{"id":69049,"date":"2021-07-29T09:41:59","date_gmt":"2021-07-29T12:41:59","guid":{"rendered":"https:\/\/catolicanet.net\/wp-cnet\/?p=69049"},"modified":"2021-07-29T13:44:51","modified_gmt":"2021-07-29T16:44:51","slug":"amoris-laetitia-o-matrimonio-icone-do-amor-de-deus","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/catolicanet.net\/wp-cnet\/amoris-laetitia-o-matrimonio-icone-do-amor-de-deus\/","title":{"rendered":"Amoris laetitia: o matrim\u00f4nio, \u00edcone do amor de Deus"},"content":{"rendered":"<div class=\"article__subTitle\" style=\"text-align: justify;\">Cada m\u00eas, em 10 epis\u00f3dios, um v\u00eddeo com as reflex\u00f5es do Papa e o testemunho de fam\u00edlias de todas as partes do mundo \u2013 realizado em colabora\u00e7\u00e3o entre o Dicast\u00e9rio Leigos Fam\u00edlia e Vida e Vatican News \u2013 ajuda a reler a Exorta\u00e7\u00e3o apost\u00f3lica, com a contribui\u00e7\u00e3o de um subs\u00eddio que pode ser baixado para o aprofundamento pessoal e comunit\u00e1rio. Porque ser fam\u00edlia, recorda Francisco, \u00e9 sempre \u201cprincipalmente uma oportunidade\u201d.<\/div>\n<div>\n<p><iframe loading=\"lazy\" title=\"O \u201cpara sempre\u201d e a beleza do amor\" width=\"696\" height=\"392\" src=\"https:\/\/www.youtube.com\/embed\/zXTrz3mCiTc?feature=oembed\" frameborder=\"0\" allow=\"accelerometer; autoplay; clipboard-write; encrypted-media; gyroscope; picture-in-picture\" allowfullscreen><\/iframe><\/p>\n<\/div>\n<div class=\"title__separator\" style=\"text-align: justify;\"><\/div>\n<div class=\"article__text\">\n<p style=\"text-align: justify;\"><a href=\"https:\/\/www.vatican.va\/content\/francesco\/pt\/apost_exhortations\/documents\/papa-francesco_esortazione-ap_20160319_amoris-laetitia.html\" rel=\"external\">Amoris laetitia<\/a><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">(n. 120-164)<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><b>Crescer na caridade conjugal<\/b><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">120. O c\u00e2ntico de S\u00e3o Paulo, que acab\u00e1mos de repassar, permite-nos avan\u00e7ar para a caridade conjugal. Esta \u00e9 o amor que une os esposos,<a href=\"https:\/\/www.vatican.va\/content\/francesco\/pt\/apost_exhortations\/documents\/papa-francesco_esortazione-ap_20160319_amoris-laetitia.html#_ftn115\" rel=\"external\" name=\"_ftnref115\">[115]<\/a>\u00a0amor santificado, enriquecido e iluminado pela gra\u00e7a do sacramento do matrim\u00f3nio. \u00c9 uma \u00abuni\u00e3o afectiva\u00bb,<a href=\"https:\/\/www.vatican.va\/content\/francesco\/pt\/apost_exhortations\/documents\/papa-francesco_esortazione-ap_20160319_amoris-laetitia.html#_ftn116\" rel=\"external\" name=\"_ftnref116\">[116]<\/a>\u00a0espiritual e oblativa, mas que re\u00fane em si a ternura da amizade e a paix\u00e3o er\u00f3tica, embora seja capaz de subsistir mesmo quando os sentimentos e a paix\u00e3o enfraquecem. O Papa Pio XI ensinava que este amor permeia todos os deveres da vida conjugal e \u00abdet\u00e9m como que o primado da nobreza\u00bb.<a href=\"https:\/\/www.vatican.va\/content\/francesco\/pt\/apost_exhortations\/documents\/papa-francesco_esortazione-ap_20160319_amoris-laetitia.html#_ftn117\" rel=\"external\" name=\"_ftnref117\">[117]<\/a>\u00a0Com efeito, este amor forte, derramado pelo Esp\u00edrito Santo, \u00e9 reflexo da alian\u00e7a indestrut\u00edvel entre Cristo e a humanidade que culminou na entrega at\u00e9 ao fim na cruz. \u00abO Esp\u00edrito, que o Senhor infunde, d\u00e1 um cora\u00e7\u00e3o novo e torna o homem e a mulher capazes de se amarem como Cristo nos amou. O amor conjugal atinge assim aquela plenitude para a qual est\u00e1 interiormente ordenado: a caridade conjugal\u00bb.<a href=\"https:\/\/www.vatican.va\/content\/francesco\/pt\/apost_exhortations\/documents\/papa-francesco_esortazione-ap_20160319_amoris-laetitia.html#_ftn118\" rel=\"external\" name=\"_ftnref118\">[118]<\/a><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">121. O matrim\u00f3nio \u00e9 um sinal precioso, porque, \u00abquando um homem e uma mulher celebram o sacramento do matrim\u00f3nio, Deus, por assim dizer, \u201cespelha-Se\u201d neles, imprime neles as suas caracter\u00edsticas e o car\u00e1cter indel\u00e9vel do seu amor. O matrim\u00f3nio \u00e9 o \u00edcone do amor de Deus por n\u00f3s. Com efeito, tamb\u00e9m Deus \u00e9 comunh\u00e3o: as tr\u00eas Pessoas \u2013 Pai, Filho e Esp\u00edrito Santo \u2013 vivem desde sempre e para sempre em unidade perfeita. \u00c9 precisamente nisto que consiste o mist\u00e9rio do matrim\u00f3nio: dos dois esposos, Deus faz uma s\u00f3 exist\u00eancia\u00bb.<a href=\"https:\/\/www.vatican.va\/content\/francesco\/pt\/apost_exhortations\/documents\/papa-francesco_esortazione-ap_20160319_amoris-laetitia.html#_ftn119\" rel=\"external\" name=\"_ftnref119\">[119]<\/a>\u00a0Isto tem consequ\u00eancias muito concretas na vida do dia-a-dia, porque, \u00abem virtude do sacramento, os esposos s\u00e3o investidos numa aut\u00eantica miss\u00e3o, para que possam tornar vis\u00edvel, a partir das realidades simples e ordin\u00e1rias, o amor com que Cristo ama a sua Igreja, continuando a dar a vida por ela\u00bb.<a href=\"https:\/\/www.vatican.va\/content\/francesco\/pt\/apost_exhortations\/documents\/papa-francesco_esortazione-ap_20160319_amoris-laetitia.html#_ftn120\" rel=\"external\" name=\"_ftnref120\">[120]<\/a><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">122. Todavia conv\u00e9m n\u00e3o confundir planos diferentes: n\u00e3o se deve atirar para cima de duas pessoas limitadas o peso tremendo de ter que reproduzir perfeitamente a uni\u00e3o que existe entre Cristo e a sua Igreja, porque o matrim\u00f3nio como sinal implica \u00abum processo din\u00e2mico, que avan\u00e7a gradualmente com a progressiva integra\u00e7\u00e3o dos dons de Deus\u00bb.<a href=\"https:\/\/www.vatican.va\/content\/francesco\/pt\/apost_exhortations\/documents\/papa-francesco_esortazione-ap_20160319_amoris-laetitia.html#_ftn121\" rel=\"external\" name=\"_ftnref121\">[121]<\/a><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><i>A vida toda, tudo em comum<\/i><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">123. Depois do amor que nos une a Deus, o amor conjugal \u00e9 a \u00abamizade maior\u00bb.<a href=\"https:\/\/www.vatican.va\/content\/francesco\/pt\/apost_exhortations\/documents\/papa-francesco_esortazione-ap_20160319_amoris-laetitia.html#_ftn122\" rel=\"external\" name=\"_ftnref122\">[122]<\/a>\u00a0\u00c9 uma uni\u00e3o que tem todas as caracter\u00edsticas duma boa amizade: busca do bem do outro, reciprocidade, intimidade, ternura, estabilidade e uma semelhan\u00e7a entre os amigos que se vai construindo com a vida partilhada. O matrim\u00f3nio, por\u00e9m, acrescenta a tudo isso uma exclusividade indissol\u00favel, que se expressa no projecto est\u00e1vel de partilhar e construir juntos toda a exist\u00eancia. Sejamos sinceros na leitura dos sinais da realidade: quem est\u00e1 enamorado n\u00e3o projecta que essa rela\u00e7\u00e3o possa ser apenas por um certo tempo; quem vive intensamente a alegria de se casar n\u00e3o est\u00e1 a pensar em algo de passageiro; aqueles que acompanham a celebra\u00e7\u00e3o duma uni\u00e3o cheia de amor, embora fr\u00e1gil, esperam que possa perdurar no tempo; os filhos querem n\u00e3o s\u00f3 que os seus pais se amem, mas tamb\u00e9m que sejam fi\u00e9is e permane\u00e7am sempre juntos. Estes e outros sinais mostram que, na pr\u00f3pria natureza do amor conjugal, existe a abertura ao definitivo. A uni\u00e3o, que se cristaliza na promessa matrimonial para sempre, \u00e9 mais do que uma formalidade social ou uma tradi\u00e7\u00e3o, porque radica-se nas inclina\u00e7\u00f5es espont\u00e2neas da pessoa humana. E, para os crentes, \u00e9 uma alian\u00e7a diante de Deus, que exige fidelidade: \u00abO Senhor constituiu-Se testemunha entre ti e a esposa da tua juventude, aquela que tu atrai\u00e7oaste, embora ela fosse a tua companheira e aquela com quem fizeste alian\u00e7a. (&#8230;) Ningu\u00e9m atrai\u00e7oe a mulher da sua juventude, porque Eu odeio o div\u00f3rcio\u00bb (<i>Ml<\/i>\u00a02, 14.15-16).<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">124. Um amor fr\u00e1gil ou enfermi\u00e7o, incapaz de aceitar o matrim\u00f3nio como um desafio que exige lutar, renascer, reinventar-se e recome\u00e7ar sempre de novo at\u00e9 \u00e0 morte, n\u00e3o pode sustentar um n\u00edvel alto de compromisso. Cede \u00e0 cultura do provis\u00f3rio, que impede um processo constante de crescimento. Mas \u00abprometer um amor que dure para sempre \u00e9 poss\u00edvel, quando se descobre um des\u00edgnio maior que os pr\u00f3prios projectos, que nos sustenta e permite doar o futuro inteiro \u00e0 pessoa amada\u00bb.