{"id":69878,"date":"2021-09-12T09:02:29","date_gmt":"2021-09-12T12:02:29","guid":{"rendered":"https:\/\/catolicanet.net\/wp-cnet\/?p=69878"},"modified":"2021-09-12T10:30:03","modified_gmt":"2021-09-12T13:30:03","slug":"o-sinal-do-cristao-e-a-santa-cruz-cartas-do-padre-jesus-priante","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/catolicanet.net\/wp-cnet\/o-sinal-do-cristao-e-a-santa-cruz-cartas-do-padre-jesus-priante\/","title":{"rendered":"O Sinal do Crist\u00e3o \u00e9 a Santa Cruz &#8211; Cartas do Padre Jesus Priante"},"content":{"rendered":"<p style=\"text-align: justify;\">Era assim que aprend\u00edamos nos catecismos antes do Conc\u00edlio Vaticano II, embora de maneira desvirtuada, pois acrescent\u00e1vamos: &#8220;porque nela Cristo nos remiu&#8221;.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Era outro o sentido evang\u00e9lico professado pelos primeiros crist\u00e3os no rito do Batismo. Para uma pessoa aderir \u00e0 F\u00e9 crist\u00e3, era preciso reconhecer o sentido salv\u00edfico da pr\u00f3pria vida, talhada na madeira dos problemas, dores e limita\u00e7\u00f5es. Nessa Cruz, na qual somos crucificados com Cristo, acontece nossa Salva\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Ela \u00e9 o leito de cada noite e os remos de cada dia para navegarmos sobre as movedi\u00e7as \u00e1guas deste mundo. A Cruz (nossa pr\u00f3pria hist\u00f3ria) \u00e9 o caminho necess\u00e1rio escolhido por Deus para nos Salvar. Os catec\u00famenos (postulantes do Batismo) das primeiras gera\u00e7\u00f5es crist\u00e3s, eram interpelados pelo presidente da comunidade: &#8220;Qual \u00e9 sua cruz?&#8221;. E eles narravam sua hist\u00f3ria. &#8220;E para que te serve essa tua cruz?&#8221; &#8211; Eles respondiam: &#8220;Para minha Salva\u00e7\u00e3o&#8221;. Quem n\u00e3o tinha clara a raz\u00e3o e o sentido salv\u00edfico da pr\u00f3pria cruz ou do seu problema existencial, n\u00e3o podia professar a F\u00e9 crist\u00e3, pois esta maneira positiva e gloriosa de encarar a vida presente \u00e9 sinal singular que distingue um crist\u00e3o do resto das pessoas. S\u00f3 o cristianismo interpreta a hist\u00f3ria, pessoal dos povos e da Cria\u00e7\u00e3o, de maneira positiva e otimista.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">O Parto<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">O sofrimento da vida presente cumpre a fun\u00e7\u00e3o de parto para uma nova vida, gloriosa e eterna (Rm.8). S\u00e3o Paulo, em 1Cor.1-2, qualifica a cruz (a dor da Hist\u00f3ria) de sabedoria de Deus, que \u00e9 loucura para os gregos (raz\u00e3o humana) e esc\u00e2ndalo para os judeus (cren\u00e7as religiosas). Infelizmente, a chamada Teoria da Satisfa\u00e7\u00e3o de Santo Anselmo, da qual se fizeram herdeiros nossos catecismos e nossa educa\u00e7\u00e3o religiosa, desvirtuou o profundo e s\u00e1bio sentido da Cruz, vendo Nela o lugar no qual Jesus sofreu e morreu para &#8220;satisfazer&#8221; a justi\u00e7a de Deus, lesada pelos nossos pecados. A Cruz deixava de ser caminho e plano salv\u00edfico de Deus para se tornar tortura ou sofrimento merit\u00f3rios da nossa reden\u00e7\u00e3o, escurecendo a gra\u00e7a (dom gratuito divino) da pr\u00f3pria Salva\u00e7\u00e3o. Santo Anselmo (s\u00e9c. XI) escreveu, para fundamentar sua tese, um emblem\u00e1tico livro titulado &#8220;Cur Deus homo?&#8221; (Por que Deus se fez homem) afirmando que, n\u00e3o podendo pagar a d\u00edvida contra\u00edda para com Deus por causa de nossos pecados, pois nossos m\u00e9ritos, na condi\u00e7\u00e3o de criaturas finitas, jamais alcan\u00e7ariam a dimens\u00e3o infinita que Deus merece. Teve de vir o pr\u00f3prio Deus na pessoa de Jesus, para completar nosso pagamento redentivo. Nada mais anticrist\u00e3o e antievang\u00e9lico.