{"id":68338,"date":"2021-06-26T09:42:01","date_gmt":"2021-06-26T12:42:01","guid":{"rendered":"https:\/\/catolicanet.net\/wp-cnet\/?p=68338"},"modified":"2021-06-26T11:45:30","modified_gmt":"2021-06-26T14:45:30","slug":"amoris-laetitia-o-matrimonio-um-dom-que-supera-qualquer-ameaca","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/catolicanet.net\/wp-cnet\/amoris-laetitia-o-matrimonio-um-dom-que-supera-qualquer-ameaca\/","title":{"rendered":"Amoris laetitia: o matrim\u00f4nio, um dom que supera qualquer amea\u00e7a"},"content":{"rendered":"<div class=\"article__subTitle\" style=\"text-align: justify;\">Cada m\u00eas, em 10 epis\u00f3dios, um v\u00eddeo com as reflex\u00f5es do Papa e o testemunho de fam\u00edlias de todas as partes do mundo \u2013 realizado em colabora\u00e7\u00e3o entre o Dicast\u00e9rio Leigos Fam\u00edlia e Vida e Vatican News \u2013 ajuda a reler a Exorta\u00e7\u00e3o apost\u00f3lica, com a contribui\u00e7\u00e3o de um subs\u00eddio que pode ser baixado para o aprofundamento pessoal e comunit\u00e1rio. Porque ser fam\u00edlia, recorda Francisco, \u00e9 sempre \u201cprincipalmente uma oportunidade\u201d.<\/div>\n<div><\/div>\n<div>\n<p><iframe loading=\"lazy\" title=\"O amor no matrim\u00f4nio\" width=\"696\" height=\"392\" src=\"https:\/\/www.youtube.com\/embed\/IqRUmRNeTP8?feature=oembed\" frameborder=\"0\" allow=\"accelerometer; autoplay; clipboard-write; encrypted-media; gyroscope; picture-in-picture\" allowfullscreen><\/iframe><\/p>\n<\/div>\n<div class=\"title__separator\" style=\"text-align: justify;\"><\/div>\n<div class=\"article__text\">\n<p style=\"text-align: justify;\"><a href=\"https:\/\/www.vatican.va\/content\/francesco\/pt\/apost_exhortations\/documents\/papa-francesco_esortazione-ap_20160319_amoris-laetitia.html\" target=\"_blank\" rel=\"external noopener\">Amoris laetitia<\/a><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">(n. 89-119)<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><b>O AMOR NO MATRIM\u00d4NIO<\/b><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">89. Tudo o que foi dito n\u00e3o \u00e9 suficiente para exprimir o Evangelho do matrim\u00f3nio e da fam\u00edlia, se n\u00e3o nos detivermos particularmente a falar do amor. Com efeito, n\u00e3o poderemos encorajar um caminho de fidelidade e doa\u00e7\u00e3o rec\u00edproca, se n\u00e3o estimularmos o crescimento, a consolida\u00e7\u00e3o e o aprofundamento do amor conjugal e familiar. De facto, a gra\u00e7a do sacramento do matrim\u00f3nio destina-se, antes de mais nada, \u00aba aperfei\u00e7oar o amor dos c\u00f4njuges\u00bb.<a href=\"https:\/\/www.vatican.va\/content\/francesco\/pt\/apost_exhortations\/documents\/papa-francesco_esortazione-ap_20160319_amoris-laetitia.html#_ftn104\" rel=\"external\" name=\"_ftnref104\">[104]<\/a>\u00a0Tamb\u00e9m aqui \u00e9 verdade que, \u00abainda que eu tenha t\u00e3o grande f\u00e9 que transporte montanhas, se n\u00e3o tiver amor, nada sou. Ainda que eu distribua todos os meus bens e entregue o meu corpo para ser queimado, se n\u00e3o tiver amor de nada me vale\u00bb (<i>1Cor\u00a0<\/i>13, 2-3). Mas a palavra \u00abamor\u00bb, uma das mais usadas, muitas vezes aparece desfigurada.<a href=\"https:\/\/www.vatican.va\/content\/francesco\/pt\/apost_exhortations\/documents\/papa-francesco_esortazione-ap_20160319_amoris-laetitia.html#_ftn105\" rel=\"external\" name=\"_ftnref105\">[105]<\/a><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\n<div style=\"text-align: justify;\">\n<aside class=\"article__readmore inEvidence\">\n<div class=\"teaser--labelEvidence teaser teaser--type-article teaser2x1--inEvidence extL\">\n<article>\n<div class=\"teaser__contentWrapper\">\n<figure class=\"teaser__image\"><picture><source srcset=\"\/content\/dam\/vaticannews\/agenzie\/images\/srv\/2021\/05\/19\/2021-05-19-udienza-generale\/1621413231087.JPG\/_jcr_content\/renditions\/cq5dam.thumbnail.cropped.500.281.jpeg\" media=\"(min-width: 768px)\" data-original-set=\"\/content\/dam\/vaticannews\/agenzie\/images\/srv\/2021\/05\/19\/2021-05-19-udienza-generale\/1621413231087.JPG\/_jcr_content\/renditions\/cq5dam.thumbnail.cropped.500.281.jpeg\" \/><source srcset=\"\/content\/dam\/vaticannews\/agenzie\/images\/srv\/2021\/05\/19\/2021-05-19-udienza-generale\/1621413231087.JPG\/_jcr_content\/renditions\/cq5dam.thumbnail.cropped.500.281.jpeg\" media=\"(min-width: 340px)\" data-original-set=\"\/content\/dam\/vaticannews\/agenzie\/images\/srv\/2021\/05\/19\/2021-05-19-udienza-generale\/1621413231087.JPG\/_jcr_content\/renditions\/cq5dam.thumbnail.cropped.500.281.jpeg\" \/><source srcset=\"\/content\/dam\/vaticannews\/agenzie\/images\/srv\/2021\/05\/19\/2021-05-19-udienza-generale\/1621413231087.JPG\/_jcr_content\/renditions\/cq5dam.thumbnail.cropped.500.281.jpeg\" data-original-set=\"\/content\/dam\/vaticannews\/agenzie\/images\/srv\/2021\/05\/19\/2021-05-19-udienza-generale\/1621413231087.JPG\/_jcr_content\/renditions\/cq5dam.thumbnail.cropped.500.281.jpeg\" \/><img decoding=\"async\" class=\"loaded\" src=\"https:\/\/www.vaticannews.va\/content\/dam\/vaticannews\/agenzie\/images\/srv\/2021\/05\/19\/2021-05-19-udienza-generale\/1621413231087.JPG\/_jcr_content\/renditions\/cq5dam.thumbnail.cropped.500.281.jpeg\" alt=\"O amor no matrim\u00f4nio\" data-original=\"\/content\/dam\/vaticannews\/agenzie\/images\/srv\/2021\/05\/19\/2021-05-19-udienza-generale\/1621413231087.JPG\/_jcr_content\/renditions\/cq5dam.thumbnail.cropped.500.281.jpeg\" data-was-processed=\"true\" \/><\/picture><\/figure>\n<div