{"id":66324,"date":"2021-03-08T10:08:52","date_gmt":"2021-03-08T13:08:52","guid":{"rendered":"https:\/\/catolicanet.net\/wp-cnet\/?p=66324"},"modified":"2021-03-08T13:14:12","modified_gmt":"2021-03-08T16:14:12","slug":"o-papa-caridade-amor-e-fraternidade-sao-o-caminho","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/catolicanet.net\/wp-cnet\/o-papa-caridade-amor-e-fraternidade-sao-o-caminho\/","title":{"rendered":"O Papa: &#8220;Caridade, amor e fraternidade s\u00e3o o caminho&#8221;"},"content":{"rendered":"<div class=\"article__subTitle\" style=\"text-align: justify;\">Na entrevista concedida a jornalistas no voo de retorno para Roma, Francisco repercorre as etapas da hist\u00f3rica viagem ao Iraque: o encontro com &#8220;o homem s\u00e1bio e homem de Deus&#8221; Al Sistani, a emo\u00e7\u00e3o diante das igrejas destru\u00eddas de Mosul, a como\u00e7\u00e3o diante das palavras da m\u00e3e crist\u00e3 que perdeu seu filho e perdoou os assassinos, a promessa de uma viagem ao L\u00edbano<\/div>\n<div class=\"title__separator\" style=\"text-align: justify;\"><\/div>\n<div class=\"article__text \">\n<p style=\"text-align: justify;\"><b>Vatican News<\/b><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Caridade, amor e fraternidade s\u00e3o o caminho a seguir. Foi o que disse o Papa em conversa com jornalistas no voo de Bagd\u00e1 de volta para Roma, ap\u00f3s a hist\u00f3rica viagem de quatro dias ao Iraque. Francisco relatou suas impress\u00f5es sobre o encontro com Al Sistani, a como\u00e7\u00e3o diante das igrejas destru\u00eddas em Mosul e disse ter prometido ao patriarca B\u00e9chara Ra\u00ef fazer uma viagem ao L\u00edbano. No in\u00edcio do encontro em grande altitude, o Pont\u00edfice saudou mons. Dieunonn\u00e9 Datonou, o novo coordenador das viagens papais, a quem definiu &#8220;o novo xerife&#8221;. Em seguida, dirigiu-se aos jornalistas da seguinte forma: &#8220;Em primeiro lugar, obrigado pelo trabalho, pela companhia, e pela fadiga de voc\u00eas. Hoje \u00e9 o Dia da Mulher, parab\u00e9ns \u00e0s mulheres! No encontro com a esposa do Presidente do Iraque, estavam falando sobre o porqu\u00ea de n\u00e3o haver um dia do homem. Eu disse: por que n\u00f3s homens estamos sempre em festa! A esposa do Presidente me falou sobre as mulheres, disse coisas bonitas hoje, a for\u00e7a que as mulheres t\u00eam em levar a vida adiante, a hist\u00f3ria, a fam\u00edlia, muitas coisas. E terceiro: ontem foi o anivers\u00e1rio do jornalista Cope: parab\u00e9ns e devemos festej\u00e1-lo, depois veremos como se pode fazer isso aqui&#8221;.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><b>Santidade, h\u00e1 dois anos em Abu Dhabi houve o encontro com o Imame Al-Tayyeb de Al Azhar e a assinatura da Declara\u00e7\u00e3o sobre a fraternidade. Tr\u00eas dias atr\u00e1s o senhor se encontrou com Al Sistani: \u00e9 poss\u00edvel pensar em algo semelhante tamb\u00e9m com o lado xiita do Isl\u00e3? E depois uma segunda pergunta sobre o L\u00edbano: S\u00e3o Jo\u00e3o Paulo II dizia que mais do que um pa\u00eds, era uma mensagem. Hoje, infelizmente, como liban\u00eas, lhe digo que esta mensagem est\u00e1 agora desaparecendo. \u00c9 iminente uma visita sua ao L\u00edbano?