{"id":65245,"date":"2020-12-18T09:38:19","date_gmt":"2020-12-18T12:38:19","guid":{"rendered":"https:\/\/catolicanet.net\/wp-cnet\/?p=65245"},"modified":"2020-12-18T09:39:24","modified_gmt":"2020-12-18T12:39:24","slug":"terceira-pregacao-de-advento-texto-integral","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/catolicanet.net\/wp-cnet\/terceira-pregacao-de-advento-texto-integral\/","title":{"rendered":"Terceira prega\u00e7\u00e3o de Advento &#8211; texto integral"},"content":{"rendered":"<div class=\"article__subTitle\" style=\"text-align: justify;\">\u201c\u00d3 Rei das na\u00e7\u00f5es. Desejado dos povos; \u00d3 Pedra angular, que os opostos unis: Oh, vinde e salvai este homem t\u00e3o fr\u00e1gil, que um dia criastes do barro da terra!\u201d . Vinde e reerguei a humanidade extenuada pela longa prova desta pandemia.<\/div>\n<div class=\"title__separator\" style=\"text-align: justify;\"><\/div>\n<div class=\"article__text \">\n<p style=\"text-align: justify;\">Fr. Raniero Cantalamessa, OFMCap.<\/p>\n<p><iframe loading=\"lazy\" title=\"December 18 2020,  Meditations for Advent given by Cardinal Raniero Cantalamessa, O.F.M. Cap.\" width=\"696\" height=\"392\" src=\"https:\/\/www.youtube.com\/embed\/opMnOLx7URU?feature=oembed\" frameborder=\"0\" allow=\"accelerometer; autoplay; clipboard-write; encrypted-media; gyroscope; picture-in-picture\" allowfullscreen><\/iframe><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\u201cVeio morar entre n\u00f3s\u201d<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Terceira prega\u00e7\u00e3o do Advento de 2020<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">&#8220;Entre voc\u00eas existe um que voc\u00ea n\u00e3o conhece!&#8221; \u00c9 o grito triste de Jo\u00e3o Batista ouvido no Evangelho do Terceiro Domingo do Advento que gostar\u00edamos de receber neste \u00faltimo encontro antes do Natal.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Na memor\u00e1vel mensagem \u201c<i>Urbi et orbi<\/i>\u201d de 27 de mar\u00e7o passado na Pra\u00e7a S\u00e3o Pedro, ap\u00f3s ter lido o evangelho da tempestade acalmada, o Santo Padre se perguntava em que consistia a \u201cpouca f\u00e9\u201d que Jesus censurava nos disc\u00edpulos, e explicava:<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">N\u00e3o \u00e9 que deixaram de crer N\u2019Ele, pois invocam-No; mas vejamos como O invocam: \u201cMestre, n\u00e3o te importas que pere\u00e7amos?\u201d (Mc 4,38).\u00a0<i>N\u00e3o te importas<\/i>: pensam que Jesus Se tenha desinteressado deles, n\u00e3o cuide deles. Entre n\u00f3s, nas nossas fam\u00edlias, uma das coisas que mais d\u00f3i \u00e9 ouvirmos dizer: \u201cN\u00e3o te importas de mim\u201d. \u00c9 uma frase que fere e desencadeia turbul\u00eancia no cora\u00e7\u00e3o. Ter\u00e1 abalado tamb\u00e9m Jesus, pois n\u00e3o h\u00e1 ningu\u00e9m que se importe mais de n\u00f3s do que Ele.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Podemos perceber tamb\u00e9m uma outra nuance na reprova\u00e7\u00e3o de Jesus. Eles n\u00e3o tinham entendido quem era que estava com eles no barco; n\u00e3o tinham entendido que, com ele dentro, o barco n\u00e3o podia afundar porque Deus n\u00e3o pode perecer. N\u00f3s, disc\u00edpulos de hoje, cometeremos o mesmo erro dos ap\u00f3stolos e mereceremos a mesma reprova\u00e7\u00e3o de Jesus se, na violenta tempestade que se abateu sobre o mundo com a pandemia, n\u00f3s nos esquec\u00eassemos que n\u00e3o estamos s\u00f3s no barco e \u00e0 deriva nas ondas.