{"id":6058,"date":"2015-07-21T12:05:22","date_gmt":"2015-07-21T15:05:22","guid":{"rendered":"http:\/\/catolicanet.net\/wp-cnet\/laudato-si\/"},"modified":"2017-04-10T14:41:29","modified_gmt":"2017-04-10T17:41:29","slug":"laudato-si","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/catolicanet.net\/wp-cnet\/laudato-si\/","title":{"rendered":"Laudato si\u2019"},"content":{"rendered":"<p style=\"text-align: justify;\">\n<p>Fomos presenteados, h\u00e1 semanas, pela Enc\u00edclica Laudato Si\u2019 (Louvado sejas) do Papa Francisco, assinada em 24 de maio \u00faltimo, na Solenidade de Pentecostes. Aproveito para partilhar um pequeno resumo, n\u00e3o para, evidentemente, substituir a leitura e at\u00e9 mesmo \u2013 o que seria muito recomend\u00e1vel \u2013 o estudo dela, mas, sim, para estimular a tudo isso.<\/p>\n<p>Introdu\u00e7\u00e3o <\/p>\n<p>Embora Francisco n\u00e3o d\u00ea o nome de introdu\u00e7\u00e3o \u00e0s primeiras considera\u00e7\u00f5es contidas no documento, podemos cham\u00e1-las assim por ser a abertura do longo texto pontif\u00edcio que cont\u00e9m uma panor\u00e2mica geral da Laudato Si\u2019 e o convite aos crist\u00e3os, religiosos em geral e pessoas de boa vontade para que cuidem da natureza.<br \/>O Santo Padre come\u00e7a apresentando a partir das pr\u00f3prias palavras iniciais da Enc\u00edclica, o pensamento de S\u00e3o Francisco de Assis, a quem ele escolheu como orienta\u00e7\u00e3o e inspira\u00e7\u00e3o no momento de sua elei\u00e7\u00e3o como Bispo de Roma (n. 10), que tem o planeta como nossa \u201ccasa comum\u201d a ser preservada e n\u00e3o dominada irresponsavelmente ou devastada. Afinal, somos parte dela, somos terra (cf. Gn 2,7).<br \/>A seguir, o Papa recorda os ensinamentos de seus predecessores mais recentes como S\u00e3o Jo\u00e3o XXIII, o Beato Paulo VI, S\u00e3o Jo\u00e3o Paulo II e Bento XVI. Al\u00e9m dos Papas, Francisco diz que em outras comunidades crist\u00e3s tamb\u00e9m h\u00e1 preocupa\u00e7\u00e3o no cuidado com a natureza e cita, de modo especial, o patriarca ecum\u00eanico Bartolomeu (n. 9).<br \/>Chega-se, finalmente, ao n\u00famero 15, no qual o Papa Francisco prop\u00f5e, de modo muito did\u00e1tico, o percurso de seu importante e oportuno trabalho, que se insere entre os documentos da Doutrina Social da Igreja, com as seguintes palavras: \u201cEm primeiro lugar, farei uma breve resenha dos v\u00e1rios aspectos da atual crise ecol\u00f3gica, com o objetivo de assumir os melhores frutos da pesquisa cient\u00edfica atualmente dispon\u00edvel, deixar-se tocar por ela em profundidade e dar uma base concreta ao percurso \u00e9tico e espiritual seguido.<br \/>A partir desta panor\u00e2mica, retomarei algumas argumenta\u00e7\u00f5es que derivam da tradi\u00e7\u00e3o judaico-crist\u00e3, a fim de dar maior coer\u00eancia ao nosso compromisso com o meio ambiente. Depois procurarei chegar \u00e0s ra\u00edzes da situa\u00e7\u00e3o atual, de modo a individuar n\u00e3o apenas os seus sintomas, mas tamb\u00e9m as causas mais profundas. Poderemos assim propor uma ecologia que, nas suas v\u00e1rias dimens\u00f5es, integre o lugar espec\u00edfico que o ser humano ocupa neste mundo e as suas rela\u00e7\u00f5es com a realidade que o rodeia. \u00c0 luz desta reflex\u00e3o, quereria dar mais um passo, verificando algumas das grandes linhas de di\u00e1logo e de a\u00e7\u00e3o que envolvem seja cada um de n\u00f3s seja a pol\u00edtica internacional. Finalmente, convencido \u2013 como estou \u2013 de que toda a mudan\u00e7a tem necessidade de motiva\u00e7\u00f5es e dum caminho educativo, proporei algumas linhas de matura\u00e7\u00e3o humana inspiradas no tesouro da experi\u00eancia espiritual crist\u00e3.<br \/>Nesse percurso, algumas palavras ou temas-chave s\u00e3o retomados com certa frequ\u00eancia, pois constituem os eixos que norteiam toda a Enc\u00edclica (pobres e fragilidade do planeta; formas de poder derivado das tecnologias; outras maneiras de entender a economia e o progresso; o valor de cada criatura etc.).<\/p>\n<p>Cap\u00edtulo I: O que est\u00e1 para acontecer \u00e0 nossa casa <\/p>\n<p>O Papa prop\u00f5e que antes de entrarmos nas reflex\u00f5es filos\u00f3fico-religiosas sobre a quest\u00e3o ecol\u00f3gica observemos \u2013 ainda que em uma resenha incompleta (n. 19) \u2013 os problemas reais que nos cercam, a fim de tomarmos como nossas as dores do planeta e reconhecermos as contribui\u00e7\u00f5es que podemos lhe dar.