<\/b><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">O documento de Abu Dhabi de 4 de fevereiro foi preparado com o Gr\u00e3o Imame em segredo, durante seis meses, orando, refletindo e corrigindo o texto. Foi &#8211; \u00e9 um pouco presun\u00e7oso diz\u00ea-lo, o tomem como uma presun\u00e7\u00e3o &#8211; um primeiro passo do que voc\u00ea me pergunta. Podemos dizer que este seria o segundo e que haver\u00e1 outros. O caminho da fraternidade \u00e9 importante. O documento de Abu Dhabi deixou em mim a inquieta\u00e7\u00e3o da fraternidade, e depois veio a &#8220;Fratelli tutti&#8221;. Ambos os documentos devem ser estudados porque v\u00e3o na mesma dire\u00e7\u00e3o, no caminho da fraternidade. O aiatol\u00e1 Al Sistani tem uma frase que tento lembrar bem: os homens ou s\u00e3o irm\u00e3os pela religi\u00e3o ou iguais pela cria\u00e7\u00e3o. Na fraternidade \u00e9 igualdade, mas sob a igualdade n\u00e3o podemos caminhar. Acredito que este \u00e9 tamb\u00e9m um caminho cultural. Pensemos em n\u00f3s crist\u00e3os, na Guerra dos Trinta Anos, na noite de S\u00e3o Bartolomeu, para dar um exemplo. Como a mentalidade muda entre n\u00f3s: porque nossa f\u00e9 nos faz descobrir que \u00e9 isso, a revela\u00e7\u00e3o de Jesus \u00e9 amor e caridade e nos leva a isso: mas quantos s\u00e9culos para coloc\u00e1-los em pr\u00e1tica! Isto \u00e9 importante, a fraternidade humana, que como homens somos todos irm\u00e3os, e devemos seguir adiante com as outras religi\u00f5es. O Conc\u00edlio Vaticano II deu um grande passo nesse sentido, e tamb\u00e9m as institui\u00e7\u00f5es depois, o Conselho para a Unidade dos Crist\u00e3os e o Conselho para o Di\u00e1logo Inter-religioso. O cardeal Ayuso nos acompanha hoje. Voc\u00ea \u00e9 humano, \u00e9 um filho de Deus e \u00e9 meu irm\u00e3o, ponto final! Esta seria a maior indica\u00e7\u00e3o, e muitas vezes \u00e9 preciso arriscar para dar este passo. Voc\u00ea sabe que h\u00e1 algumas cr\u00edticas: que o Papa n\u00e3o \u00e9 corajoso, \u00e9 um inconsciente que est\u00e1 dando passos contra a doutrina cat\u00f3lica, que est\u00e1 a um passo da heresia, h\u00e1 riscos. Mas estas decis\u00f5es s\u00e3o sempre tomadas em ora\u00e7\u00e3o, em di\u00e1logo, pedindo conselho, em reflex\u00e3o. N\u00e3o s\u00e3o um capricho e tamb\u00e9m s\u00e3o a linha que o Conselho ensinou. Passo \u00e0 segunda pergunta: o L\u00edbano \u00e9 uma mensagem, o L\u00edbano sofre, o L\u00edbano \u00e9 mais que um equil\u00edbrio, tem a fraqueza das diversidades, algumas ainda n\u00e3o reconciliadas, mas tem a fortaleza do grande povo reconciliado, como a fortaleza dos cedros. O Patriarca Ra\u00ef me pediu por favor, durante esta viagem, para fazer uma parada em Beirute, mas pareceu-me um pouco&#8230;. Uma migalha em face de um problema, de um pa\u00eds que sofre como o L\u00edbano. Escrevi-lhe uma carta, assumi o compromisso de fazer uma viagem. Mas o L\u00edbano, neste momento, est\u00e1 em crise, mas em crise &#8211; n\u00e3o quero ofender -, em crise de vida. O L\u00edbano \u00e9 t\u00e3o generoso no acolhimento dos refugiados.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><b>At\u00e9 que ponto o encontro com Al Sistani foi tamb\u00e9m uma mensagem para os l\u00edderes religiosos do Ir\u00e3?<\/b><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Creio que tenha sido uma mensagem universal. Senti o dever de fazer esta peregrina\u00e7\u00e3o de f\u00e9 e de penit\u00eancia, e de ir encontrar um grande, um homem s\u00e1bio, um homem de Deus: s\u00f3 escutando-o \u00e9 que se pode perceber isto. Falando em mensagens, diria que \u00e9 uma mensagem para todos, e ele \u00e9 uma pessoa que tem essa sabedoria e tamb\u00e9m essa prud\u00eancia. Ele me disse: &#8220;H\u00e1 10 anos n\u00e3o recebo pessoas que venham me visitar com outros prop\u00f3sitos pol\u00edticos ou culturais&#8230; apenas religiosos. E ele foi muito respeitoso, muito respeitoso no encontro. Senti-me honrado. Mesmo no momento da sauda\u00e7\u00e3o, ele jamais se levanta&#8230; Ele se levantou para me saudar, duas vezes, um homem humilde e s\u00e1bio, este