \u00e9 fato, e n\u00e3o uma mera conjetura. Antes deste fato acontecer, a realidade do mundo criado era contingente, puro &#8220;samsara&#8221;, na linguagem hindu, uma sucess\u00e3o de fatos inconsistentes. Infelizmente nossos liturgistas n\u00e3o perceberam esta maneira de entender a Hist\u00f3ria da Salva\u00e7\u00e3o, que n\u00e3o se det\u00e9m na morte, e que \u00e9 celebrada atrav\u00e9s de gestos ou sacramentos de maneira factual ou real na estrada do tempo.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">A divis\u00e3o desta hist\u00f3ria salv\u00edfica, que acontece na celebra\u00e7\u00e3o lit\u00fargica, em Tempo Comum ou Ordin\u00e1rio e em Tempo festivo ou Extraordin\u00e1rio, pr\u00f3prio do Advento, Natal, Quaresma, P\u00e1scoa e outras grandes festividades, escurece o verdadeiro sentido da Hist\u00f3ria da Salva\u00e7\u00e3o, na qual o pr\u00f3prio Deus se faz presente transformando e glorificando nossas vidas e de toda a Cria\u00e7\u00e3o. Em Cristo, a por\u00e7\u00e3o do tempo e do espa\u00e7o de cada ente criado se faz Eterna e infinita. Cristo Ressuscitado \u00e9 a nossa Salva\u00e7\u00e3o e o porvir glorioso da hist\u00f3ria &#8220;comum&#8221; do universo. Ele \u00e9 memorial e monumento, passado , presente e futuro de toda a Cria\u00e7\u00e3o. Sem Ele, tudo caduca; o passado \u00e9 o naufr\u00e1gio da vida e o futuro uma paix\u00e3o in\u00fatil e ideia vazia. O tempo da Salva\u00e7\u00e3o \u00e9 um &#8220;going&#8221;, um \u201cir\u201d progressivo e permanente que se faz hist\u00f3rico (fato) de maneira concreta no dia de domingo, chamado &#8220;oitavo dia&#8221;, semana (inexistente no tempo ordin\u00e1rio), porque nos conecta com a eternidade. Neste dia irrepet\u00edvel, acontece historicamente a Ressurrei\u00e7\u00e3o de Cristo ressuscitado, e nossa Salva\u00e7\u00e3o torna-se fato.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">A semana do tempo da morte \u00e9 vitalizada gloriosamente pela energia da Ressurrei\u00e7\u00e3o e nos faz part\u00edcipes da Vida Eterna a se manifestar na \u00faltima tarde de nossa exist\u00eancia terrena.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Seria mais salutar e significativo se a Eucaristia fosse celebrada s\u00f3 aos domingos (entre o meio-dia de s\u00e1bado ao meio-dia de domingo) pois todo fato neste mundo precisa de um tempo e espa\u00e7o concreto, distinto dentro da globalidade existencial. A Liturgia deixaria de ser mero culto a Deus, pr\u00f3prio de todas as religi\u00f5es, para se tornar &#8220;a\u00e7\u00e3o salv\u00edfica&#8221; de Deus. Todos esperar\u00edamos cada Domingo, ap\u00f3s a dura luta pela vida que o trabalho e as tribula\u00e7\u00f5es semanal nos imp\u00f5e, como um acontecimento glorioso e salvador que, por ser fato, \u00e9 irrevers\u00edvel, seguro e certo.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Com toda verdade, todos poder\u00edamos dizer na Eucaristia dominical: vou celebrar minha Salva\u00e7\u00e3o, tornando presente nosso futuro eterno e glorioso.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">&#8220;DEUS CRIOU O HOMEM PARA SER INCORRUPT\u00cdVEL E IMORTAL, E O FEZ \u00c0 SUA IMAGEM&#8221; (Sab. 2,12-23)<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Sob a influ\u00eancia da filosofia plat\u00f4nica, surgiu pela primeira vez na cultura b\u00edblica, no s\u00e9culo primeiro a.C, na Alexandria, a ideia da imortalidade. Antes todo judeu pensava ficar no cemit\u00e9rio &#8220;dormindo&#8221; ap\u00f3s a morte at\u00e9 o fim do mundo, quando ressuscitariam ou, melhor, retornariam \u00e0 vida anterior. O que era mais parecido com uma reanima\u00e7\u00e3o, do que \u00e0 Ressurrei\u00e7\u00e3o brindada por Cristo, pela qual seremos gloriosamente transformados e divinizados.