class=\"teaser__info\"><\/div>\n<h2 class=\"teaser__title\"><a title=\"O amor no matrim\u00f4nio\" href=\"http:\/\/www.laityfamilylife.va\/content\/dam\/laityfamilylife\/amoris-laetitia\/10videoamorislaetitia\/Sussidi\/AMORIS%20LAETITIA_PUNTATA%2004%20-%20BUDOU_PORTOGHESE.pdf\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">O amor no matrim\u00f4nio<\/a><\/h2>\n<div class=\"teaser__text\">Baixe aqui o pdf do subs\u00eddio 4 do Dicast\u00e9rio para os Leigos, a Fam\u00edlia e a Vida para a reflex\u00e3o pessoal e a pastoral comunit\u00e1ria<\/div>\n<\/div>\n<\/article>\n<\/div>\n<\/aside>\n<\/div>\n<p style=\"text-align: justify;\">\n<p style=\"text-align: justify;\"><b>O nosso amor quotidiano<\/b><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">90. No chamado hino \u00e0 caridade escrito por S\u00e3o Paulo, vemos algumas caracter\u00edsticas do amor verdadeiro:<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\u00abO amor \u00e9 paciente,<br \/>\no amor \u00e9 prest\u00e1vel;<br \/>\nn\u00e3o \u00e9 invejoso,<br \/>\nn\u00e3o \u00e9 arrogante nem orgulhoso,<br \/>\nnada faz de inconveniente,<br \/>\nn\u00e3o procura o seu pr\u00f3prio interesse,<br \/>\nn\u00e3o se irrita,<br \/>\nnem guarda ressentimento,<br \/>\nn\u00e3o se alegra com a injusti\u00e7a,<br \/>\nmas rejubila com a verdade.<br \/>\nTudo desculpa,<br \/>\ntudo cr\u00ea,<br \/>\ntudo espera,<br \/>\ntudo suporta\u00bb (<i>1Cor\u00a0<\/i>13, 4-7).<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Isto pratica-se e cultiva-se na vida que os esposos partilham dia-a-dia entre si e com os seus filhos. Por isso, vale a pena deter-se a esclarecer o significado das express\u00f5es deste texto, tendo em vista uma aplica\u00e7\u00e3o \u00e0 exist\u00eancia concreta de cada fam\u00edlia.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><i>Paci\u00eancia<\/i><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">91. A primeira palavra usada \u00e9 \u00ab<i>macrothymei<\/i>\u00bb. A sua tradu\u00e7\u00e3o n\u00e3o \u00e9 simplesmente \u00absuporta tudo\u00bb, porque esta ideia \u00e9 expressa no final do vers\u00edculo 7. O sentido encontra-se na tradu\u00e7\u00e3o grega do texto do Antigo Testamento onde se diz que Deus \u00e9 \u00ablento para a ira\u00bb (<i>Nm\u00a0<\/i>14, 18; cf.<i>\u00a0Ex\u00a0<\/i>34, 6). Uma pessoa mostra-se paciente, quando n\u00e3o se deixa levar pelos impulsos interiores e evita agredir. A paci\u00eancia \u00e9 uma qualidade do Deus da Alian\u00e7a, que convida a imit\u00e1-Lo tamb\u00e9m na vida familiar. Os textos onde Paulo usa este termo devem ser lidos \u00e0 luz do livro da Sabedoria (cf. 11, 23; 12, 2.15-18): ao mesmo tempo que se louva a modera\u00e7\u00e3o de Deus para dar tempo ao arrependimento, insiste-se no seu poder que se manifesta quando actua com miseric\u00f3rdia. A paci\u00eancia de Deus \u00e9 exerc\u00edcio da miseric\u00f3rdia de Deus para com o pecador e manifesta o verdadeiro poder.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">92. Ter paci\u00eancia n\u00e3o \u00e9 deixar que nos maltratem permanentemente, nem tolerar agress\u00f5es f\u00edsicas, ou permitir que nos tratem como objectos. O problema surge quando exigimos que as rela\u00e7\u00f5es sejam id\u00edlicas, ou que as pessoas sejam perfeitas, ou quando nos colocamos no centro esperando que se cumpra unicamente a nossa vontade. Ent\u00e3o tudo nos impacienta, tudo nos leva a reagir com agressividade. Se n\u00e3o cultivarmos a paci\u00eancia, sempre acharemos desculpas para responder com ira, acabando por nos tornarmos pessoas que n\u00e3o sabem conviver, anti-sociais incapazes de dominar os impulsos, e a fam\u00edlia tornar-se-\u00e1 um campo de batalha. Por isso, a Palavra de Deus exorta-nos: \u00abToda a esp\u00e9cie de azedume, raiva, ira, gritaria e inj\u00faria desapare\u00e7a de v\u00f3s, juntamente com toda a maldade\u00bb (<i>Ef<\/i>\u00a04, 31). Esta paci\u00eancia refor\u00e7a-se quando reconhe\u00e7o que o outro, assim como \u00e9, tamb\u00e9m tem direito a viver comigo nesta terra. N\u00e3o importa se \u00e9 um estorvo para mim, se altera os meus planos, se me molesta com o seu modo de ser ou com as suas ideias, se n\u00e3o \u00e9 em tudo como eu esperava. O amor possui sempre um sentido de profunda compaix\u00e3o, que leva a aceitar o outro como parte deste mundo, mesmo quando age de modo diferente daquilo que eu desejaria.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><i>Atitude de servi\u00e7o<\/i><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">93. Vem depois a palavra\u00a0<i>jrest\u00e9uetai\u00a0<\/i>\u2013 a \u00fanica vez que aparece em toda a B\u00edblia \u2013, que deriva de\u00a0<i>jrest\u00f3s<\/i>\u00a0(pessoa boa, que mostra a sua bondade nas ac\u00e7\u00f5es). Mas pelo lugar onde est\u00e1, ou seja, em estrito paralelismo com o verbo anterior, \u00e9 seu complemento. Deste modo Paulo pretende esclarecer que a \u00abpaci\u00eancia\u00bb, nomeada em primeiro lugar, n\u00e3o \u00e9 uma postura totalmente passiva, mas h\u00e1-de ser acompanhada por uma actividade, uma reac\u00e7\u00e3o din\u00e2mica e criativa perante os outros. Indica que o amor beneficia e promove os outros. Por isso, traduz-se como \u00abprest\u00e1vel\u00bb.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">94. No conjunto do texto, v\u00ea-se que Paulo quer insistir que o amor n\u00e3o \u00e9 apenas um sentimento, mas deve ser entendido no sentido que o verbo \u00abamar\u00bbtem em hebraico: \u00abfazer o bem\u00bb. Como dizia Santo In\u00e1cio de Loyola, \u00abo amor deve ser colocado mais nas obras do que nas palavras\u00bb.