encontro me fez bem \u00e0 alma. Ele \u00e9 uma luz, e estes s\u00e1bios est\u00e3o em toda parte porque a sabedoria de Deus foi espalhada pelo mundo inteiro. A mesma coisa acontece com os santos que n\u00e3o s\u00e3o apenas os que est\u00e3o nos altares. Acontece todos os dias, aqueles que eu chamo de santos da porta ao lado, homens e mulheres que vivem sua f\u00e9, seja ela qual for, com coer\u00eancia. Aqueles que vivem os valores humanos com coer\u00eancia, fraternidade com coer\u00eancia. Acho que devemos descobrir essas pessoas, coloc\u00e1-las em evid\u00eancia, porque h\u00e1 tantos exemplos&#8230; Quando h\u00e1 esc\u00e2ndalos tamb\u00e9m na Igreja, tantos, e isso n\u00e3o ajuda, mas mostremos os santos da porta ao lado \u00e0s pessoas que buscam o caminho da fraternidade, e certamente encontraremos pessoas de nossa fam\u00edlia, alguma av\u00f3, algum av\u00f4.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><b>Sua viagem teve uma enorme repercuss\u00e3o no mundo inteiro, o senhor acha que poderia ser &#8220;a viagem&#8221; do pontificado? Inclusive foi dito que era a mais arriscada. O senhor teve medo em algum momento de sua viagem? Est\u00e1 prestes a completar o oitavo ano de seu pontificado, o senhor ainda acha que ser\u00e1 curto? Por fim, a grande pergunta: voltar\u00e1 uma vez \u00e0 Argentina?<\/b><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Come\u00e7o pela \u00faltima, uma pergunta&#8230; que entendo e que est\u00e1 relacionada ao livro de meu amigo jornalista Nelson Castro, um m\u00e9dico. Ele tinha feito um livro sobre as doen\u00e7as dos presidentes e eu lhe disse uma vez: mas se voc\u00ea vem a Roma, deve fazer um sobre as doen\u00e7as dos Papas, porque ser\u00e1 interessante conhecer suas doen\u00e7as, pelo menos algumas dos \u00faltimos tempos. Ele me fez uma entrevista, e o livro saiu: disseram-me que \u00e9 bom, eu n\u00e3o o vi. Ele me fez uma pergunta: &#8220;Se o senhor renunciar, voltar\u00e1 para a Argentina ou vai ficar aqui?&#8221; Eu disse: n\u00e3o voltarei para a Argentina, mas ficarei aqui na minha diocese. Mas nessa hip\u00f3tese, a resposta deve estar unida \u00e0 pergunta. Quando vou \u00e0 Argentina ou porque n\u00e3o vou&#8230; respondo sempre um pouco ironicamente: estive 76 anos na Argentina, \u00e9 suficiente n\u00e3o? H\u00e1 uma coisa que, n\u00e3o sei por que, n\u00e3o \u00e9 dita: uma viagem \u00e0 Argentina foi programada para novembro de 2017. Estava come\u00e7ando a se trabalhar, se faria Chile, Argentina e Uruguai. Era para o final de novembro&#8230; Mas naquela \u00e9poca o Chile estava em campanha eleitoral, naqueles dias, em dezembro, foi eleito o sucessor de Michelle Bachelet, e eu deveria ir antes que mudasse o governo. Eu n\u00e3o podia ir. T\u00ednhamos pensado em fazer isso: vamos ao Chile em janeiro e depois \u00e0 Argentina e ao Uruguai&#8230; Mas n\u00e3o era poss\u00edvel, porque janeiro \u00e9 como julho-agosto para os dois pa\u00edses. Pensando nisso novamente, foi feita a sugest\u00e3o: por que n\u00e3o associar o Peru? Porque o Peru havia sido separado da viagem ao Equador, Bol\u00edvia, Paraguai. Tinha sido deixado \u00e0 parte. E dali nasceu a viagem em janeiro de 2018 ao Chile e ao Peru. Mas quero dizer isto para que n\u00e3o haja fantasias de &#8220;patriafobia&#8221;: quando houver oportunidade, se poder\u00e1 fazer, porque h\u00e1 a Argentina, o Uruguai e o sul do Brasil. Ademais, sobre as viagens, para tomar uma decis\u00e3o sobre as viagens, escuto, escuto o conselho dos conselheiros e \u00e0s vezes algu\u00e9m vem e diz: o que acha a esse prop\u00f3sito, devo ir at\u00e9 aquele lugar? \u00c9 bom para mim