<a href=\"https:\/\/www.vatican.va\/content\/francesco\/pt\/apost_exhortations\/documents\/papa-francesco_esortazione-ap_20160319_amoris-laetitia.html#_ftn123\" rel=\"external\" name=\"_ftnref123\">[123]<\/a>\u00a0Para que este amor possa atravessar todas as prova\u00e7\u00f5es e manter-se fiel contra tudo, requer-se o dom da gra\u00e7a que o fortalece e eleva. Como dizia S\u00e3o Roberto Belarmino, \u00abo facto de um s\u00f3 se unir com uma s\u00f3 num v\u00ednculo indissol\u00favel, de modo que n\u00e3o possam separar-se, sejam quais forem as dificuldades, e mesmo quando se perdeu a esperan\u00e7a da prole, isto n\u00e3o pode acontecer sem um grande mist\u00e9rio\u00bb.<a href=\"https:\/\/www.vatican.va\/content\/francesco\/pt\/apost_exhortations\/documents\/papa-francesco_esortazione-ap_20160319_amoris-laetitia.html#_ftn124\" rel=\"external\" name=\"_ftnref124\">[124]<\/a><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">125. Al\u00e9m disso, o matrim\u00f3nio \u00e9 uma amizade que inclui as caracter\u00edsticas pr\u00f3prias da paix\u00e3o, mas sempre orientada para uma uni\u00e3o cada vez mais firme e intensa. Com efeito, \u00abn\u00e3o foi institu\u00eddo s\u00f3 em ordem \u00e0 procria\u00e7\u00e3o\u00bb, mas para que o amor m\u00fatuo \u00abse exprima convenientemente, aumente e chegue \u00e0 maturidade\u00bb.<a href=\"https:\/\/www.vatican.va\/content\/francesco\/pt\/apost_exhortations\/documents\/papa-francesco_esortazione-ap_20160319_amoris-laetitia.html#_ftn125\" rel=\"external\" name=\"_ftnref125\">[125]<\/a>\u00a0Esta amizade peculiar entre um homem e uma mulher adquire um car\u00e1cter totalizante, que s\u00f3 se verifica na uni\u00e3o conjugal. E precisamente por ser totalizante, esta uni\u00e3o tamb\u00e9m \u00e9 exclusiva, fiel e aberta \u00e0 gera\u00e7\u00e3o. Partilha-se tudo, incluindo a sexualidade, sempre no m\u00fatuo respeito. Isto mesmo expressou o Conc\u00edlio Vaticano II ao dizer que, \u00abunindo o humano e o divino, esse amor leva os esposos ao livre e rec\u00edproco dom de si mesmos, que se manifesta com a ternura do afecto e com as obras, e penetra toda a sua vida\u00bb.<a href=\"https:\/\/www.vatican.va\/content\/francesco\/pt\/apost_exhortations\/documents\/papa-francesco_esortazione-ap_20160319_amoris-laetitia.html#_ftn126\" rel=\"external\" name=\"_ftnref126\">[126]<\/a><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><i>Alegria e beleza<\/i><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">126. No matrim\u00f3nio, conv\u00e9m cuidar a alegria do amor. Quando a busca do prazer \u00e9 obsessiva, encerra-nos numa coisa s\u00f3 e n\u00e3o permite encontrar outros tipos de satisfa\u00e7\u00f5es. Pelo contr\u00e1rio, a alegria expande a capacidade de desfrutar e permite-nos encontrar prazerem realidades variadas, mesmo nas fases da vida em que o prazer se apaga. Por isso, dizia S\u00e3o Tom\u00e1s que se usa a palavra \u00abalegria\u00bb para se referir \u00e0 dilata\u00e7\u00e3o da amplitude do cora\u00e7\u00e3o.<a href=\"https:\/\/www.vatican.va\/content\/francesco\/pt\/apost_exhortations\/documents\/papa-francesco_esortazione-ap_20160319_amoris-laetitia.html#_ftn127\" rel=\"external\" name=\"_ftnref127\">[127]<\/a>\u00a0A alegria matrimonial, que se pode viver mesmo no meio do sofrimento, implica aceitar que o matrim\u00f3nio \u00e9 uma combina\u00e7\u00e3o necess\u00e1ria de alegrias e fadigas, de tens\u00f5es e repouso, de sofrimentos e liberta\u00e7\u00f5es, de satisfa\u00e7\u00f5es e buscas, de aborrecimentos e prazeres, sempre no caminho da amizade que impele os esposos a cuidarem um do outro: \u00abprestam-se rec\u00edproca ajuda e servi\u00e7o\u00bb.<a href=\"https:\/\/www.vatican.va\/content\/francesco\/pt\/apost_exhortations\/documents\/papa-francesco_esortazione-ap_20160319_amoris-laetitia.html#_ftn128\" rel=\"external\" name=\"_ftnref128\">[128]<\/a><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">127. O amor de amizade chama-se \u00abcaridade\u00bb, quando capta e aprecia o \u00abvalor sublime\u00bb que tem o outro.<a href=\"https:\/\/www.vatican.va\/content\/francesco\/pt\/apost_exhortations\/documents\/papa-francesco_esortazione-ap_20160319_amoris-laetitia.html#_ftn129\" rel=\"external\" name=\"_ftnref129\">[129]<\/a>\u00a0A beleza \u2013 o \u00abvalor sublime\u00bb do outro, que n\u00e3o coincide com os seus atractivos f\u00edsicos ou psicol\u00f3gicos \u2013 permite-nos saborear o car\u00e1cter sagrado da pessoa, sem a imperiosa necessidade de a possuir. Na sociedade de consumo, o sentido est\u00e9tico empobrece-se e, assim, se apaga a alegria. Tudo se destina a ser comprado, possu\u00eddo ou consumido, incluindo as pessoas. Ao contr\u00e1rio, a ternura \u00e9 uma manifesta\u00e7\u00e3o deste amor que se liberta do desejo da posse ego\u00edsta. Leva-nos a vibrar \u00e0 vista duma pessoa, com imenso respeito e um certo receio de lhe causar dano ou tirar a sua liberdade. O amor pelo outro implica este gosto de contemplar e apreciar o que \u00e9 belo e sagrado do seu ser pessoal, que existe para al\u00e9m das minhas necessidades. Isto permite-me procurar o seu bem, mesmo quando sei que n\u00e3o pode ser meu ou quando se tornou fisicamente desagrad\u00e1vel, agressivo ou chato. Por isso, \u00abdo amor pelo qual uma pessoa me \u00e9 agrad\u00e1vel, depende que lhe d\u00ea algo de gra\u00e7a\u00bb.<a href=\"https:\/\/www.vatican.va\/content\/francesco\/pt\/apost_exhortations\/documents\/papa-francesco_esortazione-ap_20160319_amoris-laetitia.html#_ftn130\" rel=\"external\" name=\"_ftnref130\">[130]<\/a><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">128. A experi\u00eancia est\u00e9tica do amor exprime-se naquele olhar que contempla o outro como fim em si mesmo, ainda que esteja doente, velho ou privado de atractivos sens\u00edveis. O olhar que aprecia tem uma enorme import\u00e2ncia e, recus\u00e1-lo, habitualmente faz dano. \u00c0s vezes, quantas coisas fazem os c\u00f4njuges e os filhos para ser considerados e tidos em conta! Muitas feridas e crises t\u00eam a sua origem no momento em que deixamos de nos contemplar. Isto \u00e9 o que exprimem algumas queixas e reclama\u00e7\u00f5es, que se ouvem nas fam\u00edlias: \u00abO meu marido n\u00e3o me olha, para ele parece que sou invis\u00edvel\u00bb. \u00abPor favor, olha para mim, quando te falo\u00bb. \u00abA minha mulher j\u00e1 n\u00e3o me olha, agora s\u00f3 tem olhos para os filhos\u00bb. \u00abEm minha casa, n\u00e3o interesso a ningu\u00e9m, nem sequer me v\u00eaem, \u00e9 como se n\u00e3o existisse\u00bb<i>.<\/i>\u00a0O amor abre os olhos e permite ver, mais al\u00e9m de tudo, quanto vale um ser humano.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">129. A alegria deste amor contemplativo deve ser cultivada. Uma vez que somos feitos para amar, sabemos que n\u00e3o h\u00e1 maior alegria do que partilhar um bem: \u00abD\u00e1 e recebe, e alegra a tua vida\u00bb (<i>Sir<\/i>\u00a014, 16). As alegrias mais intensas da vida surgem, quando se pode provocar a felicidade dos outros, numa antecipa\u00e7\u00e3o do C\u00e9u. Vem a prop\u00f3sito recordar a cena feliz do filme\u00a0<i>A festa de Babette<\/i>, quando a generosa cozinheira recebe um abra\u00e7o agradecido e este elogio: \u00abComo deliciar\u00e1s os anjos!\u00bb \u00c9 doce e consoladora a alegria de fazer as del\u00edcias dos outros, v\u00ea-los usufruir delas. Este j\u00fabilo, efeito do amor fraterno, n\u00e3o \u00e9 o da vaidade de quem olha para si mesmo, mas o do amante que se compraz no bem do ser amado, que transborda para o outro e se torna fecundo nele.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">130. Por outro lado, a alegria renova-se no sofrimento. Como dizia Santo Agostinho, \u00abquanto mais grave foi o perigo no combate, tanto maior \u00e9 o gozo no triunfo\u00bb.<a href=\"https:\/\/www.vatican.va\/content\/francesco\/pt\/apost_exhortations\/documents\/papa-francesco_esortazione-ap_20160319_amoris-laetitia.html#_ftn131\" rel=\"external\" name=\"_ftnref131\">[131]<\/a>\u00a0Depois de ter sofrido e lutado unidos, os c\u00f4njuges podem experimentar que valeu a pena, porque conseguiram algo de bom, aprenderam alguma coisa juntos ou podem apreciar melhor o que t\u00eam. Poucas alegrias humanas s\u00e3o t\u00e3o profundas e festivas como quando duas pessoas que se amam conquistaram, conjuntamente, algo que lhes custou um grande esfor\u00e7o compartilhado.