{"id":69305,"date":"2021-08-12T09:33:07","date_gmt":"2021-08-12T12:33:07","guid":{"rendered":"https:\/\/catolicanet.net\/wp-cnet\/?p=69305"},"modified":"2021-08-12T10:36:10","modified_gmt":"2021-08-12T13:36:10","slug":"francisco-nao-e-cultura-nem-beleza-se-explora-o-trabalho-escravo","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/catolicanet.net\/wp-cnet\/francisco-nao-e-cultura-nem-beleza-se-explora-o-trabalho-escravo\/","title":{"rendered":"Francisco: n\u00e3o \u00e9 cultura nem beleza se explora o trabalho escravo"},"content":{"rendered":"<div class=\"article__subTitle\" style=\"text-align: justify;\">O Papa responde ao romancista italiano Maurizio Maggiani, que h\u00e1 poucos dias lhe escreveu uma carta aberta no jornal italiano &#8220;Secolo XIX&#8221;, relatando com &#8220;vergonha&#8221; a descoberta do m\u00e9todo criminoso utilizado para imprimir seus livros e de outros autores em detrimento dos imigrantes. Hoje, no di\u00e1rio de G\u00eanova, as palavras de Francisco: \u00e9 preciso a coragem de &#8220;renunciar&#8221; \u00e0s vantagens produzidas pelos &#8220;mecanismos de morte&#8221;<\/div>\n<div class=\"title__separator\" style=\"text-align: justify;\"><\/div>\n<div class=\"article__text \">\n<p style=\"text-align: justify;\"><b>Alessandro De Carolis \u2013 Vatican News<\/b><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">A coragem do pintarroxo, o t\u00edtulo de um de seus livros mais conhecidos, foi desta vez dele. O romancista-Davide, que questiona a \u00e9tica da ind\u00fastria-Golias, da qual ele pr\u00f3prio \u00e9 um membro renomado, neste caso a ind\u00fastria editorial, porque se incomodado com o certo descuido com que \u00e0s vezes evita investigar se alguns de seus lucros ocultam situa\u00e7\u00f5es desumanas, se por tr\u00e1s da delicadeza de seus produtos h\u00e1 uma cadeia de viol\u00eancia contra aqueles que os produzem, se por tr\u00e1s do brilho da fachada espreitam hist\u00f3rias invis\u00edveis de presas indefesas e predadores cru\u00e9is. O do outro lado, como num espelho, as conhecidas convic\u00e7\u00f5es do Papa, em certo sentido um &#8220;colega&#8221; de escrita e sobretudo uma &#8220;voz alta&#8221; a quem dirigir a pergunta que trai o dilema subjacente: &#8220;Vale a pena produzir obras belas e s\u00e1bias se precisamos do trabalho dos escravos para faz\u00ea-lo?<\/p>\n<div style=\"text-align: justify;\">\n<div class=\"article__embed article__embed--unwrap article__embed--dark\">\n<div class=\"article__innerTitle\">Ou\u00e7a e compartilhe<\/div>\n<div>\n<!--[if lt IE 9]><script>document.createElement('audio');<\/script><![endif]-->\n<audio class=\"wp-audio-shortcode\" id=\"audio-69305-1\" preload=\"none\" style=\"width: 100%;\" controls=\"controls\"><source type=\"audio\/mpeg\" src=\"https:\/\/media.vaticannews.va\/media\/audio\/s1\/2021\/08\/12\/11\/136145882_F136145882.mp3?_=1\" \/><a href=\"https:\/\/media.vaticannews.va\/media\/audio\/s1\/2021\/08\/12\/11\/136145882_F136145882.mp3\">https:\/\/media.vaticannews.va\/media\/audio\/s1\/2021\/08\/12\/11\/136145882_F136145882.mp3<\/a><\/audio>\n<\/div>\n<\/div>\n<\/div>\n<h2 style=\"text-align: justify;\">Em di\u00e1logo com Francisco<\/h2>\n<p style=\"text-align: justify;\">\u00c9 um di\u00e1logo original e intenso a longa dist\u00e2ncia que se desenvolveu nos \u00faltimos dias entre Maurizio Maggiani, escritor e jornalista ligurino, e Francisco, que quis responder ao romancista com uma carta &#8211; datada de 9 de agosto, dia em que a Igreja celebra Edith Stein, Santa Teresa