{"id":68155,"date":"2021-06-20T09:18:14","date_gmt":"2021-06-20T12:18:14","guid":{"rendered":"https:\/\/catolicanet.net\/wp-cnet\/?p=68155"},"modified":"2021-06-20T12:22:40","modified_gmt":"2021-06-20T15:22:40","slug":"a-fe-cartas-do-padre-jesus-priante","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/catolicanet.net\/wp-cnet\/a-fe-cartas-do-padre-jesus-priante\/","title":{"rendered":"A F\u00e9 &#8211; Cartas do Padre Jesus Priante"},"content":{"rendered":"<p style=\"text-align: justify;\">\u2018\u00c9 a maneira de ter o que esperamos e de conhecer o que n\u00e3o vemos\u2019<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Uma das grandes tarefas do pensar humano consiste em despertar as palavras e os s\u00edmbolos adormecidos em nosso cotidiano. Tamb\u00e9m as palavras, pequenas canoas da nossa exist\u00eancia, dormem e, por vezes, morrem dentro de n\u00f3s. A Filosofia da Linguagem cumpre esse compromisso de vivificar as palavras, cofre de nossas culturas.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Uma das palavras mais emblem\u00e1ticas dos povos \u00e9 a &#8220;f\u00e9&#8221;.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Este monoss\u00edlabo luso-espanhol configura nossa exist\u00eancia. Kant a postulava como \u201cporta para a raz\u00e3o seguir pensando\u201d. Dante Alighieri, na Divina Com\u00e9dia, lamentou sua aus\u00eancia. Por isso, por boca de um dos condenados disse: &#8220;Por seguir a raz\u00e3o, acabei no inferno&#8221;.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">S\u00f3 pela f\u00e9 podemos ultrapassar os intranspon\u00edveis muros da luta pela vida, a culpa, a dor e a morte, que nos cercam.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Crer ou n\u00e3o crer. Essa \u00e9 nossa grande quest\u00e3o. Quem cr\u00ea vive, quem n\u00e3o cr\u00ea permanece na morte, disse Jesus. A F\u00e9 \u00e9 a \u00fanica resposta e consolo para os que temos nascido para morrer. Mas o que \u00e9 a F\u00e9? Possivelmente, temos tantas defini\u00e7\u00f5es como pessoas, pois insere-se de maneira pr\u00f3pria em cada um. Por isso o Credo,o recitamos na primeira pessoa. Ningu\u00e9m pode acreditar por outro. De maneira gen\u00e9rica, a F\u00e9 \u00e9 a maneira como cada pessoa v\u00ea e pensa a realidade.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">O pensador espanhol, Ortega y Gasset, diz que &#8220;cremos mais do que sabemos&#8221;. To think (pensar) e to believe (crer) para expressar nossa opini\u00e3o, em ingl\u00eas, mostram essa ideia de Ortega y Gasset.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">N\u00e3o existem dogmas mas opini\u00f5es. N\u00e3o somos s\u00e1bios, mas amigos da sabedoria (fil\u00f3sofos). As ci\u00eancias, filosofias e religi\u00f5es s\u00e3o cren\u00e7as. A F\u00e9 \u00e9 dom de Deus, que obsequia nossa raz\u00e3o para dar sentido aos problemas e quest\u00f5es que a nossa raz\u00e3o n\u00e3o tem como responder. Lida com os mist\u00e9rios. Junto com a caridade e a esperan\u00e7a, a F\u00e9 \u00e9 uma virtude teologal ou dom de Deus. \u00c9 um saber e, ao mesmo tempo, agir de Deus al\u00e9m de n\u00f3s mesmos. \u00c9 a maneira que Ele escolheu para nos Salvar ou, melhor, fazer-nos conhecer nossa Salva\u00e7\u00e3o. Mas, com isto, j\u00e1 estamos violando o mist\u00e9rio da mesma F\u00e9, que pertence a Deus. Nossa raz\u00e3o a postula para poder pensar nossa vida e a realidade deste mundo em que habitamos. Vejamos algumas das teorias ou explica\u00e7\u00f5es sobre o que seja a F\u00e9.