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><i>Casar-se por amor<\/i><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">131. Quero dizer aos jovens que nada disto \u00e9 prejudicado, quando o amor assume a modalidade da institui\u00e7\u00e3o matrimonial. A uni\u00e3o encontra nesta institui\u00e7\u00e3o o modo de canalizar a sua estabilidade e o seu crescimento real e concreto. \u00c9 verdade que o amor \u00e9 muito mais do que um consentimento externo ou uma forma de contrato matrimonial, mas \u00e9 igualmente certo que a decis\u00e3o de dar ao matrim\u00f3nio uma configura\u00e7\u00e3o vis\u00edvel na sociedade com certos compromissos manifesta a sua relev\u00e2ncia: mostra a seriedade da identifica\u00e7\u00e3o com o outro, indica uma supera\u00e7\u00e3o do individualismo de adolescente e expressa a firme op\u00e7\u00e3o de se pertencerem um ao outro. Casar-se \u00e9 uma maneira de exprimir que realmente se abandonou o ninho materno, para tecer outros la\u00e7os fortes e assumir uma nova responsabilidade perante outra pessoa. Isto vale muito mais do que uma mera associa\u00e7\u00e3o espont\u00e2nea para m\u00fatua compensa\u00e7\u00e3o, que seria a privatiza\u00e7\u00e3o do matrim\u00f3nio. Este, como institui\u00e7\u00e3o social, \u00e9 protec\u00e7\u00e3o e instrumento para o compromisso m\u00fatuo, para o amadurecimento do amor, para que a op\u00e7\u00e3o pelo outro cres\u00e7a em solidez, concretiza\u00e7\u00e3o e profundidade, e possa, por sua vez, cumprir a sua miss\u00e3o na sociedade. Por isso, o matrim\u00f3nio supera qualquer moda passageira e persiste. A sua ess\u00eancia est\u00e1 radicada na pr\u00f3pria natureza da pessoa humana e do seu car\u00e1cter social. Implica uma s\u00e9rie de obriga\u00e7\u00f5es; mas estas brotam do pr\u00f3prio amor, um amor t\u00e3o decidido e generoso que \u00e9 capaz de arriscar o futuro.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">132. Semelhante op\u00e7\u00e3o pelo matrim\u00f3nio expressa a decis\u00e3o real e efectiva de transformar dois caminhos num s\u00f3, aconte\u00e7a o que acontecer e contra todo e qualquer desafio. Pela seriedade de que se reveste este compromisso p\u00fablico de amor, n\u00e3o pode ser uma decis\u00e3o precipitada; mas, pela mesma raz\u00e3o, tamb\u00e9m n\u00e3o pode ser adiado indefinidamente. Comprometer-se de forma exclusiva e definitiva com outrem sempre encerra uma parcela de risco e de aposta ousada. A recusa de assumir um tal compromisso \u00e9 ego\u00edsta, interesseira, mesquinha; n\u00e3o consegue reconhecer os direitos do outro e n\u00e3o chega jamais a apresent\u00e1-lo \u00e0 sociedade como digno de ser amado incondicionalmente. Ali\u00e1s, aqueles que est\u00e3o verdadeiramente enamorados tendem a manifestar aos outros o seu amor. O amor concretizado num matrim\u00f3nio contra\u00eddo diante dos outros, com todas as obriga\u00e7\u00f5es decorrentes dessa institucionaliza\u00e7\u00e3o, \u00e9 manifesta\u00e7\u00e3o e protec\u00e7\u00e3o dum \u00absim\u00bb que se d\u00e1 sem reservas nem restri\u00e7\u00f5es. Este sim significa dizer ao outro que poder\u00e1 sempre confiar, n\u00e3o ser\u00e1 abandonado, se perder atractivo, se tiver dificuldades ou se se apresentarem novas possibilidades de prazer ou de interesses ego\u00edstas.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><i>Amor que se manifesta e cresce<\/i><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">133. O amor de amizade unifica todos os aspectos da vida matrimonial e ajuda os membros da fam\u00edlia a avan\u00e7arem em todas as suas fases. Por isso, os gestos que exprimem este amor devem ser constantemente cultivados, sem mesquinhez, cheios de palavras generosas. Na fam\u00edlia, \u00ab\u00e9 necess\u00e1rio usar tr\u00eas palavras: com licen\u00e7a, obrigado, desculpa. Tr\u00eas palavras-chave\u00bb.<a href=\"https:\/\/www.vatican.va\/content\/francesco\/pt\/apost_exhortations\/documents\/papa-francesco_esortazione-ap_20160319_amoris-laetitia.html#_ftn132\" rel=\"external\" name=\"_ftnref132\">[132]<\/a>\u00a0\u00abQuando numa fam\u00edlia n\u00e3o somos invasores e pedimos \u201ccom licen\u00e7a\u201d, quando na fam\u00edlia n\u00e3o somos ego\u00edstas e aprendemos a dizer \u201cobrigado\u201d, e quando na fam\u00edlia nos damos conta de que fizemos algo incorrecto e pedimos \u201cdesculpa\u201d, nessa fam\u00edlia existe paz e alegria\u00bb.<a href=\"https:\/\/www.vatican.va\/content\/francesco\/pt\/apost_exhortations\/documents\/papa-francesco_esortazione-ap_20160319_amoris-laetitia.html#_ftn133\" rel=\"external\" name=\"_ftnref133\">[133]<\/a>\u00a0N\u00e3o sejamos mesquinhos no uso destas palavras, sejamos generosos repetindo-as dia-a-dia, porque \u00abpesam certos sil\u00eancios, \u00e0s vezes mesmo em fam\u00edlia, entre marido e mulher, entre pais e filhos, entre irm\u00e3os\u00bb.<a href=\"https:\/\/www.vatican.va\/content\/francesco\/pt\/apost_exhortations\/documents\/papa-francesco_esortazione-ap_20160319_amoris-laetitia.html#_ftn134\" rel=\"external\" name=\"_ftnref134\">[134]<\/a>\u00a0Pelo contr\u00e1rio, as palavras adequadas, ditas no momento certo, protegem e alimentam o amor dia ap\u00f3s dia.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">134. Tudo isto se realiza num caminho de cont\u00ednuo crescimento. Esta forma muito particular de amor, que \u00e9 o matrim\u00f3nio, \u00e9 chamada a um amadurecimento constante, pois deve aplicar-se-lhe sempre aquilo que S\u00e3o Tom\u00e1s de Aquino dizia da caridade: \u00abA caridade, devido \u00e0 sua natureza, n\u00e3o tem um termo de aumento, porque \u00e9 uma participa\u00e7\u00e3o da caridade infinita que \u00e9 o Esp\u00edrito Santo. (&#8230;) E, do lado do sujeito, tamb\u00e9m n\u00e3o \u00e9 poss\u00edvel prefixar-lhe um termo, porque, ao crescer na caridade, eleva-se tamb\u00e9m a capacidade para um aumento maior\u00bb.<a href=\"https:\/\/www.vatican.va\/content\/francesco\/pt\/apost_exhortations\/documents\/papa-francesco_esortazione-ap_20160319_amoris-laetitia.html#_ftn135\" rel=\"external\" name=\"_ftnref135\">[135]<\/a>\u00a0Paulo exortava com veem\u00eancia: \u00abO Senhor vos fa\u00e7a crescer e superabundar de caridade uns para com os outros\u00bb (<i>1Ts<\/i>\u00a03, 12); e acrescenta: \u00abA respeito do amor (&#8230;), exortamo-vos, irm\u00e3os, a progredir sempre mais\u00bb (<i>1Ts<\/i>\u00a04, 9.10). Sempre mais. O amor matrimonial n\u00e3o se estimula falando, antes de mais nada, da indissolubilidade como uma obriga\u00e7\u00e3o, nem repetindo uma doutrina, mas robustecendo-o por meio dum crescimento constante sob o impulso da gra\u00e7a. O amor que n\u00e3o cresce, come\u00e7a a correr perigo; e s\u00f3 podemos crescer correspondendo \u00e0 gra\u00e7a divina com mais actos de amor, com actos de carinho mais frequentes, mais intensos, mais generosos, mais ternos, mais alegres. O marido e a mulher \u00abtomam consci\u00eancia da pr\u00f3pria unidade e cada vez mais<i>\u00a0<\/i>a realizam\u00bb.<a href=\"https:\/\/www.vatican.va\/content\/francesco\/pt\/apost_exhortations\/documents\/papa-francesco_esortazione-ap_20160319_amoris-laetitia.html#_ftn136\" rel=\"external\" name=\"_ftnref136\">[136]<\/a>\u00a0O dom do amor divino que se derrama nos esposos \u00e9, ao mesmo tempo, um apelo a um constante desenvolvimento deste dom da gra\u00e7a.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">135. N\u00e3o fazem bem certas fantasias sobre um amor id\u00edlico e perfeito, privando-o assim de todo o est\u00edmulo para crescer. Uma ideia celestial do amor terreno esquece que o melhor ainda n\u00e3o foi alcan\u00e7ado, o vinho sazonado com o tempo. Como recordaram os bispos do Chile, \u00abn\u00e3o existem as fam\u00edlias perfeitas que a publicidade falaciosa e consumista nos prop\u00f5e. Nelas, n\u00e3o passam os anos, n\u00e3o existe a doen\u00e7a, a tribula\u00e7\u00e3o nem a morte. (&#8230;) A publicidade consumista mostra uma realidade ilus\u00f3ria que n\u00e3o tem nada a ver com a realidade que devem enfrentar no dia-a-dia os pais e as m\u00e3es de fam\u00edlia\u00bb.<a href=\"https:\/\/www.vatican.va\/content\/francesco\/pt\/apost_exhortations\/documents\/papa-francesco_esortazione-ap_20160319_amoris-laetitia.html#_ftn137\" rel=\"external\" name=\"_ftnref137\">[137]<\/a>\u00a0\u00c9 mais saud\u00e1vel aceitar com realismo os limites, os desafios e as imperfei\u00e7\u00f5es, e dar ouvidos ao apelo para crescer juntos, fazer amadurecer o amor e cultivar a solidez da uni\u00e3o, suceda o que suceder.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><i>O di\u00e1logo<\/i><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">136. O di\u00e1logo \u00e9 uma modalidade privilegiada e indispens\u00e1vel para viver, exprimir e maturar o amor na vida matrimonial e familiar. Mas requer uma longa e diligente aprendizagem. Homens e mulheres, adultos e jovens t\u00eam maneiras diversas de comunicar, usam linguagens diferentes, regem-se por c\u00f3digos distintos. O modo de perguntar, a forma de responder, o tom usado, o momento escolhido e muitos outros factores podem condicionar a comunica\u00e7\u00e3o. Al\u00e9m disso, \u00e9 sempre necess\u00e1rio cultivar algumas atitudes que s\u00e3o express\u00e3o de amor e tornam poss\u00edvel o di\u00e1logo aut\u00eantico.