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">A festa do Natal nos permite alargar o horizonte: do mar da Galileia ao mundo inteiro, dos ap\u00f3stolos a n\u00f3s: \u201cE a Palavra se fez carne e veio morar entre n\u00f3s\u201d (Jo 1,14). O verbo grego no aoristo,\u00a0<i>eskenosen\u00a0<\/i>(literalmente, \u201cfincou a tenda\u201d), expressa a ideia de uma a\u00e7\u00e3o cumprida e irrevers\u00edvel. O Filho de Deus desceu sobre esta terra e Deus n\u00e3o pode perecer. O crist\u00e3o pode proclamar com raz\u00e3o mais forte do que a do salmista:<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Deus \u00e9 nosso ref\u00fagio e fortaleza,<br \/>\nsocorro sempre encontrado nos perigos.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Por isso, n\u00e3o temeremos, se a terra tremer,<br \/>\ne se as montanhas afundarem no mar (&#8230;).<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Deus est\u00e1 em seu meio, ela n\u00e3o se abalar\u00e1 (Sl 46,2-4).<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\u201cDeus est\u00e1 conosco\u201d, isto \u00e9, est\u00e1 do lado do homem, \u00e9 seu amigo e aliado contra as for\u00e7as do mal. Devemos reencontrar o significado primordial e simples da encarna\u00e7\u00e3o do Verbo, para al\u00e9m de todas as explica\u00e7\u00f5es teol\u00f3gicas e dos dogmas constru\u00eddos sobre ela. Deus veio habitar em nosso meio! Quis fazer deste evento o seu nome pr\u00f3prio: Emanuel, Deus-conosco. O que Isa\u00edas profetizara, \u201cA virgem ficar\u00e1 gr\u00e1vida e dar\u00e1 \u00e0 luz um filho, e lhe por\u00e1 o nome de Emanuel (Is 7,14), tornou-se fato realizado.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Devemos, eu dizia, remetermo-nos para antes de todas as controv\u00e9rsias cristol\u00f3gicas do V s\u00e9culo \u2013 para antes dos conc\u00edlios de \u00c9feso e Calced\u00f4nia \u2013 para reencontrar o paradoxo e o esc\u00e2ndalo encerrados na afirma\u00e7\u00e3o: \u201cA Palavra se fez carne\u201d. \u00c9 interessante voltar a escutar a rea\u00e7\u00e3o de um pag\u00e3o culto do II s\u00e9culo, que veio a tomar conhecimento daquela afirma\u00e7\u00e3o dos crist\u00e3os. \u201cFilho de Deus \u2013 exclamava o fil\u00f3sofo Celso, horrorizado \u2013 um homem vivido h\u00e1 poucos anos?\u201d Logos eterno, algu\u00e9m \u201cde ontem ou anteontem?\u201d, um homem \u201cnascido em um lugarejo da Judeia, de uma pobre fiandeira?\u201d[1]. N\u00e3o admira. A uni\u00e3o perfeita da divindade e da humanidade na pessoa de Cristo era a maior de todas as novidades poss\u00edveis, &#8220;a \u00fanica coisa nova debaixo do sol&#8221;, como o define S\u00e3o Jo\u00e3o Damasceno.[2]<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">A primeira grande batalha que a f\u00e9 em Cristo teve que encarar n\u00e3o foi aquela acerca de sua divindade, mas sobre sua humanidade e a verdade da encarna\u00e7\u00e3o. \u00c0 origem desta recusa, estava o dogma de Plat\u00e3o, segundo o qual \u201cnenhum Deus se mistura ao homem\u201d[3]. Santo Agostinho descobriu, por experi\u00eancia pr\u00f3pria, a raiz \u00faltima da dificuldade em crer na encarna\u00e7\u00e3o, ou seja, a falta de humildade. \u201cN\u00e3o sendo humilde \u2013 escreve nas\u00a0<i>Confiss\u00f5es<\/i>\u00a0\u2013 eu n\u00e3o compreendia a humildade de Deus\u201d[4].