{"id":63021,"date":"2020-10-05T09:35:17","date_gmt":"2020-10-05T12:35:17","guid":{"rendered":"https:\/\/catolicanet.net\/wp-cnet\/?p=63021"},"modified":"2020-10-05T12:36:35","modified_gmt":"2020-10-05T15:36:35","slug":"a-nova-enciclica-social-fratelli-tutti-iii","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/catolicanet.net\/wp-cnet\/a-nova-enciclica-social-fratelli-tutti-iii\/","title":{"rendered":"A nova enc\u00edclica social \u201cFratelli tutti\u201d (III)"},"content":{"rendered":"<p style=\"text-align: justify;\"><strong>\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0 <\/strong>Reflitamos sobre os cap\u00edtulos 3 e 4 da nova enc\u00edclica \u201cFratelli tutti\u201d: a fraternidade e a amizade social, do Papa Francisco. Espero despertar em cada um o gosto pela leitura integral desse precioso documento.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0 Recordo, a t\u00edtulo de contextualiza\u00e7\u00e3o, que no cap\u00edtulo I, intitulado \u201cAs sombras de um mundo fechado\u201d (n. 9-55), o Santo Padre exp\u00f4s algumas tend\u00eancias do mundo atual que atrapalham ou mesmo impedem a fraternidade universal. Deixou de lado, por um tempo, esses questionamentos para iluminar sua reflex\u00e3o com a par\u00e1bola do Bom Samaritano (cf. Lc 10, 25-37). Eis que, agora, no cap\u00edtulo III, cujo t\u00edtulo \u00e9 \u201cPensar e gerar um mundo aberto\u201d (n. 87-127), o Papa como que se volta para as respostas aos desafios por ele recolhidos no cap\u00edtulo II. Acompanhemos com aten\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0 \u00c9 preciso amar de verdade e concretamente, diz o Papa: \u201cO ser humano est\u00e1 feito de tal maneira que n\u00e3o se realiza, n\u00e3o se desenvolve, nem pode encontrar a sua plenitude \u2018a n\u00e3o ser no sincero dom de si mesmo\u2019 (<em>Gaudium et spes<\/em>, 24) aos outros. E n\u00e3o chega a reconhecer completamente a sua pr\u00f3pria verdade, sen\u00e3o no encontro com os outros: \u2018S\u00f3 comunico realmente comigo mesmo, na medida em que comunico com o outro\u2019 (Gabriel Marcel, <em>Du refus \u00e0 l\u2019invocation<\/em> (Paris 1940), 50). Isso explica por que ningu\u00e9m pode experimentar o valor de viver, sem rostos concretos a quem amar. Aqui est\u00e1 um segredo da exist\u00eancia humana aut\u00eantica, j\u00e1 que \u2018a vida subsiste onde h\u00e1 v\u00ednculo, comunh\u00e3o, fraternidade; e \u00e9 uma vida mais forte do que a morte, quando se constr\u00f3i sobre verdadeiras rela\u00e7\u00f5es e v\u00ednculos de fidelidade. Pelo contr\u00e1rio, n\u00e3o h\u00e1 vida quando se tem a pretens\u00e3o de pertencer apenas a si mesmo e de viver como ilhas: nestas atitudes prevalece a morte\u2019 (Francisco, <em>Alocu\u00e7\u00e3o do <\/em>Angelus (10 de novembro de 2019): <em>L\u2019Osservatore Romano<\/em> (ed. semanal portuguesa de 12\/XI\/2019), 3)\u201d (n. 87). Ali\u00e1s, a) \u201co individualismo n\u00e3o nos torna mais livres, mais iguais, mais irm\u00e3os. A mera soma dos interesses individuais n\u00e3o \u00e9 capaz de gerar um mundo melhor para toda a humanidade\u201d (n. 105) b) mesmo na defesa da verdade, devemos agir com amor, pois \u201co maior perigo \u00e9 n\u00e3o amar (cf. 1Cor 13,1-13)\u201d (n. 92).