{"id":70019,"date":"2021-09-16T09:44:31","date_gmt":"2021-09-16T12:44:31","guid":{"rendered":"https:\/\/catolicanet.net\/wp-cnet\/?p=70019"},"modified":"2021-09-16T16:45:58","modified_gmt":"2021-09-16T19:45:58","slug":"a-voz-das-vitimas-de-abuso","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/catolicanet.net\/wp-cnet\/a-voz-das-vitimas-de-abuso\/","title":{"rendered":"A voz das v\u00edtimas de abuso"},"content":{"rendered":"<figure class=\"article__image\" style=\"text-align: justify;\"><span class=\"didascalia_img\">Doutora Ewa Kusz, vice-diretora do Centro para a Prote\u00e7\u00e3o da Inf\u00e2ncia junto \u00e0 Academia Ignatianum de Crac\u00f3via\u00a0<\/span><\/figure>\n<div class=\"article__meta \" data-mediatype=\"\">\n<div class=\"article__subTitle\" style=\"text-align: justify;\">Ewa Kusz, membro do comit\u00e9 organizador do encontro regional sobre a prote\u00e7\u00e3o dos menores para a Europa Central e Oriental em Vars\u00f3via, recolheu as vozes de pessoas abusadas por sacerdotes.<\/div>\n<div class=\"title__separator\" style=\"text-align: justify;\"><\/div>\n<div class=\"article__text \">\n<p style=\"text-align: justify;\">Ewa Kusz<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">O que dizem, o que esperam da Igreja, das \u201cpessoas da Igreja\u201d, quantos na Igreja foram feridos?<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\u00c9 dif\u00edcil dar uma resposta inequ\u00edvoca, porque cada v\u00edtima de abuso \u00e9 diversa, tem uma hist\u00f3ria de vida diferente, tanto antes como depois do trauma. Alguns falam sobre o assunto imediatamente, outros ap\u00f3s alguns anos ou at\u00e9 muitos anos mais tarde. Alguns, ao longo do pr\u00f3prio percurso, encontraram pessoas que os ajudaram, outros ficaram completamente s\u00f3s com o seu sofrimento.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Os feridos falam: alguns reivindicam a alta voz o direito de falar, de ser ouvidos, outros falam com vergonha no sil\u00eancio de um consult\u00f3rio psicoterap\u00eautico, ou confiam apenas nos seus entes queridos. Uns gritam, outros falam, calando-se, com o pr\u00f3prio sil\u00eancio.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">O texto que aqui proponho \u00e9 uma tentativa de recolher as vozes das pessoas que acompanhei e \u00e0s quais perguntei quais s\u00e3o as suas expetativas em rela\u00e7\u00e3o \u00e0 Igreja.<\/p>\n<h2 style=\"text-align: justify;\">Em primeiro lugar: reconhecer que existem<\/h2>\n<p style=\"text-align: justify;\">A primeira necessidade de uma pessoa ferida \u00e9 simplesmente ser reconhecida e acolhida no seu ser, e que tem o direito de existir, com todo o seu sofrimento, dor, feridas.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">O sacerdote, como representante da Igreja, n\u00e3o raro apresentando-se como \u201crepresentante de Deus\u201d viu nas suas v\u00edtimas objetos a serem utilizados e abusados, destruindo assim a sua dignidade de seres humanos. Mais de uma vez, contudo, justificando as suas a\u00e7\u00f5es com raz\u00f5es religiosas, ou afirmando que aquela era a vontade de Deus. A viol\u00eancia assim infligida, tanto f\u00edsica como psicol\u00f3gica, atingia o fundamento da exist\u00eancia da pessoa, destruindo a sua dignidade de \u201cfilho de Deus\u201d, destruindo a experi\u00eancia de Deus-Amor naquele \u00a0que era \u00a0abusado, e destruindo neles a experi\u00eancia da Igreja como comunidade, pois era precisamente ali que a viol\u00eancia se materializava sem que ningu\u00e9m a impedisse ou reagisse a ela. As v\u00edtimas esperam, portanto, que a Igreja, na qual o abuso teve lugar, reconhe\u00e7a o abuso n\u00e3o como um pecado cometido por um pecador que deve ser perdoado, mas como um ato criminoso do qual os feridos s\u00e3o as v\u00edtimas.