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">137. Reservar tempo, tempo de qualidade, que permita escutar, com paci\u00eancia e aten\u00e7\u00e3o, at\u00e9 que o outro tenha manifestado tudo o que precisava de comunicar. Isto requer a ascese de n\u00e3o come\u00e7ar a falar antes do momento apropriado. Em vez de come\u00e7ar a dar opini\u00f5es ou conselhos, \u00e9 preciso assegurar-se de ter escutado tudo o que o outro tem necessidade de dizer. Isto implica fazer sil\u00eancio interior, para escutar sem ru\u00eddos no cora\u00e7\u00e3o e na mente: despojar-se das pressas, p\u00f4r de lado as pr\u00f3prias necessidades e urg\u00eancias, dar espa\u00e7o. Muitas vezes um dos c\u00f4njuges n\u00e3o precisa duma solu\u00e7\u00e3o para os seus problemas, mas de ser ouvido. Tem de sentir que se apreendeu a sua m\u00e1goa, a sua desilus\u00e3o, o seu medo, a sua ira, a sua esperan\u00e7a, o seu sonho. Todavia \u00e9 frequente ouvir estes queixumes: \u00abN\u00e3o me ouve. E quando parece que o faz, na realidade est\u00e1 a pensar noutra coisa\u00bb. \u00abFalo-lhe e tenho a sensa\u00e7\u00e3o de que est\u00e1 \u00e0 espera que acabe de vez\u00bb. \u00abQuando lhe falo, tenta mudar de assunto ou d\u00e1-me respostas r\u00e1pidas para encerrar a conversa\u00bb.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">138. Desenvolver o h\u00e1bito de dar real import\u00e2ncia ao outro. Trata-se de dar valor \u00e0 sua pessoa, reconhecer que tem direito de existir, pensar de maneira aut\u00f3noma e ser feliz. \u00c9 preciso nunca subestimar aquilo que diz ou reivindica, ainda que seja necess\u00e1rio exprimir o meu ponto de vista. A tudo isto subjaz a convic\u00e7\u00e3o de que todos t\u00eam algo para dar, pois t\u00eam outra experi\u00eancia da vida, olham doutro ponto de vista, desenvolveram outras preocupa\u00e7\u00f5es e possuem outras capacidades e intui\u00e7\u00f5es. \u00c9 poss\u00edvel reconhecer a verdade do outro, a import\u00e2ncia das suas preocupa\u00e7\u00f5es mais profundas e a motiva\u00e7\u00e3o de fundo do que diz, inclusive das palavras agressivas. Para isso, \u00e9 preciso colocar-se no seu lugar e interpretar a profundidade do seu cora\u00e7\u00e3o, individuar o que o apaixona, e tomar essa paix\u00e3o como ponto de partida para aprofundar o di\u00e1logo.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">139. Amplitude mental, para n\u00e3o se encerrar obsessivamente numas poucas ideias, e flexibilidade para poder modificar ou completar as pr\u00f3prias opini\u00f5es. \u00c9 poss\u00edvel que, do meu pensamento e do pensamento do outro, possa surgir uma nova s\u00edntese que nos enrique\u00e7a a ambos. A unidade, a que temos de aspirar, n\u00e3o \u00e9 uniformidade, mas uma \u00abunidade na diversidade\u00bb ou uma \u00abdiversidade reconciliada\u00bb. Neste estilo enriquecedor de comunh\u00e3o fraterna, seres diferentes encontram-se, respeitam-se e apreciam-se, mas mantendo distintos matizes e acentos que enriquecem o bem comum. Temos de nos libertar da obriga\u00e7\u00e3o de ser iguais. Tamb\u00e9m \u00e9 necess\u00e1ria sagacidade para advertir a tempo eventuais \u00abinterfer\u00eancias\u00bb, a fim de que n\u00e3o destruam um processo de di\u00e1logo. Por exemplo, reconhecer os maus sentimentos que poderiam surgir e relativiz\u00e1-los, para n\u00e3o prejudicarem a comunica\u00e7\u00e3o. \u00c9 importante a capacidade de expressar aquilo que se sente, sem ferir; utilizar uma linguagem e um modo de falar que possam ser mais facilmente aceites ou tolerados pelo outro, embora o conte\u00fado seja exigente; expor as pr\u00f3prias cr\u00edticas, mas sem descarregar a ira como uma forma de vingan\u00e7a, e evitar uma linguagem moralizante que procure apenas agredir, ironizar, culpabilizar, ferir. H\u00e1 tantas discuss\u00f5es no casal que n\u00e3o s\u00e3o por quest\u00f5es muito graves; \u00e0s vezes trata-se de pequenas coisas, pouco relevantes, mas o que altera os \u00e2nimos \u00e9 o modo de as dizer ou a atitude que se assume no di\u00e1logo.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">140. Ter gestos de solicitude pelo outro e demonstra\u00e7\u00f5es de carinho. O amor supera as piores barreiras. Quando se pode amar algu\u00e9m ou quando nos sentimos amados por essa pessoa, conseguimos entender melhor o que ela quer exprimir e fazer-nos compreender. \u00c9 preciso superar a fragilidade que nos leva a temer o outro como se fosse um \u00abconcorrente\u00bb. \u00c9 muito importante fundar a pr\u00f3pria seguran\u00e7a em op\u00e7\u00f5es profundas, convic\u00e7\u00f5es e valores, e n\u00e3o no desejo de ganhar uma discuss\u00e3o ou no facto de nos darem raz\u00e3o.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">141.Por \u00faltimo, reconhe\u00e7amos que, para ser prof\u00edcuo o di\u00e1logo, \u00e9 preciso ter algo para se dizer; e isto requer uma riqueza interior que se alimenta com a leitura, a reflex\u00e3o pessoal, a ora\u00e7\u00e3o e a abertura \u00e0 sociedade. Caso contr\u00e1rio, a conversa torna-se aborrecida e inconsistente. Quando cada um dos c\u00f4njuges n\u00e3o cultiva o pr\u00f3prio esp\u00edrito e n\u00e3o h\u00e1 uma variedade de rela\u00e7\u00f5es com outras pessoas, a vida familiar torna-se endog\u00e2mica e o di\u00e1logo fica empobrecido.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><b>Amor apaixonado<\/b><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">142. O Conc\u00edlio Vaticano II ensinou que este amor conjugal \u00abcompreende o bem de toda a pessoa e, por conseguinte, pode conferir especial dignidade \u00e0s manifesta\u00e7\u00f5es do corpo e do esp\u00edrito, enobrecendo-as como elementos e sinais peculiares do amor conjugal\u00bb.<a href=\"https:\/\/www.vatican.va\/content\/francesco\/pt\/apost_exhortations\/documents\/papa-francesco_esortazione-ap_20160319_amoris-laetitia.html#_ftn138\" rel=\"external\" name=\"_ftnref138\">[138]<\/a>\u00a0Deve haver qualquer motivo para um amor sem prazer nem paix\u00e3o se revelar insuficiente a simbolizar a uni\u00e3o do cora\u00e7\u00e3o humano com Deus: \u00abTodos os m\u00edsticos afirmaram que o amor sobrenatural e o amor celeste encontram os s\u00edmbolos que procuram mais no amor matrimonial do que na amizade, no sentimento filial ou na dedica\u00e7\u00e3o a uma causa. E o motivo encontra-se precisamente na sua totalidade\u00bb.<a href=\"https:\/\/www.vatican.va\/content\/francesco\/pt\/apost_exhortations\/documents\/papa-francesco_esortazione-ap_20160319_amoris-laetitia.html#_ftn139\" rel=\"external\" name=\"_ftnref139\">[139]<\/a>\u00a0Sendo assim, por que n\u00e3o determo-nos a falar dos sentimentos e da sexualidade no matrim\u00f3nio?<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><i>O mundo das emo\u00e7\u00f5es<\/i><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">143. Desejos, sentimentos, emo\u00e7\u00f5es (os cl\u00e1ssicos chamavam-lhes \u00abpaix\u00f5es\u00bb) ocupam um lugar importante no matrim\u00f3nio. Geram-se quando \u00aboutro\u00bb se torna presente e interv\u00e9m na minha vida. \u00c9 pr\u00f3prio de todo o ser vivo tender para outra realidade, e esta tend\u00eancia reveste-se sempre de sinais afectivos basilares: prazer ou sofrimento, alegria ou tristeza, ternura ou receio. S\u00e3o o pressuposto da actividade psicol\u00f3gica mais elementar. O ser humano \u00e9 um vivente desta terra, e tudo o que faz e busca est\u00e1 carregado de paix\u00f5es.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">144. Verdadeiro homem, Jesus vivia as coisas com grande emotividade. Por isso, sofria com a rejei\u00e7\u00e3o de Jerusal\u00e9m (cf.\u00a0<i>Mt<\/i>\u00a023, 37) e, por esta situa\u00e7\u00e3o, chorou (cf.\u00a0<i>Lc<\/i>\u00a019, 41). Compadecia-Se tamb\u00e9m \u00e0 vista da multid\u00e3o atribulada (cf.\u00a0<i>Mc<\/i>\u00a06, 34). Vendo os outros a chorar, comovia-Se e turbava-Se (cf.\u00a0<i>Jo<\/i>\u00a011, 33), e Ele mesmo chorou pela morte dum amigo (cf.\u00a0<i>Jo<\/i>\u00a011, 35). Estas manifesta\u00e7\u00f5es da sua sensibilidade mostram at\u00e9 que ponto estava aberto aos outros o seu cora\u00e7\u00e3o humano.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">145. Experimentar uma emo\u00e7\u00e3o n\u00e3o \u00e9, em si mesmo, algo moralmente bom nem mau.