{"id":64188,"date":"2020-11-10T09:51:24","date_gmt":"2020-11-10T12:51:24","guid":{"rendered":"https:\/\/catolicanet.net\/wp-cnet\/?p=64188"},"modified":"2020-11-10T15:53:15","modified_gmt":"2020-11-10T18:53:15","slug":"o-relatorio-sobre-mccarrick-pagina-dolorosa-da-qual-a-igreja-aprende","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/catolicanet.net\/wp-cnet\/o-relatorio-sobre-mccarrick-pagina-dolorosa-da-qual-a-igreja-aprende\/","title":{"rendered":"O Relat\u00f3rio sobre McCarrick, p\u00e1gina dolorosa da qual a Igreja aprende"},"content":{"rendered":"<p style=\"text-align: justify;\"><span class=\"didascalia_img\">Theodore McCarrick\u00a0 (2010 Getty Images)<\/span><\/p>\n<div class=\"article__subTitle\" style=\"text-align: justify;\">Uma leitura do dossi\u00ea publicado pela Secretaria de Estado, com os documentos e os testemunhos que contam o caso do ex-cardeal arcebispo de Washington demitido do estado clerical.<\/div>\n<div class=\"title__separator\" style=\"text-align: justify;\"><\/div>\n<div class=\"article__text \">\n<p style=\"text-align: justify;\"><b>ANDREA TORNIELLI<\/b><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">No momento da nomea\u00e7\u00e3o do arcebispo para Washington Theodore McCarrick,\u00a0no ano 2000, a Santa S\u00e9 agiu baseada em informa\u00e7\u00f5es parciais e incompletas. Verificaram-se, infelizmente, omiss\u00f5es e desconsidera\u00e7\u00f5es, foram feitas escolhas que se demonstraram erradas, mesmo porque, durante as verifica\u00e7\u00f5es na \u00e9poca solicitadas por Roma, nem sempre as pessoas interrogadas contaram tudo o que sabiam. At\u00e9 2017 nenhuma acusa\u00e7\u00e3o fundamentada jamais disse respeito a abusos ou ass\u00e9dios contra menores: assim que chegou a primeira den\u00fancia de uma v\u00edtima menor na \u00e9poca dos fatos, o Papa Francisco agiu de modo r\u00e1pido e decidido em rela\u00e7\u00e3o ao anci\u00e3o cardeal j\u00e1 retirado da condu\u00e7\u00e3o da arquidiocese desde 2006, primeiro, tirando-lhe a p\u00farpura e, depois, demitindo-o do estado clerical. \u00c9 o que emerge do\u00a0<i>Relat\u00f3rio sobre o conhecimento institucional e o processo decis\u00f3rio da Santa em rela\u00e7\u00e3o a Theodore Edgar McCarrick (de 1930 a 2017)<\/i>\u00a0publicado pela Secretaria de Estado.<\/p>\n<h2 style=\"text-align: justify;\">Uma resposta pontual<\/h2>\n<p style=\"text-align: justify;\">O Relat\u00f3rio em si, por sua extens\u00e3o e por seus conte\u00fados, responde de modo pontual \u00e0quele compromisso, assumido na \u00e9poca pelo Papa Francisco, de investigar cabalmente o caso McCarrick, e de publicar os resultados das investiga\u00e7\u00f5es. O Relat\u00f3rio representa tamb\u00e9m um ato de solicitude e cuidado pastoral do Papa para com a comunidade cat\u00f3lica estadunidense, ferida e desorientada pelo fato de McCarrick ter conseguido alcan\u00e7ar posi\u00e7\u00f5es t\u00e3o elevadas na hierarquia. A investiga\u00e7\u00e3o realizada nestes dois anos, teve in\u00edcio no final do ver\u00e3o de 2018, durante semanas de not\u00e1vel tens\u00e3o, culminadas no discurso do ex-n\u00fancio apost\u00f3lico em Washington Carlo Maria Vigan\u00f2, que atrav\u00e9s de uma opera\u00e7\u00e3o midi\u00e1tica internacional, chegou a pedir publicamente a ren\u00fancia do atual Pont\u00edfice.