<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">A sua experi\u00eancia nos ajuda a entender a raiz \u00faltima do ate\u00edsmo moderno e nos indica o \u00fanico modo poss\u00edvel para super\u00e1-lo. A partir de Hermann Samuel Reimarus no s\u00e9culo XVIII, tudo foi um assalto \u00e0 verdade hist\u00f3rica do Evangelho e \u00e0 divindade de Cristo. Jesus disse: \u201cEu sou o caminho, a verdade e a vida. Ningu\u00e9m vai ao Pai sen\u00e3o por mim\u201d (Jo 14,6). Uma vez declarada intransit\u00e1vel esta \u00fanica via de acesso a Deus, foi f\u00e1cil passar primeiro ao de\u00edsmo e, em seguida, ao ate\u00edsmo.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">A experi\u00eancia de Agostinho \u2013 eu dizia \u2013 indica tamb\u00e9m a via para superar o obst\u00e1culo: depor o orgulho e aceitar a humildade de Deus. \u201cEu te louvo, Pai, Senhor do c\u00e9u e da terra, porque escondeste estas coisas aos s\u00e1bios e entendidos e as revelaste aos pequeninos\u201d (Mt 11,25): toda a hist\u00f3ria da incredulidade humana \u00e9 explicada por estas palavras de Cristo. A humildade fornece a chave para entender a encarna\u00e7\u00e3o. \u00c9 preciso pouca for\u00e7a para expor-se; \u00e9 preciso muita, ao contr\u00e1rio, para colocar-se de lado e se apagar. Deus \u00e9 esta for\u00e7a ilimitada de oculta\u00e7\u00e3o de si mesmo: \u201cMas esvaziou-se, assumindo a forma de servo&#8230; Humilhou-se, fazendo-se obediente at\u00e9 a morte\u201d (Fl 2,7-8).<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Deus \u00e9 amor, por isso \u00e9 humildade! O amor cria depend\u00eancia da pessoa amada, uma depend\u00eancia que n\u00e3o humilha, mas torna felizes. As duas frases \u201cDeus \u00e9 amor\u201d e \u201cDeus \u00e9 humildade\u201d, s\u00e3o como dois lados da mesma moeda. Mas o que significa a palavra humildade aplicada a Deus e em que sentido Jesus pode dizer: \u201cAprendei de mim, porque sou manso e humilde de cora\u00e7\u00e3o\u201d (Mt 11,29)? A explica\u00e7\u00e3o \u00e9 que a humildade essencial n\u00e3o consiste no\u00a0<i>ser<\/i>\u00a0pequeno (pode-se ser pequeno sem, de fato, ser humilde); n\u00e3o consiste no\u00a0<i>considerar-se<\/i>\u00a0pequeno (isso pode depender de uma m\u00e1 ideia de si mesmo); n\u00e3o consiste em\u00a0<i>proclamar-se<\/i>\u00a0pequeno (pode-se diz\u00ea-lo sem cr\u00ea-lo); consiste em\u00a0<i>fazer-se<\/i>\u00a0pequeno e fazer-se pequeno por amor, para elevar os demais. Neste sentido, realmente humilde \u00e9 somente Deus.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Quem \u00e9 como o Senhor, o nosso Deus, que reina em seu trono nas alturas,<br \/>\nmas se inclina para contemplar o que acontece nos c\u00e9us e na terra?<br \/>\nEle levanta do p\u00f3 o necessitado e ergue do lixo o pobre (Sal 113, 5-7).<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Tinha-o compreendido, sem muitos estudos, Francisco de Assis, que, em seus \u201cLouvores a Deus Alt\u00edssimo\u201d, em um certo ponto, voltado para Deus, diz: \u201cV\u00f3s sois humildade!\u201d, e em sua \u201cCarta a toda a Ordem\u201d, exclama: \u201cVede, irm\u00e3os, a humildade de Deus\u201d[5]. Eis que se humilha \u2013 escreve em uma de suas Admoesta\u00e7\u00f5es \u2013 diariamente, como quando veio do trono real ao \u00fatero da Virgem\u201d[6].