Benedita da Cruz, co-padroeira da Europa &#8211; a uma quest\u00e3o levantada publicamente pelo autor em carta aberta, publicada em 1\u00ba de agosto nas colunas do &#8220;Secolo XIX&#8221;, que publica esta sexta-feira (12\/08) a resposta do Papa. Maggiani quis compartilhar diretamente com Francisco a &#8220;vergonha&#8221; que sentiu ao aprender de uma hist\u00f3ria de crime que a produ\u00e7\u00e3o de seus livros e de outros autores tamb\u00e9m passou por uma empresa no V\u00eaneto, e pelo estabelecimento subcontratado no Trentino, ambos acusados pelo judici\u00e1rio de terem explorado com m\u00e9todos criminosos, &#8220;ao ponto do indiz\u00edvel&#8221; escreve Maggiani, o trabalho dos oper\u00e1rios paquistaneses, literalmente brutalizados.<\/p>\n<h2 style=\"text-align: justify;\">&#8220;Senti vergonha de mim mesmo&#8221;<\/h2>\n<p style=\"text-align: justify;\">Maggiani, que se define como um n\u00e3o crente (conhe\u00e7o, escreve, &#8220;a impetuosa for\u00e7a prof\u00e9tica&#8221; de Cristo &#8220;mas eu nunca tive o dom, a gra\u00e7a, de aguardar por tr\u00eas dias diante de seu t\u00famulo, esperar com Maria de Magdala e constatar a ressurrei\u00e7\u00e3o do filho de Deus&#8221;), afirma ter se dirigido a Francisco por uma s\u00e9rie de raz\u00f5es, entre as quais a de uma sensibilidade compartilhada. &#8220;As hist\u00f3rias que gosto de contar e sinto o dever de faz\u00ea-lo&#8221;, diz o romancista, &#8220;s\u00e3o as hist\u00f3rias dos silenciosos, dos \u00faltimos e dos humildes&#8221;, mas a indiferen\u00e7a com rela\u00e7\u00e3o ao porqu\u00ea encontrada nos colegas, &#8220;como se fosse uma pergunta ociosa&#8221;, o levou a dirigi-la a &#8220;Sua Santidade, porque&#8221;, confessa ele, &#8220;com toda a minha busca, n\u00e3o consigo ver nenhuma outra autoridade moral que al\u00e9m de ter uma voz alta esteja disposta a ouvir, a perguntar antes de julgar&#8221;. Perguntar a si mesmo sobre as implica\u00e7\u00f5es do horror que ocorreu naquele campo de concentra\u00e7\u00e3o moderno, constru\u00eddo \u00e0s custas de imigrantes pobres com sal\u00e1rios de fome, sem horas de trabalho e sem direitos, levados a chutes e pontap\u00e9s se ousassem pedir respeito: &#8220;Senti vergonha de mim mesmo, de ter tanto cuidado para manter minhas m\u00e3os limpas e n\u00e3o usar produtos suspeitos de explora\u00e7\u00e3o de escravos, e ainda assim&#8221;, admite o escritor, &#8220;nunca refleti sobre as evid\u00eancias de que meu trabalho como romancista, t\u00e3o nobre&#8221;, \u00e9 &#8220;parte de uma cadeia do sistema de produ\u00e7\u00e3o, aquela que modestamente chamamos de cadeia de fornecimento, n\u00e3o diferente de qualquer outra, e portanto pass\u00edvel das mesmas aberra\u00e7\u00f5es&#8221;.<\/p>\n<h2 style=\"text-align: justify;\">Ver os invis\u00edveis<\/h2>\n<p style=\"text-align: justify;\">Francisco responde destilando um dos pensamentos-chave de seu magist\u00e9rio. &#8220;Voc\u00ea n\u00e3o est\u00e1 fazendo uma pergunta ociosa&#8221;, reconhece o Papa a Maggiani, &#8220;porque o que est\u00e1 em jogo \u00e9 a dignidade das pessoas, aquela dignidade que hoje \u00e9 demasiadas vezes e facilmente espezinhada com o &#8216;trabalho escravo&#8217;, no sil\u00eancio c\u00famplice e ensurdecedor de muitos. Vimos isso durante o isolamento social, quando muitos de n\u00f3s descobrimos que atr\u00e1s dos alimentos que continuavam a chegar em nossas mesas havia centenas de milhares de trabalhadores bra\u00e7ais sem direitos: invis\u00edveis e \u00faltimos &#8211; embora