<a href=\"https:\/\/www.vatican.va\/content\/francesco\/pt\/apost_exhortations\/documents\/papa-francesco_esortazione-ap_20160319_amoris-laetitia.html#_ftn140\" rel=\"external\" name=\"_ftnref140\">[140]<\/a>\u00a0Come\u00e7ar a sentir desejo ou repulsa n\u00e3o \u00e9 pecaminoso nem censur\u00e1vel. O que pode ser bom ou mau \u00e9 o acto que a pessoa realiza movida ou sustentada por uma paix\u00e3o. Pois, se os sentimentos s\u00e3o alimentados, procurados e, por causa deles, cometemos m\u00e1s ac\u00e7\u00f5es, o mal est\u00e1 na decis\u00e3o de os alimentar e nos actos maus que se seguem. Na mesma linha, sentir atra\u00e7\u00e3o por algu\u00e9m n\u00e3o \u00e9, de por si, um bem. Se esta atrac\u00e7\u00e3o me leva a procurar que essa pessoa se torne minha escrava, o sentimento estar\u00e1 ao servi\u00e7o do meu ego\u00edsmo. Julgar que somos bons s\u00f3 porque \u00abprovamos sentimentos\u00bb, \u00e9 um tremendo engano. H\u00e1 pessoas que se sentem capazes dum grande amor, s\u00f3 porque t\u00eam grande necessidade de afecto, mas n\u00e3o conseguem lutar pela felicidade dos outros e vivem confinados nos pr\u00f3prios desejos. Neste caso, os sentimentos desviam dos grandes valores e escondem um egocentrismo que torna imposs\u00edvel cultivar uma vida sadia e feliz em fam\u00edlia.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">146. Entretanto, se uma paix\u00e3o acompanha o acto livre, pode manifestar a profundidade dessa op\u00e7\u00e3o. O amor matrimonial leva a procurar que toda a vida emotiva se torne um bem para a fam\u00edlia e esteja ao servi\u00e7o da vida em comum. A maturidade chega a uma fam\u00edlia, quando a vida emotiva dos seus membros se transforma numa sensibilidade que n\u00e3o domina nem obscurece as grandes op\u00e7\u00f5es e valores, mas segue a sua liberdade,<a href=\"https:\/\/www.vatican.va\/content\/francesco\/pt\/apost_exhortations\/documents\/papa-francesco_esortazione-ap_20160319_amoris-laetitia.html#_ftn141\" rel=\"external\" name=\"_ftnref141\">[141]<\/a>\u00a0brota dela, enriquece-a, embeleza-a e torna-a mais harmoniosa para bem de todos.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><i>Deus ama a alegria dos seus filhos<\/i><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">147. Isto requer um caminho pedag\u00f3gico, um processo que inclui ren\u00fancias: \u00e9 uma convic\u00e7\u00e3o da Igreja, que muitas vezes foi rejeitada pelo mundo como se fosse inimiga da felicidade humana. Bento XVI regista esta cr\u00edtica com muita clareza: \u00abCom os seus mandamentos e proibi\u00e7\u00f5es, a Igreja n\u00e3o nos torna porventura amarga a coisa mais bela da vida? Porventura n\u00e3o assinala ela proibi\u00e7\u00f5es precisamente onde a alegria, preparada para n\u00f3s pelo Criador, nos oferece uma felicidade que nos faz pressentir algo do Divino?\u00bb<a href=\"https:\/\/www.vatican.va\/content\/francesco\/pt\/apost_exhortations\/documents\/papa-francesco_esortazione-ap_20160319_amoris-laetitia.html#_ftn142\" rel=\"external\" name=\"_ftnref142\">[142]<\/a>\u00a0Mas ele responde que, embora n\u00e3o tenham faltado exageros ou ascetismos extraviados no cristianismo, a doutrina oficial da Igreja, fiel \u00e0 Sagrada Escritura, n\u00e3o rejeitou \u00abo\u00a0<i>eros<\/i>\u00a0enquanto tal, mas declarou guerra \u00e0 sua subvers\u00e3o devastadora, porque a falsa diviniza\u00e7\u00e3o do\u00a0<i>eros<\/i>\u00a0(\u2026) priva-o da sua dignidade, desumaniza-o\u00bb.\u00a0<a href=\"https:\/\/www.vatican.va\/content\/francesco\/pt\/apost_exhortations\/documents\/papa-francesco_esortazione-ap_20160319_amoris-laetitia.html#_ftn143\" rel=\"external\" name=\"_ftnref143\">[143]<\/a><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">148. \u00c9 necess\u00e1ria a educa\u00e7\u00e3o da emotividade e do instinto e, para isso, \u00e0s vezes torna-se indispens\u00e1vel impormo-nos algum limite. O excesso, o descontrole, a obsess\u00e3o por um \u00fanico tipo de prazeres acabam por debilitar e combalir o pr\u00f3prio prazer,<a href=\"https:\/\/www.vatican.va\/content\/francesco\/pt\/apost_exhortations\/documents\/papa-francesco_esortazione-ap_20160319_amoris-laetitia.html#_ftn144\" rel=\"external\" name=\"_ftnref144\">[144]<\/a>\u00a0e prejudicam a vida da fam\u00edlia. Na verdade, pode-se fazer um belo caminho com as paix\u00f5es, o que significa orient\u00e1-las cada vez mais num projeto de auto doa\u00e7\u00e3o e plena realiza\u00e7\u00e3o pr\u00f3pria que enriquece as rela\u00e7\u00f5es interpessoais no seio da fam\u00edlia. Isto n\u00e3o implica renunciar a momentos de intenso prazer,<a href=\"https:\/\/www.vatican.va\/content\/francesco\/pt\/apost_exhortations\/documents\/papa-francesco_esortazione-ap_20160319_amoris-laetitia.html#_ftn145\" rel=\"external\" name=\"_ftnref145\">[145]<\/a>\u00a0mas assumi-los de certo modo entrela\u00e7ados com outros momentos de dedica\u00e7\u00e3o generosa, espera paciente, inevit\u00e1vel fadiga, esfor\u00e7o por um ideal. A vida em fam\u00edlia \u00e9 tudo isto e merece ser vivida inteiramente.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">149. Algumas correntes espirituais insistem em eliminar o desejo para se libertar da dor. Mas n\u00f3s acreditamos que Deus ama a alegria do ser humano, pois Ele criou tudo \u00abpara nosso usufruto\u00bb (<i>1 Tim<\/i>\u00a06, 17). Deixemos brotar a alegria \u00e0 vista da sua ternura, quando nos prop\u00f5e: \u00abMeu filho, se tens com qu\u00ea, trata-te bem. (&#8230;) N\u00e3o te prives da felicidade presente\u00bb (<i>Sir<\/i>\u00a014, 11.14). Tamb\u00e9m um casal de esposos corresponde \u00e0 vontade de Deus, quando segue este convite b\u00edblico: \u00abNo dia da felicidade, s\u00ea alegre\u00bb (<i>Qo<\/i>\u00a07, 14). A quest\u00e3o \u00e9 ter a liberdade para aceitar que o prazer encontre outras formas de express\u00e3o nos sucessivos momentos da vida, de acordo com as necessidades do amor m\u00fatuo. Neste sentido, pode-se aceitar a proposta de alguns mestres orientais que insistem em ampliar a consci\u00eancia, para n\u00e3o ficar presos numa experi\u00eancia muito limitada que nos fecharia as perspectivas. Esta amplia\u00e7\u00e3o da consci\u00eancia n\u00e3o \u00e9 a nega\u00e7\u00e3o ou a destrui\u00e7\u00e3o do desejo, mas a sua dilata\u00e7\u00e3o e aperfei\u00e7oamento.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><i>A dimens\u00e3o er\u00f3tica do amor<\/i><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">150. Tudo isto nos leva a falar da vida sexual dos esposos. O pr\u00f3prio Deus criou a sexualidade, que \u00e9 um presente maravilhoso para as suas criaturas. Quando se cultiva e evita o seu descontrole, fazemo-lo para impedir que se produza o \u00abdepauperamento de um valor aut\u00eantico\u00bb.<a href=\"https:\/\/www.vatican.va\/content\/francesco\/pt\/apost_exhortations\/documents\/papa-francesco_esortazione-ap_20160319_amoris-laetitia.html#_ftn146\" rel=\"external\" name=\"_ftnref146\">[146]<\/a>\u00a0S\u00e3o Jo\u00e3o Paulo II rejeitou a ideia de que a doutrina da Igreja leve a \u00abuma nega\u00e7\u00e3o do valor do sexo humano\u00bb ou que o tolere simplesmente \u00abpela necessidade da procria\u00e7\u00e3o\u00bb.<a href=\"https:\/\/www.vatican.va\/content\/francesco\/pt\/apost_exhortations\/documents\/papa-francesco_esortazione-ap_20160319_amoris-laetitia.html#_ftn147\" rel=\"external\" name=\"_ftnref147\">[147]<\/a>\u00a0A necessidade sexual dos esposos n\u00e3o \u00e9 objecto de menosprezo, e \u00abn\u00e3o se trata de modo algum de p\u00f4r em quest\u00e3o aquela necessidade\u00bb.<a href=\"https:\/\/www.vatican.va\/content\/francesco\/pt\/apost_exhortations\/documents\/papa-francesco_esortazione-ap_20160319_amoris-laetitia.html#_ftn148\" rel=\"external\" name=\"_ftnref148\">[148]<\/a><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">151. A quantos receiam que, com a educa\u00e7\u00e3o das paix\u00f5es e da sexualidade, se prejudique a espontaneidade do amor sexual, S\u00e3o Jo\u00e3o Paulo II respondia que o ser humano \u00ab\u00e9 tamb\u00e9m chamado \u00e0 plena e matura espontaneidade das rela\u00e7\u00f5es\u00bb, que \u00ab\u00e9 o fruto gradual do discernimento dos impulsos do pr\u00f3prio cora\u00e7\u00e3o\u00bb.<a href=\"https:\/\/www.vatican.va\/content\/francesco\/pt\/apost_exhortations\/documents\/papa-francesco_esortazione-ap_20160319_amoris-laetitia.html#_ftn149\" rel=\"external\" name=\"_ftnref149\">[149]<\/a>\u00a0\u00c9 algo que se conquista, pois todo o ser humano \u00abdeve, perseverante e coerentemente, aprender o que \u00e9 o significado do corpo\u00bb.<a href=\"https:\/\/www.vatican.va\/content\/francesco\/pt\/apost_exhortations\/documents\/papa-francesco_esortazione-ap_20160319_amoris-laetitia.html#_ftn150\" rel=\"external\" name=\"_ftnref150\">[150]<\/a>\u00a0A sexualidade n\u00e3o \u00e9 um recurso para compensar ou entreter, mas trata-se de uma linguagem interpessoal onde o outro \u00e9 tomado a s\u00e9rio, com o seu valor sagrado e inviol\u00e1vel. Assim, \u00abo cora\u00e7\u00e3o humano torna-se participante, por assim dizer, de outra espontaneidade\u00bb.