{"id":65821,"date":"2021-02-07T10:08:43","date_gmt":"2021-02-07T13:08:43","guid":{"rendered":"https:\/\/catolicanet.net\/wp-cnet\/?p=65821"},"modified":"2021-02-08T15:15:51","modified_gmt":"2021-02-08T18:15:51","slug":"o-sofrimento-e-a-salvacao-humana-e-cosmica","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/catolicanet.net\/wp-cnet\/o-sofrimento-e-a-salvacao-humana-e-cosmica\/","title":{"rendered":"O SOFRIMENTO E A SALVA\u00c7\u00c3O  HUMANA E C\u00d3SMICA"},"content":{"rendered":"<p style=\"text-align: justify;\">CARTAS DO PADRE JESUS PRIANTE<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\u00a0 \u00a0 As leituras deste domingo mostram-nos o grande problema existencial do sofrimento. Por que sofremos?<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Em filosofia qualificamos esse problema de &#8220;limite&#8221;, isto \u00e9, a raz\u00e3o \u00e9 incapaz de entender. \u00c9 uma quest\u00e3o que carece de resposta humana, mas for\u00e7a-nos a pensar, buscando alguma justifica\u00e7\u00e3o ou explica\u00e7\u00e3o. Poder\u00edamos elencar, entre as m\u00faltiplas \u00a0explica\u00e7\u00f5es dadas ao longo da Hist\u00f3ria, as seguintes:<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">CASTIGO DE DEUS<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">por causa de nossos pecados&#8230; \u00c9 a explica\u00e7\u00e3o de todas as religi\u00f5es, que fazem depender a vida de Deus e responde ao nosso senso racional de justi\u00e7a: dar a cada um o seu merecido.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">PROVA\u00c7\u00c3O DE DEUS<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Deus nos testa ou nos obriga a ganhar a Salva\u00e7\u00e3o atrav\u00e9s de nosso esfor\u00e7o pessoal. Todo trabalho exige sacrif\u00edcio e sofrimento.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">PURIFICA\u00c7\u00c3O OU SANTIFICA\u00c7\u00c3O<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Deus \u00e9 santo. N\u00e3o podemos ir a Ele a n\u00e3o ser santificados. A cren\u00e7a da reencarna\u00e7\u00e3o, presente em boa parte das culturas, teria fundamento nesta explica\u00e7\u00e3o do sofrimento. Na Idade M\u00e9dia, a Igreja Cat\u00f3lica filiou-se a esta teoria com a doutrina do Purgat\u00f3rio.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">CONDI\u00c7\u00c3O EXISTENCIAL<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">A vida \u00e9 dor, afirma o Budismo, resta-nos deixar de existir neste mundo para passar ao Nirvana, despojados de n\u00f3s mesmos, e sermos &#8220;nada&#8221;, ou um &#8220;tudo&#8221;, que n\u00e3o pode ser algo, pois\u00a0careceria de plenitude.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">CORPOREIDADE<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Sofremos necessariamente por estarmos num corpo, afirma Plat\u00e3o. Temos de desencarnar para sermos apenas alma ou esp\u00edrito. A morte \u00e9 a ben\u00e7\u00e3o desta vida.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">FATALIDADE OU SINA<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Cada um sofre aleatoriamente sua sorte ou desgra\u00e7a. Resta-nos aceitar, \u00a0cada um sua pr\u00f3pria sorte com resigna\u00e7\u00e3o, afirmava a filosofia est\u00f3ica, professada por muitos na antiga Gr\u00e9cia e, de alguma maneira, tamb\u00e9m por muitos de n\u00f3s. Paci\u00eancia, que significa capacidade de sofrer \u00e9 sua resposta. H\u00e1 quem apele ao deus Fortuna ou \u00e0 espor\u00e1dica &#8220;gra\u00e7a&#8221; dos milagres de Deus. Mas essa loteria s\u00f3 nos pode deixar mais infelizes e decepcionados.