{"id":69773,"date":"2021-09-04T09:27:57","date_gmt":"2021-09-04T12:27:57","guid":{"rendered":"https:\/\/catolicanet.net\/wp-cnet\/?p=69773"},"modified":"2021-09-03T15:28:50","modified_gmt":"2021-09-03T18:28:50","slug":"jesus-e-surdo-mudo","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/catolicanet.net\/wp-cnet\/jesus-e-surdo-mudo\/","title":{"rendered":"Jesus e surdo mudo"},"content":{"rendered":"<p style=\"text-align: justify;\">A liturgia da Palavra traz para o 23\u00ba Domingo do Tempo Comum o Evangelho da cura de um homem surdo e mudo por parte de Jesus. Antes de fazermos uma an\u00e1lise mais detalhada do texto, podemos perceber que, geograficamente, Jesus se encontra \u201cno meio do territ\u00f3rio da Dec\u00e1pole\u201d (Mc 7,31). A palavra \u201cdec\u00e1pole\u201d significa \u201cdez cidades\u201d, nome dado ao territ\u00f3rio situado na Palestina oriental, estendendo-se desde Damasco at\u00e9 Filad\u00e9lfia. As dez cidades que formavam esta liga eram helen\u00edsticas, portanto, n\u00e3o estavam sujeitas \u00e0s leis judaicas, por esta raz\u00e3o, faziam parte de um territ\u00f3rio tido como pag\u00e3o e seus habitantes eram considerados pelos judeus como exclu\u00eddos dos caminhos da salva\u00e7\u00e3o. Foi neste ambiente que Jesus encontrou-se com um homem surdo e mudo.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">As pessoas que o trouxeram suplicaram a Jesus \u201cque impusesse as m\u00e3os sobre ele\u201d (v. 32). A descri\u00e7\u00e3o do Evangelista S\u00e3o Marcos, enriquecida com um n\u00famero significativo de elementos simb\u00f3licos, \u00e9 uma catequese sobre a miss\u00e3o de Jesus e sobre o papel que ele desenvolve no sentido de fazer do surdo-mudo um homem novo. Tem muitos elementos da inicia\u00e7\u00e3o \u00e0 vida crist\u00e3o, do rito batismal.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">A linguagem \u00e9 um meio privilegiado de comunicar, de estabelecer rela\u00e7\u00e3o e o surdo \u00e9 um homem que tem dificuldades em formar la\u00e7os, em partilhar, em dialogar, em comunicar. No juda\u00edsmo, as enfermidades f\u00edsicas s\u00e3o tidas como consequ\u00eancia do pecado, por isto, o surdo \u00e9, de forma not\u00f3ria, visto como um impuro e um pecador. Al\u00e9m disso, n\u00e3o se pode esquecer que o homem surdo-mudo vive no territ\u00f3rio pag\u00e3o da Dec\u00e1pole, o que indica ser ele, provavelmente, um desses pag\u00e3os que a teologia judaica considerava exclu\u00eddo da salva\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Mas este homem representa todos aqueles que vivem com os ouvidos fechados \u00e0s propostas de Deus, incapazes de escutar a sua Palavra e de viver de forma coerente com os outros. E n\u00f3s, diante desse cen\u00e1rio, como nos encontramos? Torna-se o s\u00edmbolo do homem pag\u00e3o que percorre um caminho novo rumo \u00e0 f\u00e9, ou seja, a inicia\u00e7\u00e3o \u00e0 vida crist\u00e3 ou o catecumenato batismal.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">O encontro com Jesus vai transformar radicalmente a vida desse surdo. Jesus abre os seus ouvidos e solta a sua l\u00edngua (v. 35), tornando-o capaz de comunicar, de escutar, de falar, de partilhar, de entrar em comunh\u00e3o. Atrav\u00e9s deste epis\u00f3dio, o Evangelista S\u00e3o Marcos sublinha a miss\u00e3o de Jesus: Ele veio para abrir os ouvidos e os cora\u00e7\u00f5es dos homens, quer \u00e0 Palavra e \u00e0s propostas de Deus, quer \u00e0 rela\u00e7\u00e3o e ao di\u00e1logo com os irm\u00e3os.