<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">O Natal \u00e9 a festa da humildade de Deus. Para celebr\u00e1-la em esp\u00edrito e verdade, devemos nos fazer pequenos, como devemos nos abaixar para entrar pela porta estreita que d\u00e1 acesso \u00e0 Bas\u00edlica da Natividade em Bel\u00e9m.<\/p>\n<h2 style=\"text-align: justify;\">\u201cNo meio de v\u00f3s est\u00e1 quem n\u00e3o conheceis!\u201d<\/h2>\n<p style=\"text-align: justify;\">Mas voltemos ao cora\u00e7\u00e3o do mist\u00e9rio: \u201cE a Palavra se fez carne e veio morar entre n\u00f3s\u201d. Deus est\u00e1 conosco, irrevogavelmente. Isto \u00e9, de agora em diante, o objeto central da profecia crist\u00e3. Zacarias sa\u00fada o Precursor chamando-o \u201cprofeta do Alt\u00edssimo\u201d (Lc 1,76) e Jesus diz que ele \u00e9 \u201cmuito mais que profeta\u201d (Mt 11,9). Mas em que sentido Jo\u00e3o Batista \u00e9 um profeta? Onde est\u00e1 a profecia, em seu caso? Os profetas b\u00edblicos anunciavam uma salva\u00e7\u00e3o futura; Jo\u00e3o Batista n\u00e3o anuncia uma salva\u00e7\u00e3o futura; aponta, ao contr\u00e1rio, para algu\u00e9m que est\u00e1 presente ali, diante dele. Os profetas antigos ajudavam o povo a ultrapassar a barreira do tempo; Jo\u00e3o Batista ajuda o povo a ultrapassar a barreira, ainda mais espessa, das apar\u00eancias contr\u00e1rias. O Messias t\u00e3o esperado \u2013 aguardado pelos patriarcas, anunciado pelos profetas, cantado pelos salmos \u2013 seria, portanto, aquele homem de aspecto e origens t\u00e3o humildes e ordin\u00e1rias, do qual tudo se sabe, inclusive o vilarejo de origem?<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\u00c9 relativamente f\u00e1cil acreditar em algo de grandioso e divino, quando se projeta em um futuro indefinido: \u201cnaqueles das\u201d, \u201cnos \u00faltimos tempos\u201d, em uma paisagem c\u00f3smica, com os c\u00e9us que orvalham do\u00e7ura e a terra que se abre para germinar o Salvador (cf. Is 45,8). \u00c9 mais dif\u00edcil quando se deve dizer: \u201cEi-lo! \u00c9 ele!\u201d. O homem \u00e9 tentado a logo dizer: S\u00f3 isso? \u201cDe Nazar\u00e9 pode sair algo de bom?\u201d (Jo 1,46); \u201cEste, por\u00e9m, n\u00f3s sabemos de onde \u00e9\u201d (Jo 7,27).<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Este era um dever prof\u00e9tico sobre-humano, e se entende porque o Precursor \u00e9 definido \u201cmuito mais que profeta\u201d. Ele \u00e9 o homem que aponta para uma pessoa e pronuncia um perempt\u00f3rio \u201c<i>Eis<\/i>, Ei-lo! \u201cEis o Cordeiro de Deus!\u201d (Jo 1,29). Que calafrio deve ter experimentado o corpo daqueles que receberam por primeiro tal revela\u00e7\u00e3o. Uma poderosa a\u00e7\u00e3o do Esp\u00edrito Santo acompanhava as palavras do Precursor e revelava tal verdade aos cora\u00e7\u00f5es bem dispostos. Passado e futuro, espera e cumprimento se encontravam. O arco voltaico da hist\u00f3ria da salva\u00e7\u00e3o se fechava.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Creio que Jo\u00e3o Batista nos deixou o seu mesmo dever prof\u00e9tico: continuar a gritar: \u201cNo meio de v\u00f3s est\u00e1 quem n\u00e3o conheceis!