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Bem outra era a vis\u00e3o de Santo Irineu (s\u00e9c. II) que entendeu a vinda de Cristo, Deus feito homem, como diviniza\u00e7\u00e3o de n\u00f3s mesmos. Em Jesus de Nazar\u00e9, Deus se uniu &#8220;onticamente &#8221; a n\u00f3s e n\u00f3s a Ele. \u00c9 o que exprimimos com o termo Nova e Eterna Alian\u00e7a, comunh\u00e3o vital com Deus.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Crist\u00e3o n\u00e3o \u00e9 adjetivo, t\u00edtulo ou cultura, mas identidade existencial.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Por isso, na teologia, afirmamos que o Batismo, no qual nascemos divinizados, imprime car\u00e1ter, isto \u00e9, nos marca de maneira indel\u00e9vel e irrevers\u00edvel como filhos de Deus. Nascido em Cristo, j\u00e1 n\u00e3o nos podemos matar nem sermos mortos. A Cruz de nossos pecados, limita\u00e7\u00f5es, dores e morte se faz gloriosa. Este \u00e9 o sinal e estandarte a portar pelo verdadeiro crist\u00e3o para dar sentido e esperan\u00e7a ao mundo, que fez da Cruz lugar de desespero. Na d\u00e9cada de 1970, o Papa Paulo VI falava da necessidade de todos os batizados serem evangelizados, \u201ccomo se tudo come\u00e7asse de novo&#8221;, dizia ele. Com esse esp\u00edrito evangelizador, tentamos com estas nossas reflex\u00f5es dominicais dar sentido salv\u00edfico \u00e0 nossa F\u00e9, que nos faz enxergar na Cruz a gl\u00f3ria da Ressurrei\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Como a semente vislumbra na sombra da sua pr\u00f3pria morte seu glorioso renascer, tamb\u00e9m nos no morrer da cruz. Dissociar a ressurrei\u00e7\u00e3o da paix\u00e3o e morte s\u00f3 pode criar decep\u00e7\u00e3o ,d\u00favida e descren\u00e7a da nossa salva\u00e7\u00e3o.Pela cruz \u00e0 luz, costumavam repetir os primeiros cristaos.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\u201cTODA MANH\u00c3 O SENHOR ABRE MEUS OUVIDOS PARA FICAR ATENTO COMO DISC\u00cdPULO&#8221; (Is. 50,4-9)<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">O profeta Isa\u00edas \u00e9 qualificado biblicamente como verdadeiro evangelista, anunciador da Boa Nova da Salva\u00e7\u00e3o, vislumbrando, esta Salva\u00e7\u00e3o, paradoxalmente, atrav\u00e9s de um Messias servo e sofredor. De passagem, nos vers\u00edculos que precedem ao texto de hoje, se nos revela a Salva\u00e7\u00e3o, como dom e gra\u00e7a de Deus, de maneira sublime: &#8220;Assim diz Jav\u00e9: Onde est\u00e1 o papel de div\u00f3rcio, provando que me separei da m\u00e3e de voc\u00eas? A quem dos meus credores eu vendi a voc\u00eas?&#8230; Ser\u00e1 que minha m\u00e3o ficou t\u00e3o curta e sem for\u00e7as para n\u00e3o poder salvar voc\u00eas?&#8221; Maravilha de Evangelho que os Lecion\u00e1rios lit\u00fargicos (dominical, ferial e santoral) esqueceram de inserir para nos comunicar a boa not\u00edcia da nossa Salva\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">A Salva\u00e7\u00e3o que nos foi revelada n\u00e3o tem o sentido de reden\u00e7\u00e3o ou resgate ao pre\u00e7o dos nossos sacrif\u00edcios e m\u00e9ritos nem do pr\u00f3prio Cristo. Ela \u00e9 verdadeira alian\u00e7a de comunh\u00e3o vital com Deus, historicamente realizada pela sua Encarna\u00e7\u00e3o em Jesus de Nazar\u00e9. A Igreja Cat\u00f3lica Ortodoxa fundamenta sua F\u00e9 mais neste acontecimento de Cristo do que na sua Ressurrei\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Mas retornamos ao texto deste domingo, denominado Terceiro C\u00e2ntico do Servo de Jav\u00e9. Frente ao Messias anunciado pelo profeta Daniel, glorioso e