<a href=\"https:\/\/www.vatican.va\/content\/francesco\/pt\/apost_exhortations\/documents\/papa-francesco_esortazione-ap_20160319_amoris-laetitia.html#_ftn106\" rel=\"external\" name=\"_ftnref106\">[106]<\/a>\u00a0Assim poder\u00e1 mostrar toda a sua fecundidade, permitindo-nos experimentara felicidade de dar, a nobreza e grandeza de doar-se superabundantemente, sem calcular nem reclamar pagamento, mas apenas pelo prazer de dar e servir.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><i>Curando a inveja<\/i><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">95. Em seguida rejeita-se, como contr\u00e1ria ao amor, uma atitude expressa como\u00a0<i>zeloi\u00a0<\/i>(ci\u00fame ou inveja). Significa que, no amor, n\u00e3o h\u00e1 lugar para sentir desgosto pelo bem do outro (cf.\u00a0<i>Act\u00a0<\/i>7, 9;17, 5). A inveja \u00e9 uma tristeza pelo bem alheio, demonstrando que n\u00e3o nos interessa a felicidade dos outros, porque estamos concentrados exclusivamente no nosso bem-estar. Enquanto o amor nos faz sair de n\u00f3s mesmos, a inveja leva a centrar-nos em n\u00f3s pr\u00f3prios. O verdadeiro amor aprecia os sucessos alheios, n\u00e3o os sente como uma amea\u00e7a, libertando-se do sabor amargo da inveja. Aceita que cada um tenha dons distintos e caminhos diferentes na vida; e, consequentemente, procura descobrir o seu pr\u00f3prio caminho para ser feliz, deixando que os outros encontrem o deles.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">96. Em \u00faltima an\u00e1lise, trata-se de cumprir o que pedem os dois \u00faltimos mandamentos da Lei de Deus: \u00abN\u00e3o desejar\u00e1s a casa do teu pr\u00f3ximo. N\u00e3o desejar\u00e1s a mulher do teu pr\u00f3ximo, o seu servo, a sua serva, o seu boi, o seu burro, e tudo o que \u00e9 do teu pr\u00f3ximo\u00bb (<i>Ex\u00a0<\/i>20, 17). O amor leva-nos a uma aprecia\u00e7\u00e3o sincera de cada ser humano, reconhecendo o seu direito \u00e0 felicidade. Amo aquela pessoa, vejo-a com o olhar de Deus Pai, que nos d\u00e1 tudo \u00abpara nosso usufruto\u00bb (<i>1Tim\u00a0<\/i>6, 17), e consequentemente aceito, no meu \u00edntimo, que ela possa usufruir dum momento bom. Entretanto esta mesma raiz do amor leva-me a rejeitar a injusti\u00e7a de alguns terem muito e outros n\u00e3o terem nada, ou induz-me a procurar que os pr\u00f3prios descart\u00e1veis da sociedade possam viver um pouco de alegria. Mas isto n\u00e3o \u00e9 inveja; s\u00e3o anseios de equidade.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><i>Sem ser arrogante nem se orgulhar<\/i><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">97. Segue-se o termo\u00a0<i>perpereuetai<\/i>, que indica vangl\u00f3ria, desejo de se mostrar superior para impressionar os outros com atitude pedante e um pouco agressiva. Quem ama n\u00e3o s\u00f3 evita falar muito de si mesmo, mas, porque est\u00e1 centrado nos outros, sabe manter-se no seu lugar sem pretender estar no centro. A palavra seguinte \u2013\u00a0<i>physioutai<\/i>\u00a0\u2013 \u00e9 muito semelhante, indicando que o amor n\u00e3o \u00e9 arrogante. Literalmente afirma que n\u00e3o se \u00abengrandece\u00bb diante dos outros; mas indica algo de mais subtil. N\u00e3o se trata apenas duma obsess\u00e3o por mostrar as pr\u00f3prias qualidades; \u00e9 pior: perde-se o sentido da realidade, a pessoa considera-se maior do que \u00e9, porque se cr\u00ea mais \u00abespiritual\u00bb ou \u00abs\u00e1bia\u00bb. Paulo usa este verbo noutras ocasi\u00f5es, para dizer, por exemplo, que \u00aba ci\u00eancia incha\u00bb, ao passo que \u00aba caridade edifica\u00bb (<i>1Cor<\/i>\u00a08, 1). Por outras palavras, alguns julgam-se grandes, porque sabem mais do que os outros, dedicando-se a impor-lhes exig\u00eancias e a control\u00e1-los; quando, na realidade, o que nos faz grandes \u00e9 o amor que compreende, cuida, integra, est\u00e1 atento aos fracos. Noutro vers\u00edculo, usa-o para criticar aqueles que \u00abse tornaram insolentes\u00bb (<i>1Cor<\/i>\u00a04, 18), mas, na realidade, t\u00eam mais palavreado do que verdadeiro \u00abpoder\u00bb do Esp\u00edrito (cf.\u00a0<i>1Cor<\/i>\u00a04, 19).<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">98. \u00c9 importante que os crist\u00e3os vivam isto no seu modo de tratar os familiares pouco formados na f\u00e9, fr\u00e1geis ou menos firmes nas suas convic\u00e7\u00f5es. \u00c0s vezes, d\u00e1-se o contr\u00e1rio: as pessoas que, no seio da fam\u00edlia, se consideram mais desenvolvidas, tornam-se arrogantes insuport\u00e1veis. A atitude de humildade aparece aqui como algo que faz parte do amor, porque, para poder compreender, desculpar ou servir os outros de cora\u00e7\u00e3o, \u00e9 indispens\u00e1vel curar o orgulho e cultivar a humildade. Jesus lembrava aos seus disc\u00edpulos que, no mundo do poder, cada um procura dominar o outro, e acrescentava: \u00abn\u00e3o seja assim entre v\u00f3s\u00bb (<i>Mt<\/i>\u00a020, 26). A l\u00f3gica do amor crist\u00e3o n\u00e3o \u00e9 a de quem se considera superior aos outros e precisa de fazer-lhes sentir o seu poder, mas a de \u00abquem no meio de v\u00f3s quiser ser o primeiro, seja vosso servo\u00bb (<i>Mt<\/i>\u00a020, 27). Na vida familiar, n\u00e3o pode reinar a l\u00f3gica do dom\u00ednio de uns sobre os outros, nem a competi\u00e7\u00e3o para ver quem \u00e9 mais inteligente ou poderoso, porque esta l\u00f3gica acaba com o amor. Vale tamb\u00e9m para a fam\u00edlia o seguinte conselho: \u00abRevesti-vos todos de humildade no trato uns com os outros, porque Deus op\u00f5e-se aos soberbos, mas d\u00e1 a sua gra\u00e7a aos humildes\u00bb (<i>1Ped<\/i>\u00a05, 5).