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\u2043 Para Pascal (s\u00e9c.XVII) a F\u00e9 \u00e9 uma &#8220;aposta&#8221;. Por ela, depositamos tudo quanto somos e temos, na esperan\u00e7a de termos a &#8220;sorte&#8221; de viver com Deus. A F\u00e9 exclui qualquer outra possibilidade de vida fora de Deus e dispensa nossas posses e at\u00e9 nossas boas obras.<br \/>\n\u2043 Para Kant (s\u00e9c.XVIII), al\u00e9m de ser um postulado da nossa raz\u00e3o, \u00e9 a maneira de evitar o suicidio, \u00fanica sa\u00edda racional que teria o ateu ou pessoa sem F\u00e9.<br \/>\n\u2043 Jung, contestando a Freud, que considerava a kreligi\u00e3o como uma neurose, afirmava que sem uma F\u00e9 verdadeira n\u00e3o podemos ser mentalmente equilibrados. Essa f\u00e9 verdadeira s\u00f3 a encontramos em Cristo Ressuscitado. Por isso, Abra\u00e3o, chamado &#8220;Pai da F\u00e9&#8221;, diferente da cren\u00e7a religiosa, se nos diz em Jo.8, &#8220;desejou ver o dia da Ressurrei\u00e7\u00e3o de Cristo&#8221;. De fato, s\u00f3 pela F\u00e9 \u00e9 que podemos ter certeza da nossa Salva\u00e7\u00e3o. At\u00e9 Cristo,<br \/>\nn\u00e3o se tinha certeza de que<br \/>\nseremos n\u00f3s mesmos os que<br \/>\nviveremos gloriosamente com<br \/>\nDeus, n\u00e3o por m\u00e9ritos<br \/>\npr\u00f3prios, mas como dom e<br \/>\ngra\u00e7a de Deus.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Essa certeza \u00e9 que nos<br \/>\ncomunica sentido e sa\u00fade<br \/>\nmental. Um Deus que nos pode<br \/>\ncondenar ao inferno, pr\u00f3prio<br \/>\ndas religi\u00f5es, cria em n\u00f3s um<br \/>\ntemor neur\u00f3tico.<br \/>\n\u2043 Jean Guitton (s\u00e9c.XX) considera a F\u00e9 como supremo ato de liberdade que nos permite livremente irmos com Deus. S\u00f3 aquele que tem F\u00e9 morre, e quem n\u00e3o A tem \u00e9 morto, v\u00edtima da<br \/>\nmorte.<br \/>\n\u2043 Para um budista, a f\u00e9 \u00e9 o caminho e a companheira da nossa vida sequiosa da felicidade a ser atingida no chamado Nirvana. Brinda-nos sabedoria, nos faz fraternos e nos faz desejar e trabalhar pela salva\u00e7\u00e3o de todos. Liberta-nos do nosso &#8220;eu&#8221; e do nosso &#8220;meu&#8221;, causa de nosso sofrimento e do ciclo tr\u00e1gico de &#8220;nascer para morrer e morrer para nascer&#8221;. Pena que os budistas n\u00e3o conhe\u00e7am Jesus Cristo, seriam seus melhores disc\u00edpulos.<br \/>\n\u2043 Em Hb.11,1 define-se a F\u00e9 como: &#8220;a maneira de ter o que esperamos e de conhecer o que n\u00e3o vemos&#8221;. E, para<br \/>\nexplic\u00e1-La, passa a narrar a F\u00e9<br \/>\ndos grandes protagonistas da<br \/>\nhist\u00f3ria da Salva\u00e7\u00e3o, desde<br \/>\nAbel at\u00e9 Jesus Cristo. Mas<br \/>\ndeixa claro que antes de Cristo,<br \/>\nningu\u00e9m teve os bens que a F\u00e9<br \/>\nnos brinda nem conheceu a<br \/>\nrealidade invis\u00edvel do Reino de<br \/>\nDeus. &#8220;Todos foram louvados<br \/>\npela sua &#8220;F\u00e9&#8221;, mas n\u00e3o<br \/>\nconseguiram o objeto da<br \/>\nmesma: a Promessa da<br \/>\nSalva\u00e7\u00e3o, porque Deus lhes<br \/>\npreparou algo melhor e n\u00e3o<br \/>\nqueria que chegassem ao seu<br \/>\nt\u00e9rmino antes de n\u00f3s&#8221;.<br \/>\nDe maneira existencial, Sao<br \/>\nPaulo nos brinda a melhor<br \/>\ndefini\u00e7\u00e3o da F\u00e9: &#8220;sofrer e<br \/>\nmorrer com Cristo, para com<br \/>\nele Ressuscitar&#8221;. A F\u00e9 \u00e9 pascal.