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Segundo a cren\u00e7a judaica, &#8220;ressuscitariam&#8221; n\u00e3o todos, mas apenas os &#8220;justos&#8221;, cumpridores da Lei, o resto das pessoas, os pecadores, seriam aniquilados.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Este texto da Sabedoria revela-nos que a Salva\u00e7\u00e3o dos &#8220;justos&#8221; \u00e9 fato e n\u00e3o mera ideia, desejo ou suspeita, sentimento pr\u00f3prio das religi\u00f5es e culturas de todos os povos. De fato, a ideia da imortalidade, al\u00e9m de ser nosso \u00fanico consolo para os que temos nascido para morrer, \u00e9 tamb\u00e9m um postulado da raz\u00e3o, incapaz de pensar a vida se de fato morr\u00eassemos.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Nenhum povo foi capaz de morrer absolutamente. Por isso a religi\u00e3o \u00e9 inerente ao ser humano. O normal \u00e9 ser religioso e crente. O anormal ou an\u00f4malo \u00e9 ser ateu. O ate\u00edsmo \u00e9 um conceito vazio, pois ningu\u00e9m pode matar a Deus e, por esta mesma raz\u00e3o, ningu\u00e9m pode matar a vida, propriedade do pr\u00f3prio Deus. Podemos ser anti-teistas, contra Deus, mas n\u00e3o ateus, assim como n\u00e3o podemos ser radicalmente materialistas e mortais, porque &#8220;Deus criou o homem para ser imortal&#8221;. Isto explicaria a raz\u00e3o pela qual &#8220;ateus&#8221; ou , melhor anti-te\u00edstas como, Voltaire, Schopenhauer, Sartre, Borges, Unamuno e muitos outros famosos pensadores, confessaram no fim da sua vida, que mesmo querendo, n\u00e3o conseguiam morrer por dentro. Os supostos materialistas e ateus da elite cultural de Alexandria, no s\u00e9culo primeiro a.C., desejavam saber se a imortalidade professada pelos judeus que ali viviam era de fato real: &#8220;Vejamos se \u00e9 verdade o que os justos dizem, e comprovemos o que lhes acontecer\u00e1 no fim da sua vida Condenemos-lhes \u00e0 morte, pois esperam de Deus a vida&#8221;. \u00c9 claro que at\u00e9 Cristo, essa prova era imposs\u00edvel de se constatar. Era mera ideia, conjetura ou cren\u00e7a que se tornou fato em Cristo. At\u00e9 Ele, a morte retinha a todos, justos e injustos, no cemit\u00e9rio. Abra\u00e3o, o Pai da F\u00e9, disse Jesus, &#8220;desejou ver meu dia&#8221; (Jo.8).<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">A cultura grega nos legou tr\u00eas termos para expressar a vida: &#8220;Bios&#8221; (vida f\u00edsica), &#8220;Psych\u00e9&#8221; (vida ps\u00edquica) e &#8220;Zo\u00e9&#8221; (vida substancial ou imortal). A vida f\u00edsica ou corporal \u00e9 mortal. A vida ps\u00edquica, lugar de nossos sentimentos, ideias, desejos e sonhos exige de n\u00f3s equil\u00edbrio e o cultivo das virtudes humanas para permanecer viva neste mundo. A vida substancial e imortal, que para Plat\u00e3o, sofria, prisioneira no corpo, seria feliz ao desencarnar, saindo do seu corpo no dia da morte, para ir ao Mundo livre e feliz das Ideias, que culminam no Bem. S\u00e3o Paulo recolhe este tr\u00edplice conceito de vida da cultura grega, distinguindo no ser humano corpo, alma e esp\u00edrito. Mas o acontecimento da Ressurrei\u00e7\u00e3o de Cristo lhe revela a verdadeira natureza da vida humana, unit\u00e1ria e indivis\u00edvel. Fala, entretanto, de um &#8220;velho homem&#8221;, descendente de Ad\u00e3o, fadado \u00e0 morte, e do &#8220;homem novo&#8221;, nascido eterno e glorioso em Cristo ressuscitado.