<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><i>Amabilidade<\/i><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">99. Amar \u00e9 tamb\u00e9m tornar-se am\u00e1vel, e nisto est\u00e1 o sentido do termo\u00a0<i>asjemon\u00e9i<\/i>. Significa que o amor n\u00e3o age rudemente, n\u00e3o actua de forma inconveniente, n\u00e3o se mostra duro no trato. Os seus modos, as suas palavras, os seus gestos s\u00e3o agrad\u00e1veis; n\u00e3o s\u00e3o \u00e1speros, nem r\u00edgidos. Detesta fazer sofrer os outros. A cortesia \u00ab\u00e9 uma escola de sensibilidade e altru\u00edsmo\u00bb, que exige que a pessoa \u00abcultive a sua mente e os seus sentidos, aprenda a ouvir, a falar e, em certos momentos, a calar\u00bb.<a href=\"https:\/\/www.vatican.va\/content\/francesco\/pt\/apost_exhortations\/documents\/papa-francesco_esortazione-ap_20160319_amoris-laetitia.html#_ftn107\" rel=\"external\" name=\"_ftnref107\">[107]<\/a>\u00a0Ser am\u00e1vel n\u00e3o \u00e9 um estilo que o crist\u00e3o possa escolher ou rejeitar: faz parte das exig\u00eancias irrenunci\u00e1veis do amor, por isso \u00abtodo o ser humano est\u00e1 obrigado a ser af\u00e1vel com aqueles que o rodeiam\u00bb.<a href=\"https:\/\/www.vatican.va\/content\/francesco\/pt\/apost_exhortations\/documents\/papa-francesco_esortazione-ap_20160319_amoris-laetitia.html#_ftn108\" rel=\"external\" name=\"_ftnref108\">[108]<\/a>\u00a0Diariamente \u00abentrar na vida do outro, mesmo quando faz parte da nossa exist\u00eancia, exige a delicadeza duma atitude n\u00e3o invasiva, que renova a confian\u00e7a e o respeito. (&#8230;) E quanto mais \u00edntimo e profundo for o amor, tanto mais exigir\u00e1 o respeito pela liberdade e a capacidade de esperar que o outro abra a porta do seu cora\u00e7\u00e3o\u00bb.<a href=\"https:\/\/www.vatican.va\/content\/francesco\/pt\/apost_exhortations\/documents\/papa-francesco_esortazione-ap_20160319_amoris-laetitia.html#_ftn109\" rel=\"external\" name=\"_ftnref109\">[109]<\/a><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">100. A fim de se predispor para um verdadeiro encontro com o outro, requer-se um olhar am\u00e1vel pousado nele. Isto n\u00e3o \u00e9 poss\u00edvel quando reina um pessimismo que p\u00f5e em evid\u00eancia os defeitos e erros alheios, talvez para compensar os pr\u00f3prios complexos. Um olhar am\u00e1vel faz com que nos detenhamos menos nos limites do outro, podendo assim toler\u00e1-lo e unirmo-nos num projecto comum, apesar de sermos diferentes. O amor am\u00e1vel gera v\u00ednculos, cultiva la\u00e7os, cria novas redes de integra\u00e7\u00e3o, constr\u00f3i um tecido social firme. Deste modo, uma pessoa protege-se a si mesma, pois, sem sentido de perten\u00e7a, n\u00e3o se pode sustentar uma entrega aos outros, acabando cada um por buscar apenas as pr\u00f3prias conveni\u00eancias, e a conviv\u00eancia torna-se imposs\u00edvel. Uma pessoa anti-social julga que os outros existem para satisfazer as suas necessidades e, quando o fazem, cumprem apenas o seu dever. Neste caso, n\u00e3o haveria espa\u00e7o para a amabilidade do amor e a sua linguagem. A pessoa que ama \u00e9 capaz de dizer palavras de incentivo, que reconfortam, fortalecem, consolam, estimulam. Vejamos, por exemplo, algumas palavras que Jesus dizia \u00e0s pessoas: \u00abFilho, tem confian\u00e7a!\u00bb (<i>Mt<\/i>\u00a09, 2). \u00abGrande \u00e9 a tua f\u00e9!\u00bb (<i>Mt<\/i>\u00a015, 28). \u00abLevanta-te!\u00bb (<i>Mc<\/i>\u00a05, 41). \u00abVai em paz\u00bb (<i>Lc<\/i>\u00a07, 50). \u00abN\u00e3o temais!\u00bb (<i>Mt<\/i>\u00a014, 27). N\u00e3o s\u00e3o palavras que humilham, angustiam, irritam, desprezam. Na fam\u00edlia, \u00e9 preciso aprender esta linguagem am\u00e1vel de Jesus.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><i>Desprendimento<\/i><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">101. Como se diz muitas vezes, para amar os outros, \u00e9 preciso primeiro amar-se a si mesmo. Todavia este hino \u00e0 caridade afirma que o amor \u00abn\u00e3o procura o seu pr\u00f3prio interesse\u00bb, ou \u00abn\u00e3o procura o que \u00e9 seu\u00bb. Esta express\u00e3o aparece ainda noutro texto: \u00abN\u00e3o tenha cada um em vista os pr\u00f3prios interesses, mas todos e cada um exactamente os interesses dos outros\u00bb (<i>Flp\u00a0<\/i>2, 4).Perante uma afirma\u00e7\u00e3o assim clara da Sagrada Escritura, deve-se evitar de dar prioridade ao amor a si mesmo, como se fosse mais nobre do que o dom de si aos outros. Uma certa prioridade do amor a si mesmo s\u00f3 se pode entender como condi\u00e7\u00e3o psicol\u00f3gica, pois uma pessoa que seja incapaz de se amar a si mesma sente dificuldade em amar os outros: \u00abPara quem ser\u00e1 bom aquele que \u00e9 mau para si mesmo? (&#8230;) N\u00e3o h\u00e1 pior do que aquele que \u00e9 avaro para si mesmo\u00bb (<i>Sir<\/i>\u00a014, 5-6).<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">102. Mas o pr\u00f3prio Tom\u00e1s de Aquino explicou \u00abser mais pr\u00f3prio da caridade querer amar do que querer ser amado\u00bb,<a href=\"https:\/\/www.vatican.va\/content\/francesco\/pt\/apost_exhortations\/documents\/papa-francesco_esortazione-ap_20160319_amoris-laetitia.html#_ftn110\" rel=\"external\" name=\"_ftnref110\">[110]<\/a>\u00a0e que de facto \u00abas m\u00e3es, que s\u00e3o as que mais amam, procuram mais amar do que ser amadas\u00bb.