\u201d (Jo 1,26). Ele inaugurou a nova profecia que n\u00e3o consiste \u2013 eu dizia \u2013 em anunciar uma salva\u00e7\u00e3o futura, mas em revelar a presen\u00e7a de Cristo na hist\u00f3ria: \u201cEis que estou convosco todos os dias, at\u00e9 o fim dos tempos\u201d (Mt 28,20). Cristo n\u00e3o est\u00e1 presente na hist\u00f3ria somente porque se escrive e se fala continuamente dele, mas porque ressuscitou e vive segundo o Esp\u00edrito. N\u00e3o s\u00f3 intencionalmente, mas realmente. A evangeliza\u00e7\u00e3o come\u00e7a a partir da\u00ed.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">No tempo do Batista, o que criava dificuldade era o corpo f\u00edsico de Jesus, a sua carne t\u00e3o semelhante \u00e0 nossa, exceto o pecado. Hoje, \u00e9 sobretudo o seu corpo m\u00edstico, a Igreja, a criar dificuldade e a escandalizar. T\u00e3o semelhante ao resto da humanidade, n\u00e3o exclu\u00eddo nem mesmo o pecado! Como o Precursor fez reconhecer Cristo sob a humildade da carne aos seus contempor\u00e2neos, assim \u00e9 necess\u00e1rio faz\u00ea-lo reconhecer hoje na pobreza e na mis\u00e9ria da sua Igreja, e na pobreza e mis\u00e9ria da nossa pr\u00f3pria vida.<\/p>\n<h2 style=\"text-align: justify;\">O que Paulo acrescenta a Jo\u00e3o<\/h2>\n<p style=\"text-align: justify;\">Mas devemos acrescentar algo ao que foi dito at\u00e9 aqui. N\u00e3o importa, de fato, apenas saber que\u00a0<i>Deus se fez homem<\/i>; importa saber tamb\u00e9m\u00a0<i>que tipo de homem Deus se fez<\/i>. \u00c9 significativo o modo diverso e complementar em que Jo\u00e3o e Paulo descrevem, cada qual, o evento da encarna\u00e7\u00e3o. Para Jo\u00e3o, ela consiste no fato de que a Palavra era Deus e se fez carne (cf. Jo 1,1-14); para Paulo, no fato de que \u201cCristo, existindo em forma divina, assumiu a forma de servo\u201d (cf. Fl 2,5ss.). Para Jo\u00e3o, a Palavra, sendo Deus, fez-se homem; para Paulo, \u201cCristo, de rico que era, tornou-se pobre\u201d (cf. 2Cor 8,9).<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">A distin\u00e7\u00e3o entre o\u00a0<i>fato<\/i>\u00a0da encarna\u00e7\u00e3o e o\u00a0<i>modo<\/i>\u00a0dela, entre a sua dimens\u00e3o ontol\u00f3gica e aquela existencial, interessa-nos porque lan\u00e7a uma luz singular sobre o problema atual da pobreza e da postura dos crist\u00e3os em rela\u00e7\u00e3o a ela. \u00c9 de ajuda dar um fundamento b\u00edblico e teol\u00f3gico \u00e0 op\u00e7\u00e3o preferencial pelos pobres, proclamada no Conc\u00edlio Vaticano II. \u201cOs Padres conciliares \u2013 escreveu Jean Guitton, observador leigo no Vaticano II \u2013 reencontraram o sacramento da pobreza, isto \u00e9, a presen\u00e7a de Cristo sob as esp\u00e9cies daqueles que sofrem\u201d[7].<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">O \u201csacramento<i>\u201d<\/i>\u00a0da pobreza! S\u00e3o palavras fortes, mas fundamentadas. Se, de fato, pelo\u00a0<i>fato<\/i>\u00a0da encarna\u00e7\u00e3o, a Palavra, em certo sentido, assumiu cada homem (assim pensavam alguns Padres gregos), pelo\u00a0<i>modo<\/i>\u00a0em que ela se realizou, ele assumiu, em um t\u00edtulo todo particular, o pobre, o humilde, o sofredor. \u201cInstituiu\u201d este sinal, como instituiu a Eucaristia. Assim, aquele que pronunciou sobre o p\u00e3o as palavras: \u201cIsto \u00e9 o meu corpo\u201d, pronunciou as mesmas palavras tamb\u00e9m sobre os pobres. Ele o fez quando, falando do que se fez \u2013 ou se deixou de fazer \u2013 pelo faminto, pelo sedento, pelo prisioneiro, pelo nu e pelo exilado, declarou solenemente: \u201cFoi a mim que o fizestes\u201d e \u201cFoi a mim que o deixastes de fazer\u201d (Mt 25,31ss).