{"id":63524,"date":"2020-10-20T09:22:57","date_gmt":"2020-10-20T12:22:57","guid":{"rendered":"https:\/\/catolicanet.net\/wp-cnet\/?p=63524"},"modified":"2020-10-20T12:23:51","modified_gmt":"2020-10-20T15:23:51","slug":"bartolomeu-i-sobre-a-fratelli-tutti-abandonemos-a-indiferenca-e-o-cinismo","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/catolicanet.net\/wp-cnet\/bartolomeu-i-sobre-a-fratelli-tutti-abandonemos-a-indiferenca-e-o-cinismo\/","title":{"rendered":"Bartolomeu I sobre a \u201cFratelli tutti\u201d: abandonemos a indiferen\u00e7a e o cinismo"},"content":{"rendered":"<figure class=\"article__image\" style=\"text-align: justify;\"><span class=\"didascalia_img\">Patriarca Bartolomeu I\u00a0<\/span><\/figure>\n<div class=\"article__meta\">\n<div class=\"article__subTitle\" style=\"text-align: justify;\">Entrevista do Patriarca Ecum\u00eanico de Constantinopla com a m\u00eddia vaticana sobre a enc\u00edclica de Francisco: sonhamos o nosso mundo como uma fam\u00edlia unida<\/div>\n<div class=\"title__separator\" style=\"text-align: justify;\"><\/div>\n<div class=\"article__text \">\n<p style=\"text-align: justify;\"><b>ANDREA TORNIELLI<\/b><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\u201cConcordamos plenamente com o convite-desafio\u201d do Papa Francisco de &#8220;abandonar a indiferen\u00e7a ou mesmo o cinismo que rege nossa vida ecol\u00f3gica, pol\u00edtica, econ\u00f4mica e social em geral, como unidades centralizadas em si mesmas ou desinteressadas, e a sonhar o nosso mundo como uma fam\u00edlia humana unida&#8221;. Com estas palavras, o Patriarca Ecum\u00eanico de Constantinopla Bartolomeu, em visita a Roma, comenta a enc\u00edclica &#8220;<a href=\"http:\/\/www.vatican.va\/content\/francesco\/pt\/encyclicals\/documents\/papa-francesco_20201003_enciclica-fratelli-tutti.html\" rel=\"external\">Fratelli tutti<\/a>&#8221; de Francisco em um encontro com a m\u00eddia vaticana.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><b>Santidade, qual foi sua rea\u00e7\u00e3o \u00e0 leitura da enc\u00edclica do Papa Francisco &#8220;Fratelli tutti&#8221;?<\/b><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Mesmo antes de conhecer a Enc\u00edclica\u00a0<i>Fratelli Tutti<\/i>, de nosso irm\u00e3o Papa Francisco, est\u00e1vamos certos de que seria mais um exemplo de seu interesse inabal\u00e1vel pelo homem, &#8220;o amado de Deus&#8221;, atrav\u00e9s da manifesta\u00e7\u00e3o de solidariedade com todos os &#8220;oprimidos e sobrecarregados&#8221; e os necessitados, e que conteria propostas concretas para enfrentar os grandes desafios do momento, inspiradas pela fonte inesgot\u00e1vel da tradi\u00e7\u00e3o crist\u00e3, e surgindo de seu cora\u00e7\u00e3o cheio de amor. Nossas expectativas foram plenamente atendidas ap\u00f3s completar a an\u00e1lise desta interessante Enc\u00edclica, que n\u00e3o \u00e9 simplesmente um comp\u00eandio ou resumo de Enc\u00edclicas anteriores ou de outros textos do Papa Francisco, mas a coroa\u00e7\u00e3o e conclus\u00e3o bem sucedida de toda a doutrina social. Concordamos completamente com o convite-desafio de Sua Santidade de abandonar a indiferen\u00e7a ou mesmo o cinismo que rege nossa vida ecol\u00f3gica, pol\u00edtica, econ\u00f4mica e social em geral, como unidades centralizadas em si mesmas ou desinteressadas, e sonhar o nosso mundo como uma fam\u00edlia humana unida, na qual somos todos irm\u00e3os sem exce\u00e7\u00e3o. Com este esp\u00edrito, expressamos o desejo e a esperan\u00e7a de que a Enc\u00edclica\u00a0<i>Fratelli tutti<\/i>\u00a0se revele uma fonte de inspira\u00e7\u00e3o e de di\u00e1logo fecundo atrav\u00e9s de iniciativas decisivas e a\u00e7\u00f5es transversais em n\u00edvel intercrist\u00e3o, inter-religioso e pan-humano.