<br \/>Em um primeiro momento, \u00e9 abordada a polui\u00e7\u00e3o, os res\u00edduos perniciosos e a cultura do descarte: as fuma\u00e7as produzidas por diversos meios, inclusive e, sobretudo, contendo subst\u00e2ncias nocivas \u00e0 sa\u00fade de milh\u00f5es de pessoas; al\u00e9m delas, h\u00e1 os res\u00edduos diversos, incluindo os t\u00f3xicos, que fazem do mundo, nossa casa, \u201cum imenso dep\u00f3sito de lixo\u201d (n. 21) e pouco ou nada \u00e9 feito para sanar esse mal. Tudo isso se liga \u00e0 cultura do descarte, tantas vezes denunciada por Francisco por rejeitar n\u00e3o s\u00f3 objetos, mas tamb\u00e9m os pr\u00f3prios seres humanos, especialmente as crian\u00e7as por nascer, os jovens e os idosos.<br \/>Logo depois, vem a quest\u00e3o da rela\u00e7\u00e3o do clima como bem comum destinado a todos sem distin\u00e7\u00e3o, mas o descuido dele aparece como agente (ainda que n\u00e3o se tenha um em especial, cientificamente comprovada) do aquecimento global, que j\u00e1 causa muitos males \u00e0 humanidade e ainda causar\u00e1 mais nas pr\u00f3ximas d\u00e9cadas se nada for feito, levando \u00e0 destrui\u00e7\u00e3o de cidades inteiras em n\u00edvel mais baixo, dada a queda de geleiras, al\u00e9m de afetar recursos b\u00e1sicos como a agricultura, a pesca e os recursos florestais em preju\u00edzo, especialmente, dos mais pobres. Da\u00ed se tornar \u201curgente e imperioso o desenvolvimento de pol\u00edticas capazes de fazer com que, nos pr\u00f3ximos anos, a emiss\u00e3o de anidrido carb\u00f4nico e outros gases altamente poluentes se reduza drasticamente, por exemplo, substituindo os combust\u00edveis f\u00f3sseis e desenvolvendo fontes de energia renov\u00e1vel\u201d (n. 26).<br \/>O Papa fala ainda no \u201cproblema da \u00e1gua\u201d, que \u00e9 fonte de vida, de modo que negar seu acesso a algu\u00e9m \u00e9 negar-lhe o direito \u00e0 vida. Todavia, nem sempre os pobres t\u00eam direito \u00e0 \u00e1gua pot\u00e1vel, o que \u00e9 para eles grande motivo de doen\u00e7as diversas causadas por microorganismos e contamina\u00e7\u00f5es qu\u00edmicas. Nesse contexto de escassez de \u00e1gua querem privatiz\u00e1-la, o que poder\u00e1 causar uma das grandes brigas das pr\u00f3ximas d\u00e9cadas. \u201cA \u00e1gua pot\u00e1vel e limpa constitui uma quest\u00e3o de primordial import\u00e2ncia, porque \u00e9 indispens\u00e1vel para a vida humana e para sustentar os ecossistemas terrestres e aqu\u00e1ticos. As fontes de \u00e1gua doce fornecem os setores sanit\u00e1rios, agropecu\u00e1rios e industriais\u201d (n. 28).<br \/>\u00c9 certo que a destrui\u00e7\u00e3o da natureza e a polui\u00e7\u00e3o das \u00e1guas dos rios e dos mares constituem um grande atentado \u00e0 biodiversidade dos animais e dos vegetais do planeta, n\u00e3o s\u00f3 dos que mais aparecem, como uma baleia ou um macaco, mas tamb\u00e9m de pequenas \u201cesp\u00e9cies\u201d como fungos, algas, insetos e r\u00e9pteis igualmente importantes na natureza.<br \/>H\u00e1, tamb\u00e9m, o perigo de a iniciativa econ\u00f4mica minimizar os riscos aqui denunciados ou, ao contr\u00e1rio, quererem as grandes pot\u00eancias internacionais, em nome de uma pretensa defesa de determinado territ\u00f3rio, como a Amaz\u00f4nia ou a bacia fluvial do Congo, dominar outros pa\u00edses com a finalidade de obterem lucros nas riquezas naturais ali escondidas. Portanto, cada pa\u00eds deve ser respons\u00e1vel pelo cuidado com o meio ambiente que tem em seu territ\u00f3rio.<br \/>Nessa atmosfera de descuido e agress\u00e3o \u00e0 natureza, aparece, tamb\u00e9m, a deteriora\u00e7\u00e3o da qualidade de vida humana e a degrada\u00e7\u00e3o social que levam \u00e0 falta de projetos urban\u00edsticos, nos quais as cidades s\u00e3o muito grandes e polu\u00eddas e as \u00e1reas verdes n\u00e3o servem para os mais pobres, descartados da vida social em geral. Tamb\u00e9m se nota a influ\u00eancia da mass media e internet na vida das pessoas, desfavorecendo uma comunica\u00e7\u00e3o real com o pr\u00f3ximo para substitu\u00ed-la por uma rela\u00e7\u00e3o virtual que pode levar a um nocivo isolamento.<br \/>Esses dados acima bem se justificam na enc\u00edclica Laudato Si\u2019, pois n\u00e3o h\u00e1 como falar da degrada\u00e7\u00e3o ambiental sem tratar dos problemas do ser humano em si. Note-se que toda degrada\u00e7\u00e3o ou maus tratos ao planeta afetam os homens, em especial os mais necessitados, dado que se falta \u00e1gua pot\u00e1vel, por exemplo, como ter\u00e3o recursos financeiros para adquirir \u00e1gua engarrafada, se n\u00e3o t\u00eam dinheiro nem para outras coisas b\u00e1sicas? Em suma, esses pobres s\u00e3o um ap\u00eandice da sociedade, s\u00f3 lembrados \u2013 ao que se v\u00ea \u2013 quando causam alguns danos colaterais a essa mesma sociedade. Mais: mesmo com o desperd\u00edcio de aproximadamente um ter\u00e7o da comida produzida no planeta, h\u00e1 quem julgue que \u00e9 preciso resolver o problema dos pobres e da pobreza por meio da redu\u00e7\u00e3o de natalidades, recorrendo, inclusive, \u00e0 \u201csa\u00fade reprodutiva\u201d, eufemismo que esconde o homic\u00eddio no ventre materno por meio das v\u00e1rias formas de abortos.