<\/p>\n<h2 style=\"text-align: justify;\">A aus\u00eancia de acusa\u00e7\u00f5es de abusos contra menores at\u00e9 2017<\/h2>\n<p style=\"text-align: justify;\">A for\u00e7a do\u00a0<i>Relat\u00f3rio<\/i>\u00a0est\u00e1 certamente na sua inteireza, mas tamb\u00e9m na vis\u00e3o de conjunto que oferece. E da vis\u00e3o de conjunto aparecem alguns pontos nodais os quais \u00e9 importante tomar em considera\u00e7\u00e3o. O primeiro diz respeito aos erros cometidos, que j\u00e1 levaram \u00e0 aprova\u00e7\u00e3o de novas normas na Igreja, para evitar que a hist\u00f3ria se repita. Um segundo elemento diz respeito \u00e0 aus\u00eancia, at\u00e9 2017, de acusa\u00e7\u00f5es fundamentadas concernentes a abusos contra menores cometidos por McCarrick. \u00c9 verdade que nos anos Noventa algumas cartas an\u00f4nimas que tinham chegado a cardeais e \u00e0 nunciatura de Washington acenaram a isso, mas sem fornecer ind\u00edcios, nomes, circunst\u00e2ncias: foram, infelizmente, consideradas n\u00e3o cr\u00edveis, precisamente porque faltavam elementos concretos. De fato, a primeira acusa\u00e7\u00e3o fundamentada que envolva menores \u00e9 de tr\u00eas anos atr\u00e1s, que levou \u00e0 imediata abertura de um processo can\u00f4nico, conclu\u00eddo com as duas sucessivas decis\u00f5es do Papa Francisco, o qual, primeiro, tirou a p\u00farpura do cardeal em\u00e9rito e, em seguida, o demitiu do estado clerical. Deve-se reconhecer \u00e0s pessoas que se apresentaram para denunciar McCarrick, durante toda a realiza\u00e7\u00e3o do processo can\u00f4nico, o m\u00e9rito de ter permitido que a verdade viesse \u00e0 luz e a gratid\u00e3o por terem feito isso, superando a dor da recorda\u00e7\u00e3o do que tinham sofrido.<\/p>\n<h2 style=\"text-align: justify;\">A averigua\u00e7\u00e3o antes da viagem do Papa<\/h2>\n<p style=\"text-align: justify;\">Resulta do\u00a0<i>Relat\u00f3rio<\/i>\u00a0que tanto no momento da primeira candidatura ao episcopado (1977) quanto no momento das nomea\u00e7\u00f5es a Metuchen (1981) e depois a Newask (1986), nenhuma das pessoas consultadas para obter informa\u00e7\u00f5es forneceu indica\u00e7\u00f5es negativas sobre a conduta moral de Theodore McCarrick. Uma primeira \u201cverifica\u00e7\u00e3o\u201d informal sobre algumas acusa\u00e7\u00f5es concernentes \u00e0 conduta do ent\u00e3o arcebispo de Newark em rela\u00e7\u00e3o a seminaristas e sacerdotes da sua arquidiocese, foi feita na metade dos anos Noventa, antes da viagem de Jo\u00e3o Paulo II \u00e0 cidade estadunidense. Foi o cardeal-arcebispo de Nova York, John O\u2019Connor, quem a fez: pediu informa\u00e7\u00f5es a outros bispos estadunidenses e depois concluiu que n\u00e3o havia \u201cimpedimentos\u201d \u00e0 visita papal \u00e0 cidade da qual McCarrick era, naquele momento, o pastor.<\/p>\n<h2 style=\"text-align: justify;\">A carta do cardeal O\u2019Connor<\/h2>\n<p style=\"text-align: justify;\">Um ponto crucial do caso \u00e9 certamente representado pela nomea\u00e7\u00e3o a arcebispo de Washington. Durante os meses em que se levanta a hip\u00f3tese de uma transfer\u00eancia de McCarrick a uma das sedes tradicionalmente cardinal\u00edcias dos EUA, diante de v\u00e1rios e qualificados pareceres favor\u00e1veis, registra-se o parecer negativo da cardeal O\u2019Connor. Embora reconhecendo n\u00e3o ter informa\u00e7\u00f5es diretas, o purpurado explicava, numa carta de 28 de outubro de 1999 endere\u00e7ada ao n\u00fancio apost\u00f3lico, considerar um erro a nomea\u00e7\u00e3o de McCarrick a um novo encargo: de fato, haveria o risco de um grave esc\u00e2ndalo, devido a rumores de que o arcebispo tinha no passado partilhado a cama com jovens adultos na can\u00f4nica, e com seminaristas numa casa na praia.