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><b>O primeiro cap\u00edtulo da enc\u00edclica fala das &#8220;sombras&#8221; que persistem no mundo. Quais s\u00e3o as que mais o preocupam? E que esperan\u00e7a ganhamos do olhar sobre o mundo que nos vem do Evangelho?<\/b><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Com seu agudo senso humanista, social e espiritual, o Papa Francisco identifica e nomeia as &#8220;sombras&#8221; no mundo moderno. Falamos de &#8220;pecados modernos&#8221;, embora gostemos de evidenciar que o pecado original n\u00e3o ocorreu em nosso tempo e em nossa era. N\u00e3o idealizamos o passado de forma alguma. No entanto, estamos justamente perturbados com o fato de que os modernos desenvolvimentos t\u00e9cnicos e cient\u00edficos fortaleceram os &#8220;h\u00edbridos&#8221; do homem. As conquistas da ci\u00eancia n\u00e3o respondem \u00e0s nossas fundamentais buscas existenciais, nem as eliminaram. Observamos tamb\u00e9m que o conhecimento cient\u00edfico n\u00e3o penetra nas profundezas da alma humana. O homem sabe disso, mas age como se n\u00e3o o soubesse.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><b>O Papa fala tamb\u00e9m da disparidade persistente entre os poucos que possuem muito e os muitos que possuem pouco ou nada&#8230;<\/b><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">O desenvolvimento econ\u00f4mico n\u00e3o reduziu a disparidade entre ricos e pobres. Ao contr\u00e1rio, priorizou o lucro \u00e0s custas da prote\u00e7\u00e3o dos fracos e contribui para o agravamento dos problemas ambientais. E a pol\u00edtica tornou-se a serva da economia. Os direitos humanos e o direito internacional s\u00e3o elaborados e servem a prop\u00f3sitos n\u00e3o relacionados \u00e0 justi\u00e7a, liberdade e paz. O problema dos refugiados, o terrorismo, a viol\u00eancia do Estado, a humilha\u00e7\u00e3o da dignidade humana, as formas modernas de escravid\u00e3o e a epidemia da Covid-19 est\u00e3o agora colocando a pol\u00edtica diante de novas responsabilidades e apagando sua l\u00f3gica pragm\u00e1tica.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><b>Qual \u00e9, diante desta situa\u00e7\u00e3o, a proposta do cristianismo?<\/b><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">A proposta de vida da Igreja \u00e9 a grande virada para &#8220;s\u00f3 uma coisa \u00e9 necess\u00e1ria&#8221;, e isto \u00e9 o amor, a abertura para o outro e a cultura da solidariedade das pessoas. Diante do moderno &#8220;homem-deus&#8221; arrogante, pregamos o &#8220;Deus-Homem&#8221;. Diante do economicismo, damos lugar \u00e0 economia ecol\u00f3gica e \u00e0 atividade econ\u00f4mica baseada na justi\u00e7a social. \u00c0 pol\u00edtica da &#8220;lei do mais forte&#8221;, nos opomos ao princ\u00edpio do respeito aos direitos inalien\u00e1veis dos cidad\u00e3os e ao direito internacional. Diante da crise ecol\u00f3gica, somos chamados a respeitar a cria\u00e7\u00e3o, a simplicidade e a consci\u00eancia de nossa responsabilidade de proporcionar um ambiente natural intacto para a pr\u00f3xima gera\u00e7\u00e3o. Nosso esfor\u00e7o para resolver estes problemas \u00e9 indispens\u00e1vel, mas sabemos que aquele que opera atrav\u00e9s de n\u00f3s \u00e9 o Deus que \u00e9 amigo da humanidade.