<br \/>Esquecem-se ainda os poderosos de que somos uma \u00fanica fam\u00edlia humana (n. 52) e dever\u00edamos nos preocupar uns com os outros, pois o que se v\u00ea na pr\u00e1tica \u00e9 um desinteresse dos pa\u00edses ricos com a realidade dos pa\u00edses subdesenvolvidos, salvo para control\u00e1-los por meio da t\u00e3o famosa d\u00edvida externa desses pobres para com os ricos, quando, ao inverso, tamb\u00e9m h\u00e1 uma grande d\u00edvida ecol\u00f3gica dos pa\u00edses desenvolvidos para com as na\u00e7\u00f5es pobres que recebem das multinacionais, com sede nos pa\u00edses do Norte, depois da explora\u00e7\u00e3o de seus territ\u00f3rios, apenas danos ambientais, empobrecimento, esgotamento de algumas reservas naturais etc. (n. 51).<br \/>Diante desse quadro, apesar de sadias e oportunas rea\u00e7\u00f5es no campo ambiental, tais como o saneamento de rios, a recupera\u00e7\u00e3o de matas nativas, o embelezamento de paisagens etc., e no campo sociopol\u00edtico no qual se destaca o combate \u00e0 corrup\u00e7\u00e3o de um modo mais ou menos geral, ainda h\u00e1 muito por fazer, dado que as rea\u00e7\u00f5es s\u00e3o falhas e fracas, devido \u00e0 submiss\u00e3o da pol\u00edtica \u00e0 tecnologia e \u00e0s finan\u00e7as, o que, certamente, n\u00e3o beneficia a grandiosa parcela da popula\u00e7\u00e3o mais necessitada (cf. n. 54).<br \/>O Papa conclui o primeiro cap\u00edtulo de sua Enc\u00edclica dizendo ser err\u00f4neo pensar que o homem, em nome da t\u00e9cnica, deve intervir em tudo o que \u00e9 da natureza, como tamb\u00e9m \u00e9 falho imaginar que n\u00e3o pode tocar em nada. Em concreto, a Igreja n\u00e3o tem uma palavra oficial, mas quer ouvir os cientistas s\u00e9rios, a fim de chegar a um estudo apto a gerar s\u00e9ria interven\u00e7\u00e3o capaz de auxiliar a humanidade que, em n\u00e3o poucas regi\u00f5es, j\u00e1 sofre a velocidade das transforma\u00e7\u00f5es que a levam \u00e0 quebra do belo plano de Deus.<\/p>\n<p>Cap\u00edtulo II: O Evangelho da cria\u00e7\u00e3o <\/p>\n<p>O Papa come\u00e7a esse cap\u00edtulo recordando que para alguns pode parecer estranho falar de Deus ou d\u00e1 f\u00e9 em um texto sobre ecologia dirigido a todos os homens, dado que n\u00e3o poucos recusam a Deus e a f\u00e9; no entanto, a ci\u00eancia e a f\u00e9 devem, cada uma a seu modo, oferecer respostas aos grandes problemas de nosso tempo, dado que na grande riqueza cultural da humanidade tamb\u00e9m a Igreja Cat\u00f3lica tem seu contributo no campo da Filosofia e da Doutrina Social aos homens e mulheres e os leva a se amarem uns aos outros, se cuidarem e cuidarem de toda obra divina.<br \/>Francisco transmite parte da imensa sabedoria das narrativas b\u00edblicas sobre a beleza da cria\u00e7\u00e3o divina: ao criar o homem e a mulher viu Deus que sua obra era muito boa (cf. Gn 1,31). Esse mesmo Deus n\u00e3o abandona suas criaturas ao destino cego, mas protege a cada uma com especial desvelo (cf. Jr 1,5). No relato b\u00edblico, do G\u00eanesis, h\u00e1 n\u00edtida vis\u00e3o do relacionamento tr\u00edplice do homem com Deus, com o outro e com a terra. No entanto, o pecado rompeu essa harmonia primeira, quebrando tamb\u00e9m o sentido original de dominar a terra e de cultiv\u00e1-la e guard\u00e1-la, gerando conflito na forma de entender essa passagem b\u00edblica de grande beleza (cf. Gn 1,28; 2,15; 3,17-19).<br \/>Da\u00ed dizer S\u00e3o Boaventura que S\u00e3o Francisco de Assis retomou essa inoc\u00eancia primeira ao se relacionar bem com todas as criaturas, mas \u00e9 contraditado pelas for\u00e7as destruidoras de nosso tempo, incluindo os estragos, guerras e viol\u00eancias de todo tipo. Portanto, \u00e9 err\u00f4neo dizer que Deus mandou usar da terra de qualquer modo (Gn 1,28). Ao contr\u00e1rio, enquanto dono (cf. Sl 24\/23,1; Dt 10,14; Lv 25,23), Ele nos manda cultivar o terreno com o nosso trabalho e tamb\u00e9m guard\u00e1-lo sob nossa prote\u00e7\u00e3o, como quem a usa para seu proveito e do pr\u00f3ximo sabendo guardar a terra \u00e0s futuras gera\u00e7\u00f5es, respeitando as leis da natureza (cf. Sl 148 5b-6) com tudo o que nela vive (Dt 22, 4.6). Assim, quando o homem descansa, descanse tamb\u00e9m seu boi e seu jumento (E\u00cax 23,12).<br \/>Na natureza que podemos usar responsavelmente, est\u00e1 presente o louvor a Deus em todas as criaturas (cf. Sl 104\/103,31), pois s\u00e3o frutos da Divina Sabedoria (cf. Pr 3,19), por\u00e9m manchadas pelo pecado. Quando Caim matou seu irm\u00e3o teve problemas com Deus e com a terra (cf. Gn 4,9-12) e todas as vezes em que esse trip\u00e9 (Deus, eu, terra) \u00e9 rompido a vida corre perigo e a terra se enche de viol\u00eancia (cf. Gn 6,13). Da\u00ed escrever o Papa que \u201cnestas narra\u00e7\u00f5es t\u00e3o antigas, ricas de profundo simbolismo, j\u00e1 estava contida a convic\u00e7\u00e3o atual de que tudo est\u00e1 inter-relacionado e o cuidado aut\u00eantico da nossa pr\u00f3pria vida e das nossas rela\u00e7\u00f5es com a natureza \u00e9 insepar\u00e1vel da fraternidade, da justi\u00e7a e da fidelidade aos outros\u201d (n. 70).