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">As v\u00edtimas de abuso esperam antes de mais SER ouvidas, na sua dor, na sua raiva, na sua impot\u00eancia. Por vezes envergonhados e interrogando-se constantemente se n\u00e3o s\u00e3o eles pr\u00f3prios os culpados. Por vezes fazendo acusa\u00e7\u00f5es agressivas. Se se decidiram vir, esperam ser recebidos com aten\u00e7\u00e3o e solicitude, como PESSOAS que falam de uma ferida causada n\u00e3o s\u00f3 a elas, mas \u00e0 inteira comunidade da Igreja. N\u00e3o querem ser tratadas como desordeiros que perturbam a \u201csanta paz\u201d, como intrusos ou at\u00e9 como aqueles que agem contra a Igreja. As pessoas feridas esperam n\u00e3o s\u00f3 ser recebidas \u201ccorretamente\u201d, segundo todas as regras formais, dado que quando v\u00eam, v\u00eam \u00e0 Igreja enquanto Comunidade, e n\u00e3o como uma institui\u00e7\u00e3o eclesi\u00e1stica que funciona de modo correto. As v\u00edtimas querem ter o direito de expressar, como s\u00e3o capazes, a sua dor e sofrimento por vezes mantidos escondidos durante anos. Elas n\u00e3o querem instru\u00e7\u00f5es, querem ser acolhidas.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">As v\u00edtimas esperam por justi\u00e7a: querem ser claramente informadas sobre quem cometeu o abuso e quem foi abusado. E querem que aqueles que defendem o sacerdote acusado, o seu abusador n\u00e3o raro culpando as v\u00edtimas, porque ningu\u00e9m lhes disse a verdade, porque o sil\u00eancio foi escolhido, por vezes por uma sensa\u00e7\u00e3o de impot\u00eancia, por vezes por um desejo mal compreendido de \u201cdefender\u201d a Igreja, como se a verdade sobre o ato criminoso, sobre os danos infligidos, devesse minar a \u201cf\u00e9 dos pequeninos\u201d. Os feridos esperam uma puni\u00e7\u00e3o justa para quem abusou deles, para que esta se torne uma oportunidade para que ele possa mudar, de se converter. As v\u00edtimas querem ser SUJEITOS do processo can\u00f3nico no qual o autor dos abusos \u00e9 levado a julgamento. Hoje \u00e9 o sacerdote acusado que tem mais direitos, negados \u00e0 v\u00edtima, e isto ainda faz dela uma pessoa sem import\u00e2ncia, tratada como se o assunto n\u00e3o lhe dissesse respeito.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Quem \u00a0foi ferido na Igreja quer ter o direito de escolher permanecer na Igreja ou deix\u00e1-la. Quer escolher sozinho o\u00a0 pr\u00f3prio caminho. N\u00e3o precisa ser instru\u00eddo sobre como deve ser a sua rela\u00e7\u00e3o com Deus: isto fazia aquele que abusava da sua pessoa. A v\u00edtima espera que as suas escolhas sejam respeitadas.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Experimentar o acolhimento, a compreens\u00e3o, o \u00a0respeito e ouvir nomear claramente quem \u00e9 o perpetrador e quem \u00e9 a v\u00edtima ajuda a curar, particularmente quando \u00e9 tamb\u00e9m o superior eclesi\u00e1stico que o faz.<\/p>\n<h2 style=\"text-align: justify;\">Em segundo lugar: respeitar o tempo de \u201ccura\u201d<\/h2>\n<p style=\"text-align: justify;\">Os feridos querem sarar. Para o fazerem, precisam de tempo e ajuda. N\u00e3o querem que lhes seja dito nem imposto quem os deve ajudar. Querem escolher por si mesmos. Se precisarem de dinheiro para pagar o terapeuta ou o advogado&#8230; querem ter o direito de ser ajudados tamb\u00e9m deste modo.