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><b>Por que o \u00edcone do Bom Samaritano \u00e9 muito atual nos dias de hoje?<\/b><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Cristo une em particular o &#8220;primeiro e grande mandamento&#8221; do amor de Deus com o &#8220;segundo semelhante ao primeiro&#8221; mandamento do amor ao pr\u00f3ximo (Mt. 22, 36 &#8211; 40). E acrescenta: &#8220;Destes dois mandamentos dependem toda a Lei e os Profetas&#8221;. E Jo\u00e3o o te\u00f3logo \u00e9 muito claro: &#8220;Quem n\u00e3o ama, n\u00e3o conheceu Deus&#8221; (Jo 4, 8). A par\u00e1bola do Bom Samaritano est\u00e1 pr\u00f3xima \u00e0 par\u00e1bola do Julgamento (Mt 25, 31-46), \u00e9 (Lc 10, 25-37) o texto b\u00edblico, que nos revela toda a verdade do mandamento do amor. Nesta par\u00e1bola, o Sacerdote e o Levita representam a religi\u00e3o, que \u00e9 fechada em si mesma, e s\u00f3 est\u00e1 interessada em manter a &#8220;lei&#8221; inalterada, ignorando e negligenciando farisaicamente as &#8220;prescri\u00e7\u00f5es mais s\u00e9rias da lei&#8221; (Mt. 23, 23), o amor e a ajuda ao pr\u00f3ximo. O Bom Samaritano acaba sendo o filantropo estrangeiro pr\u00f3ximo \u00e0quele que foi espancado e ferido por bandidos. \u00c0 pergunta inicial do doutor da lei: &#8220;Quem \u00e9 meu pr\u00f3ximo?&#8221; (Lc. 10, 29), Cristo responde com uma pergunta: &#8220;Qual dos tr\u00eas, em tua opini\u00e3o, foi o pr\u00f3ximo do homem que caiu nas m\u00e3os dos assaltantes?&#8221; (Lc. 10, 36). Aqui o homem n\u00e3o tem permiss\u00e3o para fazer perguntas, mas ele \u00e9 solicitado e chamado a agir. \u00c9 sempre necess\u00e1rio mostrar o pr\u00f3ximo, o irm\u00e3o, diante e para com o que est\u00e1 longe, o estrangeiro e o inimigo. Deve-se notar que na par\u00e1bola do Bom Samaritano, de acordo com a pergunta do legista que coloca Cristo \u00e0 prova &#8220;Que farei para herdar a vida eterna?&#8221; (Lucas 10, 25), em resposta a ela, o verdadeiro amor ao pr\u00f3ximo tem uma clara refer\u00eancia soteriol\u00f3gica. Esta \u00e9 tamb\u00e9m a mensagem da per\u00edcope do Julgamento.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><b>Em que base podemos todos nos considerar irm\u00e3os e por que \u00e9 importante sentir-se assim para o bem da humanidade?<\/b><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Os crist\u00e3os da Igreja nascente chamavam uns aos outros de &#8220;irm\u00e3os&#8221;. Esta irmandade espiritual e cristoc\u00eantrica \u00e9 mais profunda que o parentesco natural. Para os crist\u00e3os, por\u00e9m, os irm\u00e3os e irm\u00e3s n\u00e3o s\u00e3o apenas membros da Igreja, mas de todos os povos. A Palavra de Deus assumiu a natureza humana e uniu tudo em si mesma. Assim como todos os seres humanos s\u00e3o cria\u00e7\u00e3o de Deus, tamb\u00e9m todos foram inclu\u00eddos no plano da salva\u00e7\u00e3o. O amor do crente n\u00e3o tem fronteiras e limites. Na verdade, ele abrange toda a cria\u00e7\u00e3o; \u00e9 &#8220;ardor do cora\u00e7\u00e3o para toda a cria\u00e7\u00e3o&#8221; (Isaac, o S\u00edrio). O amor pelos irm\u00e3os \u00e9 sempre incompar\u00e1vel. Este n\u00e3o \u00e9 um sentimento abstrato de simpatia para com a humanidade, que geralmente ignora os outros. A dimens\u00e3o da comunh\u00e3o pessoal e da fraternidade distingue o amor crist\u00e3o e a fraternidade do humanismo abstrato.