{"id":63165,"date":"2020-10-08T09:38:46","date_gmt":"2020-10-08T12:38:46","guid":{"rendered":"https:\/\/catolicanet.net\/wp-cnet\/?p=63165"},"modified":"2020-10-08T12:39:57","modified_gmt":"2020-10-08T15:39:57","slug":"o-papa-e-a-missao-sem-jesus-nada-podemos-fazer","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/catolicanet.net\/wp-cnet\/o-papa-e-a-missao-sem-jesus-nada-podemos-fazer\/","title":{"rendered":"O Papa e a miss\u00e3o: &#8220;Sem Jesus, nada podemos fazer&#8221;"},"content":{"rendered":"<figure class=\"article__image\" style=\"text-align: justify;\"><span class=\"didascalia_img\">Livro &#8220;Sem Jesus, nada podemos fazer&#8221;\u00a0 (Vatican Media)<\/span><\/figure>\n<div class=\"article__meta\">\n<div class=\"article__subTitle\" style=\"text-align: justify;\">No m\u00eas mission\u00e1rio, republicamos alguns trechos do livro-entrevista com o Papa Francisco realizada por Gianni Valente, da Ag\u00eancia Fides. O Papa lembra-nos que &#8220;a Igreja ou \u00e9 um an\u00fancio ou n\u00e3o \u00e9 Igreja&#8221;. O livro foi publicado pela LEV e S\u00e3o Paulo.<\/div>\n<div class=\"title__separator\" style=\"text-align: justify;\"><\/div>\n<div class=\"article__text \">\n<p style=\"text-align: justify;\"><b>Gianni Valente<\/b><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\u201cA alegria do Evangelho enche o cora\u00e7\u00e3o e a vida daqueles que se encontram com Jesus\u201d. Assim inicia a Exorta\u00e7\u00e3o Apost\u00f3lica\u00a0<i>Evangelii gaudium<\/i>, publicada pelo Papa em novembro de 2013, oito meses depois do Conclave que o elegera Bispo de Roma e Sucessor de Pedro. O program\u00e1tico texto do pontificado convidava todos a re-sintonizar cada ato, reflex\u00e3o e iniciativa eclesial \u201csobre o an\u00fancio do Evangelho no mundo atual\u201d. Quase seis anos depois, o Pont\u00edfice anunciou o M\u00eas Mission\u00e1rio Extraordin\u00e1rio, para outubro de 2019, e a Assembleia Especial do S\u00ednodo dos Bispos dedicada \u00e0 Regi\u00e3o Amaz\u00f4nica, com o objetivo de sugerir novos caminhos de an\u00fancio do Evangelho no &#8220;pulm\u00e3o verde&#8221;, martirizado pelo sofrimento predat\u00f3rio que violenta e causa ferimentos \u201caos nossos irm\u00e3os e \u00e0 nossa irm\u00e3 terra\u201d (Homilia do Santo Padre na missa de conclus\u00e3o do S\u00ednodo para a Regi\u00e3o Pan-Amaz\u00f4nica).<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Durante este tempo, o Papa Francisco no seu magist\u00e9rio, disseminou insistentes refer\u00eancias \u00e0 natureza pr\u00f3pria da miss\u00e3o da Igreja no mundo. Por exemplo, o Pont\u00edfice repetiu v\u00e1rias vezes que anunciar o Evangelho n\u00e3o \u00e9 \u201cproselitismo\u201d, que a Igreja cresce \u201cpor atra\u00e7\u00e3o\u201d e por \u201ctestemunhos\u201d. Uma s\u00e9rie de express\u00f5es, todas elas orientadas a sugerir por men\u00e7\u00f5es qual \u00e9 o dinamismo para cada obra apost\u00f3lica, e qual pode ser a sua fonte.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Sobre isso e muitas outras coisas, o Papa Francisco fala no seu livro-entrevista intitulado \u201c<i>Sem Ele n\u00e3o podemos fazer nada. Uma conversa sobre o ser mission\u00e1rio no mundo de hoje<\/i>\u201d. A Ag\u00eancia\u00a0<i>Fides\u00a0<\/i>antecipou ent\u00e3o alguns trechos do livro.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><b>O senhor contou que quando era jovem queria ser mission\u00e1rio no Jap\u00e3o. Pode-se dizer que o Papa \u00e9 um mission\u00e1rio n\u00e3o completo?