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Corpo, alma e esp\u00edrito s\u00e3o um todo \u00fanico, pessoa singular, que na presente condi\u00e7\u00e3o, at\u00e9 a sua Ressurrei\u00e7\u00e3o, comparte corporalmente com todos os entes vivos o nascer e morrer e, como dotado de alma ou vida ps\u00edquica, tem sentimentos, ideias e desejos de imortalidade. Esta peculiaridade antropol\u00f3gica lhe faz sentir transcendente ou esp\u00edrito, substancialmente imortal.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Mas o fundamento desta nossa real e substancial imortalidade radica no fato de Cristo ter ressuscitado. Sem este fato, nos diz S\u00e3o Paulo, toda f\u00e9 ou filosofia de vida \u00e9 in\u00fatil e vazia, mera ideia, desejo ou sonhos no mundo dos mitos e fantasias. Se morremos de vez, n\u00e3o existe nenhum progresso, e a vida seria mera emerg\u00eancia, imposs\u00edvel e ser pensada e vivida. &#8221; Viva, diz Santo Agostinho, de tal maneira que na morte n\u00e3o morras&#8221;. A F\u00e9 \u00e9 uma experi\u00eancia de vida imortal, que nasce do fato de Cristo ter Ressuscitado e n\u00e3o como um postulado da raz\u00e3o que, para pensar a vida, precisa da ideia da imortalidade. A verdadeira defini\u00e7\u00e3o do homem n\u00e3o \u00e9 &#8220;animal racional&#8221; e menos ainda mortal.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Arist\u00f3teles (s\u00e9c. IV a.C. ) usou o termo &#8220;zoon logon&#8221;, que significa vivente dotado de palavra, com a qual todos criamos e damos sentido ao que nos acontece, sentimos e pensamos.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">S\u00e3o Jo\u00e3o identifica a palavra , Verbo, com Deus Criador e a vida.(Jo.1)<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Tudo o que existe porta a vida de Deus. De fato, que sentido teria uma pedra inerte se nao estivesse vinculada \u00e0 vida? Uma pedra existe porque pode se tornar casa, pavimento ou c\u00e1lcio de um vivente. O universo existe como organismo vivo. N\u00e3o sem raz\u00e3o as viagens espaciais t\u00eam por finalidade principal encontrar vida fora da terra. Embora desde a nossa F\u00e9 crist\u00e3, podemos afirmar com toda certeza, que apenas este planeta que habitamos \u00e9 o escolhido por Deus, ao menos para albergar a vida humana, pois nela o mesmo Deus se encarnou, &#8220;recapitulando toda a Cria\u00e7\u00e3o&#8221;.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Tamb\u00e9m devemos descartar a hip\u00f3tese da vida ser uma composi\u00e7\u00e3o molecular de quatro elementos fundamentais: Nitrog\u00eanio (Ni), Oxig\u00eanio (O), Hidrog\u00eanio (H), Carbono ( C) e mais de uma centena de outras mol\u00e9culas em menor propor\u00e7\u00e3o, como ferro, pot\u00e1ssio, magn\u00e9sio, c\u00e1lcio etc. Mat\u00e9ria, do latim &#8220;mater&#8221; tem o sentido de m\u00e3e, mas sem o sopro vital de Deus nenhum laborat\u00f3rio ou big-bang pode produzir a fa\u00edsca da vida. A chamada &#8220;medicina molecular&#8221;, que alguns &#8220;m\u00e9dicos&#8221; charlat\u00e3es praticam de maneira il\u00edcita e enganosa (conheci alguns em S\u00e3o Paulo) interpretando a vida a uma composi\u00e7\u00e3o molecular, carece de todo fundamento. Para fazer dinheiro qualquer teoria serve. A vida vem de Deus e, por isso, \u00e9 imortal, feita gloriosa e feliz em Cristo ressuscitado.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">&#8220;A VERDADEIRA SABEDORIA VEM DO ALTO&#8221; (Tg. 3,16- 18)<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">A sabedoria, na B\u00edblia, \u00e9 personificada como criadora no Verbo de Deus, feito carne (fato hist\u00f3rico) na pessoa de Jesus de Nazar\u00e9. Ela n\u00e3o \u00e9 um saber livresco, mas uma experi\u00eancia vital que nos vem de Deus, que na vida presente s\u00f3 podemos ter no horizonte da &#8220;douta esperan\u00e7a&#8221;, assim denominada por um dos maiores te\u00f3logos do s\u00e9culo XX, Moltmann&#8221;. Sabemos da vida e, por tanto, da realidade das mesmas coisas, na medida em que esperamos. E essa nossa s\u00e1bia e &#8220;feliz esperan\u00e7a&#8221; \u00e9 Cristo Ressuscitado, afirma S\u00e3o Paulo.