{"id":64776,"date":"2020-11-30T10:01:00","date_gmt":"2020-11-30T13:01:00","guid":{"rendered":"https:\/\/catolicanet.net\/wp-cnet\/?p=64776"},"modified":"2020-11-30T13:16:47","modified_gmt":"2020-11-30T16:16:47","slug":"voce-sente-a-raiva-crescendo-passe-a-pelo-fogo-da-santidade","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/catolicanet.net\/wp-cnet\/voce-sente-a-raiva-crescendo-passe-a-pelo-fogo-da-santidade\/","title":{"rendered":"Voc\u00ea sente a raiva crescendo? Passe-a pelo fogo da santidade"},"content":{"rendered":"<h2 class=\"subtitle\" style=\"text-align: justify;\">Se voc\u00ea suprimir, ela explodir\u00e1.\u00a0Se voc\u00ea n\u00e3o canalizar, ela se transformar\u00e1 em \u00f3dio.\u00a0Mas coloque-a sob a prote\u00e7\u00e3o de Deus, e a raiva se tornar\u00e1 uma for\u00e7a a servi\u00e7o da vida e da justi\u00e7a!<\/h2>\n<p style=\"text-align: justify;\">O que fizemos ao bom Deus para merecer isso?\u00a0N\u00e3o \u00e9 um outdoor, n\u00e3o \u00e9 um livro, n\u00e3o \u00e9 uma escola que agora oferece sess\u00f5es de medita\u00e7\u00e3o e ioga que v\u00e3o \u201ccanalizar\u201d nossa raiva e tornar nossas vidas t\u00e3o pac\u00edficas quanto um encefalograma plano.\u00a0\u201cCruze as pernas, respire fundo, pense que voc\u00ea \u00e9 uma florzinha\u2026\u201d. Ser\u00e1 que o capit\u00e3o Haddock, dos quadrinhos Tintin, ainda poder\u00e1 nos regar com sua sua \u201cgordura de porco-espinho\u201d sem ser enviado a um sofologista imediatamente?<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Portanto, vamos come\u00e7ar este artigo sobre a raiva com um grande e vibrante fato: o Ocidente n\u00e3o esperou que a \u00c1sia exportasse suas t\u00e9cnicas Zen em navios de carga para aprender a entender e administrar a raiva.\u00a0S\u00eaneca, Arist\u00f3teles, Plutarco, C\u00edcero, Santo Agostinho, Santo Tom\u00e1s de Aquino, Montaigne\u2026 Todos eles dissertaram, debateram, odiaram tanto quanto defenderam esta paix\u00e3o.\u00a0Eles at\u00e9 a dissecaram.\u00a0No sentido pr\u00f3prio do termo.<\/p>\n<h3 style=\"text-align: justify;\">Ira<\/h3>\n<p style=\"text-align: justify;\">Os antigos acreditavam que a raiva reside no fundo de nosso ventre, entre nosso f\u00edgado e nossos intestinos.\u00a0Raiva vem do latim\u00a0<i>ira (ire),<\/i>\u00a0cujo dubleto \u00e9\u00a0<i>hira<\/i>, que significa v\u00edsceras, intestinos.\u00a0Quem nunca sentiu aquela ard\u00eancia aguda e repentina por dentro, passando pelas entranhas, revirando o est\u00f4mago e saindo impetuosamente de sua boca?\u00a0\u201c\u00c9 visceral\u201d, dizem eles.\u00a0Sim, realmente, a raiva \u00e9 o grito de nossas entranhas.\u00a0N\u00e3o \u00e9 de admirar que haja uma dist\u00e2ncia t\u00e3o curta entre raiva e c\u00f3lera, literalmente \u201cvomitamos nossa b\u00edlis\u201d.\u00a0O col\u00e9rico e o bilioso s\u00e3o\u00a0a mesma pessoa.\u00a0A analogia com este l\u00edquido amargo e verde, produzido por nosso f\u00edgado e armazenado em nossa ves\u00edcula biliar, \u00e9 muito pertinentese algu\u00e9m se der ao trabalho de abrir um bom e velho livro de biologia.