<\/b><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">N\u00e3o sei. Entrei na ordem dos jesu\u00edtas porque me impressionava a voca\u00e7\u00e3o mission\u00e1ria da mesma, e o fato de sempre procurarem novas fronteiras. Na \u00e9poca n\u00e3o pude ir ao Jap\u00e3o. Mas sempre senti que anunciar Jesus e o seu Evangelho quer dizer sair e coloca-se a caminho.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><b>O senhor repete sempre: \u201cIgreja em sa\u00edda\u201d. A express\u00e3o \u00e9 relan\u00e7ada com frequ\u00eancia e \u00e0s vezes parece ter se tornado um slogan abusado, a disposi\u00e7\u00e3o dos que, cada vez mais numerosos, passam o tempo a dar li\u00e7\u00f5es \u00e0 Igreja sobre como deveria ser ou n\u00e3o ser<\/b>.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\u201cIgreja em sa\u00edda\u201d n\u00e3o \u00e9 uma express\u00e3o de moda que eu inventei. \u00c9 um mandamento de Jesus, que no Evangelho de Marcos pede aos seus disc\u00edpulos para irem pelo mundo inteiro e anunciarem o Evangelho \u201ca toda criatura\u201d. A Igreja ou \u00e9 em sa\u00edda ou n\u00e3o \u00e9 Igreja. Ou \u00e9 em an\u00fancio ou n\u00e3o \u00e9 Igreja. Se a Igreja n\u00e3o sai se corrompe, perde sua natureza . Torna-se outra coisa.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><b>Uma Igreja que n\u00e3o anuncia e que n\u00e3o sai, o que se torna?<\/b><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Torna-se uma associa\u00e7\u00e3o espiritual. Uma multinacional para lan\u00e7ar iniciativas e mensagens de conte\u00fado \u00e9tico-religioso. Nada de mal, mas n\u00e3o \u00e9 a Igreja. Este \u00e9 um risco de qualquer organiza\u00e7\u00e3o est\u00e1tica dentro da Igreja. Termina-se por domesticar Cristo. N\u00e3o se da mais testemunho da a\u00e7\u00e3o de Cristo, mas fala-se de uma certa ideia de Cristo. Uma ideia possu\u00edda e adomesticada por voc\u00ea mesmo. Voc\u00ea organiza as coisas, torna-se um pequeno empres\u00e1rio da vida eclesial, onde tudo acontece segundo o programa pr\u00e9-estabelecido, isto, \u00e9, seguindo apenas as instru\u00e7\u00f5es. Mas o encontro com Cristo n\u00e3o se repete mais. N\u00e3o se repete o encontro que tinha tocado seu cora\u00e7\u00e3o no in\u00edcio.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><b>A miss\u00e3o \u00e9 por si ant\u00eddoto a tudo isso? \u00c9 suficiente a vontade e o esfor\u00e7o de \u201csair\u201d em miss\u00e3o para evitar essas distor\u00e7\u00f5es?<\/b><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">A miss\u00e3o, a \u201cIgreja em sa\u00edda\u201d n\u00e3o s\u00e3o um programa, uma inten\u00e7\u00e3o para a ser realizada por boa vontade. \u00c9 Cristo que faz a Igreja sair de si mesma. Na miss\u00e3o de anunciar o Evangelho, voc\u00ea see move porque o Esp\u00edrito Santo empurra voc\u00ea, e o leva. E quando voc\u00ea chega, da-se conta de que Ele chegou antes e est\u00e1 esperando voc\u00ea. O Esp\u00edrito do Senhor chegou antes. Ele previne, tamb\u00e9m para preparar o seu caminho e j\u00e1 est\u00e1 em a\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><b>Em um encontro com as Pontif\u00edcias Obras Mission\u00e1rias, o senhor sugeriu-lhes ler os Atos dos Ap\u00f3stolos, como texto habitual de ora\u00e7\u00e3o . A narra\u00e7\u00e3o dos primeiros tempos, e n\u00e3o um manual de estrat\u00e9gia mission\u00e1ria moderna. Por que?