<a href=\"https:\/\/www.vatican.va\/content\/francesco\/pt\/apost_exhortations\/documents\/papa-francesco_esortazione-ap_20160319_amoris-laetitia.html#_ftn111\" rel=\"external\" name=\"_ftnref111\">[111]<\/a>\u00a0Por isso, o amor pode superar a justi\u00e7a e transbordar gratuitamente \u00absem nada esperar em troca\u00bb (<i>Lc<\/i>\u00a06, 35), at\u00e9 chegar ao amor maior que \u00e9 \u00abdar a vida\u00bb pelos outros (<i>Jo<\/i>\u00a015, 13). Mas ser\u00e1 poss\u00edvel um desprendimento assim, que permite dar gratuitamente e dar at\u00e9 ao fim? Sem d\u00favida, porque \u00e9 o que pede o Evangelho: \u00abRecebestes de gra\u00e7a, dai de gra\u00e7a\u00bb (<i>Mt<\/i>\u00a010, 8).<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><i>Sem viol\u00eancia interior<\/i><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">103. Se a primeira express\u00e3o do hino nos convidava \u00e0 paci\u00eancia, que evita reagir bruscamente perante as fraquezas ou erros dos outros, agora aparece outra palavra \u2013\u00a0<i>parox\u00fdnetai<\/i>\u00a0\u2013que diz respeito a uma reac\u00e7\u00e3o interior de indigna\u00e7\u00e3o provocada por algo exterior. Trata-se de uma viol\u00eancia interna, uma irrita\u00e7\u00e3o rec\u00f4ndita que nos p\u00f5e \u00e0 defesa perante os outros, como se fossem inimigos molestos a evitar. Alimentar esta agressividade \u00edntima, de nada aproveita. Serve apenas para nos adoentar, acabando por nos isolar. A indigna\u00e7\u00e3o \u00e9 saud\u00e1vel, quando nos leva a reagir perante uma grave injusti\u00e7a; mas \u00e9 prejudicial, quando tende a impregnar todas as nossas atitudes para com os outros.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">104. O Evangelho convida a olhar primeiro a trave na pr\u00f3pria vista (cf.\u00a0<i>Mt<\/i>\u00a07, 5), e n\u00f3s, crist\u00e3os, n\u00e3o podemos ignorar o convite constante da Palavra de Deus para n\u00e3o se alimentar a ira: \u00abN\u00e3o te deixes vencer pelo mal\u00bb (<i>Rm<\/i>\u00a012, 21); \u00abn\u00e3o nos cansemos de fazer o bem\u00bb (<i>Gal<\/i>\u00a06, 9). Uma coisa \u00e9 sentir a for\u00e7a da agressividade que irrompe, e outra \u00e9 consentir nela, deixar que se torne uma atitude permanente: \u00abSe vos irardes, n\u00e3o pequeis; que o sol n\u00e3o se ponha sobre o vosso ressentimento\u00bb (<i>Ef<\/i>\u00a04, 26). Por isso, nunca se deve terminar o dia sem fazer as pazes na fam\u00edlia. \u00abE como devo fazer as pazes? Ajoelhar-me? N\u00e3o! Para restabelecer a harmonia familiar basta um pequeno gesto, uma coisa de nada. \u00c9 suficiente uma car\u00edcia, sem palavras. Mas nunca permitais que o dia em fam\u00edlia termine sem fazer as pazes\u00bb.<a href=\"https:\/\/www.vatican.va\/content\/francesco\/pt\/apost_exhortations\/documents\/papa-francesco_esortazione-ap_20160319_amoris-laetitia.html#_ftn112\" rel=\"external\" name=\"_ftnref112\">[112]<\/a>\u00a0A reac\u00e7\u00e3o interior perante uma mol\u00e9stia que nos causam os outros, deveria ser, antes de mais nada, aben\u00e7oar no cora\u00e7\u00e3o, desejar o bem do outro, pedir a Deus que o liberte e cure. \u00abRespondei com palavras de b\u00ean\u00e7\u00e3o, pois a isto fostes chamados: a herdar uma b\u00ean\u00e7\u00e3o\u00bb (<i>1Ped<\/i>\u00a03, 9). Se tivermos de lutar contra um mal, fa\u00e7amo-lo; mas sempre digamos \u00abn\u00e3o\u00bb \u00e0 viol\u00eancia interior.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><i>Perd\u00e3o<\/i><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">105. Se permitirmos a entrada dum mau sentimento no nosso \u00edntimo, damos lugar ao ressentimento que se aninha no cora\u00e7\u00e3o. A frase\u00a0<i>log\u00edzetai to kak\u00f3n<\/i>\u00a0significa que se \u00abtem em conta o mal\u00bb, \u00abtr\u00e1-lo gravado\u00bb, ou seja, est\u00e1 ressentido. O contr\u00e1rio disto \u00e9 o perd\u00e3o; perd\u00e3o fundado numa atitude positiva que procura compreender a fraqueza alheia e encontrar desculpas para a outra pessoa, como Jesus que diz: \u00abPerdoa-lhes, Pai, porque n\u00e3o sabem o que fazem\u00bb (<i>Lc<\/i>\u00a023, 34). Entretanto a tend\u00eancia costuma ser a de buscar cada vez mais culpas, imaginar cada vez mais maldades, supor todo o tipo de m\u00e1s inten\u00e7\u00f5es, e assim o ressentimento vai crescendo e cria ra\u00edzes. Deste modo, qualquer erro ou queda do c\u00f4njuge pode danificar o v\u00ednculo de amor e a estabilidade familiar. O problema \u00e9 que, \u00e0s vezes, atribui-se a tudo a mesma gravidade, com o risco de tornar-se cruel perante qualquer erro do outro. A justa reivindica\u00e7\u00e3o dos pr\u00f3prios direitos torna-se mais uma persistente e constante sede de vingan\u00e7a do que uma s\u00e3 defesa da pr\u00f3pria dignidade.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">106. Quando estivermos ofendidos ou desiludidos, \u00e9 poss\u00edvel e desej\u00e1vel o perd\u00e3o; mas ningu\u00e9m diz que seja f\u00e1cil. A verdade \u00e9 que \u00aba comunh\u00e3o familiar s\u00f3 pode ser conservada e aperfei\u00e7oada com grande esp\u00edrito de sacrif\u00edcio. Exige, de facto, de todos e de cada um, pronta e generosa disponibilidade \u00e0 compreens\u00e3o, \u00e0 toler\u00e2ncia, ao perd\u00e3o, \u00e0 reconcilia\u00e7\u00e3o. Nenhuma fam\u00edlia ignora como o ego\u00edsmo, o desacordo, as tens\u00f5es, os conflitos agridem, de forma violenta e \u00e0s vezes mortal, a comunh\u00e3o: daqui as m\u00faltiplas e variadas formas de divis\u00e3o da vida familiar\u00bb.