{"id":61339,"date":"2020-08-10T11:15:38","date_gmt":"2020-08-10T14:15:38","guid":{"rendered":"https:\/\/catolicanet.net\/wp-cnet\/?p=61339"},"modified":"2020-08-10T11:15:38","modified_gmt":"2020-08-10T14:15:38","slug":"pastor-poeta-e-profeta","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/catolicanet.net\/wp-cnet\/pastor-poeta-e-profeta\/","title":{"rendered":"PASTOR, POETA E PROFETA"},"content":{"rendered":"<p style=\"text-align: justify;\">Se lhe pergunt\u00e1ssemos com qual dos t\u00edtulos gostaria de ser conhecido sua resposta seria um sonoro \u201cNenhum\u201d. Se subvertia a qualquer esp\u00e9cie de honra ou tributo pessoal. Sobre si mesmo um dia escreveu: \u201cMe chamar\u00e3o subversivo. E lhes diria: eu sou. Por meu povo em luta, vivo. Com meu povo em marcha, vou\u201d. Seu anel de tucum e seu chap\u00e9u de palha ou bon\u00e9 faziam as vezes de seus s\u00edmbolos eclesi\u00e1sticos, dos quais s\u00f3 a estola n\u00e3o destoava da tradi\u00e7\u00e3o apost\u00f3lica. Bispo por ordem clerical, mas pastor sobretudo. Poeta pela veia sentimental, mas profeta. Profeta pela voz das den\u00fancias, por\u00e9m sempre um suave poeta em paz com seu povo.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0 Uma Paz questionadora, insubordinada, pedra no sapato de muita gente. Um revolucion\u00e1rio da inquietude, da m\u00edstica sempre em ebuli\u00e7\u00e3o no meio da massa disforme, desigual. Pedia em ora\u00e7\u00e3o que Deus n\u00e3o permitisse cruzar os bra\u00e7os diante de qualquer injusti\u00e7a. Viu seu colega sacerdote ser morto numa delegacia, quando ambos tentavam defender uma mulher espancada arbitrariamente. Ent\u00e3o escreveu: \u201cD\u00e1-me Senhor, aquela Paz inquieta\/ que denuncia a Paz dos cemit\u00e9rios\/ E a paz dos lucros fartos\/ D\u00e1-me a Paz que luta pela Paz\u201d.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0 Pastor poeta. Muitos torciam o nariz pela a\u00e7\u00e3o sempre inc\u00f4moda dum \u201cbispinho\u201d do interior, de uma simples prelazia encravada no sert\u00e3o mato-grossense, onde chegou para fundar uma miss\u00e3o em meio a ind\u00edgenas e marginalizados. L\u00e1 chegando encontrou quatro beb\u00eas mortos, dentro de caixas de sapatos na soleira de sua casa. Uma velada amea\u00e7a. Foi o estopim de um episcopado em defesa daquele povo oprimido, massacrado e ironicamente v\u00edtima da concentra\u00e7\u00e3o fundi\u00e1ria naquela regi\u00e3o. Sua verve de poeta explodiu em versos tintos de vermelho, de paix\u00e3o por esse povo. Escreveu a primeira das denuncias que marcariam seu episcopado, ent\u00e3o acusado de a\u00e7\u00e3o comunista. N\u00e3o tinha outro caminho. Sua situa\u00e7\u00e3o era t\u00e3o ca\u00f3tica que sentiu na pele as agruras do povo, passou necessidades, sofreu persegui\u00e7\u00f5es e incompreens\u00f5es at\u00e9 dentro da pr\u00f3pria Igreja. Um dia chegou a celebrar com \u201ccacha\u00e7a e bolachas\u201d, por falta absoluta do \u201cp\u00e3o e vinho\u201d tradicionais. Mas n\u00e3o perdeu a ess\u00eancia do ato m\u00edstico, onde realmente o essencial era invis\u00edvel, a presen\u00e7a era a ess\u00eancia naqueles s\u00edmbolos fora dos padr\u00f5es. Sua poesia se transubstanciava na ora\u00e7\u00e3o consagrada de seus poderes sacerdotais.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0 Pastor profeta. Em vez da mitra, um chap\u00e9u. O ouro do anel tinha a cor do coquinho silvestre. O b\u00e1culo era um cajado ind\u00edgena. Acusado de subversivo, foi marginalizado socialmente, a ponto de muitos desejarem sua expuls\u00e3o do pa\u00eds. Mesmo assim, n\u00e3o se intimidou. Denunciou, anunciou, como todo bom profeta, a ponto de n\u00e3o temer as amea\u00e7as de morte que muitos lhe fizeram. Sua poesia tornou-se sua voz prof\u00e9tica e inibidora. \u201cEu morrerei em p\u00e9, como as \u00e1rvores. Me matar\u00e3o em p\u00e9. O sol, testemunha maior, imprimir\u00e1 seu lacre sobre meu corpo duplamente ungido. De golpe, com a morte, se far\u00e1 verdade, a minha vida. Por fim, terei amado\u201d. E amou at\u00e9 o fim: \u201cNo final do caminho me dir\u00e3o: &#8211; E tu, viveste? Amaste? E eu, sem dizer nada, abrirei o cora\u00e7\u00e3o cheio de nomes\u201d.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\u00a0 \u00a0 \u00a0 \u00a0 \u00a0 \u00a0D. Pedro Casald\u00e1liga. O catal\u00e3o radicado no Brasil desde 1968 \u2013 e que nunca mais voltou para sua terra natal \u2013 morreu neste 8 de agosto de 2020, aos 92 anos. Bispo em\u00e9rito, vinculou seu nome em definitivo aos pobres da prelazia de S\u00e3o F\u00e9lix, \u00e0s margens do rio Araguaia. Seu contradit\u00f3rio n\u00e3o foi pertencer a uma corrente de a\u00e7\u00e3o libertadora na igreja latino-americana, mas de ter sido, simplesmente, pai dos pobres e exercer seu pastoreio com uma a\u00e7\u00e3o prof\u00e9tica, po\u00e9tica, radicalmente crist\u00e3. Descanse em Paz, na sua inquietude.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Se lhe pergunt\u00e1ssemos com qual dos t\u00edtulos gostaria de ser conhecido sua resposta seria um sonoro \u201cNenhum\u201d. Se subvertia a qualquer esp\u00e9cie de honra ou tributo pessoal. Sobre si mesmo um dia escreveu: \u201cMe chamar\u00e3o subversivo. E lhes diria: eu sou. Por meu povo em luta, vivo. Com meu povo em marcha, vou\u201d. 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