<\/b><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">O protagonista dos Atos dos Ap\u00f3stolos n\u00e3o s\u00e3o os ap\u00f3stolos. O protagonista \u00e9 o Esp\u00edrito Santo. Os Ap\u00f3stolos s\u00e3o os primeiros que o reconhecem e o confirmam. Quando comunicam aos irm\u00e3os de Antioquia as indica\u00e7\u00f5es estabelecidas pelo Conc\u00edlio de Jerusal\u00e9m, escrevem: \u201cDecidimos, o Esp\u00edrito Santo e n\u00f3s\u201d. Eles reconheciam com realismo o fato de que era o Senhor que adicionava todos dias \u00e0 comunidade \u201cos que estavam salvos\u201d, e n\u00e3o os esfor\u00e7os de persuas\u00e3o dos homens.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><b>E agora \u00e9 como naquela \u00e9poca? N\u00e3o mudou nada?<\/b><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">A experi\u00eancia dos Ap\u00f3stolos \u00e9 como um paradigma que vale para sempre. Basta pensar como os fatos nos Atos dos Ap\u00f3stolos acontecem gratuitamente, sem artif\u00edcios. \u00c9 um caso, uma hist\u00f3ria de homens na qual os disc\u00edpulos chegam sempre depois do Esp\u00edrito Santo que age por primeiro. Ele prepara e trabalha os cora\u00e7\u00f5es. Abala seus planos. \u00c9 ele que os acompanha, os guia, os consola dentro de todas as circunst\u00e2ncias que devem viver. Quando chegam os problemas e as persegui\u00e7\u00f5es, o Esp\u00edrito Santo trabalha ali tamb\u00e9m, de maneira ainda mais surpreendente, com o seu conforto, o seu consolo. Como acontece depois do primeiro mart\u00edrio, o de Santo Est\u00eav\u00e3o.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><b>O que ocorre?<\/b><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Inicia um tempo de persegui\u00e7\u00e3o, e muitos disc\u00edpulos fogem de Jerusal\u00e9m, v\u00e3o para a Judeia e Samaria. E ali, enquanto est\u00e3o espalhados e fugitivos, come\u00e7am a anunciar o Evangelho, mesmo se est\u00e3o sozinhos e sem os Ap\u00f3stolos, que ficaram em Jerusal\u00e9m. S\u00e3o batizados, e o Esp\u00edrito Santo lhes d\u00e1 a coragem apost\u00f3lica. Ali se v\u00ea pela primeira vez que o batismo \u00e9 suficiente para se tornar anunciadores do Evangelho. A miss\u00e3o \u00e9 o que aconteceu ali. A miss\u00e3o \u00e9 obra Sua. \u00c9 in\u00fatil se agitar. N\u00e3o precisamos nos organizar, n\u00e3o precisamos gritar. N\u00e3o servem descobertas ou estrat\u00e9gias. Precisa apenas pedir que se fa\u00e7a novamente em n\u00f3s a experi\u00eancia para que possamos dizer: \u201cdecidimos, o Esp\u00edrito Santo e n\u00f3s\u201d.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><b>E se n\u00e3o houver esta experi\u00eancia, qual \u00e9 o sentido das chamadas \u00e0 mobiliza\u00e7\u00e3o mission\u00e1ria?<\/b><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Sem o Esp\u00edrito, a miss\u00e3o torna-se outra coisa. Torna-se, diria, um projeto de conquista, pretens\u00e3o de uma conquista feita por n\u00f3s. Uma conquista religiosa, ou talvez ideol\u00f3gica, talvez feita com boas inten\u00e7\u00f5es. Mas \u00e9 uma outra coisa.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><b>Citando Bento XVI, o senhor repete com frequ\u00eancia que a Igreja cresce por atra\u00e7\u00e3o. O quer dizer isso? Quem atrai? Quem \u00e9 atra\u00eddo?