ouvir, isto me ajuda a tomar decis\u00f5es mais tarde. Escuto os conselheiros e, no final, rezo, reflito muito, sobre algumas viagens, reflito muito. Depois a decis\u00e3o vem de dentro, quase espontaneamente, mas como fruto maduro. \u00c9 um longo percurso. Alguns s\u00e3o mais dif\u00edceis, outros mais f\u00e1ceis. A decis\u00e3o sobre esta viagem vem de antes, da embaixadora, uma pediatra que era a representante do Iraque: brava, brava, ela insistiu. Depois veio a embaixadora junto \u00e0 It\u00e1lia, \u00e9 uma mulher de luta. Depois veio o novo embaixador junto ao Vaticano. Antes disso, tinha vindo o presidente. Todas essas coisas ficaram comigo. Mas h\u00e1 algo por tr\u00e1s da decis\u00e3o que eu gostaria de mencionar: um de voc\u00eas me deu a \u00faltima edi\u00e7\u00e3o espanhola do livro &#8220;A \u00faltima garota&#8221; de Nadia Mourad. Eu li em italiano, \u00e9 a hist\u00f3ria dos Yazidis. E Nadia Mourad conta coisas terrificantes. Recomendo a l\u00ea-lo, em alguns pontos pode parecer pesado, mas para mim esta \u00e9 a raz\u00e3o b\u00e1sica da minha decis\u00e3o. Esse livro trabalhou por dentro. Mesmo quando escutei Nadia que veio me contar coisas terr\u00edveis&#8230; Todas essas coisas juntas tomaram a decis\u00e3o, pensando em todos os problemas, tantos. Mas no final a decis\u00e3o veio e eu a tomei. Em seguida, sobre o oitavo ano do pontificado. Devo fazer desta maneira? (<i>o Papa cruza os dedos em sinal de sorte, ndr<\/i>). N\u00e3o sei se as viagens se tornar\u00e3o realidade ou n\u00e3o, s\u00f3 confesso que nesta viagem fiquei muito mais cansado do que nas outras. Os 84 anos n\u00e3o v\u00eam sozinhos, \u00e9 uma consequ\u00eancia&#8230; mas veremos. Agora devo ir \u00e0 Hungria para a missa final do Congresso Eucar\u00edstico Internacional, n\u00e3o para uma visita ao pa\u00eds, mas somente para a missa. Mas Budapeste fica a duas horas de carro de Bratislava, por que n\u00e3o fazer uma visita \u00e0 Eslov\u00e1quia? \u00c9 assim que as coisas saem&#8230;<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><b>Esta viagem teve um extraordin\u00e1rio significado para as pessoas que puderam v\u00ea-lo, mas tamb\u00e9m foi uma oportunidade para o v\u00edrus se espalhar, particularmente para as pessoas que estavam juntas, aglomeradas. O senhor fica preocupado que possam adoecer e morrer por querer v\u00ea-lo?<\/b><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Como eu disse anteriormente, com o tempo as viagens &#8220;ficam cozinhando&#8221; na minha consci\u00eancia, e esta \u00e9 uma das coisas que me fortalecia. Pensei muito, rezei muito sobre isso e finalmente tomei a decis\u00e3o que realmente veio de dentro. E eu disse que Aquele que me faz decidir assim, que se ocupe das pessoas. Mas depois da ora\u00e7\u00e3o e da consci\u00eancia dos riscos. Depois de tudo isso.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><b>Vimos a coragem, o dinamismo dos crist\u00e3os iraquianos, vimos tamb\u00e9m os desafios que enfrentam, a amea\u00e7a da viol\u00eancia islamista, o \u00eaxodo e o testemunho de f\u00e9 no seu ambiente. Estes s\u00e3o os desafios dos crist\u00e3os em toda a regi\u00e3o. Falamos do L\u00edbano, mas tamb\u00e9m da S\u00edria, e da Terra Santa. H\u00e1 dez anos, foi realizado um S\u00ednodo para o Oriente M\u00e9dio, mas seu desenvolvimento foi interrompido pelo ataque \u00e0 Catedral de Bagd\u00e1. O senhor est\u00e1 pensando em fazer algo para todo o Oriente M\u00e9dio, um s\u00ednodo regional ou qualquer outra iniciativa?