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Aqueles que permanecem na Igreja perguntam se l\u00e1 encontrar\u00e3o sacerdotes preparados para os acompanhar tamb\u00e9m no caminho da cura espiritual, e se as pessoas que encontrarem podem prejudic\u00e1-los novamente. Talvez j\u00e1 n\u00e3o abusando sexualmente, mas impondo a pr\u00f3pria espiritualidade, a pr\u00f3pria religiosidade, enviando-os a um exorcista ou for\u00e7ando-os a perdoar? N\u00e3o querem que outro sacerdote lhes imponha situa\u00e7\u00f5es, porque foi isso que experimentaram da parte de quem abusou deles, quem \u00a0com tudo o que fazia e dizia tinha implantado neles uma imagem distorcida de Deus, da espiritualidade, da religi\u00e3o e da Igreja. N\u00e3o querem que outros o repitam sob o pretexto de fazer o bem e ajud\u00e1-los. Eles precisam de tempo para curar as suas feridas.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">As v\u00edtimas precisam de outra pessoa para as ajudar a viver rela\u00e7\u00f5es que n\u00e3o lhes fa\u00e7am mal. O sacerdote que abusou deles explorou a sua confian\u00e7a, vulnerabilidade, abertura ao outro. Agora tratam este \u201coutro\u201d com desconfian\u00e7a. A Igreja foi o lugar do mal que lhes foi infligido, por isso agora interrogam-se se ela tamb\u00e9m lhes pode oferecer espa\u00e7o para se curarem. Se h\u00e1 um lugar para eles na Igreja. E s\u00e3o particularmente sens\u00edveis a uma atitude insincera, desconfiada, ou mesmo \u00e0 incerteza sobre o que fazer com eles, como trat\u00e1-los, que lugar dar-lhes na Igreja para que n\u00e3o se tornem um \u201cesc\u00e2ndalo\u201d para os outros. Eles querem uma Igreja que seja M\u00e3e, e n\u00e3o apenas mestra. Querem uma Igreja na qual tenham o direito de estar e se curar segundo os pr\u00f3prios ritmos.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Os feridos esperam que tamb\u00e9m a comunidade da qual aquele que abusou deles foi pastor, seja ajudada, uma vez que tamb\u00e9m ela \u00e9 \u201cv\u00edtima\u201d ferida pelo ato criminoso cometido por aquele sacerdote.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">As v\u00edtimas feridas na Igreja, no processo de cura, n\u00e3o querem ter de narrar outra vez o mal que sofreram para \u201cdar testemunho\u201d, pois isto, para elas, \u00e9 como voltar ao \u201cinferno\u201d. H\u00e1 um momento, muitas vezes ap\u00f3s longos anos, em que sentem a necessidade de \u201cdesabafar\u201d e contar tudo, mas depois chega outro no qual n\u00e3o querem lembrar, precisamente para poder sarar. N\u00e3o para esquecer, porque \u00e9 imposs\u00edvel, mas para seguir em frente e n\u00e3o ficar parado.<\/p>\n<h2 style=\"text-align: justify;\">Em terceiro lugar: aprender com as suas experi\u00eancias<\/h2>\n<p style=\"text-align: justify;\">As v\u00edtimas, ou melhor, na fase sucessiva os \u201cthriver\u201d, s\u00e3o pessoas que j\u00e1 percorreram um longo caminho rumo \u00e0 cura e s\u00e3o capazes de olhar para a pr\u00f3pria experi\u00eancia de uma certa dist\u00e2ncia. Por conseguinte, sabem identificar os erros e as fraquezas que fizeram com que os sacerdotes abusassem de pessoas menores e vulner\u00e1veis ainda hoje. Sabem indicar as lacunas na forma\u00e7\u00e3o sacerdotal, nas rela\u00e7\u00f5es entre sacerdotes, que os levam a procurar parceiros entre menores. Podem dizer-nos o que, na cultura da Igreja e na sua dimens\u00e3o estrutural, favorece o abuso de outras pessoas. Podem sugerir os modos melhores para ajudar as v\u00edtimas, e identificar os erros que a Igreja ainda comete ao ajud\u00e1-las. Por fim, podem dizer-nos como podemos ajudar a construir todos juntos uma Igreja que seja mais \u201chumana\u201d e n\u00e3o s\u00f3 institucional. Podem propor o modo como, na Igreja, falar aos feridos sobre Deus que foi testemunha do trauma que viveram. O que sabem \u00e9\u00a0 fruto da sua experi\u00eancia: a experi\u00eancia do mal que sofreram, mas tamb\u00e9m de uma longa jornada de cura. Podem, portanto, dizer-nos o caminho para a cura, porque j\u00e1 o percorreram, e agora sabem tudo o que antes ignoravam.