<br \/>\n\u2043 A F\u00e9 foi interpretada pelo povo judeu como um &#8220;apoiar-se em Deus&#8221;, reconhecendo como Jac\u00f3, nossa debilidade (Israel=forte com Deus). O povo cat\u00f3lico acentuou o car\u00e1ter do conhecimento do invis\u00edvel. A F\u00e9 \u00e9 aderir \u00e0s verdades reveladas. Para o povo protestante, seguindo Lutero, a F\u00e9 consiste em confiar em Deus, &#8220;In God we trust&#8221;. As tr\u00eas atitudes confluem no credo salv\u00edfico de S\u00e3o Paulo: &#8220;Porque se confessares com tua boca e teu cora\u00e7\u00e3o que Jesus Cristo \u00e9 o Senhor, Ressuscitado dentre os mortos, ser\u00e1s Salvo&#8221; ( Rm.10,10). Confessar<br \/>\nque Cristo \u00e9 Senhor significa<br \/>\nn\u00e3o s\u00f3 que Ele \u00e9 Deus mas<br \/>\ntamb\u00e9m que nossa vida<br \/>\npertence a Ele. \u00c9 por isso que<br \/>\ntodos seremos salvos, porque<br \/>\npertencemos a Deus,<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Assim como a palavra &#8220;F\u00e9&#8221;, temos de despertar tamb\u00e9m o t\u00edtulo de &#8220;Senhor&#8221;, atributo s\u00f3 de Deus em rela\u00e7\u00e3o a n\u00f3s e a toda a Cria\u00e7\u00e3o. &#8220;Somos Dele e a Ele pertencemos&#8221; (Sl.100). Nada e ningu\u00e9m poder\u00e1 nos separar de Deus ( Rm.8).<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Frente \u00e0 grandeza da F\u00e9 que nos d\u00e1 a Vida Eterna j\u00e1 neste mundo no horizonte de uma esperan\u00e7a, segura e certa, Jesus revelou ser escassa na vida das pessoas, mesmo crist\u00e3s, inclusive deixou em aberto a pergunta: &#8221; Quando eu voltar, ser\u00e1 que encontrarei F\u00e9 na terra?&#8221; (Lc. 18,8). Infelizmente, a maior parte das pessoas do mundo ir\u00e3o a Deus mais como religiosas do que como crist\u00e3s, embora todos acabaremos nossa exist\u00eancia sendo de Cristo e, com Cristo, de Deus.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">O SENHOR FALOU A J\u00d3 DENTRO DE UMA TEMPESTADE, QUESTIONANDO SUA F\u00c9, DIZENDO: &#8220;QUEM ENCERROU O MAR, JORRANDO DO SEU SEIO MATERNO, VESTIDO E ENFAIXADO COM AS N\u00c9VOAS E NUVENS DO C\u00c9U?&#8221; (J\u00f3,38,1.11).<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">A figura b\u00edblica de J\u00f3, homem exemplarmente religioso, revela-nos a diferen\u00e7a entre a mera cren\u00e7a das religi\u00f5es e a F\u00e9 que viria em Cristo. J\u00f3 perdeu seus bens, seus sete filhos e ficou leproso, dupla desgra\u00e7a, pois al\u00e9m de doente, sua lepra mostrava na pele seus pecados ocultos. Se sofre aquelas desgra\u00e7as \u00e9 porque Deus assim castiga aos pecadores. \u00c9 essa a leitura das religi\u00f5es. J\u00f3 honestamente se considera inocente e pede a Deus a raz\u00e3o do seu sofrimento. Como toda pessoa religiosa, diante do sofrimento, a mera cren\u00e7a e as filosofias, n\u00e3o respondem a este nosso problema existencial: Por que sofremos?&#8230; \u00c9 um problema limite da nossa raz\u00e3o. S\u00f3 aquele que tem o dom da F\u00e9 encontra o seu sentido. Deus n\u00e3o responde nem explica a J\u00f3 a raz\u00e3o do seu sofrimento. Apela \u00e0 sua ignor\u00e2ncia humana para se abrir ao Mist\u00e9rio, dizendo-lhe: &#8221; Voc\u00ea sabe quem encerrou o mar e o enfaixou com n\u00e9voas e nuvens? &#8220;Hoje nos perguntaria quem encheu o firmamento de trilh\u00f5es de estrelas e planetas ou acendeu a fa\u00edsca da vida?<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Os mist\u00e9rios ofuscam nossa raz\u00e3o, ao mesmo tempo que a iluminam. Sem os mist\u00e9rios (realidade e verdade al\u00e9m de nossa raz\u00e3o, a vida se torna irrespir\u00e1vel, diz Gabriel Marcel.