triunfante, esperado para o fim dos tempos, Isa\u00edas o anuncia, nos<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">cap\u00edtulos 42, 49, 50, 53, como servo sofredor que percorre o caminho da cruz a ser trilhado por todo ser humano e toda a Cria\u00e7\u00e3o para atingir sua glorifica\u00e7\u00e3o. Essa narrativa foi qualificada de c\u00e2ntico ou poema. Algo paradoxal, pois ningu\u00e9m canta e exulta na sua dor e fracasso existencial. Neste terceiro c\u00e2ntico, se diz do seu protagonista, que toda manh\u00e3 o Senhor abre seus ouvidos para que aprenda a verdadeira li\u00e7\u00e3o da vida. N\u00e3o s\u00f3 tem de aprender a levar o sofrimento inerente \u00e0 condi\u00e7\u00e3o humana, como tamb\u00e9m o infligido injustamente pelos outros. O verdadeiro servo de Deus, diz Santo In\u00e1cio de Loiola, n\u00e3o s\u00f3 \u00e9 humilde como tamb\u00e9m humilhado. A persegui\u00e7\u00e3o, junto com a Cruz e a ren\u00fancia, segundo Oscar Culmann, s\u00e3o constitutivos do ser crist\u00e3o. &#8220;O Senhor abre meus ouvidos para aceitar os insultos e as agress\u00f5es dos inimigos&#8221;. Algo inaudito, revela o mesmo profeta no seu quarto C\u00e2ntico (Is.53) que ningu\u00e9m racionalmente pode acreditar. Suportar estoicamente o sofrimento deste mundo \u00e9 dif\u00edcil, mas dar-lhe sentido positivo e salv\u00edfico \u00e9 humanamente imposs\u00edvel, mais ainda, se nos vier infligido gratuitamente pelos outros. E, no entanto, esse \u00e9 o plano salvador de Deus, madeira seca da Cruz, que se tornou \u00e1rvore verde da vida gloriosa e imortal. Esta li\u00e7\u00e3o a ser repetida cada dia nunca acabaremos de aprender, mas \u00e9 a \u00fanica<br \/>\nmaneira de poder entender e dar sentido \u00e0 nossa exist\u00eancia. De um lado tr\u00e1gica e, de outro, gloriosa.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Deus age sub-contr\u00e1rio.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">&#8220;A F\u00c9 SEM OBRAS EST\u00c1 MORTA.&#8221; (Tg.2,14-17)<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Esta afirma\u00e7\u00e3o de Tiago aparentemente contradiz a grande tese de S\u00e3o Paulo: &#8220;Somos salvos pela F\u00e9 e n\u00e3o pelas obras da lei. &#8221; (Rm.5) Mas em realidade ambos partilham a mesma opini\u00e3o. A F\u00e9 consiste em viver unidos a Cristo na sua morte e na sua Ressurrei\u00e7\u00e3o. N\u00e3o \u00e9 teoria ou mero sentimento, mas nosso existencial ou maneira de viver o mist\u00e9rio da P\u00e1scoa: passo da morte (fracassos, doen\u00e7as, injusti\u00e7as, dores, car\u00eancias, velhice e tudo aquilo que nos limita e mata) para a Vida Eterna que a Ressurrei\u00e7\u00e3o nos brinda. Sem este processo operativo da P\u00e1scoa, nossa f\u00e9 \u00e9 vazia e morta. Usando o mesmo exemplo, Paulo diz que Abra\u00e3o foi justificado (salvo) pela f\u00e9 e n\u00e3o pela suas obras, como teria sido ter levado a efeito o sacrif\u00edcio do seu filho Isaac. O que n\u00e3o aconteceu. Tiago, entretanto, v\u00ea a f\u00e9 oper\u00e1ria de Abra\u00e3o no fato de t\u00ea-la oferecido no altar para ser imolado a Deus. Por tanto, realizou um sacrif\u00edcio incruento, mas real. De qualquer maneira nos defrontamos mais uma vez com o Mist\u00e9rio da nossa Salva\u00e7\u00e3o, que excede \u00e0s nossas possibilidades humanas. \u00c9 mist\u00e9rio, porque a \u00fanica justi\u00e7a que podemos conceber racionalmente consiste em dar a cada um o que lhe pertence ou merece. A raz\u00e3o rege-se pela \u00c9tica do dever, ditado pela Lei Natural, conhecida pela consci\u00eancia ou pela Revela\u00e7\u00e3o de Deus. Por este caminho, como S\u00e3o Paulo, fan\u00e1tico seguidor da lei, constatou pela sua pr\u00f3pria