<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Tiremos a consequ\u00eancia que deriva de tudo isso no plano da eclesiologia. S\u00e3o Jo\u00e3o XXIII, por ocasi\u00e3o do Conc\u00edlio, cunhou a express\u00e3o \u201cIgreja dos pobres\u201d[8]. Ela se reveste de um significado que vai al\u00e9m daquele que comumente se entende. A Igreja dos pobres n\u00e3o \u00e9 constitu\u00edda apenas pelos pobres da Igreja! Em certo sentido, todos os pobres do mundo \u2013 sejam eles batizados ou n\u00e3o \u2013 pertencem a ela. \u201cMas \u2013 contesta-se \u2013 n\u00e3o tiveram a f\u00e9, nem receberam o batismo!\u201d. \u00c9 verdade, mas nem mesmo os Santos Inocentes, que festejamos depois do Natal, tinham-no recebido. Sua pobreza e sofrimento, se isentos de culpa, aos olhos de Deus, s\u00e3o seu batismo de sangue. Deus tem muitas maneiras de salvar, mais do que possamos imaginar, ainda que estas maneiras \u2013 sem exce\u00e7\u00e3o \u2013 \u201cpor um modo s\u00f3 por Deus conhecido\u201d[9], passam por meio de Cristo.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Os pobres s\u00e3o \u201cde Cristo\u201d, n\u00e3o porque se declaram pertencentes a ele, mas porque ele os declarou pertencentes a si, declarou-os seu corpo. Isto n\u00e3o quer dizer que basta ser pobre e faminto neste mundo para entrar automaticamente no reino final de Deus. As palavras: \u201cVinde, benditos de meu Pai\u201d s\u00e3o dirigidas \u00e0queles que cuidaram dos pobres, n\u00e3o necessariamente aos pr\u00f3prios pobres, pelo simples fato de terem sido materialmente pobres em vida.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">A Igreja de Cristo \u00e9, portanto, imensamente mais vasta do que dizem os n\u00fameros e as estat\u00edsticas. N\u00e3o por simples modo de dizer, ou por triunfalismo \u2013 especialmente hoje \u2013 fora de lugar. Ningu\u00e9m, al\u00e9m de Jesus, proclamou: \u201cTodas as vezes que fizestes isso a um destes m\u00ednimos que s\u00e3o meus irm\u00e3os, foi a mim que o fizestes\u201d (Mt 25,40), onde o \u201cirm\u00e3o m\u00ednimo\u201d n\u00e3o indica apenas o fiel em Cristo, mas todo homem.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Da\u00ed deriva que o Papa \u2013 e com ele os demais pastores da Igreja \u2013 seja realmente o \u201cpai dos pobres\u201d. \u00c9 uma alegria e um est\u00edmulo para todos n\u00f3s ver o quanto este papel foi assumido pelos \u00faltimos Sumos Pont\u00edfices e, de maneira toda particular, pelo pastor que hoje senta na c\u00e1tedra de Pedro. Ele \u00e9 a voz mais fidedigna que se levanta em defesa deles, em um mundo que conhece apenas a sele\u00e7\u00e3o e o descarte. Ele, com certeza, n\u00e3o \u201cse esqueceu dos pobres\u201d! A Escritura cont\u00e9m uma b\u00ean\u00e7\u00e3o especial para quem assume o cuidado com o pobre:<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0 Feliz, quem pensa no indigente&#8230;<br \/>\nO Senhor o guardar\u00e1 e lhe preservar\u00e1 a vida,<br \/>\nh\u00e1 de faz\u00ea-lo feliz na terra,<br \/>\ne n\u00e3o o entregar\u00e1 \u00e0 f\u00faria dos seus inimigos (Sl 41,2-3).<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Sobre Maria e Jos\u00e9, l\u00ea-se no evangelho que \u201cn\u00e3o havia lugar para eles na hospedaria\u201d (Lc 2,7). Tamb\u00e9m hoje n\u00e3o h\u00e1 lugar para os pobres na hospedaria do mundo, mas a hist\u00f3ria mostrou de que lado estava Deus e de que lado deve estar a Igreja. Ir aos pobres \u00e9 imitar a humildade de Deus, \u00e9 fazer-se pequeno por amor, para elevar os que est\u00e3o abaixo.