{"id":68286,"date":"2021-06-23T10:12:45","date_gmt":"2021-06-23T13:12:45","guid":{"rendered":"https:\/\/catolicanet.net\/wp-cnet\/?p=68286"},"modified":"2021-06-23T12:16:22","modified_gmt":"2021-06-23T15:16:22","slug":"farrapos-humanos-o-odor-que-incomoda","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/catolicanet.net\/wp-cnet\/farrapos-humanos-o-odor-que-incomoda\/","title":{"rendered":"FARRAPOS HUMANOS, O ODOR QUE INCOMODA"},"content":{"rendered":"<p style=\"text-align: right;\"><em>\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0 Pe. Luiz Roberto Teixeira Di Lascio<\/em><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Eles perambulam pelas grandes cidades. S\u00e3o vistos em caminhada sem rumo pelas estradas. Cruzam nossos caminhos. N\u00f3s os vemos, mas n\u00e3o os enxergamos ou agimos como se n\u00e3o os quis\u00e9ssemos enxergar. Eles nos chamam e n\u00f3s n\u00e3os os escutamos ou fingimos que n\u00e3o escutamos. O frenesi que move a \u201ccultura do consumo\u201d n\u00e3o nos permite perceber o quanto estamos sendo engolidos nessa sedu\u00e7\u00e3o dos gananciosos detentores do poder econ\u00f4mico e politico.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Farrapos humanos, uma classe de indiv\u00edduos que representam o \u00a0fruto \u00a0da desigualdade social: de um lado, os afortunados que vivem no ac\u00famulo de \u00a0bens e desfrutam do sucesso material, um mundo \u00e0 parte constitu\u00eddo de grupos \u00a0pol\u00edticos, de \u00a0empres\u00e1rios e oligarquias poderosas que exploram a m\u00e3o de obra dos mais pobres&#8230; Do outro, lado esse cen\u00e1rio de priva\u00e7\u00e3o, de dor&#8230;<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">O profeta Isa\u00edas em seu livro, no capitulo 53, traz diante de nossos olhos \u00a0\u00a0esses cidad\u00e3os que vivem vagando. S\u00e3o seres humanos t\u00e3o desfigurados, t\u00e3o irreconhec\u00edveis, desprovidos de qualquer beleza que possa atrair os nossos olhares. Desprezados, s\u00e3o como a esc\u00f3ria da humanidade, cheios de dores e sofrimentos. Vivem (sobrevivem?) como amaldi\u00e7oados, loucos, sem len\u00e7o e sem documento, varridos como folhas de papel ao vento.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">S\u00e3o homens, mulheres, jovens, crian\u00e7as e idosos que \u00a0sobrevivem em situa\u00e7\u00e3o de rua. Vagueiam perdidos, falam sozinhos, gritam, riem ruidosamente, choram&#8230; Em sua maioria \u00a0se postam \u00a0deitados ou encostados nos cantos mal iluminados das cidades, \u00a0consumidos \u00a0pelos \u00a0estragos que as drogas, o \u00e1lcool,\u00a0 os v\u00edcios ou doen\u00e7as lhes causaram, e que se refletem na perda dos neur\u00f4nios, do racioc\u00ednio, na perda irremedi\u00e1vel do sentido da vida.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\u00a0Procuram desesperadamente encontrar um paliativo que satisfa\u00e7a os seus instintos vorazes de depend\u00eancia qu\u00edmicas e outros v\u00edcios. Gritam, dan\u00e7am, choram, pulam, xingam, se agridem, fazem suas necessidades fisiol\u00f3gicas em qualquer lugar&#8230; Muitos deles adormecem sob o efeito de alguma subst\u00e2ncia que os leve a morte, dando um fim a esse drama, que se chama \u201ca realidade da vida\u201d.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">A rua para muitos \u00e9 um encontro com os seus dem\u00f4nios que os amedrontam e os mergulham no lama\u00e7al dos remorsos e culpas. O pre\u00e7o a pagar \u00e9 alt\u00edssimo para aplacar a f\u00faria da autocondena\u00e7\u00e3o frente aos delitos que praticaram.