<\/p>\n<h2 style=\"text-align: justify;\">A primeira decis\u00e3o de Jo\u00e3o Paulo II<\/h2>\n<p style=\"text-align: justify;\">\u00c9 importante ressaltar, a esse prop\u00f3sito, a decis\u00e3o inicialmente tomada por Jo\u00e3o Paulo II. Efetivamente, o Pont\u00edfice pediu ao n\u00fancio que verificasse o fundamento dessas acusa\u00e7\u00f5es. A investiga\u00e7\u00e3o escrita, tamb\u00e9m desta vez, n\u00e3o levou a nenhuma prova concreta: de fato, tr\u00eas dos quatro bispos de New Jersey consultados forneceram informa\u00e7\u00f5es definidas no\u00a0<i>Relat\u00f3rio<\/i>\u00a0\u201cn\u00e3o precisas e incompletas\u201d. O Papa, que no entanto conhecia McCarrick desde 1976 por t\u00ea-lo encontrado durante uma viagem que fez aos EUA acolheu a proposta lan\u00e7ada pelo ent\u00e3o n\u00fancio apost\u00f3lico nos EUA Gabriel Montalvo, e do ent\u00e3o prefeito da Congrega\u00e7\u00e3o para os Bispos Giovanni Battista Re, de abandonar a candidatura. Mesmo diante da aus\u00eancia de fundamentados, n\u00e3o se deveria correr o risco, transferindo o prelado para Washington, de que as acusa\u00e7\u00f5es, consideradas desprovidas de consist\u00eancia, pudessem voltar \u00e0 tona provocando desconcerto e esc\u00e2ndalo. McCarrick parecia, portanto, destinado a permanecer em Newark.<\/p>\n<h2 style=\"text-align: justify;\">A carta de McCarrick ao Papa<\/h2>\n<p style=\"text-align: justify;\">Um fato novo veio a mudar radicalmente o curso dos eventos. O pr\u00f3prio McCarrick, ap\u00f3s ter evidentemente tomado conhecimento de sua candidatura e das reservas mantidas em rela\u00e7\u00e3o a ele, em 6 de\u00a0agosto\u00a0de 2000 escreveu ao ent\u00e3o ao secret\u00e1rio particular do Pont\u00edfice polon\u00eas, o bispo Stanislaw Dziwisz. Proclamou-se inocente e jurou \u201cjamais ter tido rela\u00e7\u00f5es sexuais com pessoa alguma, homem ou mulher, jovem ou idoso, cl\u00e9rigo ou leigo\u201d. Jo\u00e3o Paulo II leu a carta. Convenceu-se de que o arcebispo estadunidense dissesse a verdade, e que os \u201crumores\u201d negativos fossem, propriamente, apenas rumores, infundados ou, em todo caso, n\u00e3o-provados. Foi o pr\u00f3prio Papa, mediante indica\u00e7\u00f5es precisas dadas ao ent\u00e3o Secret\u00e1rio de Estado Angelo Sodano, a estabelecer que McCarrick fosse novamente inserido na lista dos candidatos. E foi ele por fim a escolh\u00ea-lo para a sede de Washington. Segundo alguns testemunhos citados no\u00a0<i>Relat\u00f3rio<\/i>, pode ajudar a compreender o contexto deste per\u00edodo tamb\u00e9m a experi\u00eancias pessoal vivida pelo ent\u00e3o arcebispo Wojtyla na Pol\u00f4nia: durante anos viu o uso instrumental de falsas acusa\u00e7\u00f5es por parte do regime para descreditar sacerdotes e prelados.