<\/b><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">S\u00e3o palavras de Jesus no Evangelho de Jo\u00e3o. \u201cQuando eu for levantado da terra, atrairei todos a mim\u201d. E no mesmo Evangelho, diz ainda \u201cNingu\u00e9m vem a mim, se n\u00e3o for atra\u00eddo pelo Pai que me mandou\u201d. A Igreja sempre reconheceu que esta \u00e9 a forma de todo o lema que aproxima a Jesus e ao Evangelho. N\u00e3o uma convic\u00e7\u00e3o, um racioc\u00ednio, uma tomada de consci\u00eancia. N\u00e3o uma press\u00e3o, ou uma constri\u00e7\u00e3o. Trata-se sempre de uma atra\u00e7\u00e3o. O profeta Jeremias j\u00e1 dizia: \u201cTu me seduziste e eu me deixei seduzir\u201d. E isso tamb\u00e9m vale para os ap\u00f3stolos, para os mission\u00e1rios e pela sua obra.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><b>Como ocorre o que o senhor descreveu acima?<\/b><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">O mandato do Senhor de sair e anunciar o Evangelho, vem de dentro, por paix\u00e3o, por atra\u00e7\u00e3o amorosa. N\u00e3o se segue Jesus e muito menos se torna anunciadores d\u2019Ele e do seu Evangelho por uma decis\u00e3o pr\u00e1tica, por uma milit\u00e2ncia autoinduzida. O pr\u00f3prio impulso mission\u00e1rio s\u00f3 pode ser fecundo se acontece dentro desta atra\u00e7\u00e3o e que se transmite aos outros.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><b>Qual \u00e9 o significado destas palavras com rela\u00e7\u00e3o \u00e0 miss\u00e3o e ao an\u00fancio do Evangelho?<\/b><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Quer dizer que se \u00e9 Cristo que atrai voc\u00ea, se voc\u00ea se move e faz as coisas \u00e9 porque \u00e9 atra\u00eddo por Cristo, as pessoas ent\u00e3o ir\u00e3o se dar conta disso sem esfor\u00e7o. N\u00e3o h\u00e1 necessidade de demonstr\u00e1-lo, e muito menos ostent\u00e1-lo. Ao contr\u00e1rio, quem pensa em ser protagonista ou empres\u00e1rio da miss\u00e3o, com todos os seus bons prop\u00f3sitos e as suas declara\u00e7\u00f5es de inten\u00e7\u00e3o muitas vezes termina por n\u00e3o atrair ningu\u00e9m.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><b>Na sua Exorta\u00e7\u00e3o Apost\u00f3lica\u00a0<i>Evangelii gaudium<\/i>, o senhor reconhece que tudo isso pode \u201ccausar-nos uma certa vertigem\u201d. Como aqueles que mergulham em um mar onde n\u00e3o sabem o que encontrar\u00e3o. O que o senhor queria sugerir com esta imagem? Essas palavras referem-se tamb\u00e9m \u00e0 miss\u00e3o?<\/b><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">A miss\u00e3o n\u00e3o \u00e9 um projeto empresarial bem organizado. Nem mesmo um espet\u00e1culo organizado para saber quantas pessoas participam gra\u00e7as \u00e0s nossas propagandas. O Esp\u00edrito Santo age como quer, quando e onde quiser. E isso pode causar uma certa vertigem. Mesmo assim o cume da liberdade repousa justamente neste deixar-se levar pelo Esp\u00edrito, renunciado a calcular e controlar tudo. E justamente nisso imitamos o pr\u00f3prio Cristo, que no mist\u00e9rio da sua Ressurrei\u00e7\u00e3o aprendeu a repousar na ternura dos bra\u00e7os do Pai. A misteriosa fecundidade da miss\u00e3o n\u00e3o consiste nas nossas inten\u00e7\u00f5es, nos nossos m\u00e9todos, nos nossos lan\u00e7amentos e iniciativas, mas repousa justamente nessa vertigem: a vertigem que se adverte diante das palavras de Jesus, quando diz \u201csem mim nada podeis fazer\u201d.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><b>O senhor repete muitas vezes tamb\u00e9m que a Igreja cresce \u201cpor testemunho\u201d. Qual \u00e9 a sugest\u00e3o para esta insist\u00eancia?