<br \/>Mesmo com a alian\u00e7a quebrada e Deus estar arrependido de ter feito o homem (cf. Gn 6,5-6), usa de No\u00e9 para salvar a humanidade, dando-lhe a possibilidade de um rein\u00edcio. Isso implica respeito \u00e0s leis r\u00edtmicas da natureza, inscritas, por exemplo, no Shabbath, o s\u00e9timo dia, quando Deus descansou da cria\u00e7\u00e3o (cf. Gn 2,2-3; Ex 16,23; 20,10). Ademais, de sete em sete anos, havia o ano sab\u00e1tico (cf. Lv 25,1-4) para descanso da terra, e a cada cinquenta anos o perd\u00e3o universal no ano jubilar (cf. Lv 25,10), de modo a favorecer o bom uso da terra e ajudar aos pobres e necessitados (cf. Lv 19,9-10).<br \/>Por fim, os Salmos nos convidam a louvar a Deus (Sl 136\/135,6; 148,3-5), enquanto os profetas chamam o povo a recuperar suas for\u00e7as nos momentos dif\u00edceis, demonstrando, assim, a ternura de Deus que opera at\u00e9 milagres em favor dos seus (cf. Jr 32,17.21; Is 40, 28b-29), especialmente sustentando a f\u00e9 desse mesmo povo no cativeiro da Babil\u00f4nia e, s\u00e9culos depois, a f\u00e9 dos crist\u00e3os nas persegui\u00e7\u00f5es feitas pelo Imp\u00e9rio Romano pag\u00e3o (cf. Ap 15,3). Da\u00ed se entende que s\u00f3 Deus, como dono e pai, pode dispor do mundo como Ele quiser; sem essa certeza da f\u00e9 n\u2019Ele, o ser humano quer impor aos outros suas vontades e submet\u00ea-los junto com a natureza criada aos seus caprichos.<br \/>O criador do mundo \u00e9 Deus e Ele fez cada criatura com seu valor em si mesma, pela sua palavra (cf. Sl 33\/32, 6) por amor (cf. Sb 11,24) e levou a tradi\u00e7\u00e3o judaico-crist\u00e3 a demitificar a natureza, ou seja, a n\u00e3o mais atribuir aos seres criados poderes divinos (a \u00e1rvore, os rios, as pedras seriam entes sagrados), mas, sim, a v\u00ea-los como obras das m\u00e3os de Deus e que devemos nos empenhar em cuidar, enquanto seres racionais que somos. Abertos, portanto, a tantas coisas, estamos tamb\u00e9m voltados \u00e0 transcend\u00eancia ou ao contato com o pr\u00f3prio Deus e temos a liberdade de agir bem ou mal, por\u00e9m, mesmo quando agimos mal, Deus pode tirar do mal bens muito maiores.<br \/>Mesmo com suas limita\u00e7\u00f5es de criaturas, o homem e a mulher s\u00e3o seres especiais na obra da cria\u00e7\u00e3o, pois n\u00e3o proveio de nenhuma evolu\u00e7\u00e3o, mas de uma a\u00e7\u00e3o direta de Deus criador e, por isso, n\u00e3o pode ser reduzido \u00e0 categoria de objeto. No entanto, elevado ao plano da gra\u00e7a divina por Jesus, o ser humano \u00e9 chamado a servir (cf. Mt 20,25-26) e nesse servi\u00e7o chegar, junto com toda a natureza, cada um a seu modo, a Deus por meio de Cristo, centro para o qual tudo converge (cf. n. 83).<br \/>A harmonia da cria\u00e7\u00e3o faz refletir a harmonia de Deus em cada ser criado, na qual o ser humano ocupa um lugar central, sem, por\u00e9m, menosprezar os demais seres criados em geral. Afinal, quem j\u00e1 viveu em meio \u00e0 natureza com seus riachos, matas e montanhas sente-se saudoso disso e h\u00e1 de lutar para ver tudo restaurado como um livro, no qual o homem l\u00ea a grandeza de Deus e ouve as suas mensagens por meio das criaturas (que, embora belas, n\u00e3o se confundem com o Criado como parte d\u2019Ele, mas apenas O refletem, n. 88), cuja multiplicidade e interdepend\u00eancia lembram a grandeza de quem as fez: Deus, o Senhor louvado por S\u00e3o Francisco de Assis no C\u00e2ntico das criaturas, que se inicia com as palavras Louvado sejas!, t\u00edtulo da Enc\u00edclica.<br \/>Este mundo harmonioso em si mesmo n\u00e3o \u00e9 algo sem dono, ele \u00e9 de Deus, de modo que n\u00f3s, enquanto seres racionais a ocuparmos um lugar privilegiado na cria\u00e7\u00e3o, n\u00e3o podemos nos esquecer da fraternidade universal a nos levar \u00e0 amizade com toda a natureza criada. Isso, contudo, nos convida tamb\u00e9m a n\u00e3o nos esquecermos do pr\u00f3ximo em nome de uma indiferen\u00e7a na qual uns parecem ter mais direitos do que outros, ou onde o tr\u00e1fico de animais \u00e9 condenado, mas o com\u00e9rcio il\u00edcito de seres humanos n\u00e3o \u00e9, e nem a mis\u00e9ria a que o pr\u00f3ximo est\u00e1 submetido nos toca. Os indiferentes a isso devem repensar a comunh\u00e3o com o todo.