<\/p>\n<h2 style=\"text-align: justify;\">A decis\u00e3o de Bento XVI<\/h2>\n<p style=\"text-align: justify;\">At\u00e9 o momento da nomea\u00e7\u00e3o para Washington n\u00e3o houve nenhuma v\u00edtima \u2013 adulta ou menor \u2013 que tivesse entrado em contato com a Santa S\u00e9, ou com o n\u00fancio nos EUA, para fazer chegar uma den\u00fancia relativa a comportamentos impr\u00f3prios atribu\u00eddos ao arcebispo. E nada de impr\u00f3prio nas atitudes de McCarrick ser\u00e1 assinalado durante seu episcopado em Washington. Quando em 2005 emergiram as acusa\u00e7\u00f5es de ass\u00e9dios e abusos em rela\u00e7\u00e3o a adultos, o novo Papa, Bento XVI, pediu rapidamente a ren\u00fancia do cardeal estadunidense, ao qual tinha acabado de conceder uma prorroga\u00e7\u00e3o de dois anos do mandato. Desde 2006 McCarrick deixou, portanto, a condu\u00e7\u00e3o da Arquidiocese de Washington tornando-se um arcebispo em\u00e9rito. O\u00a0<i>Relat\u00f3rio<\/i>\u00a0mostra que neste per\u00edodo Vigan\u00f2, como delegado para as Representa\u00e7\u00f5es pontif\u00edcias, tinha relatado aos superiores na Secretaria de Estado as informa\u00e7\u00f5es provenientes da nunciatura, ressaltando a sua gravidade. Mas, enquanto lan\u00e7ava o alarme, ele tamb\u00e9m compreendia que n\u00e3o estava diante de acusa\u00e7\u00f5es comprovadas. O cardeal Secret\u00e1rio de Estado Tarcisio Bertone apresentou o assunto diretamente ao Papa Bento XVI. Nesse contexto, na aus\u00eancia de v\u00edtimas menores, e tratando-se de um purpurado que tinha sido demitido do cargo, foi decidido n\u00e3o abrir um formal processo can\u00f4nico para investigar McCarrick.<\/p>\n<h2 style=\"text-align: justify;\">Recomenda\u00e7\u00f5es, n\u00e3o san\u00e7\u00f5es<\/h2>\n<p style=\"text-align: justify;\">Nos anos sucessivos, apesar da solicita\u00e7\u00e3o que lhe foi feita pela Congrega\u00e7\u00e3o para os Bispos a levar uma vida mais reservada e a renunciar compromissos p\u00fablicos frequentes, o cardeal continuou viajando de uma parte \u00e0 outra do globo, Roma inclusive. Estes movimentos eram geralmente conhecidos e pelo menos tacitamente aprovados pelo n\u00fancio. Discutiu-se muito sobre o alcance real desta solicita\u00e7\u00e3o a uma vida reservada, feita pela Santa S\u00e9 a McCarrick. Dos documentos e dos testemunhos agora publicados no Relat\u00f3rio mostra-se evidente que jamais se tratou de \u201csan\u00e7\u00f5es\u201d. Eram mais propriamente recomenda\u00e7\u00f5es, dadas oralmente em 2006 e por escrito em 2008, sem que fosse explicitamente mencionado o imprimatur da vontade papal. Tratava-se, portanto, de recomenda\u00e7\u00f5es que para ser colocadas em pr\u00e1tica pressupunham a bom vontade da pessoa em quest\u00e3o. Naquele contexto, na aus\u00eancia de v\u00edtimas menores, e tratando-se de um purpurado que j\u00e1 havia renunciado a seu encargo, foi tamb\u00e9m decidido n\u00e3o abrir um processo can\u00f4nico formal para investigar sobre McCarrick, como, ao inv\u00e9s, o ent\u00e3o Secret\u00e1rio de Estado Tarcisio Bertone tinha sugerido fazer. De fato, tolerou-se que o cardeal continuasse ativo e continuasse viajando e que fizesse, embora sem nenhum mandato por parte da Santa S\u00e9, v\u00e1rias miss\u00f5es em v\u00e1rios pa\u00edses, das frequentemente se extraia extra\u00eddas informa\u00e7\u00f5es \u00fateis. Diante de uma nova den\u00fancia contra McCarrick comunicada a ele