<\/p>\n<h2 style=\"text-align: justify;\">Como Igreja, queremos dar-lhes escuta?<\/h2>\n<p style=\"text-align: justify;\">Procurei tornar aquilo que me foi confiado como as suas expetativas de pessoas que foram feridas na Igreja e que est\u00e3o agora a passar por v\u00e1rias fases de \u201ccura\u201d. Cada uma delas indicou-me mais de um aspeto que considerava importante. Provavelmente, falando com outros, a lista ainda poder\u00e1 ser mais longa. Acompanhando as v\u00edtimas tanto de sacerdotes como de outras pessoas durante muitos anos, cheguei \u00e0 convic\u00e7\u00e3o de que \u2013 para que as suas vozes sejam efetivamente \u201couvidas\u201d\u00a0 \u2013 \u00a0\u00e9 necess\u00e1ria uma profunda transforma\u00e7\u00e3o da Igreja, que n\u00e3o raro assume hoje a forma de uma institui\u00e7\u00e3o religiosa funcional. No entanto, numa Igreja que \u00e9 vivida apenas como \u201cinstitui\u00e7\u00e3o\u201d, ser\u00e1 provavelmente poss\u00edvel receber de maneira correta as den\u00fancias de abusos sexuais, e haver\u00e1 bons c\u00f3digos de conduta para com os menores, mas n\u00e3o ser\u00e1 poss\u00edvel responder plenamente ao grito das v\u00edtimas, nem haver\u00e1 qualquer preocupa\u00e7\u00e3o real de que ningu\u00e9m deva ser prejudicado de forma alguma, n\u00e3o apenas pelos cl\u00e9rigos. Ao renunciar a uma certa cultura de \u201cpoder\u201d, cultura de gest\u00e3o formalmente correta, devemos mostrar uma imagem de Deus que \u00e9 Amor, que \u00e9 terno, e de uma Igreja que acolhe e abra\u00e7a. Seria apropriado perguntar se a voz daqueles que foram feridos, abandonados, etc., n\u00e3o seja uma voz prof\u00e9tica que nos possa ajudar na nossa convers\u00e3o.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><i>Biografia: A Dra. Ewa Kusz trabalha como psicoterapeuta numa cl\u00ednica de psicologia. \u00c9 membro da Associa\u00e7\u00e3o de Psiquiatras Polacos e foi presidente da filial de Katowice da Associa\u00e7\u00e3o de Psiquiatras Cat\u00f3licos. Foi auditor nas 12\u00aa e 13\u00aa Sess\u00f5es Plen\u00e1rias do S\u00ednodo dos Bispos em Roma. Em 2012, participou no Simp\u00f3sio do Vaticano \u201cRumo \u00e0 cura e \u00e0 renova\u00e7\u00e3o\u201d para representantes das Confer\u00eancias Episcopais de todo o mundo sobre o tema do abuso sexual contra menores. Foi co-fundadora do Centro de Prote\u00e7\u00e3o da Inf\u00e2ncia junto da \u00a0Academia Inaciana de Crac\u00f3via, do qual desde 2004 \u00a0\u00e9 Diretora Adjunta encarregada dos programas de estudo. Foi membro do comit\u00e9 que organizou a primeira confer\u00eancia internacional na Pol\u00f3nia dedicada \u00e0 quest\u00e3o do abuso sexual contra menores na Igreja cat\u00f3lica (2014).<\/i><\/p>\n<\/div>\n<\/div>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Doutora Ewa Kusz, vice-diretora do Centro para a Prote\u00e7\u00e3o da Inf\u00e2ncia junto \u00e0 Academia Ignatianum de Crac\u00f3via\u00a0 Ewa Kusz, membro do comit\u00e9 organizador do encontro regional sobre a prote\u00e7\u00e3o dos menores para a Europa Central e Oriental em Vars\u00f3via, recolheu as vozes de pessoas abusadas por sacerdotes. 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