<br \/>De mais a mais, os bens de Deus s\u00e3o emprestados a todos os homens e para o bem comum, especialmente a terra. Embora a propriedade privada seja um direito b\u00e1sico na civiliza\u00e7\u00e3o crist\u00e3, ela n\u00e3o pode estar acima do bem do outro, mas a servi\u00e7o dele, de forma que todos, indistintamente, deveriam ter seu peda\u00e7o de ch\u00e3o para plantar, contando com todo apoio governamental b\u00e1sico. Ademais, a diferen\u00e7a abissal entre pobres e ricos h\u00e1 de ser combatida, dado que apenas 20% dos homens possuem os recursos da natureza, enquanto o resto fica com o que sobra nesse verdadeiro roubo da dignidade humana (n. 95).<br \/>Ao concluir o cap\u00edtulo II, o Papa nos convida a olhar o mundo com o olhar de Cristo que nos revelou Deus como o Pai por excel\u00eancia (cf. Mt 11,25) a quem nada passa despercebido (cf. Lc 12,6; Mt 6,26). Entretanto, importa lembrar que o Senhor Jesus s\u00f3 pode nos falar e demonstrar sua harmonia com a natureza porque Ele vive de modo harmonioso com ela, de tal forma que at\u00e9 o vento e o mar Lhe obedecem (cf. Mt 8,27), age como os demais homens (cf. Mt 11,19) e trabalha a maior parte de sua vida como carpinteiro (cf. Mc 6,3), de modo que cada ser humano ao trabalhar em uni\u00e3o com Deus ajuda Cristo na sua obra redentora.<br \/>No entanto, a vida de Cristo n\u00e3o se resume entre a Encarna\u00e7\u00e3o e a Cruz, pois tem a Ressurrei\u00e7\u00e3o. Ele \u00e9 o centro do cosmo e veio para recapitular ou resgatar tudo o que estava perdido para o Pai (cf. Cl 1,19-20; 1Cor 15,28) com a reden\u00e7\u00e3o f\u00edsico-m\u00edstica, ou seja, por meio de seu contato com toda a natureza, Ele a redimiu e tornou-a cheia de sua presen\u00e7a luminosa.<\/p>\n<p>Cap\u00edtulo III: A raiz humana da crise ecol\u00f3gica<\/p>\n<p>No n\u00famero 101, o Papa sintetiza a raz\u00e3o de ser deste cap\u00edtulo III: \u201cPara nada serviria descrever os sintomas, se n\u00e3o reconhec\u00eassemos a raiz humana da crise ecol\u00f3gica. H\u00e1 um modo desordenado de conceber a vida e a a\u00e7\u00e3o do ser humano, que contradiz a realidade at\u00e9 ao ponto de arruin\u00e1-la. N\u00e3o poderemos deter-nos a pensar nisto mesmo? Proponho, pois, que nos concentremos no paradigma tecnocr\u00e1tico dominante e no lugar que ocupa nele o ser humano e a sua a\u00e7\u00e3o no mundo\u201d.<br \/>Isso posto, Francisco fala do paradoxo causado pelo progresso tecnol\u00f3gico que trouxe ao ser humano muita alegria nos avan\u00e7os nas mais diversas \u00e1reas, incluindo as ci\u00eancias m\u00e9dicas e o desenvolvimento sustent\u00e1vel; mas tamb\u00e9m acarretou tr\u00e1gicas conseq\u00fc\u00eancias, como a manipula\u00e7\u00e3o da vida humana no campo da biotecnologia e em outros meios, bastando-nos lembrar que, em pleno s\u00e9culo XX, a bomba at\u00f4mica foi lan\u00e7ada no Jap\u00e3o. Tamb\u00e9m outros meios tecnol\u00f3gicos serviram para alimentar o poder de sistemas nefastos como o nazismo, o comunismo e outros regimes totalit\u00e1rios respons\u00e1veis por milh\u00f5es de mortes. Demonstram com isso que o ser humano do nosso tempo parece n\u00e3o saber usar o poder, o que \u00e9 grave e requer uma educa\u00e7\u00e3o s\u00e9ria nesse \u00e2mbito (n. 105).<br \/>A tecnologia assumiu para o homem uma fun\u00e7\u00e3o primordial de vida, de modo que se antes ela o ajudava a secundar a natureza, hoje o leva a domin\u00e1-la sem escr\u00fapulos e tornar-se, ao mesmo tempo, escravo da t\u00e9cnica que, por sua vez, domina a economia e a pol\u00edtica, inclusive com mentiras de que ela resolver\u00e1 todos os grandes problemas pelos quais a humanidade passa.<br \/>Na verdade, por\u00e9m, quando se fala em tecnoci\u00eancias se nota um saber fragmentado, no qual falta um olhar de conjunto e especialmente a imprescind\u00edvel colabora\u00e7\u00e3o da filosofia e da \u00e9tica, \u00fanicas inst\u00e2ncias capazes de levar, no plano racional, o ser humano a n\u00e3o se deixar escravizar pela m\u00e1quina ou pela vida f\u00e1cil que os meios modernos oferecem. \u00c9 preciso se opor a isso, mas como, se estamos t\u00e3o acostumados a toda essa parafern\u00e1lia \u00e0 nossa volta? \u2013 Por meio de uma verdadeira revolu\u00e7\u00e3o cultural que n\u00e3o nos quer levar de volta \u00e0 Idade da Pedra, mas tamb\u00e9m n\u00e3o pode deixar de deter essa marcha doentia das t\u00e9cnicas escravizantes do ser humano do s\u00e9culo XXI.<br \/>Tais problemas nascem do \u201cantropocentrismo moderno\u201d, ou seja, do homem como centro de tudo, esquecendo-se de Deus, do pr\u00f3ximo e tamb\u00e9m do mundo que o cerca, dado por Deus para o seu uso respeitoso, especialmente das leis que a pr\u00f3pria natureza imp\u00f5e no plano f\u00edsico e moral. Por muito tempo, se interpretou erradamente a antropologia crist\u00e3 da rela\u00e7\u00e3o \u201chomem e mundo\u201d, esta \u00e9 de administra\u00e7\u00e3o n\u00e3o de domina\u00e7\u00e3o humana, como faz um dono, se assim for levar\u00e1 a desvarios.