<a href=\"https:\/\/www.vatican.va\/content\/francesco\/pt\/apost_exhortations\/documents\/papa-francesco_esortazione-ap_20160319_amoris-laetitia.html#_ftn151\" rel=\"external\" name=\"_ftnref151\">[151]<\/a>\u00a0Neste contexto, o erotismo aparece como uma manifesta\u00e7\u00e3o especificamente humana da sexualidade. Nele pode-se encontrar o \u00absignificado esponsal do corpo e a aut\u00eantica dignidade do dom\u00bb.<a href=\"https:\/\/www.vatican.va\/content\/francesco\/pt\/apost_exhortations\/documents\/papa-francesco_esortazione-ap_20160319_amoris-laetitia.html#_ftn152\" rel=\"external\" name=\"_ftnref152\">[152]<\/a>\u00a0Nas suas catequeses sobre a teologia do corpo humano, S\u00e3o Jo\u00e3o Paulo II ensinou que a corporeidade sexuada \u00ab\u00e9 n\u00e3o s\u00f3 fonte de fecundidade e de procria\u00e7\u00e3o\u00bb, mas possui \u00aba capacidade de exprimir o amor: exactamente aquele amor em que o homem-pessoa se torna dom\u00bb.<a href=\"https:\/\/www.vatican.va\/content\/francesco\/pt\/apost_exhortations\/documents\/papa-francesco_esortazione-ap_20160319_amoris-laetitia.html#_ftn153\" rel=\"external\" name=\"_ftnref153\">[153]<\/a>\u00a0O erotismo mais saud\u00e1vel, embora esteja ligado a uma busca de prazer, sup\u00f5e a admira\u00e7\u00e3o e, por isso, pode humanizar os impulsos.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">152. Assim, n\u00e3o podemos, de maneira alguma, entender a dimens\u00e3o er\u00f3tica do amor como um mal permitido ou como um peso toler\u00e1vel para o bem da fam\u00edlia, mas como dom de Deus que embeleza o encontro dos esposos. Tratando-se de uma paix\u00e3o sublimada pelo amor que admira a dignidade do outro, torna-se uma \u00abafirma\u00e7\u00e3o amorosa plena e cristalina\u00bb, mostrando-nos de que maravilhas \u00e9 capaz o cora\u00e7\u00e3o humano, e assim, por um momento, \u00absente-se que a exist\u00eancia humana foi um sucesso\u00bb.<a href=\"https:\/\/www.vatican.va\/content\/francesco\/pt\/apost_exhortations\/documents\/papa-francesco_esortazione-ap_20160319_amoris-laetitia.html#_ftn154\" rel=\"external\" name=\"_ftnref154\">[154]<\/a><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><i>Viol\u00eancia e manipula\u00e7\u00e3o<\/i><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">153. No contexto desta vis\u00e3o positiva da sexualidade, \u00e9 oportuno apresentar o tema na sua integridade e com um s\u00e3o realismo. Pois n\u00e3o podemos ignorar que muitas vezes a sexualidade se despersonaliza e enche de patologias, de modo que \u00abse torna cada vez mais ocasi\u00e3o e instrumento de afirma\u00e7\u00e3o do pr\u00f3prio eu e de satisfa\u00e7\u00e3o ego\u00edsta dos pr\u00f3prios desejos e instintos\u00bb.<a href=\"https:\/\/www.vatican.va\/content\/francesco\/pt\/apost_exhortations\/documents\/papa-francesco_esortazione-ap_20160319_amoris-laetitia.html#_ftn155\" rel=\"external\" name=\"_ftnref155\">[155]<\/a>\u00a0Neste tempo, tamb\u00e9m a sexualidade corre grande risco de se ver dominada pelo esp\u00edrito venenoso do \u00abusa e joga fora\u00bb. Com frequ\u00eancia, o corpo do outro \u00e9 manipulado como uma coisa que se conserva enquanto proporciona satisfa\u00e7\u00e3o e se despreza quando perde atractivo. Podem-se porventura ignorar ou dissimular as formas constantes de dom\u00ednio, prepot\u00eancia, abuso, pervers\u00e3o e viol\u00eancia sexual que resultam duma distor\u00e7\u00e3o do significado da sexualidade e sepultam a dignidade dos outros e o apelo ao amor sob uma obscura procura de si mesmo?<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">154. Nunca \u00e9 demais lembrar que, mesmo no matrim\u00f3nio, a sexualidade pode tornar-se fonte de sofrimento e manipula\u00e7\u00e3o. Por isso, devemos reafirmar, claramente, que \u00abum acto conjugal imposto ao pr\u00f3prio c\u00f4njuge, sem considera\u00e7\u00e3o pelas suas condi\u00e7\u00f5es e pelos seus desejos leg\u00edtimos, n\u00e3o \u00e9 um verdadeiro acto de amor e nega, por isso mesmo, uma exig\u00eancia de recta ordem moral, nas rela\u00e7\u00f5es entre os esposos\u00bb.<a href=\"https:\/\/www.vatican.va\/content\/francesco\/pt\/apost_exhortations\/documents\/papa-francesco_esortazione-ap_20160319_amoris-laetitia.html#_ftn156\" rel=\"external\" name=\"_ftnref156\">[156]<\/a>\u00a0Os actos pr\u00f3prios da uni\u00e3o sexual dos c\u00f4njuges correspondem \u00e0 natureza da sexualidade querida por Deus, se forem vividos \u00abde modo autenticamente humano\u00bb.<a href=\"https:\/\/www.vatican.va\/content\/francesco\/pt\/apost_exhortations\/documents\/papa-francesco_esortazione-ap_20160319_amoris-laetitia.html#_ftn157\" rel=\"external\" name=\"_ftnref157\">[157]<\/a>\u00a0Por isso, S\u00e3o Paulo exortava: \u00abQue ningu\u00e9m, nesta mat\u00e9ria, defraude e se aproveite do seu irm\u00e3o\u00bb (<i>1 Ts<\/i>\u00a04, 6). E n\u00e3o obstante ele escrevesse numa \u00e9poca em que dominava uma cultura patriarcal, na qual a mulher era considerada um ser completamente subordinado ao homem, todavia ensinou que a sexualidade deve ser uma quest\u00e3o a discutir entre os c\u00f4njuges: levantou a possibilidade de adiar as rela\u00e7\u00f5es sexuais por algum tempo, mas \u00abde m\u00fatuo acordo\u00bb (<i>1 Cor<\/i>\u00a07, 5).<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">155. S\u00e3o Jo\u00e3o Paulo II fez uma advert\u00eancia muito subtil, quando disse que o homem e a mulher s\u00e3o \u00abamea\u00e7ados pela insaciabilidade\u00bb.<a href=\"https:\/\/www.vatican.va\/content\/francesco\/pt\/apost_exhortations\/documents\/papa-francesco_esortazione-ap_20160319_amoris-laetitia.html#_ftn158\" rel=\"external\" name=\"_ftnref158\">[158]<\/a>\u00a0Por outras palavras, s\u00e3o chamados a uma uni\u00e3o cada vez mais intensa, mas correm o risco de pretender apagar as diferen\u00e7as e a dist\u00e2ncia inevit\u00e1vel que existe entre os dois. Com efeito, cada um possui uma dignidade pr\u00f3pria e irrepet\u00edvel. Quando o bem precioso da perten\u00e7a rec\u00edproca se transforma em dom\u00ednio, \u00abmuda essencialmente a estrutura de comunh\u00e3o na rela\u00e7\u00e3o interpessoal\u00bb.<a href=\"https:\/\/www.vatican.va\/content\/francesco\/pt\/apost_exhortations\/documents\/papa-francesco_esortazione-ap_20160319_amoris-laetitia.html#_ftn159\" rel=\"external\" name=\"_ftnref159\">[159]<\/a>\u00a0Na l\u00f3gica do dom\u00ednio, o dominador acaba tamb\u00e9m negando a sua pr\u00f3pria dignidade<a href=\"https:\/\/www.vatican.va\/content\/francesco\/pt\/apost_exhortations\/documents\/papa-francesco_esortazione-ap_20160319_amoris-laetitia.html#_ftn160\" rel=\"external\" name=\"_ftnref160\">[160]<\/a>\u00a0e, em \u00faltima an\u00e1lise, deixa \u00abde identificar-se subjectivamente com o pr\u00f3prio corpo\u00bb,<a href=\"https:\/\/www.vatican.va\/content\/francesco\/pt\/apost_exhortations\/documents\/papa-francesco_esortazione-ap_20160319_amoris-laetitia.html#_ftn161\" rel=\"external\" name=\"_ftnref161\">[161]<\/a>\u00a0porque lhe tira todo o significado. Vive o sexo como evas\u00e3o de si mesmo e como ren\u00fancia \u00e0 beleza da uni\u00e3o.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">156. \u00c9 importante deixar claro a rejei\u00e7\u00e3o de toda a forma de submiss\u00e3o sexual. Por isso, conv\u00e9m evitar toda a interpreta\u00e7\u00e3o inadequada do texto da Carta aos Ef\u00e9sios, onde se pede que \u00abas mulheres [sejam submissas] aos seus maridos\u00bb (<i>Ef<\/i>\u00a05, 22). S\u00e3o Paulo exprime-se em categorias culturais pr\u00f3prias daquela \u00e9poca; n\u00f3s n\u00e3o devemos assumir esta roupagem cultural, mas a mensagem revelada que subjaz ao conjunto da per\u00edcope. Retomemos a s\u00e1bia explica\u00e7\u00e3o de S\u00e3o Jo\u00e3o Paulo II: \u00abO amor exclui todo o g\u00e9nero de submiss\u00e3o, pelo qual a mulher se tornasse serva ou escrava do marido (&#8230;). A comunidade ou unidade, que devem constituir por causa do matrim\u00f3nio, realiza-se atrav\u00e9s de uma rec\u00edproca doa\u00e7\u00e3o, que \u00e9 tamb\u00e9m submiss\u00e3o m\u00fatua\u00bb.<a href=\"https:\/\/www.vatican.va\/content\/francesco\/pt\/apost_exhortations\/documents\/papa-francesco_esortazione-ap_20160319_amoris-laetitia.html#_ftn162\" rel=\"external\" name=\"_ftnref162\">[162]<\/a>\u00a0Por isso, se diz que \u00abdevem tamb\u00e9m os maridos amar as suas mulheres, como o seu pr\u00f3prio corpo\u00bb (<i>Ef<\/i>\u00a05, 28). Na realidade, o texto b\u00edblico convida a superar o c\u00f3modo individualismo para viver dispon\u00edveis aos outros: \u00abSubmetei-vos uns aos outros\u00bb (<i>Ef<\/i>\u00a05, 21). Entre os c\u00f4njuges, esta rec\u00edproca \u00absubmiss\u00e3o\u00bb adquire um significado especial, devendo-se entender como uma perten\u00e7a m\u00fatua livremente escolhida, com um conjunto de caracter\u00edsticas de fidelidade, respeito e solicitude. A sexualidade est\u00e1 ao servi\u00e7o desta amizade conjugal de modo insepar\u00e1vel, porque tende a procurar que o outro viva em plenitude.