<\/b><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">N\u00e3o estou pensando em um S\u00ednodo, estou aberto a muitas iniciativas, mas n\u00e3o um S\u00ednodo. O senhor semeou a primeira semente, vamos ver. A vida dos crist\u00e3os \u00e9 problem\u00e1tica, mas n\u00e3o s\u00f3 a dos crist\u00e3os, falamos dos yazidis&#8230; E isto, n\u00e3o sei porque, deu-me uma for\u00e7a muito grande. H\u00e1 o problema da migra\u00e7\u00e3o. Ontem, quando est\u00e1vamos voltando de Qaraqosh para Erbil, vi muita gente, jovens, a faixa et\u00e1ria \u00e9 muito baixa. E a pergunta que algu\u00e9m me fez: mas qual ser\u00e1 o futuro para esses jovens? Para onde eles ir\u00e3o? Muitos ter\u00e3o que deixar o pa\u00eds. Antes de partir para minha viagem na sexta-feira (05), doze refugiados iraquianos vieram se despedir de mim: um deles tinha uma perna prot\u00e9tica porque teve um acidente, ao fugir foi atropelado por um caminh\u00e3o. A migra\u00e7\u00e3o \u00e9 um direito duplo: o direito de n\u00e3o migrar e o direito de migrar. Estas pessoas n\u00e3o t\u00eam nenhum dos dois, porque n\u00e3o podem n\u00e3o migrar, n\u00e3o sabem como faz\u00ea-lo. E n\u00e3o podem migrar porque o mundo ainda n\u00e3o se deu conta de que a migra\u00e7\u00e3o \u00e9 um direito humano. Da outra vez, um soci\u00f3logo italiano me disse, falando da queda demogr\u00e1fica na It\u00e1lia: dentro de quarenta anos teremos que &#8220;importar&#8221; estrangeiros para trabalhar e pagar impostos para nossas pens\u00f5es. Voc\u00eas franceses foram mais espertos, avan\u00e7aram dez anos com a lei em prol da fam\u00edlia, o seu n\u00edvel de crescimento \u00e9 muito grande. Mas a migra\u00e7\u00e3o \u00e9 vivida como uma invas\u00e3o. Ontem eu quis receber ap\u00f3s a missa, porque ele pediu, o pai de Alan Kurdi, esta crian\u00e7a que \u00e9 um s\u00edmbolo, Alan Kurdi \u00e9 um s\u00edmbolo: por isso eu dei a escultura para a FAO. \u00c9 um s\u00edmbolo que vai al\u00e9m de uma crian\u00e7a que morreu na migra\u00e7\u00e3o, um s\u00edmbolo de civiliza\u00e7\u00f5es que morrem que n\u00e3o podem sobreviver, um s\u00edmbolo de humanidade. S\u00e3o necess\u00e1rias medidas urgentes para que as pessoas tenham trabalho em seus pr\u00f3prios pa\u00edses e n\u00e3o tenham que migrar. E tamb\u00e9m medidas para proteger o direito de migrar. \u00c9 verdade que cada pa\u00eds deve estudar bem a capacidade de receber porque n\u00e3o \u00e9 apenas a capacidade de receb\u00ea-los e deix\u00e1-los na praia. \u00c9 receb\u00ea-los, acompanh\u00e1-los, faz\u00ea-los progredir e se integrar. A integra\u00e7\u00e3o do migrante \u00e9 a chave. Dois casos: em Zaventem, na B\u00e9lgica, os terroristas eram belgas, nascidos na B\u00e9lgica, mas emigrantes isl\u00e2micos fechados em guetos, n\u00e3o integrados. O outro exemplo, quando fui \u00e0 Su\u00e9cia, a ministra que participou da minha despedida era muito jovem e tinha uma fisionomia especial, n\u00e3o t\u00edpica dos suecos. Era filha de um migrante e de uma sueca, t\u00e3o integrada que se tornou ministra&#8230; Pensemos nestes dois casos, nos far\u00e3o pensar muito: integrar. Sobre as migra\u00e7\u00f5es, que eu acho que \u00e9 o drama da regi\u00e3o. Gostaria de agradecer aos pa\u00edses generosos que recebem migrantes: o L\u00edbano que tem, creio, dois milh\u00f5es de s\u00edrios; a Jord\u00e2nia &#8211; infelizmente n\u00e3o sobrevoaremos o pa\u00eds, o rei queria nos homenagear com avi\u00f5es quando pass\u00e1ssemos &#8211; \u00e9 muito generosa: mais de um milh\u00e3o e meio de migrantes. Agrade\u00e7o a esses pa\u00edses generosos! Muito obrigado!