experi\u00eancia, que ningu\u00e9m se pode salvar, porque ninguem \u00e9 capaz de equacionar sua conduta ao imperativo do dever \u00e9tico. Ningu\u00e9m poder\u00e1 confessar, terminados seus dias, ter atingido a meta da santidade. De fato, &#8220;s\u00f3 Deus \u00e9 Santo&#8221;. S\u00e3o Francisco de Assis, antes de morrer, se reconhecia o maior pecador do mundo. Todos morreremos pecadores e culpados. Por isso, permanece verdadeira e irrefut\u00e1vel a tese de S\u00e3o Paulo: &#8220;Somos salvos pela F\u00e9 e n\u00e3o pelas obras &#8220;, embora cumprir o dever \u00e9tico \u00e9 \u00fatil e necess\u00e1rio para viver neste mundo, mas ele \u00e9 radicalmente insuficiente para termos a Vida Eterna. De fato, &#8220;a Salva\u00e7\u00e3o pertence a Deus&#8221;, o que \u00e9 uma tradu\u00e7\u00e3o da tese de S\u00e3o Paulo. Ele \u00e9 quem nos salva e n\u00e3o n\u00f3s, por nos mesmos.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Quem se poder\u00e1 salvar? perguntaram os disc\u00edpulos a Jesus. Ele respondeu: &#8220;Ao homem isso \u00e9 imposs\u00edvel, n\u00e3o para Deus.&#8221; ( Mt.19)<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">O que a carta de Tiago nos revela \u00e9 que a F\u00e9 \u00e9 viva e real na medida em que vivemos de acordo com ela. Quem acredita que Deus o salva relativiza as coisas e a pr\u00f3pria vida terrena e pode amar at\u00e9 seus pr\u00f3prios inimigos, pois sente-se imortal em Deus.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Todo ego\u00edsmo nasce do medo de morrer, por isso defendemos a vida terrena, assegurando nossos bens e at\u00e9 violando os bens dos outros. &#8220;A F\u00e9 \u00e9 a posse dos bens que esperamos&#8221; ( Hb.1,1). Pela F\u00e9, afirma Pascal, n\u00e3o s\u00f3 encontramos consolo na afli\u00e7\u00e3o como podemos consolar os outros. Um ateu, dizia Jean Gitton ao presidente franc\u00eas Fran\u00e7ois Mitterrand, n\u00e3o pode morrer, s\u00f3 pode ser morto, pois morrer \u00e9 o nosso sublime ato de liberdade pelo qual escolhemos ir com Deus, nosso bem supremo. Kant, ap\u00f3s ter passado toda sua vida refletindo sobre o caminho \u00e9tico do dever buscando sua &#8220;salva\u00e7\u00e3o&#8221;, teve de deixar este caminho da raz\u00e3o para dar lugar \u00e0 f\u00e9, e considerava que a \u00fanica sa\u00edda racional que tinha um ateu era o suicidio. Sem a f\u00e9, afirma Jung, n\u00e3o podemos ser mentalmente equilibrados. F\u00e9 n\u00e3o \u00e9 cren\u00e7a religiosa mas modus vivendi de quem se sente filho de Deus. Essa nova identidade existencial nos vem somente de Cristo, o Filho de Deus feito homem que na sua pr\u00f3pria carne nos divinizou.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">A Salva\u00e7\u00e3o pela F\u00e9 tem um duplo sentido:<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">&#8211; Impossibilidade de poder salvar-nos com nossos m\u00e9ritos e recursos humanos e c\u00f3smicos. Por isso, afirma Kierkegaard, a F\u00e9 nasce na ang\u00fastia existencial, quando tocamos o limite e n\u00e3o nos resta outra alternativa do que esperar a vida s\u00f3 de Deus. &#8220;Ningu\u00e9m subiu sen\u00e3o aquele que desceu&#8221; ( Jo.3). S\u00f3 quem desceu ao inferno pode subir ao C\u00e9u, proeza que s\u00f3 Deus pode realizar em n\u00f3s. Precisamente Cristo, nosso Salvador, &#8220;desceu aos infernos&#8221; para dele nos libertar.