<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">O que foge disso tudo est\u00e1, via de regra, mais voltado a si mesmo do que ao pr\u00f3ximo e pode ser doentio: \u201cA pessoa humana, com os seus direitos inalien\u00e1veis, est\u00e1 naturalmente aberta a criar v\u00ednculos. Habita nela, radicalmente, o apelo a transcender-se a si mesma no encontro com os outros\u201d (n. 111). At\u00e9 mesmo em n\u00edvel micro, nas comunidades, \u201cos grupos fechados e os casais autorreferenciais, que se constituem como um \u2018n\u00f3s\u2019 contraposto ao mundo inteiro, habitualmente s\u00e3o formas idealizadas de ego\u00edsmo e mera autoprote\u00e7\u00e3o\u201d (n. 89). Ningu\u00e9m deve se isolar, somos \u201ctodos irm\u00e3os (Mt 23,8)\u201d (n. 95).\u00a0 Aqui entra o racismo: \u201cum v\u00edrus que muda facilmente e, em vez de desaparecer, dissimula-se, mas est\u00e1 sempre \u00e0 espreita\u201d (n. 97). Nesse contexto, quem ama os que com ele convivem numa comunidade local, dever\u00e1 amar tamb\u00e9m os de mais longe: \u00e9 assim o exerc\u00edcio da fraternidade universal (cf. n. 99-104). Sim, pois \u201ctodo ser humano tem direito de viver com dignidade e desenvolver-se integralmente, e nenhum pa\u00eds lhe pode negar este direito fundamental\u201d (n. 107). Somos, portanto, chamados a dar o melhor aos outros na verdadeira solidariedade (cf. n. 112 e 114), sem nos esquecermos do cuidado para com a \u201ccasa comum\u201d, conforme foi longamente tratado na <em>Laudato Si<\/em>, e com o uso correto da terra.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Sobre a terra, em especial, escreve o Pont\u00edfice: \u201cFa\u00e7o minhas e volto a propor a todos algumas palavras de S\u00e3o Jo\u00e3o Paulo II, cuja veem\u00eancia talvez tenha passado despercebida: \u2018Deus deu a terra a todo g\u00eanero humano, para que ela sustente todos os seus membros, sem excluir nem privilegiar ningu\u00e9m\u2019 (<em>Centesimus annus<\/em> (1 de maio de 1991), 31: <em>AAS<\/em> 83 (1991), 831). Nesta linha, lembro que \u2018a tradi\u00e7\u00e3o crist\u00e3 nunca reconheceu como absoluto ou intoc\u00e1vel o direito \u00e0 propriedade privada, e salientou a fun\u00e7\u00e3o social de qualquer forma de propriedade privada\u2019 (Carta enc. <em>Laudato si\u2019<\/em> (24 de maio de 2015), 93: <em>AAS<\/em> 107 (2015), 884). O princ\u00edpio do uso comum dos bens criados para todos \u00e9 o \u2018primeiro princ\u00edpio de toda a ordem \u00e9tico-social\u2019 (Carta enc. <em>Laborem exercens<\/em> (14 de setembro de 1981), 19: <em>AAS<\/em> 73 (1981), 626), \u00e9 um direito natural, primordial e priorit\u00e1rio (cf. Conselho Pontif\u00edcio \u00abJusti\u00e7a e paz\u00bb, <em>Comp\u00eandio da Doutrina Social da Igreja<\/em>, 172). Todos os outros direitos sobre os bens necess\u00e1rios para a realiza\u00e7\u00e3o integral das pessoas, quaisquer que sejam eles incluindo o da propriedade privada, \u2018n\u00e3o devem \u2013 como afirmava S\u00e3o Paulo VI \u2013 impedir, mas, pelo contr\u00e1rio, facilitar a sua realiza\u00e7\u00e3o\u2019 (<em>Populorum progressio<\/em> (26 de mar\u00e7o de 1967), 22: <em>AAS<\/em> 59 (1967), 268). O direito \u00e0 propriedade privada s\u00f3 pode ser considerado como um direito natural secund\u00e1rio e derivado do princ\u00edpio do destino universal dos bens criados, e isto tem consequ\u00eancias muito concretas que se devem refletir no funcionamento da sociedade. Mas acontece muitas vezes que os direitos secund\u00e1rios se sobrep\u00f5em aos priorit\u00e1rios e primordiais, deixando-os sem relev\u00e2ncia pr\u00e1tica\u201d (n. 120; cf. n. 124).