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">A cultura grega consagrou o termo &#8220;filosofia&#8221; para os amantes e amigos da sabedoria (filos= amigo, sofia= sabedoria). Ningu\u00e9m \u00e9 s\u00e1bio, apenas somos amantes do saber. Entre outras defini\u00e7\u00f5es, Filosofia \u00e9 a procura do saber para resolver o problema da vida. E o problema de todos os problemas \u00e9 a morte, pois se morremos tudo carece de sentido e a vida, como afirma Sartre, \u00e9 &#8220;uma paix\u00e3o inutil&#8221;.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Pensamos porque temos consci\u00eancia da morte. Se o animal ou a planta tivessem essa consci\u00eancia, tamb\u00e9m seriam filosofos. Plat\u00e3o considerava que todo nosso pensar humano passa, direta ou indiretamente, pela ideia da morte.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">O povo hind\u00fa tem no sofrimento a origem do pensar. A Filosofia, assim como as ci\u00eancias e as cren\u00e7as religiosas buscam a imortalidade e a felicidade. Meta imposs\u00edvel de atingir humanamente, pois &#8220;a verdadeira sabedoria vem do alto&#8221;, que desceu a n\u00f3s na pessoa de Jesus Cristo. Ele \u00e9 toda a sabedoria que buscamos, porque Ele \u00e9 a vida que esperamos.\u201d<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">A sabedoria terrena, nos diz Tiago nesta carta, \u00e9 animal e demon\u00edaca&#8221;, pois uma vida apenas para este mundo n\u00e3o se justifica racionalmente, \u00e9 animal e perversa. N\u00e3o s\u00e3o poucas as pessoas que, num momento ou outro da vida, encontram no suic\u00eddio a \u00fanica resposta ao problema da vida, como ecoa uma can\u00e7\u00e3o mexicana, \u201cporque a vida n\u00e3o vale nada. Chorando come\u00e7a a vida e chorando a vida se acaba&#8221;. No s\u00e9culo XIX, no meio do sonho positivista do progresso cient\u00edfico, surge na Alemanha a chamada \u201cironia rom\u00e2ntica&#8221;, isto \u00e9, uma maneira de encarar a vida fazendo de conta \u201cque a vida \u00e9 boa\u201d, ou como se diz no Brasil, porque &#8220;se ficar melhor, estraga&#8221;.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Georges Bernanos certa vez disse: &#8220;A diferen\u00e7a entre um otimista e um pessimista est\u00e1 em que o primeiro \u00e9 um imbecil feliz e o segundo um triste imbecil&#8221;. A grande mensagem do maravilhoso filme &#8220;A Vida \u00e9 Bela&#8221; nos revela que s\u00f3 a esperan\u00e7a de viver n\u00e3o morre. Mas, s\u00f3 quem acredita na Ressurrei\u00e7\u00e3o tem esperan\u00e7a e pode dizer com toda verdade que a vida \u00e9 bela. S\u00f3 o crist\u00e3o pode ser autenticamente materialista, desfrutando deste mundo, sem as pressas do &#8220;carpe diem&#8221; de Epicuro. S\u00f3 ele pode deixar a vida presente, sem saudades, no auge da maior festa, pois o que espera \u00e9 bem maior e melhor que todos os prazeres e alegrias deste mundo.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">A Estrada do Tempo<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Caberia acrescentar aqui uma ideia, que \u00e9, ao mesmo tempo, fato, para experimentar com maior realismo e certeza nossa Salva\u00e7\u00e3o. A vida que no presente vivemos n\u00e3o ser\u00e1 interrompida pela morte. N\u00e3o seria correto dizer &#8220;outra vida&#8221; para se referir a vida celeste. Muitos americanos costumam dizer: &#8220;life after life&#8221;, num sentido de continuidade. Seremos n\u00f3s mesmos, corpo, alma e esp\u00edrito, integralmente, os que cruzaremos a porta da Eternidade logo que findar a estrada do tempo.