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">&#8211; A F\u00e9 \u00e9 dom ou virtude (poder) de Deus, por isso, at\u00e9 a express\u00e3o &#8220;salvos pela F\u00e9&#8221; tem de ser entendida n\u00e3o ativamente, isto \u00e9 pertence a n\u00f3s crer para sermos salvos, o que faria da F\u00e9 mais um mandamento imposs\u00edvel de cumprir e n\u00e3o seria Deus quem nos salva, mas gra\u00e7as aos m\u00e9ritos da nossa F\u00e9. A F\u00e9 torna-se \u00c9tica a posteriori, na medida em que cremos, passamos a viver de acordo com ela. Como dom de Deus que nos salva, tem de ser pedida e desejada atrav\u00e9s da ora\u00e7\u00e3o e procura pr\u00e1tica do dever \u00e9tico. &#8220;Nao est\u00e1s longe do Reino de Deus&#8221;, disse Jesus a um mestre e cumpridor da lei. E se n\u00e3o estava longe, significa que n\u00e3o est\u00e1 dentro desse Reino ou Salva\u00e7\u00e3o, que pertence a Deus conceder-nos gratuitamente. Para que ent\u00e3o esfor\u00e7ar-nos por sermos bons neste mundo? Para tornar poss\u00edvel nossa vida terrena, pessoal e social e n\u00e3o sermos condenados pela nossa consci\u00eancia ou pelas pessoas que nos cercam. Eu n\u00e3o vos julgo, disse Jesus, tendes a Lei de Mois\u00e9s (\u00c9tica do dever) que vos julga. Seguir e tentar cumprir a \u00c9tica da Lei, assim como a religiosidade natural inerente a todo ser humano, s\u00e3o pre\u00e2mbulos da F\u00e9. &#8220;Se n\u00e3o acreditam em Mois\u00e9s (lei do dever) que nos chama a termos f\u00e9, ainda que um morto nos visitasse, n\u00e3o creditar\u00edamos&#8221;, disse Jesus na par\u00e1bola do rico e pobre L\u00e1zaro.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Salvos pela F\u00e9 significa que ser\u00e1 o pr\u00f3prio Deus quem nos salva. Por isso, os que ainda nos movemos entre a Lei e a Gra\u00e7a, a religi\u00e3o e a F\u00e9, e por isso, nutrimos certa d\u00favida sobre nossa pr\u00f3pria Salva\u00e7\u00e3o, temos, ao menos, o consolo do postulado da F\u00e9 da nossa raz\u00e3o.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Se a nossa consci\u00eancia nos acusa e condena, nos diz S\u00e3o Jo\u00e3o, saibam que temos a Deus que \u00e9 maior do que a nossa consci\u00eancia. E se o mundo vos julga e condena, eu, diz Jesus, n\u00e3o vos julgo nem condeno. &#8220;Todos ressuscitaremos (viveremos com Deus) justos (bons e crentes) e injustos (maus e descrentes)&#8221; ( At.24,15).<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">A diferen\u00e7a entre crer ou nao crer, nos diz Santo Agostinho, \u00e9 a mesma que existe entre um vidente e um cego. Um enxerga e outro n\u00e3o. Diferen\u00e7a esta que n\u00e3o \u00e9 pouca. N\u00e3o \u00e9 o mesmo acreditar que somos salvos por Deus do que viver frustrados e culpados por n\u00e3o nos poder salvar por n\u00f3s mesmos ou, viver fadados a morrer, do que sentir-nos imortais, destinados a viver com Deus felizes eternamente.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">&#8220;SE ALGU\u00c9M QUER ME SEGUIR, RENUNCIE A SI MESMO, TOME SUA CRUZ E ME SIGA, POIS QUEM QUER SALVAR A SUA VIDA( terrena) VAI PERD\u00ca-LA; MAS, QUEM A PERDE POR MIM E O EVANGELHO, VAI SALV\u00c1-LA.&#8221; (Mc 8,27- 35)<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Jesus assume a figura dos &#8220;Servo Sofredor de Jav\u00e9&#8221; anunciada pelo profeta Isa\u00edas, para abrir o caminho da Salva\u00e7\u00e3o do mundo, at\u00e9 ele nunca conhecido.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">As religi\u00f5es, filosofias e ci\u00eancias buscam como evitar o sofrimento, car\u00eancias e todo tipo de males, mas jamais encontrar\u00e3o neles o caminho que nos conduz \u00e0 verdadeira vida.