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Mas n\u00e3o nos iludamos: isso \u00e9 algo que pode ser mais f\u00e1cil dizer do que fazer. Um antigo Pai do deserto, Isaac de N\u00ednive, deu este conselho \u00e0queles que s\u00e3o for\u00e7ados pelo dever a falar de coisas espirituais que ele ainda n\u00e3o alcan\u00e7ou com vida: \u201cFale dele como algu\u00e9m que pertence \u00e0 classe dos disc\u00edpulos e n\u00e3o com autoridade, depois tendo humilhado a sua alma e feito menor do que qualquer um de seus ouvintes \u00bb[10]. E foi assim que falei sobre isso.<b>\u00a0<\/b><\/p>\n<h2 style=\"text-align: justify;\">\u201cNele faremos a nossa morada\u201d<\/h2>\n<p style=\"text-align: justify;\">\u201cE a Palavra se fez carne e veio morar entre n\u00f3s\u201d. Antes de concluir, devemos passar do plural ao singular. N\u00e3o veio genericamente ao mundo, mas pessoalmente, em cada alma que cr\u00ea. Jesus disse: \u201cSe algu\u00e9m me ama, guardar\u00e1 a minha palavra; meu Pai o amar\u00e1, e n\u00f3s viremos a ele e nele faremos a nossa morada\u201d (Jo 14,23). Portanto, Cristo n\u00e3o est\u00e1 presente apenas na barca do mundo ou da Igreja; est\u00e1 presente no pequeno barco da minha vida. Que pensamento, se consegu\u00edssemos crer realmente! Santa Isabel da Trindade a\u00ed encontrou o segredo da pr\u00f3pria santidade. \u201cParece-me \u2013 escrevia a uma amiga \u2013 ter encontrado o meu c\u00e9u aqui na terra, pois o c\u00e9u \u00e9 Deus, Deus est\u00e1 em minha alma. No dia que entendi isso, tudo se iluminou\u201d[11].<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Com as restri\u00e7\u00f5es que p\u00f5e ao culto p\u00fablico e \u00e0 frequ\u00eancia \u00e0s igrejas, a pandemia poderia ser a ocasi\u00e3o para muitos para descobrir que n\u00e3o encontramos Deus apenas indo \u00e0 Igreja; que podemos adorar Deus \u201cem esp\u00edrito e verdade\u201d e conversar com Jesus tamb\u00e9m estando fechado em casa, ou em nosso quarto. O crist\u00e3o jamais poder\u00e1 se abster da Eucaristia e da comunidade, mas, quando isto for impedido por for\u00e7a maior, n\u00e3o deve pensar que sua vida crist\u00e3 se interrompeu. Se jamais encontrou Cristo no pr\u00f3prio cora\u00e7\u00e3o, jamais o encontrar\u00e1 fora, no sentido forte do termo.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">H\u00e1 uma afirma\u00e7\u00e3o ousada sobre o Natal, que \u00e9 repetida \u00e9poca ap\u00f3s \u00e9poca, pela boca de grandes doutores e mestres espirituais da Igreja: Or\u00edgenes, Santo Agostinho, S\u00e3o Bernardo, Angelus Silesius, e v\u00e1rios outros. Substancialmente, assim reza: \u201cDe que me adianta que Cristo tenha nascido uma vez em Bel\u00e9m, de Maria, se ele n\u00e3o n\u00e3o nasce pela f\u00e9 tamb\u00e9m em meu cora\u00e7\u00e3o?\u201d[12]. \u201cOnde \u00e9 que Cristo nasce, no sentido mais profundo, sen\u00e3o em teu cora\u00e7\u00e3o e em tua alma?\u201d, escreve Santo Ambr\u00f3sio[13]. \u201cO Verbo de Deus, afirma S\u00e3o M\u00e1ximo Confessor, quer repetir em todos os homens o mi\u00adst\u00e9rio da sua encarna\u00e7\u00e3o\u201d[14]. Uma verdade, como se v\u00ea, realmente ecum\u00eanica.