<\/b><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">O fato que a atra\u00e7\u00e3o se faz testemunho em n\u00f3s. A testemunha comprova o que a obra de Cristo e do seu Esp\u00edrito realizaram na sua vida. Depois da Ressurrei\u00e7\u00e3o, \u00e9 o pr\u00f3prio Cristo que nos torna vis\u00edvel aos ap\u00f3stolos. \u00c9 ele a sua testemunha. Tamb\u00e9m o testemunho n\u00e3o \u00e9 um desempenho pr\u00f3prio, s\u00f3 se pode ser testemunha das obras do Senhor.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><b>Outra coisa que o senhor repete com frequ\u00eancia, neste caso em chave negativa: a Igreja n\u00e3o cresce por proselitismo e a miss\u00e3o da Igreja n\u00e3o \u00e9 fazer proselitismo. Por que tanta insist\u00eancia? \u00c9 para manter as boas rela\u00e7\u00f5es com as outras Igrejas e o di\u00e1logo com as tradi\u00e7\u00f5es religiosas?<\/b><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">O problema do proselitismo n\u00e3o \u00e9 apenas o fato que contradiz o caminho ecum\u00eanico e o di\u00e1logo inter-religioso. H\u00e1 proselitismo em todos os lugares, h\u00e1 a ideia de fazer com que a Igreja cres\u00e7a deixando de lado a atra\u00e7\u00e3o de Cristo e da obra do Esp\u00edrito, apostando tudo nos chamados \u201cdiscursos s\u00e1bios\u201d. Portanto, como primeira coisa, o proselitismo tira o pr\u00f3prio Cristo e o Esp\u00edrito Santo da miss\u00e3o, mesmo quando pretende agir em nome de Cristo, de maneira nominalista. O proselitismo \u00e9 sempre violento pela sua natureza, mesmo quando \u00e9 dissimulado ou feito \u201ccom luvas de pelica\u201d. N\u00e3o suporta a liberdade e a gratuidade com a qual a f\u00e9 pode se transmitir, pela gra\u00e7a, de pessoa a pessoa. Por isso o proselitismo n\u00e3o \u00e9 apenas o do passado, dos tempos do antigo colonialismo, ou das convers\u00f5es for\u00e7adas ou compradas com a promessa de vantagens materiais. Hoje tamb\u00e9m pode haver proselitismo, nas par\u00f3quias, nas comunidades, nos movimentos, nas congrega\u00e7\u00f5es religiosas.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><b>Ent\u00e3o, o que quer dizer anunciar o Evangelho?<\/b><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">O an\u00fancio do Evangelho que dizer entregar com palavras s\u00f3brias e claras o pr\u00f3prio testemunho de Cristo como fizeram os ap\u00f3stolos. Mas n\u00e3o \u00e9 necess\u00e1rio discursos persuasivos. O an\u00fancio do Evangelho pode ser tamb\u00e9m sussurrado, mas passa sempre pela for\u00e7a arrebatadora do esc\u00e2ndalo da cruz. E desde sempre segue o caminho indicado na Carta de S\u00e3o Pedro Ap\u00f3stolo, que consiste no simples \u201cdar raz\u00e3o\u201d aos outros da pr\u00f3pria esperan\u00e7a. Uma esperan\u00e7a que permanece esc\u00e2ndalo e tolice aos olhos do mundo.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><b>Do que se trata o \u201cmissionar\u201d crist\u00e3o?<\/b><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Uma caracter\u00edstica distintiva \u00e9 a de ser facilitadores e n\u00e3o controladores da f\u00e9. Facilitar, tornar f\u00e1cil, n\u00e3o p\u00f4r obst\u00e1culos ao desejo de Jesus de abra\u00e7ar todos, de curar todos, de salvar todos. N\u00e3o fazer sele\u00e7\u00f5es, n\u00e3o criar \u201ctriagens pastorais\u201d. N\u00e3o fazer parte dos que se colocam \u00e0 porta para controlar se todos t\u00eam requisitos para entrar. Recordo os p\u00e1rocos e as comunidades que em Buenos