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">No seculo XIV, Nicolas de Cusa apelava \u00e0. &#8220;douta ignor\u00e2ncia&#8221;, para de fato conhecer a verdade de Deus, do mundo e de n\u00f3s mesmos. No s\u00e9culo II, alguns te\u00f3logos, afirmavam: &#8220;Deus \u00e9 o que Deus n\u00e3o \u00e9&#8221;. A mesma tese podemos aplicar para n\u00f3s e o mundo. O que \u00e9 tem de ser de outra maneira. Moltmann chamou a essa sabedoria dos mist\u00e9rios &#8220;douta esperan\u00e7a&#8221;.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Sabemos na medida que esperamos e o que esperamos s\u00f3 Deus conhece.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">S\u00e3o Jo\u00e3o da Cruz (s\u00e9c. XVI) nos legou a maneira de viver pela F\u00e9 e pela esperan\u00e7a: Para voc\u00ea ir onde voc\u00ea n\u00e3o sabe, deve ir por onde voc\u00ea n\u00e3o sabe&#8221;. N\u00e3o sabemos quem \u00e9 Deus nem o que seja o Seu Reino para onde vamos, menos ainda que um c\u00e2ncer, cur\u00e1vel ou fatal, seja o seu caminho. Meus caminhos, disse Deus, n\u00e3o s\u00e3o vossos caminhos. No Alcor\u00e3o, lemos que alguns anjos (&#8220;jinns&#8221;) expiaram a Deus conversando com seu anjo preferido, Gabriel sobre seus planos e foram expulsos dos C\u00e9u, convertidos em dem\u00f4nios, por causa desse pecado.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">J\u00f3 reconheceu ap\u00f3s recuperar seus bens, novos filhos e a sa\u00fade, ter falado s\u00f3 bobagens por querer saber a raz\u00e3o do seu sofrimento.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Depois de Cristo, a \u00fanica raz\u00e3o de nossas dol\u00eancias e mortes \u00e9 a Ressurrei\u00e7\u00e3o, que por ser meta-hist\u00f3rica, nos obriga a crer e esperar Nela, se queremos dar sentido \u00e0 nossa problem\u00e1tica existencial. A f\u00e9 \u00e9 essencialmente pascal.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">&#8220;EM CRISTO, N\u00c3O MAIS VIVEMOS PARA N\u00d3S E PARA O MUNDO, MAS PARA AQUELE QUE MORREU E RESSUSCITOU POR N\u00d3S&#8221; ( 2Cor.,5,14-17)<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Nosso existencial ou maneira de ser e viver \u00e9 Cristo, morto e Ressuscitado. N\u00e3o somos mais humanos, filhos de Ad\u00e3o, mas crist\u00e3os.&#8221;Se algu\u00e9m est\u00e1 em Cristo \u00e9 uma nova criatura, uma nova realidade&#8221;. E o Cristo no qual cremos, nos diz S\u00e3o Paulo, \u00e9 o Cristo historicamente crucificado e, para al\u00e9m da hist\u00f3ria, Ressuscitado. Enquanto estamos neste mundo (Hist\u00f3ria) o sofrimento, que finda na morte, nos acompanha. E se n\u00e3o o vivemos com Cristo na cruz, esperando a Ressurrei\u00e7\u00e3o, n\u00f3s<br \/>\niremos fatalmente ao desespero, como sugeriaZ Albert Camus. &#8220;N\u00e3o cruz, Cristo, a maneira de ter o que esperamos e de conhecer o que n\u00e3o vemos e desesperar&#8221;.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Nossa F\u00e9, a \u00fanica verdadeira f\u00e9 poss\u00edvel, \u00e9 essencialmente pascal. &#8220;Eis o mist\u00e9rio da nossa F\u00e9&#8221;, referindo-se \u00e0 morte e \u00e0 Ressurrei\u00e7\u00e3o de Cristo,que celebramos na Eucaristia. Ter\u00edamos de confessar n\u00e3o precisamente &#8220;anunciamos&#8221; sen\u00e3o &#8220;vivemos&#8221; nessa mesma morte e na Ressurrei\u00e7\u00e3o de Nosso Senhor Jesus Cristo enquanto esperamos a Sua vinda gloriosa.