os primeiros! &#8211; etapas de uma cadeia que, a fim de fornecer alimentos, privou muitos do p\u00e3o de um trabalho decente&#8221;. Mas na verdade, continua Francisco, associar este tipo de inf\u00e2mia \u00e0 literatura &#8220;talvez seja ainda mais chocante&#8221; se o que o Papa chama de &#8220;p\u00e3o das almas, express\u00e3o que eleva o esp\u00edrito humano&#8221;, \u00e9 &#8220;ferido pela voracidade de uma explora\u00e7\u00e3o que age nas sombras, apagando rostos e nomes&#8221;. Portanto, se algu\u00e9m publica algo que \u00e9 baseado em uma injusti\u00e7a, \u00e9 &#8220;em si mesmo injusto&#8221; e &#8220;para um crist\u00e3o &#8211; lembra o Papa &#8211; toda forma de explora\u00e7\u00e3o \u00e9 um pecado&#8221;.<b><\/b><\/p>\n<h2 style=\"text-align: justify;\">As duas coisas a fazer<\/h2>\n<p style=\"text-align: justify;\">A solu\u00e7\u00e3o, no entanto, n\u00e3o reside na rendi\u00e7\u00e3o. &#8220;Renunciar \u00e0 beleza seria um retirada que, por sua vez, \u00e9 injusta, uma omiss\u00e3o do bem&#8221;, diz Francisco, que sugere uma rea\u00e7\u00e3o baseada em dois verbos. A primeira \u00e9 &#8220;denunciar&#8221; os &#8220;mecanismos de morte&#8221;, as &#8220;estruturas de pecado&#8221;, chegando ao ponto de escrever &#8220;at\u00e9 mesmo coisas desconfort\u00e1veis para nos sacudir da indiferen\u00e7a, para estimular as consci\u00eancias, inquietando-as, para que n\u00e3o se deixem anestesiar pelo &#8220;n\u00e3o me interessa, n\u00e3o \u00e9 da minha conta, o que posso fazer se o mundo est\u00e1 indo assim?&#8221; O segundo verbo \u00e9 &#8220;renunciar&#8221;. Ao agradecer a Maggiani por ter escrito o que escreveu sem calcular o &#8220;retorno da imagem&#8221;, Francisco sustenta que, al\u00e9m da coragem de denunciar, \u00e9 preciso ter coragem para renunciar. Ren\u00fancia &#8220;n\u00e3o \u00e0 literatura e \u00e0 cultura &#8211; afirma -, mas a h\u00e1bitos e vantagens que, hoje onde tudo est\u00e1 conectado, descobrimos, devido aos mecanismos perversos de explora\u00e7\u00e3o, prejudicam a dignidade de nossos irm\u00e3os e irm\u00e3s&#8221;. \u00c9 um sinal poderoso&#8221;, insiste, &#8220;renunciar a posi\u00e7\u00f5es e comodidades a fim de abrir espa\u00e7o para aqueles que n\u00e3o t\u00eam espa\u00e7o&#8221;. Chegar a &#8220;dizer n\u00e3o por um sim maior&#8221;, fazer &#8220;obje\u00e7\u00e3o de consci\u00eancia para promover a dignidade humana&#8221;.<\/p>\n<h2 style=\"text-align: justify;\">A cultura, voz dos humilhados n\u00e3o do mercado<\/h2>\n<p style=\"text-align: justify;\">O Papa da Igreja pobre para os pobres reitera que ama Dostoievski &#8220;n\u00e3o s\u00f3 por sua leitura profunda da alma humana e seu sentido religioso, mas porque ele escolheu contar vidas pobres, &#8216;humilhadas e ofendidas'&#8221;. Esta \u00e9 uma considera\u00e7\u00e3o que suscita um apelo: diante dos muitos humilhados e ofendidos de hoje, sem praticamente ningu\u00e9m para faz\u00ea-los &#8220;protagonistas, enquanto o dinheiro e os interesses dominam&#8221;, &#8220;a cultura n\u00e3o deve se deixe subjugar pelo mercado&#8221;.<\/p>\n<\/div>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>O Papa responde ao romancista italiano Maurizio Maggiani, que h\u00e1 poucos dias lhe escreveu uma carta aberta no jornal italiano &#8220;Secolo XIX&#8221;, relatando com &#8220;vergonha&#8221; a descoberta do m\u00e9todo criminoso utilizado para imprimir seus livros e de outros autores em detrimento dos imigrantes. 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