Aires tinham colocado em campo v\u00e1rias iniciativas para facilitar o acesso ao batismo. Deram-se conta que nos \u00faltimos anos estava aumentando o n\u00famero dos que n\u00e3o eram batizados por v\u00e1rios motivos, mesmo sociol\u00f3gicos, e queriam recordar a todos que ser batizados \u00e9 uma coisa simples, que todos podem pedir para si e para seus pr\u00f3prios filhos. O caminho que os p\u00e1rocos e aquelas comunidades tomaram era um s\u00f3: n\u00e3o complicar, n\u00e3o pretender nada, eliminar todas as dificuldades de car\u00e1ter cultural, psicol\u00f3gico ou pr\u00e1tico que poderia levar as pessoas a adiar ou perder a inten\u00e7\u00e3o de batizar seus pr\u00f3prios filhos.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><b>Na Am\u00e9rica, no in\u00edcio da evangeliza\u00e7\u00e3o, os mission\u00e1rios discutiam sobre quem seria \u201cdigno\u201d de receber o batismo. Como se conclu\u00edram aquelas discuss\u00f5es?<\/b><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Papa Paulo III recusou as teorias dos que sustentavam que os \u00edndios eram por natureza \u201cincapazes\u201d de acolher o Evangelho e confirmou a escolha dos que facilitavam o seu batismo. Parecem coisas passadas, mas ainda hoje h\u00e1 c\u00edrculos e setores que se apresentam como \u201c<i>ilustrados<\/i>\u201d, iluminados, e sequestram tamb\u00e9m o an\u00fancio do Evangelho nas suas l\u00f3gicas distorcidas que dividem o mundo entre \u201cciviliza\u00e7\u00e3o\u201d e \u201cbarb\u00e1rie\u201d. A ideia que o Senhor tenha entre seus preferidos muitas \u201ccabecitas negras\u201d os irrita, deixa-os de mau humor. Eles consideram boa parte da fam\u00edlia humana como se fosse uma entidade de classe inferior, inadequada a alcan\u00e7ar, segundo seus padr\u00f5es, n\u00edveis decentes de vida espiritual e intelectual. Nesta base pode-se desenvolver um desprezo pelos povos considerados de segundo n\u00edvel. Esse tema surgiu tamb\u00e9m por ocasi\u00e3o do S\u00ednodo dos Bispos para a Amaz\u00f4nia.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><b>Hoje existe a tend\u00eancia de colocar em alternativa dial\u00e9tica o an\u00fancio claro da f\u00e9 e as obras sociais. Dizem que n\u00e3o precisa reduzir a miss\u00e3o para sustentar as obras sociais. \u00c9 uma preocupa\u00e7\u00e3o leg\u00edtima?<\/b><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Tudo o que est\u00e1 dentro do horizonte das Bem-Aventuran\u00e7as e das obras de miseric\u00f3rdia est\u00e3o de acordo com a miss\u00e3o, j\u00e1 \u00e9 an\u00fancio, j\u00e1 \u00e9 miss\u00e3o. A Igreja n\u00e3o \u00e9 uma ONG, a Igreja \u00e9 uma outra coisa. Mas a Igreja \u00e9 tamb\u00e9m um hospital de campo, onde se acolhe todos, assim como s\u00e3o, cuidando das feridas de todos. E isso faz parte da sua miss\u00e3o. Tudo depende do amor que move o cora\u00e7\u00e3o dos que atuam. Se um mission\u00e1rio ajuda a escavar um po\u00e7o em Mo\u00e7ambique, porque se deu conta que \u00e9 fundamental para os que ele batizou e aos quais prega o Evangelho, como se pode dizer que a obra \u00e9 separada do an\u00fancio?<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><b>Atualmente, quais s\u00e3o as novas aten\u00e7\u00f5es e sensibilidades a serem exercidas nos processos destinados a tornar fecundo o an\u00fancio do Evangelho, nos v\u00e1rios contextos sociais e culturais?