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">A nossa F\u00e9 \u00e9 viva e vivificante na medida em que cruzamos este &#8220;vale de l\u00e1grimas&#8221; de maneira otimista, na esperan\u00e7a de alcan\u00e7armos a plenitude da vida eterna e feliz em Deus. Viemos a este mundo chorando, mas retornamos para Deus cantando. N\u00e3o poder\u00edamos trilhar esse caminho sem Cristo. Ele \u00e9 pioneiro nessa aventura, por isso nos convida a lhe &#8220;seguir&#8221;. Alguns biblistas afirmam que os escassos tr\u00eas anos da miss\u00e3o prof\u00e9tica de Jesus foram passados numa viagem de Nazar\u00e9 a Jerusal\u00e9m, passando por diferentes povoados, como Ele mesmo manifestou v\u00e1rias vezes dizendo: &#8220;Eis que vamos a Jerusal\u00e9m, onde Eu serei morto e ao terceiro dia ressuscitarei&#8221;. Nesse caminho pascal,de Nazar\u00e9 a Jerusal\u00e9m, foi instruindo Seus disc\u00edpulos para que trilhassem com Ele o mesmo caminho. A Pedro que tentou contestar esse plano salv\u00edfico de Deus, lhe apelidou de &#8220;satan\u00e1s\u201d, porque n\u00e3o pensava como Deus mas como os homens&#8221;. E acrescentou as palavras que seriam v\u00e1lidas para todos os tempos: &#8220;Se algu\u00e9m quer me seguir, renuncie a si mesmo, tome sua cruz (sua pr\u00f3pria exist\u00eancia com suas dores, limites, pecados e mortes) e me siga, pois quem quiser salvar a vida para este mundo, vai perd\u00ea-la, e quem a perder em mim, a salvar\u00e1&#8221;.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Se tiv\u00e9ssemos de incluir Jesus na pl\u00eaiade dos fil\u00f3sofos de todos os tempos e culturas, dir\u00edamos ter sido ele o \u00fanico a explicar e dar sentido \u00e0 vida do ser humano e da realidade do mundo que habitamos, pois s\u00f3 Ele transpassou a fronteira do sofrimento e a morte, onde a raz\u00e3o humana det\u00e9m seu pensar.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">O sofrimento e a morte nos mergulham no absurdo de uma noite intermin\u00e1vel, como confessou Nietzsche, pois n\u00e3o s\u00f3 nega racionalmente a exist\u00eancia de Deus, como a raz\u00e3o da nossa pr\u00f3pria exist\u00eancia e do universo. N\u00e3o s\u00e3o poucos os fil\u00f3sofos que refugiam-se no nada para poder pensar. A longa noite do nada a que nos leva o sofrimento e a morte, foi iluminada pela Ressurrei\u00e7\u00e3o de Cristo, &#8220;Luz do Mundo&#8221;, mas n\u00e3o sem antes passar por sua paix\u00e3o e morte, n\u00e3o reduzidas ao curto trecho do Calv\u00e1rio dos seus \u00faltimos passos, pois, antes de aprender a dar seus primeiros passos em Bel\u00e9m, carregou com sua cruz os pecados do mundo\u2026 Sua vida terrena foi trilhada na encruzilhada dos problemas, das car\u00eancias, limita\u00e7\u00f5es e dos sofrimentos que culminaram na morte de cruz, na qual n\u00e3o s\u00f3 suportou a dor como tamb\u00e9m os pecados do mundo, morrendo como malfeitor.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Somos crist\u00e3os, disc\u00edpulos de Cristo, na medida em que encontramos sentido e esperan\u00e7a no caminho &#8220;absurdo&#8221; e tr\u00e1gico da Cruz, a ser trilhado n\u00e3o com &#8220;resigna\u00e7\u00e3o&#8221; est\u00f3ica ou fruto da fatalidade, nem como \u201ccastigo dos deuses\u201d, nem como teste da nossa F\u00e9 ou a purifica\u00e7\u00e3o de nossos pecados, mas como plano s\u00e1bio e salv\u00edfico de Deus. Se o pr\u00f3prio Filho de Deus fez esse caminho, \u00e9 porque por ele, n\u00f3s e o universo, alcan\u00e7aremos a meta da glorifica\u00e7\u00e3o, nossa e a de Deus. &#8220;A cruz gloriosa do Senhor Ressuscitado&#8221; \u00e9 leito de repouso e os remos para navegar mar adentro rumo ao porto seguro do Reino dos C\u00e9us. Lev\u00e1-la com otimismo e esperan\u00e7a \u00e9 o sinal que distingue o verdadeiro crist\u00e3o, pois para o resto dos mortais ser\u00e1 sempre maldita, da qual fugir.