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">CAR\u00caNCIA DE BEM<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\u00c9 esta resposta que Santo Agostinho d\u00e1 a todo tipo de mal, inclu\u00eddo o sofrimento. Em si mesmo n\u00e3o existe. \u00c9 um vazio que precisa ser preenchido pela Salva\u00e7\u00e3o de Deus ou plenitude em Cristo. O ser e a vida deste mundo n\u00e3o est\u00e3o acabados. Essa defici\u00eancia existencial \u00e9 o que nos faz sofrer.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Scoto, no s\u00e9culo XIII, contestando a S\u00e3o Tom\u00e1s de Aquino, que interpretava a Salva\u00e7\u00e3o como ato de reden\u00e7\u00e3o, considerava a Gra\u00e7a<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Salvadora de Cristo como fermento transformador da Cria\u00e7\u00e3o. S\u00e3o Paulo participa desta vis\u00e3o dizendo que somos salvos (livres do mal) na Esperan\u00e7a (Rm.8), que culmina na Ressurrei\u00e7\u00e3o, pela qual seremos livres de todo sofrimento, pecado e morte.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">N\u00e3o somos ainda o que Deus nos chamou a ser. O Reino de Deus, nossa vida feliz, n\u00e3o \u00e9 deste mundo. N\u00e3o por isso, somos indiferentes ao mal e ao sofrimento. Tudo quanto fa\u00e7amos, para n\u00e3o sofrer ou evitar o mal pr\u00f3prio e dos outros, \u00e9 a maneira de participar na Esperan\u00e7a do Reino de Deus.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">CAMINHO DA VIDA<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">O sofrimento tem nos Evangelhos um nome singular no conjunto de todas as culturas e religi\u00f5es: CRUZ. Ela \u00e9 loucura para a raz\u00e3o e esc\u00e2ndalo para todo sentimento religioso. No entanto, \u00e9 a sabedoria de Deus, revelada em Cristo. Para aceder a essa sabedoria precisamos da F\u00e9. O sofrimento \u00e9 o Mist\u00e9rio de Deus feito homem, para o homem poder ser em Deus. O fil\u00f3sofo franc\u00eas L\u00e9on Bloy afirma que os espa\u00e7os vazios e o sofrimento nos fazem existir neste mundo, a caminho da vida. Uma vida preenchida neste mundo nos faria infelizes eternamente, como n\u00e3o seria feliz um vaso cheio de \u00e1gua olhando a imensid\u00e3o do mar. Cristo \u00a0\u00e9 a \u00fanica resposta positiva ao sofrimento, pois o transformou em caminho glorioso da Salva\u00e7\u00e3o. N\u00e3o castigo, prova, purifica\u00e7\u00e3o, condi\u00e7\u00e3o, fatalidade ou sorte, mas promessa de Vida Eterna.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">O sofrimento necessariamente nos une a Deus: De outra maneira, como Albert Camus reconheceu, nos levaria fatalmente ao desespero. N\u00e3o \u00e9 uma resposta racional, pois o sofrimento continuar\u00e1 a ser, at\u00e9 o fim dos tempos, um mist\u00e9rio, objeto n\u00e3o da raz\u00e3o nem das religi\u00f5es, mas da F\u00e9, fundamentada na Ressurrei\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">J\u00f3 7,1-7: &#8220;HERDEI NOITES DE SOFRIMENTO&#8221;.