\u00a0Em nosso corpo, a bile desempenha uma fun\u00e7\u00e3o dupla: ela evacua nossos res\u00edduos e age como um detergente em nosso est\u00f4mago.\u00a0Resumindo, ela nos limpa de cima a baixo.<\/p>\n<h3 style=\"text-align: justify;\"><b>O efeito \u201cpanela de press\u00e3o\u201d<\/b><\/h3>\n<p style=\"text-align: justify;\">N\u00e3o \u00e9 dif\u00edcil de identificar.\u00a0Dois minutos nos bastam.\u00a0Este \u00e9 o tempo m\u00e1ximo de que voc\u00ea precisar\u00e1 para lembrar seu \u00faltimo acesso de raiva ou o de outras pessoas.\u00a0N\u00e3o mais.\u00a0Nossa raiva raramente passa despercebida.\u00a0Ela precisa se mostrar, em todos os (cinco) sentidos da palavra, para poder existir.\u00a0Caso contr\u00e1rio, ela seriam in\u00fatil.\u00a0Alegria, medo, tristeza podem ser internos, impercept\u00edveis.\u00a0A raiva, n\u00e3o.\u00a0Mesmo se guardada, ela sai, mais cedo ou mais tarde.\u00a0Este \u00e9 o chamado efeito \u201cpanela de press\u00e3o\u201d.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Sua marca registrada \u00e9 atingir a mente das pessoas.\u00a0Quem n\u00e3o se lembra da mem\u00f3ria de um av\u00f4 furioso?\u00a0Ou de um colega que ficou vermelho de f\u00faria?\u00a0As crian\u00e7as muitas vezes s\u00e3o especialistas no assunto.\u00a0\u00c9 bem sabido que as crian\u00e7as adoram a raiva.\u00a0Elas sempre t\u00eam uma boa \u201craquete\u201d em m\u00e3os: de manh\u00e3 antes de sair para a escola, \u00e0 noite antes de ir dormir, na igreja no domingo quando todos est\u00e3o calados\u2026<\/p>\n<div class=\"nativo-inread\" style=\"text-align: justify;\"><\/div>\n<p style=\"text-align: justify;\">Essa express\u00e3o de raiva \u00e9 necess\u00e1ria.\u00a0\u00c9 uma v\u00e1lvula de escape para nossos humores, nossas frustra\u00e7\u00f5es, nossos desejos, nossas decep\u00e7\u00f5es. Em suma, todos n\u00f3s precisamos \u201cesvaziar a bolsa\u201d de bile!\u00a0A raiva \u201cpermite a cada um definir os seus limites e a sua identidade.\u00a0Ela diz \u201cn\u00e3o\u201d ao que n\u00e3o nos conv\u00e9m\u201d, explica a psicoterapeuta Isabelle Filliozat.\u00a0\u201c\u00c9 uma fonte de autoconfian\u00e7a\u201d.<\/p>\n<h3 style=\"text-align: justify;\"><b>Insepar\u00e1vel da raz\u00e3o<\/b><\/h3>\n<p style=\"text-align: justify;\">No entanto, nem toda raiva \u00e9 boa. A raiva motivada pela repara\u00e7\u00e3o de uma injusti\u00e7a n\u00e3o deve ser confundida com raiva, que \u00e9 uma rea\u00e7\u00e3o emocional violenta sem um bom motivo.\u00a0Arist\u00f3teles foi um dos primeiros a identificar os crit\u00e9rios apenas para raiva.\u00a0\u201cN\u00e3o \u00e9 a raiva em si que \u00e9 moral ou imoral, mas o uso que fazemos dela\u201d, diz ele.\u00a0A raiva \u00e9 insepar\u00e1vel da raz\u00e3o.\u00a0Sem ela, a paix\u00e3o seria boba, e n\u00f3s tamb\u00e9m.\u00a0S\u00e3o Greg\u00f3rio insiste neste ponto: \u201cEla nunca deve se desviar da raz\u00e3o e segui-la como uma escrava sempre pronta para obedec\u00ea-la\u201d.