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">157. Entretanto a rejei\u00e7\u00e3o das distor\u00e7\u00f5es da sexualidade e do erotismo nunca deveria levar-nos ao seu desprezo nem ao seu descuido. O ideal do matrim\u00f3nio n\u00e3o pode configurar-se apenas como uma doa\u00e7\u00e3o generosa e sacrificada, onde cada um renuncia a qualquer necessidade pessoal e se preocupa apenas por fazer o bem ao outro, sem satisfa\u00e7\u00e3o alguma. Lembremo-nos de que um amor verdadeiro tamb\u00e9m sabe<i>\u00a0<\/i>receber do outro, \u00e9 capaz de se aceitar como vulner\u00e1vel e necessitado, n\u00e3o renuncia a receber, com gratid\u00e3o sincera e feliz, as express\u00f5es corporais do amor na car\u00edcia, no abra\u00e7o, no beijo e na uni\u00e3o sexual. Bento XVI era claro a este respeito: \u00abSe o homem aspira a ser somente esp\u00edrito e quer rejeitar a carne como uma heran\u00e7a apenas animalesca, ent\u00e3o esp\u00edrito e corpo perdem a sua dignidade\u00bb.<a href=\"https:\/\/www.vatican.va\/content\/francesco\/pt\/apost_exhortations\/documents\/papa-francesco_esortazione-ap_20160319_amoris-laetitia.html#_ftn163\" rel=\"external\" name=\"_ftnref163\">[163]<\/a>\u00a0Por esta raz\u00e3o, \u00abo homem tamb\u00e9m n\u00e3o pode viver exclusivamente no amor oblativo, descendente. N\u00e3o pode limitar-se sempre a dar, deve tamb\u00e9m receber. Quem quer dar amor, deve ele mesmo receb\u00ea-lo em dom\u00bb.<a href=\"https:\/\/www.vatican.va\/content\/francesco\/pt\/apost_exhortations\/documents\/papa-francesco_esortazione-ap_20160319_amoris-laetitia.html#_ftn164\" rel=\"external\" name=\"_ftnref164\">[164]<\/a>\u00a0Em todo o caso, isto sup\u00f5e ter presente que o equil\u00edbrio humano \u00e9 fr\u00e1gil, sempre permanece algo que resiste a ser humanizado e que, a qualquer momento, pode fugir-nos de m\u00e3o novamente, recuperando as suas tend\u00eancias mais primitivas e ego\u00edstas.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><i>Matrim\u00f3nio e virgindade<\/i><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">158. \u00abMuitas pessoas, que vivem sem se casar, n\u00e3o s\u00f3 se dedicam \u00e0 sua fam\u00edlia de origem, mas muitas vezes realizam grandes servi\u00e7os no seu c\u00edrculo de amigos, na comunidade eclesial e na vida profissional (&#8230;). Muitos colocam os seus talentos tamb\u00e9m ao servi\u00e7o da comunidade crist\u00e3 sob a forma de assist\u00eancia caritativa e voluntariado. Temos ainda aqueles que n\u00e3o se casam, porque consagram a vida por amor de Cristo e dos irm\u00e3os. Com a sua dedica\u00e7\u00e3o, \u00e9 extraordinariamente enriquecida a fam\u00edlia, na Igreja e na sociedade\u00bb.<a href=\"https:\/\/www.vatican.va\/content\/francesco\/pt\/apost_exhortations\/documents\/papa-francesco_esortazione-ap_20160319_amoris-laetitia.html#_ftn165\" rel=\"external\" name=\"_ftnref165\">[165]<\/a><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">159. A virgindade \u00e9 uma forma de amor. Como sinal, recorda-nos a solicitude pelo Reino, a urg\u00eancia de entregar-se sem reservas ao servi\u00e7o da evangeliza\u00e7\u00e3o (cf.\u00a0<i>1Cor<\/i>\u00a07, 32) e \u00e9 um reflexo da plenitude do C\u00e9u, onde \u00abnem os homens ter\u00e3o mulheres, nem as mulheres, maridos\u00bb (<i>Mt<\/i>\u00a022, 30). S\u00e3o Paulo recomendava a virgindade, porque esperava para breve o regresso de Jesus Cristo e queria que todos se concentrassem apenas na evangeliza\u00e7\u00e3o: \u00abO tempo \u00e9 breve\u00bb (<i>1Cor<\/i>\u00a07, 29). Contudo deixa claro que era uma opini\u00e3o pessoal e um desejo dele (cf.\u00a0<i>1Cor<\/i>\u00a07, 6-8), n\u00e3o uma exig\u00eancia de Cristo: \u00abN\u00e3o tenho nenhum preceito do Senhor\u00bb (<i>1Cor<\/i>\u00a07, 25). Ao mesmo tempo reconhecia o valor de ambas as voca\u00e7\u00f5es: \u00abCada um recebe de Deus o seu pr\u00f3prio dom, um de uma maneira, outro de outra\u00bb (<i>1Cor<\/i>\u00a07, 7). Neste sentido, diz S\u00e3o Jo\u00e3o Paulo II que os textos b\u00edblicos \u00abn\u00e3o oferecem motivo para sustentar nem a \u201cinferioridade\u201d do matrim\u00f3nio, nem a \u201csuperioridade\u201d da virgindade ou do celibato\u00bb<a href=\"https:\/\/www.vatican.va\/content\/francesco\/pt\/apost_exhortations\/documents\/papa-francesco_esortazione-ap_20160319_amoris-laetitia.html#_ftn166\" rel=\"external\" name=\"_ftnref166\">[166]<\/a>\u00a0devido \u00e0 abstin\u00eancia sexual. Em vez de se falar da superioridade da virgindade sob todos os aspectos, parece mais apropriado mostrar que os diferentes estados de vida s\u00e3o complementares, de tal modo que um pode ser mais perfeito num sentido e outro pode s\u00ea-lo a partir dum ponto de vista diferente. Por exemplo, Alexandre de Hales afirmava que, em certo sentido, o matrim\u00f3nio pode-se considerar superior aos restantes sacramentos, porque simboliza algo t\u00e3o grande como \u00aba uni\u00e3o de Cristo com a Igreja ou a uni\u00e3o da natureza divina com a humana\u00bb.<a href=\"https:\/\/www.vatican.va\/content\/francesco\/pt\/apost_exhortations\/documents\/papa-francesco_esortazione-ap_20160319_amoris-laetitia.html#_ftn167\" rel=\"external\" name=\"_ftnref167\">[167]<\/a><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">160. Portanto \u00abn\u00e3o se trata de diminuir o valor do matrim\u00f3nio em favor da contin\u00eancia\u00bb<a href=\"https:\/\/www.vatican.va\/content\/francesco\/pt\/apost_exhortations\/documents\/papa-francesco_esortazione-ap_20160319_amoris-laetitia.html#_ftn168\" rel=\"external\" name=\"_ftnref168\">[168]<\/a>\u00a0e \u00abn\u00e3o existe fundamento algum para uma suposta contraposi\u00e7\u00e3o (&#8230;). Se, considerando uma certa tradi\u00e7\u00e3o teol\u00f3gica, se fala do estado de perfei\u00e7\u00e3o (<i>status perfectionis<\/i>), n\u00e3o \u00e9 por motivo da contin\u00eancia mesma, mas a prop\u00f3sito do conjunto da vida fundada sobre os conselhos evang\u00e9licos\u00bb.<a href=\"https:\/\/www.vatican.va\/content\/francesco\/pt\/apost_exhortations\/documents\/papa-francesco_esortazione-ap_20160319_amoris-laetitia.html#_ftn169\" rel=\"external\" name=\"_ftnref169\">[169]<\/a>\u00a0Entretanto uma pessoa casada pode viver a caridade num grau alt\u00edssimo. E assim \u00abchega \u00e0quela perfei\u00e7\u00e3o que nasce da caridade, mediante a fidelidade ao esp\u00edrito dos referidos conselhos. Tal perfei\u00e7\u00e3o \u00e9 poss\u00edvel e acess\u00edvel a cada homem\u00bb.<a href=\"https:\/\/www.vatican.va\/content\/francesco\/pt\/apost_exhortations\/documents\/papa-francesco_esortazione-ap_20160319_amoris-laetitia.html#_ftn170\" rel=\"external\" name=\"_ftnref170\">[170]<\/a><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">161. A virgindade tem o valor simb\u00f3lico do amor que n\u00e3o necessita de possuir o outro, reflectindo assim a liberdade do Reino dos C\u00e9us. \u00c9 um convite para os esposos viverem o seu amor conjugal na perspectiva do amor definitivo a Cristo, como um caminho comum rumo \u00e0 plenitude do Reino. Por sua vez, o amor dos esposos apresenta outros valores simb\u00f3licos: por um lado, \u00e9 reflexo peculiar da Trindade, porque a Trindade \u00e9 unidade plena na qual existe tamb\u00e9m a distin\u00e7\u00e3o. Al\u00e9m disso, a fam\u00edlia \u00e9 um sinal cristol\u00f3gico, porque mostra a proximidade de Deus que compartilha a vida do ser humano unindo-Se-lhe na encarna\u00e7\u00e3o, na cruz e na ressurrei\u00e7\u00e3o: cada c\u00f4njuge torna-se \u00abuma s\u00f3 carne\u00bb com o outro e oferece-se a si mesmo para partilhar tudo com ele at\u00e9 ao fim. Enquanto a virgindade \u00e9 um sinal \u00abescatol\u00f3gico\u00bb de Cristo ressuscitado, o matrim\u00f3nio \u00e9 um sinal \u00abhist\u00f3rico\u00bb para n\u00f3s que caminhamos na terra, um sinal de Cristo terreno que aceitou unir-Se a n\u00f3s e Se deu at\u00e9 ao derramamento do seu sangue. A virgindade e o matrim\u00f3nio s\u00e3o \u2013 e devem ser \u2013 modalidades diferentes de amar, porque \u00abo homem n\u00e3o pode viver sem amor. Ele permanece para si pr\u00f3prio um ser incompreens\u00edvel e a sua vida \u00e9 destitu\u00edda de sentido, se n\u00e3o lhe for revelado o amor\u00bb.