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><b>O Papa, em sua enc\u00edclica, pronuncia uma condena\u00e7\u00e3o muito forte da guerra e da pena de morte. Como o senhor comenta esse cap\u00edtulo da &#8220;<i>Fratelli tutti<\/i>&#8220;?<\/b><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Este tema foi referido pelo Santo e Grande Conc\u00edlio da Igreja Ortodoxa (Creta, junho de 2016), entre outros, como segue: &#8220;A Igreja de Cristo geralmente condena a guerra, que considera resultado do mal e do pecado&#8221; (<i>A Miss\u00e3o da Igreja Ortodoxa no mundo moderno<\/i>, D, 1). Nos l\u00e1bios de todo crist\u00e3o deve estar o slogan &#8220;Guerra, nunca mais! E a atitude de uma sociedade em rela\u00e7\u00e3o \u00e0 pena de morte \u00e9 um indicador de sua orienta\u00e7\u00e3o cultural e da considera\u00e7\u00e3o da dignidade humana. O digno sistema da cultura constitucional europeia, da qual um dos pilares fundamentais \u00e9 a ideia do amor, como express\u00e3o de suas cren\u00e7as crist\u00e3s, nos obriga a considerar que todo homem deve ter a possibilidade de arrependimento e melhoramento, mesmo que tenha sido condenado pelo pior crime. \u00c9, portanto, uma consequ\u00eancia l\u00f3gica e moral que mesmo aquele que condena a guerra rejeite a pena de morte.<\/p>\n<\/div>\n<\/div>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Patriarca Bartolomeu I\u00a0 Entrevista do Patriarca Ecum\u00eanico de Constantinopla com a m\u00eddia vaticana sobre a enc\u00edclica de Francisco: sonhamos o nosso mundo como uma fam\u00edlia unida ANDREA TORNIELLI \u201cConcordamos plenamente com o convite-desafio\u201d do Papa Francisco de &#8220;abandonar a indiferen\u00e7a ou mesmo o cinismo que rege nossa vida ecol\u00f3gica, pol\u00edtica, econ\u00f4mica e social em geral, [&hellip;]<\/p>\n","protected":false},"author":1,"featured_media":63525,"comment_status":"open","ping_status":"closed","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"footnotes":""},"categories":[3],"tags":[],"class_list":["post-63524","post","type-post","status-publish","format-standard","has-post-thumbnail","hentry","category-vaticano"],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/catolicanet.net\/wp-cnet\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/63524","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/catolicanet.net\/wp-cnet\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/catolicanet.net\/wp-cnet\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/catolicanet.net\/wp-cnet\/wp-json\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/catolicanet.net\/wp-cnet\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=63524"}],"version-history":[{"count":1,"href":"https:\/\/catolicanet.net\/wp-cnet\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/63524\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":63526,"href":"https:\/\/catolicanet.net\/wp-cnet\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/63524\/revisions\/63526"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/catolicanet.net\/wp-cnet\/wp-json\/wp\/v2\/media\/63525"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/catolicanet.net\/wp-cnet\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=63524"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/catolicanet.net\/wp-cnet\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=63524"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/catolicanet.net\/wp-cnet\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=63524"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}