<a href=\"https:\/\/www.vatican.va\/content\/francesco\/pt\/apost_exhortations\/documents\/papa-francesco_esortazione-ap_20160319_amoris-laetitia.html#_ftn113\" rel=\"external\" name=\"_ftnref113\">[113]<\/a><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">107. Hoje sabemos que, para se poder perdoar, precisamos de passar pela experi\u00eancia libertadora de nos compreendermos e perdoarmos a n\u00f3s mesmos. Quantas vezes os nossos erros ou o olhar cr\u00edtico das pessoas que amamos nos fizeram perder o amor a n\u00f3s pr\u00f3prios; isto acaba por nos levar a acautelar-nos dos outros, esquivando-nos do seu afecto, enchendo-nos de suspeitas nas rela\u00e7\u00f5es interpessoais. Ent\u00e3o, poder culpar os outros torna-se um falso al\u00edvio. Faz falta rezar com a pr\u00f3pria hist\u00f3ria, aceitar-se a si mesmo, saber conviver comas pr\u00f3prias limita\u00e7\u00f5es e inclusive perdoar-se, para poder ter esta mesma atitude com os outros.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">108. Mas isto pressup\u00f5e a experi\u00eancia de ser perdoados por Deus, justificados gratuitamente e n\u00e3o pelos nossos m\u00e9ritos. Fomos envolvidos por um amor pr\u00e9vio a qualquer obra nossa, que sempre d\u00e1 uma nova oportunidade, promove e incentiva. Se aceitamos que o amor de Deus \u00e9 incondicional, que o carinho do Pai n\u00e3o se deve comprar nem pagar, ent\u00e3o poderemos amar sem limites, perdoar aos outros, ainda que tenham sido injustos para connosco. Caso contr\u00e1rio, a nossa vida em fam\u00edlia deixar\u00e1 de ser um lugar de compreens\u00e3o, companhia e incentivo, e tornar-se-\u00e1 um espa\u00e7o de permanente tens\u00e3o ou de castigo m\u00fatuo.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><i>Alegrar-se com os outros<\/i><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">109. A express\u00e3o\u00a0<i>jaireiepi te adik\u00eda<\/i>indica algo de negativo arraigado no segredo do cora\u00e7\u00e3o da pessoa. \u00c9 a atitude venenosa de quem, ao ver feita a algu\u00e9m uma injusti\u00e7a, se alegra. A frase \u00e9 completada pela seguinte, que o diz de forma positiva:<i>\u00a0sygjairei te al\u00e9theia\u00a0<\/i>\u2013 rejubila com a verdade. Por outras palavras, alegra-se como bem do outro, quando se reconhece a sua dignidade, quando se aprecia mas suas capacidades e as suas boas obras. Isto \u00e9 imposs\u00edvel para quem sente a necessidade de estar sempre a comparar-se ou a competir, inclusive com o pr\u00f3prio c\u00f4njuge, at\u00e9 ao ponto de se alegrar secretamente com os seus fracassos.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">110. Quando uma pessoa que ama pode fazer algo de bom pelo outro, ou quando v\u00ea que a vida est\u00e1 a correr bem ao outro, vive isso com alegria e, assim, d\u00e1 gl\u00f3ria a Deus, porque \u00abDeus ama quem d\u00e1 com alegria\u00bb (<i>2Cor\u00a0<\/i>9, 7), nosso Senhor aprecia de modo especial quem se alegra com a felicidade do outro. Se n\u00e3o alimentamos a nossa capacidade de rejubilar como bem do outro, concentrando-nos sobretudo nas nossas pr\u00f3prias necessidades, condenamo-nos a viver com pouca alegria, porque \u2013 como disse Jesus \u2013 \u00aba felicidade est\u00e1 mais em dar do que em receber\u00bb (<i>At<\/i>\u00a020, 35). A fam\u00edlia deve ser sempre o lugar onde uma pessoa que consegue algo de bom na vida, sabe que ali se v\u00e3o congratular com ela.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><i>Tudo desculpa<\/i><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">111. O elenco \u00e9 completado com quatro express\u00f5es que falam duma totalidade: \u00abtudo\u00bb. Tudo desculpa, tudo cr\u00ea, tudo espera, tudo suporta. Assim se destaca vigorosamente o dinamismo contracorrente do amor, capaz de enfrentar qualquer coisa que o possa amea\u00e7ar.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">112. Em primeiro lugar, diz-se que \u00abtudo desculpa \u2013\u00a0<i>panta st\u00e9gei<\/i>\u00bb. \u00c9 diferente de \u00abn\u00e3o ter em conta o mal\u00bb, porque este termo tem a ver com o uso da l\u00edngua; pode significar \u00abguardar sil\u00eancio\u00bb a prop\u00f3sito do mal que possa haver noutra pessoa. Implica limitar o ju\u00edzo, conter a inclina\u00e7\u00e3o para se emitir uma condena\u00e7\u00e3o dura e implac\u00e1vel: \u00abN\u00e3o condeneis e n\u00e3o sereis condenados\u00bb (<i>Lc<\/i>\u00a06, 37). Embora isto v\u00e1 contra o uso que habitualmente fazemos da l\u00edngua, a Palavra de Deus pede-nos: \u00abN\u00e3o faleis mal uns dos outros, irm\u00e3os\u00bb (<i>Tg<\/i>\u00a04, 11). Deter-se a danificar a imagem do outro \u00e9 uma maneira de refor\u00e7ar a pr\u00f3pria, de descarregar ressentimentos e invejas, sem se importar com o dano causado. Muitas vezes esquece-se que a difama\u00e7\u00e3o pode ser um grande pecado, uma grave ofensa a Deus, quando afecta seriamente a boa fama dos outros, causando-lhes danos muito dif\u00edceis de reparar. Por isso a Palavra de Deus se mostra t\u00e3o dura com a l\u00edngua, dizendo que \u00ab\u00e9 um mundo de iniquidade [que] contamina todo o corpo\u00bb (<i>Tg<\/i>\u00a03, 6), \u00abum mal incontrol\u00e1vel, carregado de veneno mortal\u00bb (<i>Tg<\/i>\u00a03, 8). Se \u00abcom ela amaldi\u00e7oamos os homens, feitos \u00e0 semelhan\u00e7a de Deus\u00bb (<i>Tg<\/i>\u00a03, 9), o amor faz o contr\u00e1rio, defendendo a imagem dos outros e com uma delicadeza tal que leva mesmo a preservar a boa fama dos inimigos. Ao defender a lei divina, \u00e9 preciso nunca esquecer esta exig\u00eancia do amor.