\u00a0 Este texto evang\u00e9lico nos faz lembrar o an\u00fancio do Profeta Isa\u00edas feito na Primeira Leitura: \u201cTende coragem, n\u00e3o temais. A\u00ed est\u00e1 o vosso Deus; vem para fazer justi\u00e7a e dar a recompensa; Ele pr\u00f3prio vem salvar-vos. Ent\u00e3o se abrir\u00e3o os olhos dos cegos e se desimpedir\u00e3o os ouvidos dos surdos\u2026\u201d (Is 35,4-5). Jesus \u00e9 efetivamente o Deus que veio ao encontro de todos, a fim de libertar as pessoas dos preconceitos religiosos que impedem a rela\u00e7\u00e3o, o di\u00e1logo e a comunh\u00e3o fraterna.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Pode-se perceber ainda, no texto, que a iniciativa de se encontrar com Jesus n\u00e3o \u00e9 do surdo. Lemos no texto: \u201cTrouxeram ent\u00e3o um homem surdo, que falava com dificuldade, e pediram que Jesus lhe impusesse a m\u00e3o\u201d (v. 32). A primeira atitude de Jesus \u00e9 levar aquele homem para longe da multid\u00e3o (v. 33). Isto mostra que Jesus n\u00e3o quer fazer publicidade do milagre que est\u00e1 para ser realizado, mas tamb\u00e9m a pr\u00e1tica de um tempo de inicia\u00e7\u00e3o especial. A situa\u00e7\u00e3o do homem surdo-mudo \u00e9 humilhante, pois ele n\u00e3o compreende o que \u00e9 dito, nem pode responder quando as pessoas lhe dirigem a palavra.\u00a0 O seu mal est\u00e1 na sua surdez: ele \u00e9 mudo porque \u00e9 surdo. Vive instalado nessa vida sem rela\u00e7\u00e3o, parece acomodado e n\u00e3o sente grande necessidade de abrir o cora\u00e7\u00e3o para o encontro e para a comunh\u00e3o com Deus e com os demais. \u00c9 preciso que algu\u00e9m o apresente a Jesus, que o leve para essa vida nova de amor e de comunh\u00e3o.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">O texto n\u00e3o identifica os que conduzem a Jesus o surdo.\u00a0 No entanto, h\u00e1 de supor que se trate de pessoas que acreditam no poder de Jesus, pois pedem que o Senhor imponha as m\u00e3os sobre ele. Com isto, podemos afirmar ser tamb\u00e9m esse o nosso papel. Os que j\u00e1 descobriram Jesus, os que se deixaram transformar pela sua Palavra, os que j\u00e1 aceitaram segui-lo, devem dar testemunho dessa experi\u00eancia e levar outros irm\u00e3os para o encontro com ele.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Jesus age com discri\u00e7\u00e3o, levando o homem \u00e0 parte, longe da multid\u00e3o.\u00a0 Jesus n\u00e3o busca o sucesso; ele quer apenas fazer o bem.\u00a0 \u00c9 silencioso e discreto. A s\u00f3s com o surdo, Jesus realiza gestos significativos: coloca os dedos nos seus ouvidos, e com a sua saliva toca a l\u00edngua daquele homem (v. 33). Tocar com os dedos significava transmitir poder (Ex 8,15); a saliva transmitia, pensava-se naquele tempo, a pr\u00f3pria for\u00e7a ou energia vital, o que equivalia ao sopro de Deus que transformou o barro inerte do primeiro homem em um ser dotado de vida divina (Gn 2,7). Al\u00e9m disso, a propriedade terap\u00eautica da saliva, sobretudo, cicatrizante, j\u00e1 era conhecida na antiguidade. Assim, Jesus transmitiu ao surdo a sua pr\u00f3pria energia vital, dotando-o da capacidade de ser um homem novo, aberto \u00e0 comunh\u00e3o com Deus e \u00e0 rela\u00e7\u00e3o com os outros.