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">O livro de J\u00f3 revela-nos o problema do sofrimento em grau sobre-humano. Foi espoliado de todos os seus bens materiais. Seus sete filhos foram mortos e, para culminar sua desgra\u00e7a, ficou leproso, o que lhe tornava n\u00e3o s\u00f3 doente, como tamb\u00e9m culpado e pecador diante de Deus e do povo, como ent\u00e3o se acreditava. Tr\u00eas dos seus grandes amigos, escandalizados pela sua desgra\u00e7a, lhe visitam para lhe convencer kafkianamente da sua culpa e do seu pecado, causa do seu sofrimento&#8230; J\u00f3 n\u00e3o encontra explica\u00e7\u00e3o racional nem religiosa para seu mal, pois em tudo tratou de agradar e fazer a vontade de Deus com sua conduta. \u00c9 obrigado a confessar: &#8220;Como escravo que anseia pela sombra, herdei anos de decep\u00e7\u00e3o e noites de sofrimento&#8230; Ao deitar, \u00a0almejo pelo amanhecer e, estando de p\u00e9, digo: quando chegar\u00e1 a noite? Meus dias correm velozes como lan\u00e7adeiras de tecel\u00e3o, sem esperan\u00e7as&#8230; Meus olhos jamais ver\u00e3o a felicidade&#8221;. Possivelmente o grau de sofrimento que a figura de J\u00f3 nos mostra n\u00e3o seja t\u00e3o grande em cada um de n\u00f3s, mas, em alguns momentos, sim temos tido essa sensa\u00e7\u00e3o tr\u00e1gica de dor e desespero ao ponto de dizer com J\u00f3: &#8220;Maldito o dia em que vim a este mundo&#8221;.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Hoje temos paliativos para o sofrimento f\u00edsico mas n\u00e3o para esse outro sofrimento da pr\u00f3pria vida, em si mesma infeliz, como afirma Freud: &#8220;nossa natureza n\u00e3o foi programada para ser feliz&#8221;. E Homero, no s\u00e9culo IX a.C diz: &#8220;O homem \u00e9 um ser infeliz&#8221;. Sartre chega \u00e0 conclus\u00e3o que a vida n\u00e3o pode ser pensada sem ang\u00fastia. Sem consci\u00eancia desse abismo, paradoxalmente, Deus n\u00e3o existe. A Salva\u00e7\u00e3o nasce em n\u00f3s como uma necessidade existencial.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Porque existe o mal e o sofrimento \u00e9 que Deus existe, afirma S\u00e3o Tom\u00e1s de Aquino, o \u00danico que me pode livrar dele. Heidegger, foi incapaz de ser ateu: &#8220;Quem sabe se ainda Deus nos pode salvar&#8230;?&#8221; Cristo dirime essa d\u00favida e vacilante esperan\u00e7a assegurando-nos ser Ele a vida feliz que buscamos e desejamos.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">1Cor. 9,16-23. AI DE MIM, SE EU EU N\u00c3O ANUNCIAR O EVANGELHO!<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Se J\u00f3 experimentou sua desgra\u00e7a no sofrimento f\u00edsico, S\u00e3o Paulo a experimentou no seu esp\u00edrito, inclusive de maneira mais dram\u00e1tica. O que lhe atormentava era a impossibilidade de se salvar pelos seus pr\u00f3prios m\u00e9ritos. &#8220;Quem poder\u00e1 me salvar deste corpo (situa\u00e7\u00e3o existencial de pecado)?&#8221;, se questionava. Mas, logo que encontrou de maneira gratuita a Salva\u00e7\u00e3o em Cristo, fez da sua exist\u00eancia uma constante a\u00e7\u00e3o de gra\u00e7as e tornou-se arauto da pr\u00f3pria Salva\u00e7\u00e3o para o mundo. N\u00e3o cumprir essa miss\u00e3o lhe condenava e lhe privava dessa gra\u00e7a.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">De fato, n\u00e3o nos podemos salvar sem os outros. Ao ponto de dizer ter-se feito fraco com os fracos, pecador com os pecadores, para poder mostrar a Gra\u00e7a Salvadora de Cristo&#8230; &#8220;Ai de mim, se eu n\u00e3o anunciar a boa not\u00edcia da Salva\u00e7\u00e3o!