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">&#8220;Tudo o que vivo no humano se<br \/>\nfaz vida minha pela F\u00e9 em Cristo&#8221; (Gl.2,20). Esta F\u00e9 Pascal tornaria nossas doen\u00e7as e sofrimentos at\u00e9 motivo da nossa alegria, como o pr\u00f3prio S\u00e3o Paulo confessa: &#8220;Eu me alegro em Cristo crucificado&#8221;. N\u00e3o \u00e9 o mesmo sofrer, mas sofrer em e com Cristo ou, melhor, crer que \u00e9 o pr\u00f3prio Cristo que sofre em n\u00f3s. Mais ainda, morte e a Ressurrei\u00e7\u00e3o n\u00e3o s\u00e3o duas etapas, mas ambas simult\u00e2neas: &#8220;Enquanto nosso homem exterior caminha para sua ru\u00edna, o homem interior se renova dia a dia&#8221; (2Cor.4,16), \u00e0 semelhan\u00e7a do morrer e do renascer da semente.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">No Budismo, se diz que no mundo somos visitados por tr\u00eas anjos: a doen\u00e7a, a velhice e a morte. Eles nos mostram que temos de aspirar a uma outra vida, livres da ilus\u00e3o deste mundo, atrav\u00e9s da sabedoria da Ilumina\u00e7\u00e3o, at\u00e9 nos tornarmos &#8221; budas&#8221;, iluminados. Essa filosofia busdista \u00e9 mais sublime e verdadeira em Cristo, &#8220;Luz do Mundo&#8221;, que veio n\u00e3o s\u00f3 para nos iluminar como para dar-nos a vida de Deus.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Santo In\u00e1cio de Antioquia (+107) dizia que nascemos pela F\u00e9 na humanidade e divindade de Cristo. Nossa vida \u00e9 a mesma vida de Cristo, morto e Ressuscitado. Na Eucaristia realiza-se esse Mist\u00e9rio. A cristologia \u00e9, pois, eucaristica.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">&#8220;SOBREVEIO UMA TEMPESTADE NO MAR DA GALILEIA. JESUS DORMIA NA POPA DO PEQUENO BARCO. SEUS DISC\u00cdPULOS, ATEMORIZADOS, O ACORDARAM DIZENDO: &#8220;MESTRE , N\u00c3O TE IMPORTA QUE PERE\u00c7AMOS?&#8221; ELE LHES DIZ: &#8220;PORQUE TENDES MEDO. AINDA N\u00c3O TENDES F\u00c9?&#8221; Mc. 4,35-40)<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Jesus insere o an\u00fancio do Mist\u00e9rio da Salva\u00e7\u00e3o dentro do contexto cultural b\u00edblico, O mar agitado pelo vento simboliza na Biblia o caos do mal que nos supera humanamente. A F\u00e9, afirma Kierkegaard (s\u00e9c.XIX) nasce da ang\u00fastia existencial, produzida pela nossa impot\u00eancia frente ao pecado, \u00e0 dor e \u00e0 morte. Isso nos obriga a nos entregar nas m\u00e3os de Deus. Acalmada a tempestade por Jesus, seus disc\u00edpulos perguntam-se: &#8221; Quem \u00e9 este, a quem o vento e o mar obedecem?&#8221;. Jesus j\u00e1 tinha feito anteriormente outros milagres, mas n\u00e3o por isso tinham eles a verdadeira F\u00e9, que nunca nos vem pela via dos milagres. De fato, os milagres apenas s\u00e3o &#8220;sinais&#8221; da presen\u00e7a de Deus e do seu Reino. Os milagres, presentes ao longo da hist\u00f3ria, s\u00e3o uma &#8220;irrup\u00e7\u00e3o&#8221; n\u00e3o uma &#8220;interrup\u00e7\u00e3o&#8221; do plano salv\u00edfico de Deus, que passa &#8220;necessariamente&#8221; pelo vale das l\u00e1grimas e do agitado mar da vida que, sem Cristo n\u00e3o podemos cruzar. O s\u00edmbolo do mar agitado pelo vento revela-nos a nossa condi\u00e7\u00e3o humana e a do mundo que conhecemos. N\u00e3o s\u00e3o poucos os fil\u00f3sofos que defendem a teoria do &#8220;acaso&#8221;, criador de um mundo ca\u00f3tico. No s\u00e9culo II, Valentino, dizia que este mundo \u00e9 regido<br \/>\npor um &#8220;demiurgo&#8221; ignorante e cego. At\u00e9 Newton (sec.XVII), o Pai da F\u00edsica, para se explicar as &#8220;estrelas errantes&#8221;, desgovernadas e ca\u00f3ticas, dizia que, de vez em vez, Deus precisava enviar um anjo para consertar sua harmonia.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Os terremotos, tempestades e todo tipo de desgra\u00e7as, s\u00e3o ca\u00f3ticos. Uma doen\u00e7a nada mais \u00e9 do que um caos ou desordem celular.