\u00a0 O gesto de Jesus de levantar os olhos ao c\u00e9u (v. 34) deve ser entendido como um gesto de invoca\u00e7\u00e3o a Deus. Para Jesus, os grandes momentos de decis\u00e3o e de testemunho s\u00e3o sempre antecedidos de um di\u00e1logo com o Pai.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">De acordo com o texto, Jesus teria pronunciado a palavra \u201cefat\u00e1\u201d (\u201cabre-te\u201d), quando abriu os ouvidos e desatou a l\u00edngua do surdo. \u00c9 a palavra que d\u00e1 significado aos gestos de Jesus. O evangelista conservou a palavra aramaica original que Jesus ent\u00e3o pronunciou, nos transferindo assim diretamente para aquele momento. O que ali foi narrado n\u00e3o pertence a um passado distante: Jesus realiza a mesma coisa de modo novo e repetidas vezes tamb\u00e9m hoje. No Batismo, ele realizou sobre n\u00f3s este gesto do tocar e disse: \u201cEfat\u00e1!\u201d, para nos tornar capazes de ouvir a voz de Deus e para nos dar de novo a possibilidade de falar com Ele. Aquele surdo, gra\u00e7as \u00e0 interven\u00e7\u00e3o de Jesus, \u201cabriu-se\u201d. A cura para ele foi uma abertura aos outros e ao mundo, uma abertura que, partindo dos \u00f3rg\u00e3os da audi\u00e7\u00e3o e da fala, envolveu toda a sua pessoa e a sua vida: finalmente podia comunicar-se e, por conseguinte, relacionar-se de modo novo.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">O Evangelho ainda nos convida a tomar consci\u00eancia de que existe em n\u00f3s uma defici\u00eancia em rela\u00e7\u00e3o \u00e0 nossa capacidade de percep\u00e7\u00e3o, uma car\u00eancia que inicialmente n\u00e3o sentimos como tal; porque, aparentemente, tudo procede de modo normal, mesmo se j\u00e1 n\u00e3o temos ouvidos nem olhos para Deus e vivemos sem ele. Com a debilidade dos ouvidos ou at\u00e9 com a surdez em rela\u00e7\u00e3o a Deus, perde-se naturalmente tamb\u00e9m a capacidade de falar com Ele ou d\u2019Ele.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">O texto evang\u00e9lico deste domingo tamb\u00e9m deve falar a cada um de n\u00f3s. Muitas vezes estamos fechados em n\u00f3s mesmos e para Deus; criamos dificuldades para abrir o nosso cora\u00e7\u00e3o ao Criador. Pe\u00e7amos hoje ao Senhor que Ele pronuncie de novo o seu \u201cEfat\u00e1!\u201d sobre cada um de n\u00f3s, que cure de novo a nossa debilidade dos ouvidos \u00e0 sua palavra, nos fa\u00e7a enxergar nossas falhas e nossos erros e nos possibilite crescer na f\u00e9. A Ele dirigimos a nossa s\u00faplica para que possamos, com o nosso falar e o nosso agir, comunicar ao mundo a raz\u00e3o da nossa esperan\u00e7a (1Pd 3,15). Que nossos ouvidos estejam sempre abertos ao clamor do Senhor. Assim seja!<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>A liturgia da Palavra traz para o 23\u00ba Domingo do Tempo Comum o Evangelho da cura de um homem surdo e mudo por parte de Jesus. Antes de fazermos uma an\u00e1lise mais detalhada do texto, podemos perceber que, geograficamente, Jesus se encontra \u201cno meio do territ\u00f3rio da Dec\u00e1pole\u201d (Mc 7,31). 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