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Por estes dias, um jogador de futebol da sele\u00e7\u00e3o espanhola, j\u00e1 retirado das canchas h\u00e1 alguns anos, e que dedica seu tempo a animar e dar sentido \u00e0 vida de muitas pessoas deprimidas e carentes de esperan\u00e7a, dizia a quem lhe perguntou o que sentia, tendo perdido recentemente um dos seus filhos de apenas 12 anos: &#8211; &#8220;N\u00e3o o perdi, apenas ele passou a viver definitivamente com Deus, como todos n\u00f3s viveremos alegremente um dia&#8221;. A morte, dizia, \u00e9 como passar pela porta de uma casa a outra.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">O poeta espanhol , Arcipreste de Hita (s\u00e9c. X) chamava \u00e0 morte &#8220;dama da alba&#8221;. A morte n\u00e3o sei \u00e9 o fim desta vida, \u00e9 passagem necess\u00e1ria para a vida plena. Deixaremos apenas os &#8220;restos mortais&#8221; de nossas dores e l\u00e1grimas no cemit\u00e9rio, assim como a culpa de nossos pecados, para sermos revestidos da gl\u00f3ria de Deus.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">A morte tem de ser naturalizada sobrenaturalmente, familiar e transcendente. Mais do que inimiga, uma &#8220;irm\u00e3&#8221;, como a chamou S\u00e3o Francisco de Assis. Isto \u00e9 poss\u00edvel se acreditarmos no fato da Ressurrei\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">&#8220;O FILHO DO HOMEM VAI SER MORTO, MAS AO TERCEIRO DIA RESSUSCITAR\u00c1&#8221; (Mc. 9,30-37)<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Os disc\u00edpulos, presenciando numerosos milagres, viram em Jesus o Messias esperado pelo povo de Israel. Aquele que instauraria neste mundo um Reino de vida e paz, isento de todo mal. A Ressurrei\u00e7\u00e3o era uma ideia para eles ainda estranha, como continua a ser estranha para a maior parte das pessoas, inclusive crist\u00e3s, raz\u00e3o pela qual &#8220;passamos a vida inteira como escravos, pelo medo que temos de morrer&#8221; (Hb.2). Todos n\u00f3s \u201ccurtimos\u201d, de uma ou outra maneira, a ideia da imortalidade, mas n\u00e3o propriamente da Ressurrei\u00e7\u00e3o, como fato acontecido pela primeira vez na Hist\u00f3ria em Jesus de Nazar\u00e9 para se tornar realidade universal: &#8220;Todos ressuscitar\u00e3o&#8221; (At.24,15) Toda a Cria\u00e7\u00e3o aguarda sua transforma\u00e7\u00e3o ou Ressurrei\u00e7\u00e3o (Rm.8).<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">O Filho do Homem<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Jesus descarta um para\u00edso terrestre: &#8220;O Filho do Homem&#8221; (t\u00edtulo do Messias triunfante e glorioso anunciado pelo profeta Daniel) tem que sofrer e morrer, mas ao terceiro dia ir\u00e1 Ressuscitar&#8221;. Esta \u00e9 a \u00fanica leitura poss\u00edvel para entender nossa exist\u00eancia sabiamente, segundo o plano criador e salvador de Deus.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\u201cJesus n\u00e3o condena nem despreza a vida terrena, que \u00e9 t\u00e3o sagrada como a Vida Eterna. &#8220;Eu vim para que tenham vida e uma vida plena&#8221; (Jo.10,10). Essa plenitude teremos na Ressurrei\u00e7\u00e3o, fato irrepet\u00edvel e irrevers\u00edvel acontecido em Cristo necessariamente, em favor de todos n\u00f3s, como nos revela S\u00e3o Paulo: &#8220;pois se nos n\u00e3o ressuscitamos, tamb\u00e9m Cristo n\u00e3o ressuscitou e, se Cristo n\u00e3o ressuscitou, vazia \u00e9 toda f\u00e9&#8221; ou ideia de imortalidade.