<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><b>Em tr\u00eas dias, neste pa\u00eds-chave do Oriente M\u00e9dio, o senhor fez o que os poderosos da Terra v\u00eam discutindo h\u00e1 trinta anos. O senhor j\u00e1 explicou qual \u00e9 o interesse original de suas viagens, como surgem as escolhas de suas viagens, mas agora nesta conting\u00eancia, olhando para o Oriente M\u00e9dio, pode ser colocada em conta uma viagem \u00e0 S\u00edria? Quais poderiam ser os objetivos daqui a um ano de outros lugares onde sua presen\u00e7a \u00e9 solicitada?<\/b><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">No Oriente M\u00e9dio, apenas a hip\u00f3tese, e tamb\u00e9m a promessa, \u00e9 o L\u00edbano. N\u00e3o pensei em uma viagem \u00e0 S\u00edria, porque n\u00e3o tive esta inspira\u00e7\u00e3o. Mas estou muito pr\u00f3ximo da martirizada e amada S\u00edria, como eu a chamo. Lembro-me, no in\u00edcio do pontificado, naquela tarde de ora\u00e7\u00e3o na Pra\u00e7a de S\u00e3o Pedro, havia o ter\u00e7o, adora\u00e7\u00e3o do Sant\u00edssimo. Mas quantos mu\u00e7ulmanos com tapetes no ch\u00e3o estavam rezando conosco pela paz na S\u00edria, para parar o bombardeio, no momento em que foi dito que haveria um bombardeio feroz. Levo a S\u00edria no meu cora\u00e7\u00e3o. Mas pensar em uma viagem, ainda n\u00e3o aconteceu&#8221;.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><b>Nesses dias, meses, sua atividade tem sido muito limitada. Ontem o senhor teve o primeiro contato direto muito pr\u00f3ximo com as pessoas em Qaraqosh: o que o senhor sentiu? Em sua opini\u00e3o, agora com todo o atual regime de sa\u00fade, poder\u00e3o ser recome\u00e7adas as audi\u00eancias gerais com a presen\u00e7a das pessoas, com os fi\u00e9is, como antes?<\/b><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Eu me sinto diferente quando estou longe das pessoas nas audi\u00eancias. Gostaria de recome\u00e7ar as audi\u00eancias gerais o mais r\u00e1pido poss\u00edvel. Esperamos que hajam as condi\u00e7\u00f5es, nisto eu sigo as normas das autoridades. Elas s\u00e3o respons\u00e1veis e t\u00eam a gra\u00e7a de Deus para nos ajudar nisto, elas s\u00e3o respons\u00e1veis por dar as normas. Quer queiramos ou n\u00e3o, elas s\u00e3o respons\u00e1veis e t\u00eam que fazer isso. Agora comecei novamente com o Angelus na pra\u00e7a, com as dist\u00e2ncias que podem ser feitas. H\u00e1 a proposta de pequenas audi\u00eancias gerais, mas ainda n\u00e3o decidi at\u00e9 quando o desenvolvimento da situa\u00e7\u00e3o n\u00e3o se torne claro. Depois destes meses de pris\u00e3o, eu realmente me senti um pouco preso, esta viagem foi para mim reviver. Reviver porque \u00e9 tocar a Igreja, tocar o povo santo de Deus, tocar todos os povos. Um padre torna-se padre para servir, a servi\u00e7o do povo de Deus, n\u00e3o para fazer carreira, n\u00e3o por dinheiro. Esta manh\u00e3, na missa, havia a leitura b\u00edblica sobre a cura de Naam\u00e3, o s\u00edrio, e dizia que este Naam\u00e3 queria dar presentes depois de ter obtido a cura. Mas o profeta Eliseu os recusou. A B\u00edblia continua: o assistente do profeta Eliseu, quando eles partiram, acomodou bem o profeta e apressadamente seguiu Naam\u00e3 e pediu os presentes para ele. E Deus disse: &#8220;a lepra que Naam\u00e3 tinha ser\u00e1 para ti&#8221;. Temo que n\u00f3s, homens e mulheres da Igreja, especialmente n\u00f3s sacerdotes, n\u00e3o tenhamos essa proximidade gratuita com o povo de Deus que \u00e9 quem nos salva. E fazer como o servo de Naam\u00e3: sim, ajudar, mas depois ir atr\u00e1s para os presentes. Dessa lepra eu tenho medo. E o \u00fanico que nos salva da lepra da gan\u00e2ncia, do orgulho, \u00e9 o povo santo de Deus. Aquele sobre o qual Deus falou a Davi: &#8220;Eu te tirei do rebanho, n\u00e3o te esque\u00e7as do rebanho&#8221;. Aquilo que Paulo falou a