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Possuem na alma um arquivo vivo de lembran\u00e7as e mem\u00f3rias que atormentam o seu presente e os levam sempre ao confronto com o passado. Vivem\u00a0 alucina\u00e7\u00f5es entre o que fizeram e o que fizeram com eles: s\u00e3o lembran\u00e7as de uma \u00a0inf\u00e2ncia sofrida, o presenciar da viol\u00eancia dom\u00e9stica, o abandono dos pais, os abusos sexuais, os maus tratos&#8230; Sentem o amargo gosto das \u00a0promessas n\u00e3o cumpridas, das mentiras e trapa\u00e7as e dos sonhos que nunca se realizaram&#8230;<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">No filme <em>O Homem Elefante<\/em>, (o personagem tem uma deforma\u00e7\u00e3o no nariz \u00e0 semelhan\u00e7a de uma tromba de elefante), h\u00e1 uma cena impressionante: \u00a0\u00a0abandonado por seus pais, ele, quando jovem, \u00e9 adotado pelo dono de um circo e passa a ser a principal atra\u00e7\u00e3o. Um dia, foge do circo e sai correndo pelas ruas e o povo quando percebe passa a persegui-lo. Ele entra numa esta\u00e7\u00e3o de \u00a0metr\u00f4, desce as escadarias e \u00a0de repente se v\u00ea encurralado, sem sa\u00edda. P\u00e1ra, assustado, diante dos\u00a0 olhares vorazes da multid\u00e3o. Grita, ele grita com l\u00e1grimas nos olhos: <em>\u201cEu n\u00e3o sou um monstro, eu sou um ser humano\u201d<\/em>.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Assim acontece com esses farrapos humanos, tantos que vemos por a\u00ed&#8230; Eles clamam por dignidade e respeito: <em>\u201cN\u00f3s n\u00e3o somos bichos.Olhem para as \u00a0nossas chagas\u00a0 e sintam o cheiro que \u00a0exala de nossos corpos. \u00c9 o odor que\u00a0 reflete a podrid\u00e3o de uma sociedade marcada pela indiferen\u00e7a, pelo individualismo, a gan\u00e2ncia do lucro e a discrimina\u00e7\u00e3o que nos crucificam e nos culpam por estarmos nos seus caminhos e sermos vistos atrav\u00e9s dos vidros coloridos de seus carros\u201d.<\/em><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Esta reflex\u00e3o pretende ser um exame de consci\u00eancia para despertar-nos do nosso imobilismo, de nosso comodismo na zona de conforto. Que nos leve a valorizar e considerar que esses seres humanos fazem parte de um \u201ctodo\u201d social do qual n\u00f3s fazemos parte e nos torna respons\u00e1veis uns pelos outros.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Essa chaga que sangra no tecido social em que vivemos e escorre pelas nossas grandes cidades clama por uma urgente mudan\u00e7a desse estado de coisas: a ado\u00e7\u00e3o de solu\u00e7\u00f5es inteligentes e pol\u00edticas p\u00fablicas integrativas, para o resgate da dignidade da pessoa humana e, assim, sua ressocializa\u00e7\u00e3o na fam\u00edlia e na sociedade.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><em>Pe. Luiz Roberto Teixeira\u00a0 Di Lascio<\/em><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><em>Vig\u00e1rio Paroquial da Bas\u00edlica Nossa Senhora do Carmo <\/em><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><em>Arquidiocese de Campinas <\/em><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0 Pe. Luiz Roberto Teixeira Di Lascio Eles perambulam pelas grandes cidades. S\u00e3o vistos em caminhada sem rumo pelas estradas. Cruzam nossos caminhos. N\u00f3s os vemos, mas n\u00e3o os enxergamos ou agimos como se n\u00e3o os quis\u00e9ssemos enxergar. Eles nos chamam e n\u00f3s n\u00e3os os escutamos ou fingimos que n\u00e3o escutamos. 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