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Se para pensar \u00e9 preciso passar pela ideia da morte ou do sofrimento, para encontrar l\u00f3gica e sentido no nosso pensar \u00e9 preciso termos como fato real a Ressurrei\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">O renomado te\u00f3logo franc\u00eas, De Lubac, dizia que lhe resultava impens\u00e1vel entender que, tendo t\u00e3o certa a morte, n\u00e3o postularmos racionalmente a Ressurrei\u00e7\u00e3o. Ela n\u00e3o pode ser mera ideia como \u00e9 a imortalidade, que n\u00e3o resolveria o problema da morte, pois a vida tem de ser divina, eterna, santa e feliz. A Ressurrei\u00e7\u00e3o nos concede n\u00e3o s\u00f3 a imortalidade, como tamb\u00e9m nos diviniza. Eu sempre tive o costume de apresentar Cristo como &#8220;Aquele que tira o pecado e a morte&#8221;. Pela Ressurrei\u00e7\u00e3o, pecado e morte s\u00e3o vencidos e nos tornamos santos e imortais. A vida eterna seria insuport\u00e1vel se nos acompanhasse a culpa de nossos pecados.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">O intuito desta reflex\u00e3o \u00e9 incutir nos nossos leitores a certeza de nossa Salva\u00e7\u00e3o. Para termos essa experi\u00eancia vital, \u00e9 preciso considerar &#8220;fato&#8221;, irrepet\u00edvel e irrevers\u00edvel, o acontecimento da Ressurrei\u00e7\u00e3o, que, em Cristo, tornou-se universal.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">&#8220;Contra fatos, n\u00e3o h\u00e1 argumento&#8221;.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">As ideias se discutem, os fatos se aceitam. Toda explica\u00e7\u00e3o seria secund\u00e1ria. Todo fato exige testemunhas, do contr\u00e1rio seria mito ou mera ideia. Jesus escolheu doze pessoas para se tornarem testemunhas da Sua morte e Ressurrei\u00e7\u00e3o, que teriam a miss\u00e3o de nos comunicar este fato singular do qual depende a esperan\u00e7a de todos os povos. Eles viram com seus pr\u00f3prios olhos que Jesus foi crucificado, morto e sepultado, na sexta-feira, mas na manh\u00e3 de domingo se lhes apareceu vivo, mostrando Suas chagas para certificar Sua identidade. \u00c9 claro que estas apari\u00e7\u00f5es de Jesus Ressuscitado n\u00e3o correspondem \u00e0 realidades de um Ressuscitado, pois revestidos da gl\u00f3ria de Deus, como algu\u00e9m seria capaz de suportar Sua luz, assim como, neste mundo, n\u00e3o podemos ver a Deus. Jesus &#8220;apareceu&#8221;, transpareceu, deu-Se a conhecer vivo ap\u00f3s a Sua morte. N\u00e3o deixou Seus restos mortais no cemit\u00e9rio porque, na mentalidade judaica das Suas testemunhas, a Ressurrei\u00e7\u00e3o deixaria de ser fato, para se tornar mera ideia ou expectativa de um futuro poss\u00edvel, pr\u00f3prio de todas as cren\u00e7as religiosas.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">N\u00e3o \u00e9 verdade a tese que alguns te\u00f3logos defendem: \u201co \u00faltimo fato hist\u00f3rico foi que o sepulcro onde o corpo de Cristo foi sepultado estava vazio\u201d. Suas apari\u00e7\u00f5es foram tamb\u00e9m hist\u00f3ricas, do contr\u00e1rio a Ressurrei\u00e7\u00e3o deixaria de ser fato e nossa Salva\u00e7\u00e3o incerta.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">S\u00e3o Paulo diz que Ele apareceu a mais de quinhentos irm\u00e3os e, finalmente, a ele, Paulo. Fato que transformou a vida de S\u00e3o Paulo, que uma simples teoria ou ideia seria incapaz de produzir com tanta convic\u00e7\u00e3o e radicalidade. Da mesma sorte seria inexplic\u00e1vel que os ap\u00f3stolos, quase todos rudes e semianalfabetos pescadores, pudessem anunciar a Boa Not\u00edcia da Salva\u00e7\u00e3o ao mundo, sofrendo e morrendo m\u00e1rtires por esta causa, se a Ressurrei\u00e7\u00e3o de Cristo n\u00e3o tivesse sido um fato testemunhado por eles.