\u00a0Santo Tom\u00e1s de Aquino tamb\u00e9m disse: \u201c\u00c9 recomend\u00e1vel ficar irado de acordo com a raz\u00e3o\u201d.<\/p>\n<div id=\"article-desk-content-p6-ad_cp1_2020_11_30_voce-sente-a-raiva-crescendo-passe-a-pelo-fogo-da-santidade\" class=\"css-y9mcup\" style=\"text-align: justify;\" data-google-query-id=\"CM7FyJnVqu0CFXMAuQYdprwIRg\">\n<div id=\"google_ads_iframe_64500793\/PT_DESK_ARTICLE_WELCOME_1X1_1__container__\"><\/div>\n<\/div>\n<p style=\"text-align: justify;\">Esse \u00e9 um exerc\u00edcio muito dif\u00edcil cujo papel, continua Arist\u00f3teles, \u00e9 avaliar as condi\u00e7\u00f5es em que a raiva afirma ser exercida.\u00a0\u201cCabe a cada um julgar sua atualidade, sua intensidade, sua frequ\u00eancia;\u00a0decidir se, por exemplo, ficamos com raiva na hora certa, por motivos v\u00e1lidos, contra pessoas que merecem, por fins e em circunst\u00e2ncias que s\u00e3o satisfat\u00f3rias. Principalmente\u00a0quando sabemos que leva \u201cdoze mil\u00e9simos de segundo para reagir emocionalmente\u201d e \u201co dobro do\u00a0tempo para avaliar a situa\u00e7\u00e3o de um ponto de vista racional\u201d, entendemos que o espa\u00e7o para melhorias para raciocinar nossa raiva \u00e9 consider\u00e1vel.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Mesmo que visasse uma causa justa, nossa raiva ainda seria ruim se ca\u00edsse em uma ou outra dessas duas armadilhas: excesso e frouxid\u00e3o.\u00a0Excessiva, nossa raiva torna-se viciada causando briga, indigna\u00e7\u00e3o. Se ela for buscada para obter gl\u00f3ria para si, se ela levar \u00e0 blasf\u00eamia ou \u00e0 contumelia (palavra ou a\u00e7\u00e3o que atinge a pessoa em sua auto-estima) ent\u00e3o tamb\u00e9m \u00e9 excessiva.\u00a0\u00c9 neste sentido que a raiva \u00e9 considerada um dos sete pecados capitais.\u00a0Por outro lado, \u201cquem n\u00e3o se irrita, quando surge a necessidade, peca\u201d, afirma S\u00e3o Jo\u00e3o Cris\u00f3stomo.\u00a0Porque a paci\u00eancia, se n\u00e3o \u00e9 razo\u00e1vel, semeia v\u00edcios, promove a neglig\u00eancia e convida o mal n\u00e3o s\u00f3 aos \u00edmpios, mas tamb\u00e9m aos bons\u201d.<\/p>\n<h3 style=\"text-align: justify;\"><b>Quando a raiva se torna um servi\u00e7o para si mesmo e para os outros<\/b><\/h3>\n<p style=\"text-align: justify;\">Nossa raz\u00e3o nem sempre ser\u00e1 suficiente para dominar nossa irascibilidade.\u00a0Nossa raiva tamb\u00e9m ter\u00e1 que ser colocada no fogo do Esp\u00edrito e da f\u00e9 para se livrar de suas impurezas.\u00a0Isso \u00e9 o que a pensadora protestante Lytta Basset chama de ira sagrada.\u00a0\u201cUma raiva sagrada \u00e9 uma raiva saud\u00e1vel\u201d, explica ela em seu livro\u00a0<i>Holy Anger\u00a0<\/i>(Raiva Sagrada em tradu\u00e7\u00e3o livre; Ed. Labor e Fides).\u00a0Ou seja, a justa luta pela vida dos outros e pela nossa.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Um exemplo poderia ser: \u201cRecuso me enraivecer\u201d em tal ou tal circunst\u00e2ncia;\u00a0ou para manter uma escolha ou um projeto que consideramos justo e necess\u00e1rio para o bem comum.