Tim\u00f3teo: &#8220;Lembra-te de tua m\u00e3e e de tua av\u00f3 que te amamentaram na f\u00e9&#8221;, isto \u00e9, n\u00e3o perca a perten\u00e7a ao povo de Deus para se tornar uma casta privilegiada de consagrados, cl\u00e9rigos, ou que quer que seja. O contato com as pessoas nos salva, nos ajuda, n\u00f3s damos a Eucaristia, a prega\u00e7\u00e3o, nossa fun\u00e7\u00e3o. Mas elas nos d\u00e3o a perten\u00e7a. N\u00e3o esque\u00e7amos essa perten\u00e7a ao povo de Deus. O que eu encontrei no Iraque, em Qaraqosh? Eu n\u00e3o imaginava as ru\u00ednas de Mosul, n\u00e3o imaginava realmente&#8230;. Sim, posso ter visto coisas, eu li livros, mas isso toca, \u00e9 comovente. O que mais me tocou foi o testemunho de uma m\u00e3e em Qaraqosh. Deram seu testemunho um padre que realmente conhece a pobreza, o servi\u00e7o, a penit\u00eancia, e uma mulher que perdeu seu filho nos primeiros bombardeios do Isis. Ela disse uma palavra: perd\u00e3o. Eu fiquei comovido. Uma m\u00e3e que diz: eu perdoo, eu pe\u00e7o perd\u00e3o por eles. Veio-me a mem\u00f3ria a minha viagem \u00e0 Col\u00f4mbia, o encontro em Villavicencio onde tantas pessoas, sobretudo mulheres, m\u00e3es e esposas, falaram de sua experi\u00eancia com o assassinato de seus filhos e maridos. Elas disseram: &#8220;Eu perdoo, eu perdoo&#8221;. Perdemos esta palavra, sabemos muito bem como insultar, sabemos muito bem como condenar, eu por primeiro. Mas perdoar&#8230; perdoar nossos inimigos, isto \u00e9 puro Evangelho. Isto \u00e9 o que mais me impressionou em Qaraqosh.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><b>Eu queria saber o que o senhor sentiu vendo do helic\u00f3ptero a cidade destru\u00edda de Mosul e depois rezando nas ru\u00ednas de uma igreja. Se me permite, j\u00e1 que \u00e9 Dia da Mulher, gostaria de fazer uma pequena pergunta tamb\u00e9m sobre as mulheres. O senhor apoiou as mulheres em Qaraqosh com palavras muito bonitas, mas o que o senhor acha do fato de que uma mulher mu\u00e7ulmana apaixonada n\u00e3o pode se casar com um crist\u00e3o sem ser descartada pela sua fam\u00edlia ou pior ainda?<\/b><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">&#8220;De Mosul eu disse um pouco &#8220;en passant&#8221; o que eu senti. Parei em frente \u00e0 igreja destru\u00edda, n\u00e3o tinha palavras. Inacredit\u00e1vel, inacredit\u00e1vel&#8230; N\u00e3o apenas aquela igreja, mas tamb\u00e9m outras igrejas, tamb\u00e9m uma mesquita destru\u00edda. Pode-se dizer que n\u00e3o estavam de acordo com essas pessoas. Inacredit\u00e1vel a nossa crueldade humana. Neste momento, n\u00e3o quero dizer a palavra, come\u00e7amos de novo: olhemos para a \u00c1frica. E com a nossa experi\u00eancia de Mosul, essas igrejas destru\u00eddas e tudo mais, cria-se inimizade, a guerra e tamb\u00e9m recome\u00e7a a agir o chamado Estado isl\u00e2mico. Isto \u00e9 uma coisa ruim, muito ruim. Uma pergunta que me veio \u00e0 mente na igreja foi esta: mas quem vende as armas para esses destruidores? Porque as armas eles n\u00e3o fabricam. Sim, fazem algumas armas&#8230; Mas quem vende as armas? Quem \u00e9 o respons\u00e1vel? Ao menos eu pediria \u00e0queles que vendem as armas a sinceridade de dizer: n\u00f3s vendemos as armas. Eles n\u00e3o dizem isso. \u00c9 horr\u00edvel. Agora as mulheres. As mulheres s\u00e3o mais corajosas do que os homens, mas isso sempre foi assim. Mas a mulher ainda hoje \u00e9 humilhada, vamos a esse extremo: uma de voc\u00eas me mostrou a lista de pre\u00e7os das mulheres (preparada pelo Isis que comprava as mulheres crist\u00e3s e yazidis,). N\u00e3o podia acreditar: se a mulher \u00e9 assim&#8230;, de certa idade custa tanto&#8230; As