em 2012, Vigan\u00f2, enquanto isso nomeado n\u00fancio nos EUA, recebeu do Prefeito da Congrega\u00e7\u00e3o dos Bispos instru\u00e7\u00f5es para investigar. Daquilo que resulta do\u00a0<i>Relat\u00f3rio<\/i>, o n\u00fancio , por\u00e9m, n\u00e3o cumpriu todas as verifica\u00e7\u00f5es que lhe tinham sido feitas. Ademais, continuando a seguir a mesma abordagem usada at\u00e9 aquele momento, n\u00e3o deu passos significativos para limitar as atividades e as viagens nacionais e internacionais de McCarrick.<\/p>\n<h2 style=\"text-align: justify;\">O processo aberto por Francisco<\/h2>\n<p style=\"text-align: justify;\">No momento da elei\u00e7\u00e3o de Francisco, McCarrick j\u00e1 tinha superado os 80 anos e, portanto, estava exclu\u00eddo do conclave. Seus costumes de viagem n\u00e3o sofreram mudan\u00e7as, e n\u00e3o foram entregues ao novo Papa documentos ou testemunhos que o colocassem a par da gravidade das acusa\u00e7\u00f5es dirigidas contra o ex-arcebispo de Washington. Foi referido a Francisco que tinham circulado \u201crumores\u201d e imputa\u00e7\u00f5es relacionados a \u201ccomportamentos imorais com adultos\u201d antes da nomea\u00e7\u00e3o de McCarrick para Washington. Considerando, por\u00e9m, que as acusa\u00e7\u00f5es tinham sido analisadas e rejeitadas por Jo\u00e3o Paulo II, e consciente de que McCarrick tinha permanecido ativo durante o pontificado de Bento XVI, o Papa Francisco n\u00e3o sentiu a necessidade de modificar \u201cquanto estabelecido por seus predecessores\u201d, portanto, n\u00e3o corresponde \u00e0 verdade afirmar que tenha suspenso ou aliviado san\u00e7\u00f5es ou restri\u00e7\u00f5es ao arcebispo em\u00e9rito. Tudo muda, como j\u00e1 recordado, como o aparecimento da primeira acusa\u00e7\u00e3o de abuso contra um menor. A resposta foi imediata. A determina\u00e7\u00e3o grav\u00edssima e sem precedentes da demiss\u00e3o do estado clerical foi tomada na conclus\u00e3o de um r\u00e1pido processo can\u00f4nico.<\/p>\n<h2 style=\"text-align: justify;\">Aquilo que a Igreja aprendeu<\/h2>\n<p style=\"text-align: justify;\">A p\u00e1gina fotografada no rol de testemunhos e documentos agora publicados \u00e9, sem d\u00favida, uma p\u00e1gina dolorosa da hist\u00f3ria recente do catolicismo. Um epis\u00f3dio triste do qual toda a Igreja aprendeu. De fato, \u00e9 poss\u00edvel ler algumas das provid\u00eancias tomadas pelo Papa Francisco ap\u00f3s o encontro para a prote\u00e7\u00e3o dos menores realizado em fevereiro de 2019 propriamente \u00e0 luz do caso McCarrick. O\u00a0<i>motu proprio Vos estis lux mundi<\/i>, com suas indica\u00e7\u00f5es sobre a troca de informa\u00e7\u00f5es entre os Dicast\u00e9rios e entre Roma e as Igrejas locais, o envolvimento do metropolita na investiga\u00e7\u00e3o inicial, a indica\u00e7\u00e3o a verificar prontamente as acusa\u00e7\u00f5es, bem como a suspens\u00e3o do segredo pontif\u00edcio: todas elas, decis\u00f5es que levaram em considera\u00e7\u00e3o o quanto ocorrido, para aprender daquilo que n\u00e3o funcionou, dos mecanismos que se bloquearam, das desconsidera\u00e7\u00f5es que infelizmente foram feitas em v\u00e1rios n\u00edveis. No combate ao fen\u00f4meno dos abusos, a Igreja continua aprendendo, inclusive a partir dos resultados deste trabalho de reconstru\u00e7\u00e3o como se viu tamb\u00e9m em julho de 2020, no momento da publica\u00e7\u00e3o do Vademecum da Congrega\u00e7\u00e3o para a Doutrina da F\u00e9, que nos convida a n\u00e3o descartar automaticamente uma den\u00fancia an\u00f4nima.