<br \/>Sim, desvarios, pois a pr\u00f3pria natureza, obra de Deus, fala por si, ensina o ser humano, mas tamb\u00e9m, quando atingida indevidamente, cobra desse mesmo homem o mal que ele lhe causou. \u00c9 preciso, pois, renovar o homem em sua mentalidade, criar um homem novo para saber administrar esse mundo, o que, evidentemente, n\u00e3o se d\u00e1 pelo biocentrismo, que tamb\u00e9m causa problemas, mas sim pela convers\u00e3o pessoal no relacionamento do ser humano com o mundo e com o pr\u00f3ximo, superando as dial\u00e9ticas falsas dos \u00faltimos tempos.<br \/>Refor\u00e7a o Papa que n\u00e3o saber\u00e1 cuidar do mundo quem n\u00e3o \u00e9 capaz de defender a vida humana no ventre materno, em seu n. 120: \u201cUma vez que tudo est\u00e1 relacionado, tamb\u00e9m n\u00e3o \u00e9 compat\u00edvel a defesa da natureza com a justifica\u00e7\u00e3o do aborto. N\u00e3o parece vi\u00e1vel um percurso educativo para acolher os seres fr\u00e1geis que nos rodeiam e que, \u00e0s vezes, s\u00e3o molestos e inoportunos, quando n\u00e3o se d\u00e1 prote\u00e7\u00e3o a um embri\u00e3o humano, ainda que a sua chegada seja causa de inc\u00f4modos e dificuldades: \u2018Se se perde a sensibilidade pessoal e social ao acolhimento duma nova vida, definham tamb\u00e9m outras formas de acolhimento \u00fateis \u00e0 vida social\u2019 (Bento XVI. Caritas in veritate, 28)\u201d.<br \/>Ora, esse antropocentrismo gera todas as formas de relativismo: o doutrin\u00e1rio e o pr\u00e1tico e este \u00faltimo \u00e9, segundo Francisco, o pior, pois leva a adorar o poder, a fazer do outro, meu pr\u00f3ximo, mero objeto, a fomentar o crime, o tr\u00e1fico de drogas que mata e o com\u00e9rcio il\u00edcito de \u00f3rg\u00e3os para salvar ricos ou servir de experimentos, o descarte das crian\u00e7as, especialmente embri\u00f5es indesejados pelos pais, e dos idosos que j\u00e1 n\u00e3o produzem, junto com o lixo depositado no meio ambiente. Isso tudo, porque tal relativismo impede ao homem de ver verdades perenes na pr\u00f3pria natureza.<br \/>Outra consequ\u00eancia do ser humano envolto na escravid\u00e3o da t\u00e9cnica \u00e9 falta de trabalho, muito bem descrito por S\u00e3o Jo\u00e3o Paulo II na Laborem Excercens e lembra que Deus criou o ser humano para trabalhar no mundo rec\u00e9m-criado (cf. Gn 2,15; Eclo 38,34; 38,4), isso, por\u00e9m, n\u00e3o se restringe apenas ao trabalho manual, mas a todo tipo de afazer l\u00edcito que leve \u00e0 rela\u00e7\u00e3o com os demais seres humanos. Por meio dele \u00e9 poss\u00edvel se santificar, como j\u00e1 propunham os antigos monges, especialmente a partir de S\u00e3o Bento de N\u00farsia com o seu conhecido lema: Ora et labora (Reza e trabalha!), que revolucionou o mundo da \u00e9poca e \u00e9 v\u00e1lido at\u00e9 hoje (n. 126).<br \/>No entanto, todo trabalho s\u00f3 tem valor se n\u00e3o visa, em primeiro lugar, ao lucro, mas o ser humano em seu bem-estar material, moral e espiritual. Desse modo, o trabalho \u00e9 digno e dignificante, da\u00ed s\u00f3 ser bom dar dinheiro aos pobres a fim de oferecer-lhes um socorro imediato ou paliativo, pois o que realmente o dignificar\u00e1 ser\u00e1 o trabalho no qual ele mesmo possa ganhar o seu sustento. Isso alerta tamb\u00e9m para que n\u00e3o coloquemos a m\u00e1quina no lugar do homem, nem deixemos que os grandes propriet\u00e1rios fa\u00e7am os pequenos produtores sucumbirem, bem como lutemos para que os empres\u00e1rios sejam fontes de trabalho aos moradores dos locais em que se instalam.<br \/>Por fim, o Papa se volta para as quest\u00f5es biotecnol\u00f3gicas, muito em voga nos nossos dias, dizendo, alicer\u00e7ado nos ensinamentos do Papa S\u00e3o Jo\u00e3o Paulo II e do pr\u00f3prio Catecismo da Igreja Cat\u00f3lica, que \u00e9 l\u00edcito fazer pesquisas razo\u00e1veis com animais, desde que isso possa poupar o ser humano e n\u00e3o fa\u00e7a os bichos sofrerem inutilmente. Tamb\u00e9m \u00e9 l\u00edcito, ainda que discut\u00edvel, pois n\u00e3o se sabe bem as consequ\u00eancias ainda, o uso de organismos modificados geneticamente (OMG), uma vez que tamb\u00e9m a pr\u00f3pria natureza faz, naturalmente, suas modifica\u00e7\u00f5es gen\u00e9ticas.