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Historicamente, h\u00e1 mais raz\u00f5es para aceitar a Ressurrei\u00e7\u00e3o como fato do que argumentos para neg\u00e1-la.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\nSe de fato Cristo Ressuscitou, tamb\u00e9m n\u00f3s todos, de fato, Ressuscitaremos. Ningu\u00e9m mais pode morrer, nem ser morto. E a Vida Imortal que levamos em vasos de barro, aparecer\u00e1 gloriosa e feliz na areia do tempo que desliza pelos dedos das horas, no dia da nossa Ressurrei\u00e7\u00e3o, que acontecer\u00e1 no mesmo dia e hora em que algu\u00e9m, ainda na hist\u00f3ria espa\u00e7o-temporal diga de n\u00f3s: &#8220;morreu&#8221;. N\u00f3s ouviremos isso como um passado sem saudades que preparou nosso futuro, agora glorioso e eterno.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\u00c9 bom repetir as palavras de Paulo na v\u00e9spera da sua morte, ao seu disc\u00edpulo Tim\u00f3teo: \u201cLembra-te de Jesus Cristo Ressuscitado. Ele \u00e9 a nossa Salva\u00e7\u00e3o&#8221;. Este memorial nos faz realmente imortais.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Padre Jesus Priante<br \/>\nEspanha<br \/>\n(Edi\u00e7\u00e3o e intert\u00edtulos por Malcolm Forest. S\u00e3o Paulo.)<br \/>\nCopyright 2021 Padre Jesus Priante.<br \/>\nDireitos Reservados.<br \/>\nCompartilhamento ou cita\u00e7\u00e3o livre, mencionando o nome do autor.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>A hist\u00f3ria \u00e9 a narrativa de fatos que, segundo o fil\u00f3sofo italiano J. Vico (s\u00e9c. XVII) identificam-se com o ser das coisas. &#8220;Factum est esse&#8221;, o fato \u00e9 o ser e vice-versa. Nada existe se n\u00e3o vier a acontecer ou se tornar fato, exceto Deus, que \u00e9 Aquele que \u00e9 (Jav\u00e9) eternamente, n\u00e3o condicionado ao [&hellip;]<\/p>\n","protected":false},"author":1,"featured_media":70091,"comment_status":"open","ping_status":"closed","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"footnotes":""},"categories":[4,13],"tags":[],"class_list":["post-70090","post","type-post","status-publish","format-standard","has-post-thumbnail","hentry","category-cotidiano","category-featured"],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/catolicanet.net\/wp-cnet\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/70090","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/catolicanet.net\/wp-cnet\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/catolicanet.net\/wp-cnet\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/catolicanet.net\/wp-cnet\/wp-json\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/catolicanet.net\/wp-cnet\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=70090"}],"version-history":[{"count":1,"href":"https:\/\/catolicanet.net\/wp-cnet\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/70090\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":70092,"href":"https:\/\/catolicanet.net\/wp-cnet\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/70090\/revisions\/70092"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/catolicanet.net\/wp-cnet\/wp-json\/wp\/v2\/media\/70091"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/catolicanet.net\/wp-cnet\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=70090"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/catolicanet.net\/wp-cnet\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=70090"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/catolicanet.net\/wp-cnet\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=70090"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}