<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0 Francisco louva os empres\u00e1rios em seus esfor\u00e7os, por\u00e9m tamb\u00e9m os desafia: \u201cMas estas capacidades dos empres\u00e1rios, que s\u00e3o um dom de Deus, deveriam em todo o caso orientar-se claramente para o desenvolvimento das outras pessoas e a supera\u00e7\u00e3o da mis\u00e9ria, especialmente atrav\u00e9s da cria\u00e7\u00e3o de oportunidades de trabalho diversificadas\u201d (n. 123). Afinal, s\u00f3 ante uma l\u00f3gica que considera a dignidade humana \u00e9 poss\u00edvel sonhar com e ter um mundo melhor (cf. n. 123).<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0 No cap\u00edtulo IV, cujo t\u00edtulo soa \u201cUm cora\u00e7\u00e3o aberto ao mundo inteiro\u201d (n. 128-153), o Papa se volta, por primeiro a um problema que lhe \u00e9 muito especial: o dos migrantes. Para o Santo Padre o ideal seria ningu\u00e9m deixar a sua terra natal, mas se, for\u00e7ado por algumas circunst\u00e2ncias espec\u00edficas, as pessoas tiverem de buscar outras regi\u00f5es, que vigore para elas a fraternidade universal: onde quer que esteja ou v\u00e1, encontre irm\u00e3os e irm\u00e3s capazes de lhes aplicar concretamente quatro verbos: \u201cacolher, proteger, promover e integrar\u201d (n. 129). A quem j\u00e1 se encontra instalado em um lugar faz algum tempo, importa que lhe seja reconhecida a cidadania, ou seja, a perten\u00e7a legal \u00e0 popula\u00e7\u00e3o local (cf. n. 131); ele h\u00e1 de ser um dom para ela, pois sempre traz algo novo (cf. n. 133).<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\u201cAs v\u00e1rias culturas, cuja riqueza se foi criando ao longo dos s\u00e9culos, devem ser salvaguardadas para que o mundo n\u00e3o fique mais pobre. Isso, por\u00e9m, sem deixar de as estimular a que permitam surgir de si mesmas algo de novo no encontro com outras realidades\u201d (n. 134 e 148). Nesse cen\u00e1rio, \u201ca ajuda m\u00fatua entre pa\u00edses acaba por beneficiar a todos\u201d (n. 137), dado que \u201choje nenhum Estado nacional isolado \u00e9 capaz de garantir o bem comum da pr\u00f3pria popula\u00e7\u00e3o\u201d (n. 153). Isso tudo sem perder, \u00e9 certo, a identidade local (cf. n. 142) \u00e0 luz de interc\u00e2mbios sadios e enriquecedores (n. 144). Nessa perspectiva, n\u00e3o cabem os \u201cnarcisismos bairristas que n\u00e3o expressam um amor sadio pelo pr\u00f3prio povo e a sua cultura. Escondem um esp\u00edrito fechado que, devido a uma certa inseguran\u00e7a e medo do outro, prefere criar muralhas defensivas para sua salvaguarda\u201d (n. 146). Pensa, assim, o Santo Padre, junto com Grande Im\u00e3 Ahmad Al-Tayyeb, no bom relacionamento entre o Ocidente e o Oriente (cf. n. 136).<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Antes de prosseguir na leitura da <em>Fratelli Tutti<\/em>, desejo lembrar, a t\u00edtulo pessoal, as palavras do Conc\u00edlio Ecum\u00eanico Vaticano II (1962-1965) sobre os mu\u00e7ulmanos, uma vez que a rela\u00e7\u00e3o entre o Ocidente e o Oriente envolve Cristianismo e Islamismo: \u201cA Igreja olha tamb\u00e9m com estima para os mu\u00e7ulmanos. Adoram eles o Deus \u00danico, vivo e subsistente, misericordioso e omnipotente, criador do c\u00e9u e da terra, que falou aos homens e a cujos decretos, mesmo ocultos, procuram submeter-se de todo o cora\u00e7\u00e3o, como a Deus se submeteu Abra\u00e3o, que a f\u00e9 isl\u00e2mica de bom grado evoca. Embora sem o reconhecerem como Deus, veneram Jesus como profeta, e honram Maria, sua m\u00e3e virginal, \u00e0 qual por vezes invocam devotamente. Esperam pelo dia do