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">A raz\u00e3o pode at\u00e9 explicar a causa e os efeitos dos fen\u00f4menos mas n\u00e3o seu \u00faltimo prop\u00f3sito ou finalidade. Neste mar agitado da nossa exist\u00eancia, s\u00f3 cabe a F\u00e9 para podermos navegar. Tertuliano (s\u00e9c.III) fundamentava sua F\u00e9 nesta capa irracional.&#8221;Creio porque \u00e9 absurdo&#8221;, dizia. N\u00e3o porque seja absurdo o que cremos, mas porque sem a F\u00e9 tudo \u00e9 absurdo.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Nossos &#8220;dis-cursos&#8221; s\u00e3o cursos de \u00e1gua dos rios que mergulham no absurdo do mar da morte. F\u00e9 e raz\u00e3o s\u00e3o remos insepar\u00e1veis que tornam razo\u00e1vel nossa viagem pelo mar da vida. Pela raz\u00e3o tentamos entender o que cremos e pela F\u00e9 entender o que a raz\u00e3o n\u00e3o entende. &#8220;Creio para entender, e entendo para crer&#8221;, diz Santo Agostinho.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Padre Jesus Priante<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Espanha<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">(Edi\u00e7\u00e3o por Malcolm Forest. S\u00e3o Paulo.)<br \/>\nCopyright 2021 Padre Jesus Priante.<br \/>\nDireitos Reservados.<br \/>\nCompartilhe mencionando o nome do autor.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>\u2018\u00c9 a maneira de ter o que esperamos e de conhecer o que n\u00e3o vemos\u2019 Uma das grandes tarefas do pensar humano consiste em despertar as palavras e os s\u00edmbolos adormecidos em nosso cotidiano. Tamb\u00e9m as palavras, pequenas canoas da nossa exist\u00eancia, dormem e, por vezes, morrem dentro de n\u00f3s. A Filosofia da Linguagem cumpre [&hellip;]<\/p>\n","protected":false},"author":1,"featured_media":68156,"comment_status":"open","ping_status":"closed","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"footnotes":""},"categories":[4,13],"tags":[],"class_list":["post-68155","post","type-post","status-publish","format-standard","has-post-thumbnail","hentry","category-cotidiano","category-featured"],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/catolicanet.net\/wp-cnet\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/68155","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/catolicanet.net\/wp-cnet\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/catolicanet.net\/wp-cnet\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/catolicanet.net\/wp-cnet\/wp-json\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/catolicanet.net\/wp-cnet\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=68155"}],"version-history":[{"count":1,"href":"https:\/\/catolicanet.net\/wp-cnet\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/68155\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":68157,"href":"https:\/\/catolicanet.net\/wp-cnet\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/68155\/revisions\/68157"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/catolicanet.net\/wp-cnet\/wp-json\/wp\/v2\/media\/68156"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/catolicanet.net\/wp-cnet\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=68155"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/catolicanet.net\/wp-cnet\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=68155"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/catolicanet.net\/wp-cnet\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=68155"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}