{"id":6627,"date":"2015-09-02T13:08:35","date_gmt":"2015-09-02T16:08:35","guid":{"rendered":"http:\/\/catolicanet.net\/wp-cnet\/acolhe-e-anuncia\/"},"modified":"2017-04-11T16:53:21","modified_gmt":"2017-04-11T19:53:21","slug":"acolhe-e-anuncia","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/catolicanet.net\/wp-cnet\/acolhe-e-anuncia\/","title":{"rendered":"Acolhe e anuncia!"},"content":{"rendered":"<p style=\"text-align: justify;\">\n<p>O Evangelho deste XXIII Domingo do Tempo Comum apresenta-nos um homem surdo e que falava com dificuldade, que \u00e9 colocado diante de Jesus para que ele o cure. Quem \u00e9 este homem? \u00c9 a humanidade, enquanto fechada para o dom de Deus, que Jesus nos traz. Surda, por que incapaz de ouvir a Palavra; ouvi-la compreendendo-a, acolhendo-a no cora\u00e7\u00e3o: &#8220;tem ouvido para ouvir, mas n\u00e3o ouve&#8221; (Jr 5,21; cf. Mt 13,14-15). No fundo, aqui \u00e9 apresentada a inicia\u00e7\u00e3o crist\u00e3: leva para fora da multid\u00e3o e a pessoa come\u00e7a a ouvir a Palavra de Deus e, consequentemente, louva o Senhor e anuncia o Evangelho.<br \/>\nN\u00e3o ouvir a Palavra e n\u00e3o louvar a Deus: esta \u00e9 a tend\u00eancia do cora\u00e7\u00e3o humano que a Sagrada Escritura sempre denunciou: o fechamento para n\u00e3o acolher a proposta que Deus nos faz, de um caminho com Ele, a tend\u00eancia de nos fechar em n\u00f3s e viver a vida como se fosse nossa de modo absoluto: &#8220;Escutai, prestai ouvidos, n\u00e3o sejais orgulhosos, porque o Senhor falou&#8221;! (Jr 13,15); &#8220;Ah! Se meu povo me escutasse, se Israel andasse em meus caminhos&#8230; Mas meu povo n\u00e3o ouviu a minha voz, Israel n\u00e3o quis saber de obedecer-me; ent\u00e3o os entreguei ao seu cora\u00e7\u00e3o endurecido: que sigam seus pr\u00f3prios caminhos&#8221;! (Sl 81\/80, 14.13). Assim, no fundo, \u00e9 o fechamento para Deus, para um Deus verdadeiro, a resist\u00eancia em realmente levar a s\u00e9rio o primeiro mandamento: &#8220;Ouve, \u00f3 Israel&#8221;! (Dt 6,4).<br \/>\nOra, se somos surdos, tamb\u00e9m n\u00e3o podemos falar com clareza: nossas ideias s\u00e3o embotadas, nossos debates, nossas palavras n\u00e3o chegam ao essencial da vida, do sentido da exist\u00eancia; n\u00e3o podemos proclamar de verdade a alegria da salva\u00e7\u00e3o, da plenitude de quem sabe de onde vem e para onde vai. A comunica\u00e7\u00e3o se torna oca, alienada e alienante. Basta observar a tend\u00eancia da m\u00eddia hoje. Por isso, Jesus cura primeiro a surdez e, depois, a gagueira do homem. Quando ele puder ouvir o Senhor, tornando-se disc\u00edpulo pela f\u00e9, tamb\u00e9m poder\u00e1 falar, proclamar a a\u00e7\u00e3o de Deus em Jesus: do Deus que salva e nos mostra o sentido da vida, abrindo-nos a esperan\u00e7a eterna. No fundo \u00e9 viver o Batismo. At\u00e9 hoje um dos ritos poss\u00edveis \u00e9 justamente o \u201c\u00c9feta (efat\u00e1)\u201d.<br \/>\nJesus abre os ouvidos e solta a l\u00edngua de um surdo-mudo. E o povo, entusiasmado, v\u00ea nessa cura um sinal da presen\u00e7a do Poder salv\u00edfico do Messias e exclama: \u201cTudo Ele tem feito bem. Fez os surdos ouvirem e os mudos falarem\u201d.<br \/>\nNesta cura que o Senhor realizou, podemos ver uma imagem da sua a\u00e7\u00e3o nas almas: Ele livra o homem do pecado, abre-lhe os ouvidos para que escute a Palavra de Deus e lhe solta a l\u00edngua para que louve e proclame as maravilhas divinas. Santo Agostinho, ao comentar esta passagem do Evangelho, diz que a l\u00edngua de quem est\u00e1 unido a Deus \u201cfalar\u00e1 do bem, tornar\u00e1 unido os que estavam divididos, consolar\u00e1 os que choram\u2026 Deus ser\u00e1 louvado, Cristo ser\u00e1 anunciado\u201d. \u00c9 o que n\u00f3s faremos se tivermos o ouvido atento \u00e0s cont\u00ednuas mo\u00e7\u00f5es do Esp\u00edrito Santo, e a l\u00edngua preparada para falar de Deus sem respeitos humanos.