<a href=\"https:\/\/www.vatican.va\/content\/francesco\/pt\/apost_exhortations\/documents\/papa-francesco_esortazione-ap_20160319_amoris-laetitia.html#_ftn171\" rel=\"external\" name=\"_ftnref171\">[171]<\/a><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">162. O celibato corre o risco de ser uma c\u00f3moda solid\u00e3o, que d\u00e1 liberdade para se mover autonomamente, mudar de local, tarefa e op\u00e7\u00e3o, dispor do seu pr\u00f3prio dinheiro, conviver com as mais variadas pessoas segundo a atrac\u00e7\u00e3o do momento. Neste caso, sobressai o testemunho das pessoas casadas. Aqueles que foram chamados \u00e0 virgindade podem encontrar, nalguns casais de esposos, um sinal claro da fidelidade generosa e indestrut\u00edvel de Deus \u00e0 sua Alian\u00e7a, que pode estimular os seus cora\u00e7\u00f5es a uma disponibilidade mais concreta e oblativa. Com efeito, h\u00e1 pessoas casadas que mant\u00eam a sua fidelidade, quando o c\u00f4njuge se tornou fisicamente desagrad\u00e1vel ou deixou de satisfazer as suas necessidades; e fazem-no, n\u00e3o obstante muitas ocasi\u00f5es os convidarem \u00e0 infidelidade ou ao abandono. Uma mulher pode cuidar do marido doente e ali, ao p\u00e9 da Cruz, volta a oferecer o \u00absim\u00bb do seu amor at\u00e9 \u00e0 morte. Em semelhante amor, manifesta-se de forma espl\u00eandida a dignidade de quem ama, dignidade como reflexo da caridade, j\u00e1 que \u00e9 mais pr\u00f3prio da caridade amar do que ser amado.<a href=\"https:\/\/www.vatican.va\/content\/francesco\/pt\/apost_exhortations\/documents\/papa-francesco_esortazione-ap_20160319_amoris-laetitia.html#_ftn172\" rel=\"external\" name=\"_ftnref172\">[172]<\/a>\u00a0Uma capacidade de servi\u00e7o oblativo e carinhoso pode ser observada tamb\u00e9m em muitas fam\u00edlias com filhos dif\u00edceis e at\u00e9 ingratos. Isto faz desses pais um sinal do amor livre e desinteressado de Jesus. Tudo isto se torna, para as pessoas celibat\u00e1rias, um convite a viverem a sua dedica\u00e7\u00e3o ao Reino com maior generosidade e disponibilidade. Hoje, a seculariza\u00e7\u00e3o ofuscou o valor duma uni\u00e3o para toda a vida e debilitou a riqueza da dedica\u00e7\u00e3o matrimonial, pelo que \u00ab\u00e9 preciso aprofundar os aspectos positivos do amor conjugal\u00bb.<a href=\"https:\/\/www.vatican.va\/content\/francesco\/pt\/apost_exhortations\/documents\/papa-francesco_esortazione-ap_20160319_amoris-laetitia.html#_ftn173\" rel=\"external\" name=\"_ftnref173\">[173]<\/a><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><b>A transforma\u00e7\u00e3o do amor<\/b><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">163. O alongamento da vida provocou algo que n\u00e3o era comum noutros tempos: a rela\u00e7\u00e3o \u00edntima e a m\u00fatua perten\u00e7a devem ser mantidas durante quatro, cinco ou seis d\u00e9cadas, e isto gera a necessidade de renovar repetidas vezes a rec\u00edproca escolha. Talvez o c\u00f4njuge j\u00e1 n\u00e3o esteja apaixonado com um desejo sexual intenso que o atraia para outra pessoa, mas sente o prazer de lhe pertencer e que esta pessoa lhe perten\u00e7a, de saber que n\u00e3o est\u00e1 s\u00f3, de ter um \u00abc\u00famplice\u00bb que conhece tudo da sua vida e da sua hist\u00f3ria e tudo partilha. \u00c9 o companheiro no caminho da vida, com quem se pode enfrentar as dificuldades e gozar das coisas lindas. Tamb\u00e9m isto gera uma satisfa\u00e7\u00e3o, que acompanha a decis\u00e3o pr\u00f3pria do amor conjugal. N\u00e3o \u00e9 poss\u00edvel prometer que teremos os mesmos sentimentos durante a vida inteira; mas podemos ter um projecto comum est\u00e1vel, comprometer-nos a amar-nos e a viver unidos at\u00e9 que a morte nos separe, e viver sempre uma rica intimidade. O amor, que nos prometemos, supera toda a emo\u00e7\u00e3o, sentimento ou estado de \u00e2nimo, embora possa inclu\u00ed-los. \u00c9 um querer-se bem mais profundo, com uma decis\u00e3o do cora\u00e7\u00e3o que envolve toda a exist\u00eancia. Assim, no meio dum conflito n\u00e3o resolvido e ainda que muitos sentimentos confusos girem pelo cora\u00e7\u00e3o, mant\u00e9m-se viva dia-a-dia a decis\u00e3o de amar, de se pertencer, de partilhar a vida inteira e continuar a amar-se e perdoar-se. Cada um dos dois realiza um caminho de crescimento e mudan\u00e7a pessoal. No curso de tal caminho, o amor celebra cada passo, cada etapa nova.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">164. Na hist\u00f3ria dum casal, a apar\u00eancia f\u00edsica muda, mas isso n\u00e3o \u00e9 motivo para que a atrac\u00e7\u00e3o amorosa diminua. Um c\u00f4njuge enamora-se pela pessoa inteira do outro, com uma identidade pr\u00f3pria, e n\u00e3o apenas pelo corpo, embora este corpo, independentemente do desgaste do tempo, nunca deixe de expressar de alguma forma aquela identidade pessoal que cativou o cora\u00e7\u00e3o. Quando os outros j\u00e1 n\u00e3o podem reconhecer a beleza desta identidade, o c\u00f4njuge enamorado continua a ser capaz de a individuar com o instinto do amor, e o carinho n\u00e3o desaparece. Reitera a sua decis\u00e3o de lhe pertencer, volta a escolh\u00ea-lo, e exprime esta escolha numa proximidade fiel e cheia de ternura. A nobreza da sua op\u00e7\u00e3o pelo outro, por ser intensa e profunda, desperta uma nova forma de emo\u00e7\u00e3o no cumprimento desta miss\u00e3o conjugal. Com efeito, \u00aba emo\u00e7\u00e3o provocada por outro ser humano como pessoa (&#8230;) n\u00e3o tende, de per si, para o acto conjugal\u00bb.<a href=\"https:\/\/www.vatican.va\/content\/francesco\/pt\/apost_exhortations\/documents\/papa-francesco_esortazione-ap_20160319_amoris-laetitia.html#_ftn174\" rel=\"external\" name=\"_ftnref174\">[174]<\/a>\u00a0Adquire outras express\u00f5es sens\u00edveis, porque o amor \u00ab\u00e9 uma \u00fanica realidade, embora com distintas dimens\u00f5es; caso a caso, pode uma ou outra dimens\u00e3o sobressair mais\u00bb.<a href=\"https:\/\/www.vatican.va\/content\/francesco\/pt\/apost_exhortations\/documents\/papa-francesco_esortazione-ap_20160319_amoris-laetitia.html#_ftn175\" rel=\"external\" name=\"_ftnref175\">[175]<\/a>\u00a0O v\u00ednculo encontra novas modalidades e exige a decis\u00e3o de reat\u00e1-lo repetidamente; e n\u00e3o s\u00f3 para o conservar, mas para o fazer crescer. \u00c9 o caminho de se construir dia ap\u00f3s dia. Entretanto nada disto \u00e9 poss\u00edvel, se n\u00e3o se invoca o Esp\u00edrito Santo, se n\u00e3o se clama todos os dias pedindo a sua gra\u00e7a, se n\u00e3o se procura a sua for\u00e7a sobrenatural, se n\u00e3o Lhe fazemos presente o desejo de que derrame o seu fogo sobre o nosso amor para o fortalecer, orientar e transformar em cada nova situa\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<\/div>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Cada m\u00eas, em 10 epis\u00f3dios, um v\u00eddeo com as reflex\u00f5es do Papa e o testemunho de fam\u00edlias de todas as partes do mundo \u2013 realizado em colabora\u00e7\u00e3o entre o Dicast\u00e9rio Leigos Fam\u00edlia e Vida e Vatican News \u2013 ajuda a reler a Exorta\u00e7\u00e3o apost\u00f3lica, com a contribui\u00e7\u00e3o de um subs\u00eddio que pode ser baixado para [&hellip;]<\/p>\n","protected":false},"author":1,"featured_media":69050,"comment_status":"open","ping_status":"closed","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"footnotes":""},"categories":[3],"tags":[],"class_list":["post-69049","post","type-post","status-publish","format-standard","has-post-thumbnail","hentry","category-vaticano"],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/catolicanet.net\/wp-cnet\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/69049","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/catolicanet.net\/wp-cnet\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/catolicanet.net\/wp-cnet\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/catolicanet.net\/wp-cnet\/wp-json\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/catolicanet.net\/wp-cnet\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=69049"}],"version-history":[{"count":1,"href":"https:\/\/catolicanet.net\/wp-cnet\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/69049\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":69051,"href":"https:\/\/catolicanet.net\/wp-cnet\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/69049\/revisions\/69051"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/catolicanet.net\/wp-cnet\/wp-json\/wp\/v2\/media\/69050"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/catolicanet.net\/wp-cnet\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=69049"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/catolicanet.net\/wp-cnet\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=69049"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/catolicanet.net\/wp-cnet\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=69049"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}