<br \/>Pede-se ainda a valoriza\u00e7\u00e3o dos pequenos produtores, n\u00e3o raras vezes engolidos pelos latif\u00fandios e o seu direito de produ\u00e7\u00e3o, dentro de um debate claro e n\u00e3o ideologizado a respeito do trato dos recursos naturais a n\u00f3s dispon\u00edveis para uso cuidadoso e respons\u00e1vel. No \u00faltimo par\u00e1grafo do cap\u00edtulo (n. 136), Francisco critica a contradi\u00e7\u00e3o de grupos de ecologistas que, com raz\u00e3o, defendem os animais irracionais, mas n\u00e3o se importam com os sofrimentos de um embri\u00e3o humano vivo, merecedor de todo respeito na obra da cria\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>Cap\u00edtulo IV: Uma ecologia integral<\/p>\n<p>Esse cap\u00edtulo trata da ecologia abordada de modo integral, ou seja, nas suas rela\u00e7\u00f5es com todas as demais for\u00e7as da sociedade em seus impactos ambientais, econ\u00f4micos e sociais, no qual a fam\u00edlia ocupa relevante papel.<br \/>Francisco come\u00e7a definindo a ecologia como o estudo das rela\u00e7\u00f5es entre os organismos vivos e o meio ambiente onde se desenvolvem (n. 138) e afirma que tudo no universo est\u00e1 interligado, desde os seres microsc\u00f3picos at\u00e9 os grandes seres vis\u00edveis a olho nu a longa dist\u00e2ncia, de modo que para cuidar bem do meio ambiente \u00e9 necess\u00e1rio ter uma vis\u00e3o mais ampla e menos fragmentada da realidade. S\u00f3 assim \u00e9 poss\u00edvel buscar solu\u00e7\u00f5es integrais, levando em conta a sociedade como um todo, especialmente os pobres, sempre mais atingidos com as mudan\u00e7as clim\u00e1ticas.<br \/>Para que algo bom seja feito, \u00e9 preciso dar liberdade aos cientistas desse campo e ter em mente que somos parte do ecossistema, dando exemplo de uso sustent\u00e1vel de tudo sem nos deixarmos levar apenas e, sobretudo, pelo que dita o mercado, mas defender uma vis\u00e3o integral e integradora da obra criada (n. 141). Vis\u00e3o que leve a pensar tamb\u00e9m nas institui\u00e7\u00f5es sociais, especialmente do Estado, atingidas, \u00e0s vezes, pela corrup\u00e7\u00e3o e em toda a rede que se forma em torno dela, desde a fam\u00edlia e a comunidade local at\u00e9 as rela\u00e7\u00f5es internacionais.<br \/>Nessas rela\u00e7\u00f5es faz-se importante garantir a efici\u00eancia da lei na defesa dos interesses de todos, pois em alguns pa\u00edses ela se torna letra morta, tendo um sistema legal exemplar, mas abusos gigantescos da natureza com poucas puni\u00e7\u00f5es aos respons\u00e1veis. A partir disso, o Papa lembra o uso das drogas, que podem come\u00e7ar em classes ou regi\u00f5es ricas e estender-se \u00e0s mais pobres, corrompendo e destruindo vidas da mesma forma como se destr\u00f3i o meio ambiente.<br \/>H\u00e1, tamb\u00e9m, segundo Francisco, uma ecologia cultural que leva a respeitar os valores caros \u00e0 determinada cultura com seus h\u00e1bitos e s\u00edmbolos, fazendo-os sempre preservar a sua cultura original. Da\u00ed, em todas as mudan\u00e7as significativas que forem ocorrer, seja feito um di\u00e1logo cient\u00edfico com a cultura popular, a fim de preserv\u00e1-la, haja vista que os poderes econ\u00f4micos tendem a homogeneizar as culturas; isso \u00e9 err\u00f4neo, pois leva ao fim de muitas delas, especialmente de popula\u00e7\u00f5es abor\u00edgenes que t\u00eam a terra, a qual cultivam com respeito, n\u00e3o raras vezes degradadas pelos interesses de extrativistas e pecuaristas desrespeitadores da natureza.<br \/>Volta-se o Papa, a seguir, para a ecologia do dia a dia das pessoas, dizendo que a qualidade de vida de algu\u00e9m depende do lugar em que se vive. Da\u00ed ter vida diferente quem mora em um ambiente polu\u00eddo, visual ou acusticamente, e os que vivem em locais sadios. No entanto, alguns superam esse condicionalismo pela amizade rec\u00edproca e pelo desenvolvimento da alegria entre os pobres, n\u00e3o obstante todas as suas limita\u00e7\u00f5es materiais. Parece que mesmo dos problemas nascem as solu\u00e7\u00f5es, ainda que n\u00e3o cabais.<br \/>No entanto, h\u00e1 uma gravidade que n\u00e3o pode ser esquecida: nesses ambientes desordenados, os adolescentes e jovens, em especial, s\u00e3o cooptados por organiza\u00e7\u00f5es criminosas, especialmente nas periferias sem grande infraestrutura, mas mesmo a\u00ed tamb\u00e9m se v\u00ea aqueles que resistem \u00e0 tenta\u00e7\u00e3o de ceder ao crime, mantendo-se livres dessa forma de escravid\u00e3o causado, \u00e0s vezes, por um projeto de reurbaniza\u00e7\u00e3o mal organizado.<br \/>Falar em casa (resid\u00eancias) \u00e9 lembrar-se de que um lar, no s\u00edtio ou na cidade, \u00e9 parte da dignidade humana ou \u201cquest\u00e3o central da ecologia\u201d (n. 152) que envolve n\u00e3o s\u00f3 os pobres, mas tamb\u00e9m outros segmentos da sociedade. Da\u00ed a luta para que cada um possua seu alojamento \u00e9 fundamental, no entanto, que tudo se fa\u00e7a pensando no bem comum e n\u00e3o no imediatismo destruidor das culturas ou dos costumes locais.