<br \/>\nExiste uma surdez da alma que \u00e9 pior que a do corpo, por que n\u00e3o h\u00e1 pior surdo do que aquele que n\u00e3o quer ouvir. S\u00e3o muitos os que t\u00eam os ouvidos fechados \u00e0 Palavra de Deus, e s\u00e3o tamb\u00e9m muitos os que se v\u00e3o endurecendo cada vez mais ante as in\u00fameras chamadas da gra\u00e7a. O nosso apostolado paciente, tenaz, cheio de compreens\u00e3o, acompanhado de ora\u00e7\u00e3o, far\u00e1 com que muitos dos nossos amigos ou\u00e7am a voz de Deus e se convertam em novos ap\u00f3stolos que a preguem por toda a parte.<br \/>\nN\u00e3o podemos ficar mudos quando devemos falar de Deus e da sua mensagem sem constrangimento algum, antes vendo nisso um t\u00edtulo de gl\u00f3ria: os pais aos seus filhos; o amigo ao amigo, com sentido de oportunidade, mas sem receios; o colega de escrit\u00f3rio aos que trabalham ao seu lado, com o seu comportamento exemplar e alegre e com a palavra que estimula a sair da apatia; o estudante aos colegas de Universidade com quem convive tantas horas por dia.<br \/>\nEste caminho do surdo-gago \u00e9 urgente para o crist\u00e3o: reaprender a escutar de verdade Jesus (= crer Nele de verdade) e falar Dele ao mundo no testemunho corajoso, pois, somente assim, a humanidade atual encontrar\u00e1 a paz que tanto almeja. Somente em Cristo, aquilo que a primeira leitura vislumbra e anuncia de modo t\u00e3o belo pode realizar-se: &#8220;Dizei \u00e0s pessoas deprimidas: &#8216;Criai \u00e2nimo, n\u00e3o tenhais medo! Vede! \u00c9 o nosso Deus que vem; \u00e9 Ele que vem para salvar&#8217;! Ent\u00e3o se abrir\u00e3o os olhos dos cegos e se descerrar\u00e3o os ouvidos dos surdos. O coxo saltar\u00e1 como um cervo e se desatar\u00e1 a l\u00edngua dos mudos, assim como brotar\u00e3o \u00e1guas no deserto e jorrar\u00e3o torrentes no ermo. A ter\u00e1 \u00e1rida se transformar\u00e1 em lago, e a regi\u00e3o sedenta, em fontes d&#8217;\u00e1gua&#8221; \u2013 Que imagens impressionantes, belas, evocativas! Quando Deus vem, quando Ele est\u00e1 presente, tudo \u00e9 vida, tudo \u00e9 plenitude, tudo canta de alegria! N\u00e3o \u00e9 disso que nosso mundo atual tanto precisa? Mas, o homem fechado na sua soberba \u2013 n\u00f3s, fechados na nossa autossufici\u00eancia e no nosso comodismo \u2013 jamais vai experimentar isso.<br \/>\nQue o Senhor nos cure da surdez e da gagueira; fa\u00e7a-nos atentos \u00e0 Sua Palavra e ao Seu testemunho; d\u00ea-nos olhos para reconhec\u00ea-Lo nos irm\u00e3os, sobretudo nos pobres, seja de que pobreza for, principalmente os pobres social e economicamente falando! Como homens novos que escutam a Palavra e testemunham o Senhor, a censura que a carta de Tiago nos dirige nesta semana ecoar\u00e1 nos cora\u00e7\u00f5es sens\u00edveis e nos far\u00e1, escutando a Palavra que salva, acolher os que est\u00e3o nas \u201cperiferias existenciais\u201d, que s\u00e3o os preferidos de Deus como nos diz neste domingo a segunda leitura.<br \/>\n\u201cA catequese \u00e9 momento eclesial de toda estrutura pastoral, de toda solidariedade e institui\u00e7\u00e3o eclesial, de toda estrutura que possa contribuir para a edifica\u00e7\u00e3o do Corpo M\u00edstico de Cristo. A Palavra de Deus \u00e9 essencial para toda experi\u00eancia crist\u00e3; n\u00e3o h\u00e1 iniciativa ou estrutura pastoral que n\u00e3o reflita a exig\u00eancia de escutar, de apresentar e de aprofundar a mensagem evang\u00e9lica\u201d. (RdC 143).<\/p>\n<p>Orani Jo\u00e3o, Cardeal Tempesta, O.Cist.<br \/>\nArcebispo Metropolitano de S\u00e3o Sebasti\u00e3o do Rio de Janeiro, RJ<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>O Evangelho deste XXIII Domingo do Tempo Comum apresenta-nos um homem surdo e que falava com dificuldade, que \u00e9 colocado diante de Jesus para que ele o cure. Quem \u00e9 este homem? \u00c9 a humanidade, enquanto fechada para o dom de Deus, que Jesus nos traz. 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