ju\u00edzo, no qual Deus remunerar\u00e1 todos os homens, uma vez ressuscitados. T\u00eam, por isso, em apre\u00e7o a vida moral e prestam culto a Deus, sobretudo com a ora\u00e7\u00e3o, a esmola e o jejum. E se \u00e9 verdade que, no decurso dos s\u00e9culos, surgiram entre crist\u00e3os e mu\u00e7ulmanos n\u00e3o poucas disc\u00f3rdias e \u00f3dios, este sagrado Conc\u00edlio exorta todos a que, esquecendo o passado, sinceramente se exercitem na compreens\u00e3o m\u00fatua e juntos defendam e promovam a justi\u00e7a social, os bens morais e a paz e liberdade para todos os homens\u201d (<em>Nostra aetate<\/em> n. 3). Neste ponto espec\u00edfico, como fonte de aprofundamento, indico uma obra que trata do Islamismo de modo s\u00e9rio: <em>Religi\u00f5es: respostas para as perguntas do homem moderno<\/em>. S\u00e3o Paulo: Mundo e miss\u00e3o, 1998, p. 73-95 (volume I).<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Retornando \u00e0 enc\u00edclica, vemos Francisco se volta para a gratuidade crist\u00e3 que \u00e9, em s\u00edntese, fazer o bem sem esperar nada em troca. Eis suas palavras sobre a gratuidade: \u201c\u00e9 a capacidade de fazer algumas coisas, pelo simples fato de serem boas, sem olhar \u00eaxitos nem esperar receber imediatamente algo em troca. Isto permite acolher o estrangeiro, mesmo que n\u00e3o traga de imediato benef\u00edcios palp\u00e1veis. Mas h\u00e1 pa\u00edses que pretendem receber apenas cientistas ou investidores. Quem n\u00e3o vive a gratuidade fraterna, transforma a sua exist\u00eancia num com\u00e9rcio cheio de ansiedade: est\u00e1 sempre a medir aquilo que d\u00e1 e o que recebe em troca\u201d (n. 139-140). \u00c9 \u00f3bvio que \u201cos nacionalismos fechados manifestam, em \u00faltima an\u00e1lise, esta incapacidade de gratuidade, a errada persuas\u00e3o de que podem desenvolver-se \u00e0 margem da ru\u00edna dos outros e que, fechando-se aos demais, estar\u00e3o mais protegidos. O migrante \u00e9 visto como um usurpador, que nada oferece\u201d (n. 141).<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0 Da\u00ed afirmar o Papa sobre a intera\u00e7\u00e3o social: \u201cEsta abordagem exige, em \u00faltima an\u00e1lise, que se aceite com alegria que nenhum povo, nenhuma cultura, nenhum indiv\u00edduo pode obter tudo de si mesmo. Os outros s\u00e3o, constitutivamente, necess\u00e1rios para a constru\u00e7\u00e3o duma vida plena. A consci\u00eancia do limite ou da exiguidade, longe de ser uma amea\u00e7a, torna-se a chave segundo a qual sonhar e elaborar um projeto comum. Com efeito, \u2018o homem \u00e9 o ser fronteiri\u00e7o que n\u00e3o tem qualquer fronteira\u2019 (Georg Simmel, <em>Br\u00fccke und T\u00fcr. <\/em><em>Essays des Philosophen zur Geschichte, Religion, Kunst und Gesellschaft<\/em> (Estugarda 1957), 6)\u201d (n. 150).<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0 Possam estas reflex\u00f5es do Santo Padre levar-nos a repensar, \u00e0 luz do Evangelho, nossa rela\u00e7\u00e3o com todos os que passam por n\u00f3s no dia a dia. Pe\u00e7amos a Deus a gra\u00e7a de sermos realmente acolhedores como manda o Evangelho (cf. Mt 25,35) e recomenda a Regra de S\u00e3o Bento (53,15) citada pelo Papa no n\u00famero 90 da <em>Fratelli Tutti<\/em>.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0 Reflitamos sobre os cap\u00edtulos 3 e 4 da nova enc\u00edclica \u201cFratelli tutti\u201d: a fraternidade e a amizade social, do Papa Francisco. 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