<\/b><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">O cristianismo n\u00e3o disp\u00f5e de um \u00fanico modelo cultural. Como reconheceu Jo\u00e3o Paulo II, \u201cpermanecendo plenamente si mesmo, na total fidelidade ao an\u00fancio evang\u00e9lico e \u00e0 tradi\u00e7\u00e3o eclesial, o cristianismo carregar\u00e1 tamb\u00e9m o rosto das v\u00e1rias culturas e dos v\u00e1rios povos nos quais foi acolhido e enraizado\u201d. O Esp\u00edrito Santo embeleza a Igreja, com as express\u00f5es novas das pessoas e das comunidades que abra\u00e7am o Evangelho. Assim a Igreja, assumindo os valores das v\u00e1rias culturas, torna-se \u201c<i>sponsa ornata monilibus suis<\/i>\u201d, \u201ca esposa que se enfeita com suas j\u00f3ias\u201d, da qual fala o profeta Isa\u00edas. \u00c9 verdade que algumas culturas foram estreitamente ligadas \u00e0 prega\u00e7\u00e3o do Evangelho e ao desenvolvimento de um pensamento crist\u00e3o. Mas nos nossos dias, torna-se ainda mais urgente considerar que a mensagem revelada n\u00e3o se identifica com nenhuma cultura. E no encontro com novas culturas ou com culturas que n\u00e3o acolheram a prega\u00e7\u00e3o crist\u00e3, n\u00e3o se deve tentar impor uma determinada forma cultural junto com a proposta evang\u00e9lica. Hoje, tamb\u00e9m na obra mission\u00e1ria conv\u00e9m mais do que nunca, n\u00e3o carregar bagagem pesada.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><b>Miss\u00e3o e mart\u00edrio. O senhor recordou v\u00e1rias vezes o \u00edntimo v\u00ednculo que une estas duas experi\u00eancias.<\/b><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Na vida crist\u00e3 a experi\u00eancia do mart\u00edrio e a proclama\u00e7\u00e3o do Evangelho a todos t\u00eam a mesma origem, a mesma fonte, quando o amor de Deus derramado nos nossos cora\u00e7\u00f5es pelo Esp\u00edrito Santo doa for\u00e7a, coragem e consola\u00e7\u00e3o. O mart\u00edrio \u00e9 a m\u00e1xima express\u00e3o do reconhecimento e do testemunho feito a Cristo, que representam o cumprimento da miss\u00e3o, da obra apost\u00f3lica. Penso sempre nos irm\u00e3os coptas trucidados na L\u00edbia, que pronunciavam em voz baixa o nome de Jesus enquanto eram degolados. Penso nas Irm\u00e3s de Santa Madre Teresa mortas no I\u00eamen, enquanto cuidavam dos pacientes mu\u00e7ulmanos de uma casa de idosos com defici\u00eancias. Quando foram mortas, estavam com o avental de trabalho sobre o h\u00e1bito religioso. S\u00e3o todos vencedores, n\u00e3o \u201cv\u00edtimas\u201d. E seu mart\u00edrio, at\u00e9 o derramamento de sangue, ilumina o mart\u00edrio que todos podem sofrer na vida todos os dias, com o testemunho dado a Cristo todos os dias. Isso pode-se ver quando se vai visitar os asilos de mission\u00e1rios idosos, muitas vezes debilitados pela vida que levaram. Um mission\u00e1rio me disse que muitos deles perdem a mem\u00f3ria e n\u00e3o recordam mais nada do bem que fizeram. \u201cMas n\u00e3o tem import\u00e2ncia\u201d, me disse \u201cporque disso o Senhor se recorda muito bem\u201d.<\/p>\n<\/div>\n<\/div>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Livro &#8220;Sem Jesus, nada podemos fazer&#8221;\u00a0 (Vatican Media) No m\u00eas mission\u00e1rio, republicamos alguns trechos do livro-entrevista com o Papa Francisco realizada por Gianni Valente, da Ag\u00eancia Fides. O Papa lembra-nos que &#8220;a Igreja ou \u00e9 um an\u00fancio ou n\u00e3o \u00e9 Igreja&#8221;. O livro foi publicado pela LEV e S\u00e3o Paulo. 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