\u00a0Orientada para a justi\u00e7a, esta raiva saud\u00e1vel \u201cd\u00e1 ao homem acesso ao seu n\u00facleo duro, a esta semente indestrut\u00edvel de vida, algo que resiste no fundo, e este algo est\u00e1 relacionado com o Deus santo\u201d.\u00a0A raiva se torna um servi\u00e7o para si mesmo e para os outros, e n\u00e3o um abuso.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Mas esta convers\u00e3o da raiva, potencialmente destrutiva, nesta for\u00e7a vital, s\u00f3 \u00e9 poss\u00edvel se aceitarmos nos entregar a n\u00f3s mesmos, e a nossa raiva junto, nas m\u00e3os de nosso Criador.\u00a0E desistir de todo desejo de vingan\u00e7a.\u00a0\u201cUma c\u00f3lera sagrada n\u00e3o \u00e9 uma apropria\u00e7\u00e3o da ira de Deus que nos faz acreditar numa miss\u00e3o divina contra os outros\u201d, avisa Lytta Basset.\u00a0Al\u00e9m disso, \u00e9 inconceb\u00edvel comparar nossa raiva com a do Ju\u00edzo Final\u00a0<i>\u2013 o Dies irae<\/i>\u00a0ou o dia da ira \u2013 quando Deus far\u00e1 sua justi\u00e7a.<\/p>\n<h3 style=\"text-align: justify;\"><b>Confronto ao inv\u00e9s de indiferen\u00e7a<\/b><\/h3>\n<p style=\"text-align: justify;\">\u201cDeus n\u00e3o se preocupa com nenhuma paix\u00e3o\u201d, diz Santo Agostinho.\u00a0A ira de Deus n\u00e3o \u00e9 para ele uma perturba\u00e7\u00e3o da alma, mas o julgamento que inflige como puni\u00e7\u00e3o ao pecado.\u00a0\u201cUma c\u00f3lera sagrada \u00e9 uma c\u00f3lera que foi depositada naquele que nunca renuncia \u00e0 necessidade de justi\u00e7a [\u2026].\u00a0Se ela desistiu de se apropriar da ira de Deus, \u00e9 porque consentiu na passagem da espada, pois \u00e9 o Senhor quem julgar\u00e1 o seu povo, n\u00e3o n\u00f3s\u201d. S\u00e3o Paulo nos encoraja a fazer isso: \u201cN\u00e3o vos vingueis uns dos outros, car\u00edssimos, mas deixai agir a ira de Deus, porque est\u00e1 escrito: A mim a vingan\u00e7a; a mim exercer a justi\u00e7a, diz o Senhor\u201d (Rm 12,19).<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Passar a raiva pelo o fogo da santidade tamb\u00e9m significa recusar-se a romper o relacionamento com os outros.\u00a0\u00c9 preferir o confronto \u00e0 indiferen\u00e7a.\u00a0\u201cSe fico zangada com meu irm\u00e3o, \u00e9 porque acredito no m\u00ednimo em sua humanidade, ou seja, em sua capacidade de caminhar\u201d, escreveu Lytta Basset.\u00a0Esse v\u00ednculo mantido, mesmo na tempestade, \u00e9 o \u00fanico que leva ao perd\u00e3o.\u00a0\u201cN\u00e3o se ponha o sol sobre a tua ira\u201d, escreve novamente S\u00e3o Paulo (Ef 4, 26).\u00a0Em vez de simplesmente voltar \u00e0 calma, seria melhor ensinar uma \u00e9tica, a da clem\u00eancia, que age como um verdadeiro \u201cmoderador\u201d de nossa raiva.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Se voc\u00ea suprimir, ela explodir\u00e1.\u00a0Se voc\u00ea n\u00e3o canalizar, ela se transformar\u00e1 em \u00f3dio.\u00a0Mas coloque-a sob a prote\u00e7\u00e3o de Deus, e a raiva se tornar\u00e1 uma for\u00e7a a servi\u00e7o da vida e da justi\u00e7a! 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