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Ecoando esta mesma tradi\u00e7\u00e3o, S\u00e3o Jo\u00e3o XXIII, na mensagem de Natal de 1962, elevava esta ardente ora\u00e7\u00e3o: \u201c\u00d3 Verbo eterno do Pai, Filho de Deus e de Maria, renovai tamb\u00e9m hoje, no segredo das almas, o admir\u00e1vel prod\u00edgio do vosso nascimento\u201d. Fa\u00e7amos nossa esta ora\u00e7\u00e3o, mas, na situa\u00e7\u00e3o dram\u00e1tica em que nos encontramos, acrescentemos tamb\u00e9m a ardente s\u00faplica da liturgia natal\u00edcia: \u201c\u00d3 Rei das na\u00e7\u00f5es. Desejado dos povos; \u00d3 Pedra angular, que os opostos unis: Oh, vinde e salvai este homem t\u00e3o fr\u00e1gil, que um dia criastes do barro da terra!\u201d[15]. Vinde e reerguei a humanidade extenuada pela longa prova desta pandemia.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">____________________________________________________<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Traduzido do italiano por P. Ricardo Farias, Ofmcap<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">[1] Cf. Or\u00edgenes,\u00a0<i>Contra Celso<\/i>, I,26.28; VI,10.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">[2]\u00a0<i>De fide orthodoxa<\/i>, 45.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">[3]\u00a0Cf. Plat\u00e3o,\u00a0<i>Simposio<\/i>, 203\u00ba; cf. Apuleio,\u00a0<i>De deo Socratis,<\/i>\u00a04: \u201c<i>Nullus deus miscetur ho minibus<\/i>\u201d.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">[4]\u00a0<i>Confiss\u00f5es,\u00a0<\/i>VII, 18.24).<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">[5] Carta a toda a Ordem, 28.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">[6] Admoesta\u00e7\u00f5es 1,16.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">[7] Cf. J. Guitton, citado por R. Gil,\u00a0<i>Presencia de los pobres en el concilio<\/i>, in \u201cProyecci\u00f3n\u201d 48, 1966, p. 30.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">[8] In AAS 54, 1962, p. 682.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">[9]\u00a0<i>Gaudium et spes<\/i>, 22.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">[10] Isaac de N\u00ednive<i>, Discursos asc\u00e9ticos<\/i>, 4.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">[11] Cf. Carta 107 \u00e0 Condessa De Sourdon (1902).<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">[12] Cf. Or\u00edgenes,\u00a0<i>Commento al vangelo di Luca<\/i>\u00a022,3 (SCh 87,p. 302); Angelo Silesio,\u00a0<i>Il Pellegrino cherubico<\/i>, I, 61: \u201cWird Christus tausendmal zu Bethlehem geborn \/ und nicht in dir: du bleibst noch ewiglich verlorn\u201d.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">[13] Cf. Santo Ambr\u00f3sio,\u00a0<i>In Lucam,<\/i>\u00a011,38.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">[14] Cf. S\u00e3o M\u00e1ximo Confessor,\u00a0<i>Ambigua\u00a0<\/i>(PG 91,1084).<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">[15] Ant\u00edfona das V\u00e9speras de 22 de dezembro.<\/p>\n<\/div>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>\u201c\u00d3 Rei das na\u00e7\u00f5es. Desejado dos povos; \u00d3 Pedra angular, que os opostos unis: Oh, vinde e salvai este homem t\u00e3o fr\u00e1gil, que um dia criastes do barro da terra!\u201d . Vinde e reerguei a humanidade extenuada pela longa prova desta pandemia. Fr. 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