<\/p>\n<h2 style=\"text-align: justify;\">Humildade e penit\u00eancia<\/h2>\n<p style=\"text-align: justify;\">Este, portanto, o quadro geral que emerge das p\u00e1ginas documentadas do\u00a0<i>Relat\u00f3rio<\/i>, com a reconstru\u00e7\u00e3o de uma realidade certamente muito mais articulada e complexa em rela\u00e7\u00e3o \u00e0 que se conhecia. Nas \u00faltimas duas d\u00e9cadas a Igreja cat\u00f3lica tomou sempre mais consci\u00eancia do drama indiz\u00edvel das v\u00edtimas, da necessidade de garantir a prote\u00e7\u00e3o dos menores, da import\u00e2ncia de normas capazes de combater o fen\u00f4meno. E finalmente tomou consci\u00eancia tamb\u00e9m dos abusos cometidos contra adultos vulner\u00e1veis e de abuso de poder. O caso Theodore McCarrick \u2013 prelado de not\u00e1vel intelig\u00eancia e prepara\u00e7\u00e3o, capaz de tecer muitas rela\u00e7\u00f5es tanto no \u00e2mbito pol\u00edtico como no \u00e2mbito religioso \u2013 permanece, portanto, para a Igreja cat\u00f3lica, nos EUA e em Roma, uma ferida aberta e que ainda sangra, em primeiro lugar e sobretudo pelo sofrimento e dor causados \u00e0s v\u00edtimas. Uma ferida n\u00e3o san\u00e1vel somente com novas normas ou c\u00f3digos de comportamentos sempre mais eficazes, porque tamb\u00e9m o crime tem a ver com o pecado. Uma ferida que para ser curada \u00e9 preciso de humildade e de penit\u00eancia, pedindo a Deus o perd\u00e3o e a for\u00e7a para levantar-se novamente.<\/p>\n<div>\n<aside class=\"article__readmore inEvidence\">\n<div class=\"teaser--labelEvidence teaser teaser--type-article teaser2x1--inEvidence extL\">\n<article>\n<div class=\"teaser__contentWrapper\">\n<figure class=\"teaser__image\" style=\"text-align: justify;\"><picture><img decoding=\"async\" class=\"loaded\" src=\"https:\/\/www.vaticannews.va\/content\/dam\/vaticannews\/multimedia\/2020\/11\/09\/PDF-DOWNLOAD-RAPPORT-MCCARRICK-ITAaem.jpg\/_jcr_content\/renditions\/cq5dam.thumbnail.cropped.500.281.jpeg\" alt=\"Baixar o Relat\u00f3rio McCarrick ITALIANO em PDF\u201d\" data-original=\"\/content\/dam\/vaticannews\/multimedia\/2020\/11\/09\/PDF-DOWNLOAD-RAPPORT-MCCARRICK-ITAaem.jpg\/_jcr_content\/renditions\/cq5dam.thumbnail.cropped.500.281.jpeg\" data-was-processed=\"true\" \/><\/picture><\/figure>\n<div class=\"teaser__info\"><\/div>\n<h2 class=\"teaser__title\"><a title=\"Baixar o Relat\u00f3rio McCarrick ITALIANO em PDF\u201d\" href=\"http:\/\/www.vatican.va\/resources\/resources_rapporto-card-mccarrick_20201110_it.pdf\">Baixar o Relat\u00f3rio McCarrick ITALIANO em PDF\u201d<\/a><\/h2>\n<div class=\"teaser__text\">Relat\u00f3rio McCarrick ITALIANO em PDF\u201d<\/div>\n<\/div>\n<\/article>\n<\/div>\n<\/aside>\n<\/div>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<\/div>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Theodore McCarrick\u00a0 (2010 Getty Images) Uma leitura do dossi\u00ea publicado pela Secretaria de Estado, com os documentos e os testemunhos que contam o caso do ex-cardeal arcebispo de Washington demitido do estado clerical. 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