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">113. Os esposos, que se amam e se pertencem, falam bem um do outro, procuram mostrar mais o lado bom do c\u00f4njuge do que as suas fraquezas e erros. Em todo o caso, guardam sil\u00eancio para n\u00e3o danificar a sua imagem. Mas n\u00e3o \u00e9 apenas um gesto externo, brota duma atitude interior. Tamb\u00e9m n\u00e3o \u00e9 a ingenuidade de quem pretende n\u00e3o ver as dificuldades e os pontos fracos do outro, mas a perspectiva ampla de quem coloca estas fraquezas e erros no seu contexto; lembra-se de que estes defeitos constituem apenas uma parte, n\u00e3o s\u00e3o a totalidade do ser do outro: um facto desagrad\u00e1vel no relacionamento n\u00e3o \u00e9 a totalidade desse relacionamento. Assim \u00e9 poss\u00edvel aceitar, com simplicidade, que todos somos uma complexa combina\u00e7\u00e3o de luzes e sombras. O outro n\u00e3o \u00e9 apenas aquilo que me incomoda; \u00e9 muito mais do que isso. E, pela mesma raz\u00e3o, n\u00e3o lhe exijo que seja perfeito o seu amor para o apreciar: ama-me como \u00e9 e como pode, com os seus limites, mas o facto de o seu amor ser imperfeito n\u00e3o significa que seja falso ou que n\u00e3o seja real. \u00c9 real, mas limitado e terreno. Por isso, se eu lhe exigir demais, de alguma maneira mo far\u00e1 saber, pois n\u00e3o poder\u00e1 nem aceitar\u00e1 desempenhar o papel dum ser divino nem estar ao servi\u00e7o de todas as minhas necessidades. O amor convive com a imperfei\u00e7\u00e3o, desculpa-a e sabe guardar sil\u00eancio perante os limites do ser amado.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><i>Confia<\/i><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">114. \u00ab<i>Panta pisteuei<\/i>\u00a0\u2013 tudo cr\u00ea\u00bb. Pelo contexto, n\u00e3o se deve entender esta \u00abf\u00e9\u00bb em sentido teol\u00f3gico, mas no sentido comum de \u00abconfian\u00e7a\u00bb. N\u00e3o se trata apenas de n\u00e3o suspeitar que o outro esteja mentindo ou enganando; esta confian\u00e7a b\u00e1sica reconhece a luz acesa por Deus que se esconde por detr\u00e1s da escurid\u00e3o, ou a brasa ainda acesa sob as cinzas.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">115. \u00c9 precisamente esta confian\u00e7a que torna poss\u00edvel uma rela\u00e7\u00e3o em liberdade. N\u00e3o \u00e9 necess\u00e1rio controlar o outro, seguir minuciosamente os seus passos, para evitar que fuja dos meus bra\u00e7os. O amor confia, deixa em liberdade, renuncia a controlar tudo, a possuir, a dominar. Esta liberdade, que possibilita espa\u00e7os de autonomia, abertura ao mundo e novas experi\u00eancias, consente que a rela\u00e7\u00e3o se enrique\u00e7a e n\u00e3o se transforme numa endogamia sem horizontes. Assim, ao reencontrar-se, os c\u00f4njuges podem viver a alegria de partilhar o que receberam e aprenderam fora do circuito familiar. Ao mesmo tempo torna poss\u00edvel a sinceridade e a transpar\u00eancia, porque uma pessoa, quando sabe que os outros confiam nela e apreciam a bondade basilar do seu ser, mostra-se como \u00e9, sem dissimula\u00e7\u00f5es. Pelo contr\u00e1rio, quando algu\u00e9m sabe que sempre suspeitam dele, julgam-no sem compaix\u00e3o e n\u00e3o o amam incondicionalmente, preferir\u00e1 guardar os seus segredos, esconder as suas quedas e fraquezas, fingir o que n\u00e3o \u00e9. Concluindo, uma fam\u00edlia, onde reina uma confian\u00e7a s\u00f3lida, carinhosa e, suceda o que suceder, sempre se volta a confiar, permite o florescimento da verdadeira identidade dos seus membros, fazendo com que se rejeite espontaneamente o engano, a falsidade e a mentira.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><i>Espera<\/i><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">116.\u00a0<i>Panta elp\u00edzei<\/i>: n\u00e3o desespera do futuro. Ligado \u00e0 palavra anterior, indica a esperan\u00e7a de quem sabe que o outro pode mudar; sempre espera que seja poss\u00edvel um amadurecimento, um inesperado surto de beleza, que as potencialidades mais rec\u00f4nditas do seu ser germinem algum dia. N\u00e3o significa que, nesta vida, tudo vai mudar; implica aceitar que nem tudo aconte\u00e7a como se deseja, mas talvez Deus escreva direito por linhas tortas e saiba tirar algum bem dos males que n\u00e3o se conseguem vencer nesta terra.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">117. Aqui aparece a esperan\u00e7a no seu sentido pleno, porque inclui a certeza duma vida para al\u00e9m da morte. Aquela pessoa, com todas as suas fraquezas, \u00e9 chamada \u00e0 plenitude do C\u00e9u: l\u00e1, completamente transformada pela ressurrei\u00e7\u00e3o de Cristo, cessar\u00e3o de existir as suas fraquezas, trevas e patologias; l\u00e1, o verdadeiro ser daquela pessoa resplandecer\u00e1 com toda a sua pot\u00eancia de bem e beleza. Isto permite-nos, no meio das mol\u00e9stias desta terra, contemplar aquela pessoa com um olhar sobrenatural, \u00e0 luz da esperan\u00e7a, e aguardar aquela plenitude que, embora hoje n\u00e3o seja vis\u00edvel, h\u00e1-de receber um dia no Reino celeste.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><i>Tudo suporta<\/i><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">118.