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">O crist\u00e3o \u00e9 a \u00fanica pessoa bem informada. Sabe que a vida \u00e9 dor, como afirma o budismo, mas sabe tamb\u00e9m que nenhum progresso humano ser\u00e1 capaz de fazer florescer o lenho seco da Cruz. Mais ainda, disse Jesus, quem pretenda salvar a vida para este mundo, certamente a perder\u00e1. S\u00f3 existe uma sa\u00edda: &#8220;sofrer e morrer com Cristo, para com Ele Ressuscitar&#8221;.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Outra forma de encarar e viver esta vida \u00e9 a maior aliena\u00e7\u00e3o e in\u00fatil paix\u00e3o.&#8221;Tomar a cruz&#8221; significa encontrar e esperar a Vida Eterna na pr\u00f3pria hist\u00f3ria: nosso corpo, fam\u00edlia, trabalho, doen\u00e7as, problemas,<br \/>\nfracassos, car\u00eancias, limita\u00e7\u00f5es e at\u00e9 n\u00f3s nossos pr\u00f3prios pecados.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">N\u00e3o \u00e9 indiferen\u00e7a ao sofrimento ou doentio masoquismo, mas caminho necess\u00e1rio da Verdadeira Vida, que j\u00e1 neste mundo se faz mais humana, mais de Cristo e mais de Deus. O contr\u00e1rio \u00e0 sabedoria da Cruz \u00e9 a loucura da espada a pretender conquistar mundos sem paz e vida.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Padre Jesus Priante<br \/>\nEspanha<br \/>\n(Edi\u00e7\u00e3o e intert\u00edtulo por Malcolm Forest. S\u00e3o Paulo.)<br \/>\nCopyright 2021 Padre Jesus Priante.<br \/>\nDireitos Reservados.<br \/>\nCompartilhe mencionando o nome do autor.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Era assim que aprend\u00edamos nos catecismos antes do Conc\u00edlio Vaticano II, embora de maneira desvirtuada, pois acrescent\u00e1vamos: &#8220;porque nela Cristo nos remiu&#8221;. Era outro o sentido evang\u00e9lico professado pelos primeiros crist\u00e3os no rito do Batismo. Para uma pessoa aderir \u00e0 F\u00e9 crist\u00e3, era preciso reconhecer o sentido salv\u00edfico da pr\u00f3pria vida, talhada na madeira dos [&hellip;]<\/p>\n","protected":false},"author":1,"featured_media":69882,"comment_status":"open","ping_status":"closed","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"footnotes":""},"categories":[4,13],"tags":[],"class_list":["post-69878","post","type-post","status-publish","format-standard","has-post-thumbnail","hentry","category-cotidiano","category-featured"],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/catolicanet.net\/wp-cnet\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/69878","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/catolicanet.net\/wp-cnet\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/catolicanet.net\/wp-cnet\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/catolicanet.net\/wp-cnet\/wp-json\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/catolicanet.net\/wp-cnet\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=69878"}],"version-history":[{"count":3,"href":"https:\/\/catolicanet.net\/wp-cnet\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/69878\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":69883,"href":"https:\/\/catolicanet.net\/wp-cnet\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/69878\/revisions\/69883"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/catolicanet.net\/wp-cnet\/wp-json\/wp\/v2\/media\/69882"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/catolicanet.net\/wp-cnet\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=69878"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/catolicanet.net\/wp-cnet\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=69878"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/catolicanet.net\/wp-cnet\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=69878"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}