&#8221; E afirma que n\u00e3o o faz por iniciativa pr\u00f3pria, nem por qualquer recompensa, mas por mandato do pr\u00f3prio Cristo. Na medida que anuncio sua Salva\u00e7\u00e3o, &#8220;Ele me faz participante dela&#8221;. Cristo \u00e9 a raz\u00e3o da sua vida. Com Ele se identifica no sofrimento e na morte, para com Ele tamb\u00e9m ressuscitar. S\u00f3 este otimismo evang\u00e9lico pode fazer maravilhosa nossa vida. Somos um sonho cujo despertar \u00e9 nossa Ressurrei\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Mc. 1,29-35. &#8220;JESUS CUROU MUITOS DOENTES DE DIVERSAS ENFERMIDADES&#8221;.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Ap\u00f3s ter anunciado a boa not\u00edcia da Salva\u00e7\u00e3o na sinagoga de Cafarnaum (que significa terra da consola\u00e7\u00e3o), foi \u00e0 casa de Pedro, onde encontrou sua sogra acamada com febre muito alta. &#8220;Tomando-a da m\u00e3o, a levantou&#8221;. A not\u00edcia logo correu pela cidade e &#8220;todos vinham para serem curados das suas doen\u00e7as&#8221;&#8230; Nada mais natural. Tudo quanto n\u00f3s desejamos neste mundo \u00e9 termos sa\u00fade. A procuramos nos hospitais e nas Igrejas, nos m\u00e9dicos e nos curandeiros. Mas Cristo disse aos seus disc\u00edpulos: &#8220;vamos para outras aldeias e povoados, a fim de pregar tamb\u00e9m ali, pois para isso \u00e9 que eu vim&#8221;. A Salva\u00e7\u00e3o, cura de todos nossos males, nos \u00e9 dada como promessa a ser realizada plenamente no dia da nossa Ressurrei\u00e7\u00e3o. Os milagres apenas s\u00e3o &#8220;sinais&#8221; da Mesma. Cristo veio para nos anunciar a boa not\u00edcia de que seremos salvos do sofrimento, do pecado e da morte, promessa j\u00e1 realizada em favor de toda a cria\u00e7\u00e3o, sendo o ser humano o primeiro a participar dela no dia da morte pessoal de cada um. A seguir, vir\u00e3o todas as gera\u00e7\u00f5es futuras e, finalmente, todo universo, sujeito \u00e0 caducidade e ao mal.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">&#8220;O Senhor cuida de nossos sofrimentos e conta o n\u00famero das estrelas&#8221; (Sl.146). A Salva\u00e7\u00e3o \u00e9 humana e c\u00f3smica. Jesus de Nazar\u00e9 tem de ser confessado como nosso verdadeiro Deus para depositar nele nossa \u00fanica esperan\u00e7a de vida e de Salva\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Nossa esperan\u00e7a \u00e9 feliz, segura e certa.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Um monge o explicava assim: Certo homem tinha ca\u00eddo num po\u00e7o do qual n\u00e3o podia sair. Passou um budista e lhe disse para se esfor\u00e7ar para subir. Um disc\u00edpulo de Conf\u00facio, limitou-se a deix\u00e1-lo pois era o seu merecido. Mas Cristo o viu ca\u00eddo e sem nada dizer, pegou sua m\u00e3o e o tirou daquele po\u00e7o. &#8220;Eu virei, nos disse, e os levarei comigo ao meu Reino&#8221;.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Finalmente sairemos deste po\u00e7o de dor, do pecado e da morte para termos a Vida Eterna e feliz em Deus.&#8221;Felizes os que sofrem, porque ser\u00e3o consolados&#8221;.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Padre Jesus Priante<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Espanha<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">(Edi\u00e7\u00e3o e t\u00edtulo por Malcolm Forest. S\u00e3o Paulo.)<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>CARTAS DO PADRE JESUS PRIANTE \u00a0 \u00a0 As leituras deste domingo mostram-nos o grande problema existencial do sofrimento. Por que sofremos? 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