mulheres s\u00e3o vendidas, as mulheres s\u00e3o escravizadas. Tamb\u00e9m no centro de Roma, o trabalho contra o tr\u00e1fico de seres humanos \u00e9 um trabalho cotidiano. Durante o Jubileu, fui visitar uma das muitas casas da Obra Don Benzi. Garotas resgatadas, uma com a orelha cortada porque n\u00e3o tinha trazido dinheiro naquele dia, a outra trazida de Bratislava no porta mala do carro, escrava, sequestrada. Isso acontece entre n\u00f3s, eh! O tr\u00e1fico de pessoas. Nesses pa\u00edses, especialmente na parte da \u00c1frica, h\u00e1 a mutila\u00e7\u00e3o como um ritual que deve ser feito. Mas as mulheres ainda s\u00e3o escravas e devemos lutar, lutar, pela dignidade da mulher. S\u00e3o elas que continuam a hist\u00f3ria, isto n\u00e3o \u00e9 um exagero, as mulheres continuam a hist\u00f3ria e isto n\u00e3o \u00e9 um elogio porque hoje \u00e9 o dia da mulher. Tamb\u00e9m a escravid\u00e3o \u00e9 assim, a rejei\u00e7\u00e3o \u00e0 mulher&#8230; Pensar que em um lugar houve uma discuss\u00e3o se o rep\u00fadio \u00e0 esposa deveria ser dado por escrito ou apenas oralmente. Nem mesmo o direito de ter o ato de rep\u00fadio! Mas isto est\u00e1 acontecendo hoje, mas para n\u00e3o nos distanciarmos, pensemos no centro de Roma, nas jovens que s\u00e3o sequestradas e exploradas. Acho que j\u00e1 disse tudo sobre este assunto. Desejo-lhes um bom fim de viagem e pe\u00e7o-lhes que rezem por mim, pois tenho necessidade.<\/p>\n<\/div>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Na entrevista concedida a jornalistas no voo de retorno para Roma, Francisco repercorre as etapas da hist\u00f3rica viagem ao Iraque: o encontro com &#8220;o homem s\u00e1bio e homem de Deus&#8221; Al Sistani, a emo\u00e7\u00e3o diante das igrejas destru\u00eddas de Mosul, a como\u00e7\u00e3o diante das palavras da m\u00e3e crist\u00e3 que perdeu seu filho e perdoou os [&hellip;]<\/p>\n","protected":false},"author":1,"featured_media":66325,"comment_status":"open","ping_status":"closed","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"footnotes":""},"categories":[13,3],"tags":[],"class_list":["post-66324","post","type-post","status-publish","format-standard","has-post-thumbnail","hentry","category-featured","category-vaticano"],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/catolicanet.net\/wp-cnet\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/66324","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/catolicanet.net\/wp-cnet\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/catolicanet.net\/wp-cnet\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/catolicanet.net\/wp-cnet\/wp-json\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/catolicanet.net\/wp-cnet\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=66324"}],"version-history":[{"count":2,"href":"https:\/\/catolicanet.net\/wp-cnet\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/66324\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":66327,"href":"https:\/\/catolicanet.net\/wp-cnet\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/66324\/revisions\/66327"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/catolicanet.net\/wp-cnet\/wp-json\/wp\/v2\/media\/66325"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/catolicanet.net\/wp-cnet\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=66324"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/catolicanet.net\/wp-cnet\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=66324"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/catolicanet.net\/wp-cnet\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=66324"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}