\u00a0<i>Panta hypom\u00e9nei\u00a0<\/i>significa que suporta, com esp\u00edrito positivo, todas as contrariedades. \u00c9 manter-se firme no meio dum ambiente hostil. N\u00e3o consiste apenas em tolerar algumas coisas molestas, mas \u00e9 algo de mais amplo: uma resist\u00eancia din\u00e2mica e constante, capaz de superar qualquer desafio. \u00c9 amor que apesar de tudo n\u00e3o desiste, mesmo que todo o contexto convide a outra coisa. Manifesta uma dose de hero\u00edsmo tenaz, de for\u00e7a contra qualquer corrente negativa, uma op\u00e7\u00e3o pelo bem que nada pode derrubar. Isto lembra-me Martin Luther King, quando reafirmava a op\u00e7\u00e3o pelo amor fraterno, mesmo nomeio das piores persegui\u00e7\u00f5es e humilha\u00e7\u00f5es: \u00abA pessoa que mais te odeia, tem algo de bom nela; mesmo a na\u00e7\u00e3o que mais odeia, tem algo de bom nela; mesmo a ra\u00e7a que mais odeia, tem algo de bom nela. E, quando chegas ao ponto de fixar o rosto de cada ser humano e, bem no fundo dele, v\u00eas o que a religi\u00e3o chama a \u201cimagem de Deus\u201d, come\u00e7as, n\u00e3o obstante tudo, a am\u00e1-lo. N\u00e3o importa o que fa\u00e7a, l\u00e1 v\u00eas a imagem de Deus. H\u00e1 um elemento de bondade de que nunca poder\u00e1s livrar-te. (&#8230;) Outra forma de amares o teu inimigo \u00e9 esta: quando surge a oportunidade de derrotares o teu inimigo, aquele \u00e9 o momento em que deves decidir n\u00e3o o fazer. (&#8230;) Quando te elevas ao n\u00edvel do amor, da sua grande beleza e poder, a \u00fanica coisa que procuras derrotar s\u00e3o os sistemas malignos. \u00c0s pessoas que ca\u00edram na armadilha deste sistema, tu ama-las, mas procuras derrotar o sistema. (&#8230;) \u00d3dio por \u00f3dio s\u00f3 intensifica a exist\u00eancia do \u00f3dio e do mal no universo. Se eu te bato e tu me bates, e eu te devolvo a pancada e tu me devolves a pancada, e assim por diante\u2026 obviamente continua-se at\u00e9 ao infinito; simplesmente nunca termina. Nalgum ponto, algu\u00e9m deve ter um pouco de bom senso, e esta \u00e9 a pessoa forte. A pessoa forte \u00e9 aquela que pode quebrar a cadeia do \u00f3dio, a cadeia do mal. (&#8230;) Algu\u00e9m deve ter bastante f\u00e9 e moralidade para a quebrar e injectar dentro da pr\u00f3pria estrutura do universo o elemento forte e poderoso do amor\u00bb.<a href=\"https:\/\/www.vatican.va\/content\/francesco\/pt\/apost_exhortations\/documents\/papa-francesco_esortazione-ap_20160319_amoris-laetitia.html#_ftn114\" rel=\"external\" name=\"_ftnref114\">[114]<\/a><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">119. Na vida familiar, \u00e9 preciso cultivar esta for\u00e7a do amor, que permite lutar contra o mal que a amea\u00e7a. O amor n\u00e3o se deixa dominar pelo ressentimento, o desprezo das pessoas, o desejo de se lamentar ou vingar de alguma coisa. O ideal crist\u00e3o, nomeadamente na fam\u00edlia, \u00e9 amor que apesar de tudo n\u00e3o desiste. Deixa-me maravilhado, por exemplo, a atitude das pessoas que, para se proteger da viol\u00eancia f\u00edsica, tiveram de separar-se do seu c\u00f4njuge e todavia, pela caridade conjugal que sabe ultrapassar os sentimentos, foram capazes de procurar o seu bem, mesmo atrav\u00e9s de terceiros, em momentos de doen\u00e7a, tribula\u00e7\u00e3o ou dificuldade. Isto tamb\u00e9m \u00e9 amor que apesar de tudo n\u00e3o desiste.<\/p>\n<\/div>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Cada m\u00eas, em 10 epis\u00f3dios, um v\u00eddeo com as reflex\u00f5es do Papa e o testemunho de fam\u00edlias de todas as partes do mundo \u2013 realizado em colabora\u00e7\u00e3o entre o Dicast\u00e9rio Leigos Fam\u00edlia e Vida e Vatican News \u2013 ajuda a reler a Exorta\u00e7\u00e3o apost\u00f3lica, com a contribui\u00e7\u00e3o de um subs\u00eddio que pode ser baixado para [&hellip;]<\/p>\n","protected":false},"author":1,"featured_media":68339,"comment_status":"open","ping_status":"closed","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"footnotes":""},"categories":[3],"tags":[],"class_list":["post-68338","post","type-post","status-publish","format-standard","has-post-thumbnail","hentry","category-vaticano"],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/catolicanet.net\/wp-cnet\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/68338","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/catolicanet.net\/wp-cnet\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/catolicanet.net\/wp-cnet\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/catolicanet.net\/wp-cnet\/wp-json\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/catolicanet.net\/wp-cnet\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=68338"}],"version-history":[{"count":1,"href":"https:\/\/catolicanet.net\/wp-cnet\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/68338\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":68340,"href":"https:\/\/catolicanet.net\/wp-cnet\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/68338\/revisions\/68340"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/catolicanet.net\/wp-cnet\/wp-json\/wp\/v2\/media\/68339"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/catolicanet.net\/wp-cnet\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=68338"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/catolicanet.net\/wp-cnet\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=68338"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/catolicanet.net\/wp-cnet\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=68338"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}