<br \/>Relembra ainda a precariedade dos transportes urbanos e rurais, o incha\u00e7o das cidades com muitos carros nas ruas, a polui\u00e7\u00e3o da\u00ed derivada, os gastos advindos e tamb\u00e9m os problemas de superlota\u00e7\u00e3o dos transportes coletivos, que, por um lado, podem trazer boas rela\u00e7\u00f5es entre os passageiros, mas tamb\u00e9m d\u00e1 ocasi\u00e3o a inseguran\u00e7as diversas. Na zona rural, o trabalho, n\u00e3o raras vezes, se reduz \u00e0 escravid\u00e3o de quem se dedica ao servi\u00e7o bra\u00e7al.<br \/>Em meio a tudo isso, aparece \u2013 como j\u00e1 lembrava o Papa Bento XVI \u2013 o menosprezo pelo corpo humano, tido como posse da pr\u00f3pria pessoa, o desgosto com ele e a tentativa de apagar as diferen\u00e7as sexuais, por n\u00e3o querer se confrontar com ela no seu dia a dia, o que, sem d\u00favida, \u00e9 de grande preju\u00edzo para a ecologia humana (n. 155).<br \/>Para que a verdadeira ecologia humana aconte\u00e7a \u00e9 preciso trabalhar pelo bem comum, no qual todos e cada um possam desfrutar dos direitos fundamentais e inalien\u00e1veis para a sua vida e desenvolvimento, especialmente dentro da fam\u00edlia, c\u00e9lula basilar da sociedade, e na pr\u00f3pria sociedade, a quem o Estado deve garantir a seguran\u00e7a, de uma forma especial no cuidado aos \u201cdescartados\u201d, ou seja, os pobres aos quais, hoje, mais do que nunca, se deve fazer uma op\u00e7\u00e3o preferencial (n. 158).<br \/>Tamb\u00e9m precisamos pensar nas futuras gera\u00e7\u00f5es, nos perguntando que mundo queremos deixar para eles. Afinal, a terra \u00e9 por n\u00f3s recebida a fim de ser cuidada e passada adiante, mas n\u00e3o com s\u00e9rios problemas, incluindo cat\u00e1strofes advindas do mal uso que hoje fazemos da natureza criada. Todavia, a falta de \u00e9tica que move o mundo de nossos dias nos faz deixar de pensar no pr\u00f3ximo para nos fecharmos em nossa subjetividade e esquecermos dos outros, sobretudo dos exclu\u00eddos, quando, na verdade, a come\u00e7ar pela fam\u00edlia (rela\u00e7\u00e3o pais e filhos), dever\u00edamos ser solid\u00e1rios uns para com os outros, j\u00e1 no aqui e agora e depois para com os que vir\u00e3o.<\/p>\n<p>Cap\u00edtulo V: Algumas linhas de orienta\u00e7\u00e3o e a\u00e7\u00e3o<\/p>\n<p>A meta deste cap\u00edtulo \u00e9 encontrar, pelo di\u00e1logo, solu\u00e7\u00f5es para a grande espiral de destrui\u00e7\u00e3o em que o planeta est\u00e1 envolvido. Esse di\u00e1logo come\u00e7a na pol\u00edtica internacional, que j\u00e1 deu grandes passos para um projeto comum da humanidade em favor dos problemas do meio ambiente, especialmente no que toca ao desenvolvimento da agricultura sustent\u00e1vel e diversificada, energias renov\u00e1veis e pouco poluentes, a conserva\u00e7\u00e3o dos recursos florestais e a garantia de \u00e1gua pot\u00e1vel a todos.<br \/>Certo \u00e9 que a humanidade na era p\u00f3s-industrial foi muito irrespons\u00e1vel, mas espera-se que a do in\u00edcio de s\u00e9culo XXI seja mais comprometida com o bem do universo e de cada ser nele presente, ainda que muito se note a falta de comprometimento pol\u00edtico, n\u00e3o obstante as grandes Confer\u00eancias mundiais sobre temas diversos de ecologia: a Cimeira de 1992, no Rio de Janeiro, sobre a terra; a Declara\u00e7\u00e3o de Estocolmo (1972) sobre o ecossistema; a Conven\u00e7\u00e3o de Basileia a respeito dos res\u00edduos perigosos; as de Viena e Montreal voltadas para a camada de oz\u00f4nio e a Rio+20 sobre as mudan\u00e7as clim\u00e1ticas, cujo documento final foi, infelizmente, bastante ineficaz.<br \/>Outro problema que se p\u00f5e \u00e9 sobre os gastos na mudan\u00e7a de energias mais poluentes para as menos poluentes: os pa\u00edses ricos dever\u00e3o ajudar os pa\u00edses pobres nessa passagem, dado que estes j\u00e1 t\u00eam grandes dificuldades no combate \u00e0 mis\u00e9ria de seus cidad\u00e3os, embora nem por isso possam deixar de lado o combate \u00e0 polui\u00e7\u00e3o que a todos afeta. Na mesma linha est\u00e1 o cuidado com os oceanos. N\u00e3o deveria ser tarefa desta ou daquela na\u00e7\u00e3o, mas de uma for\u00e7a internacional, como j\u00e1 pensava o Papa Bento XVI, contando, evidentemente, com efetivos apoios diplom\u00e1ticos internacionais, na teoria e na pr\u00e1tica, dado que sem eles tudo fica dif\u00edcil, seja a erradica\u00e7\u00e3o do aquecimento global, seja o combate \u00e0 pobreza (n. 173 e 175).<br \/>No entanto, n\u00e3o bastam apenas os esfor\u00e7os internacionais, mas se requerem tamb\u00e9m medidas nacionais e locais a fim de ajudar os vencidos oprimidos pelos vencedores no seio de cada Na\u00e7\u00e3o, Estado ou Munic\u00edpio por meio de leis que levem ao bem comum e ao reto uso dos recursos naturais e n\u00e3o s\u00f3 de combates imediatos \u00e0 polui\u00e7\u00e3o ou ao lixo t\u00f3xico por meio de jurisprud\u00eancias feitas, via de regra, em per\u00edodos eleitorais, mas que n\u00e3o resolvem o problema ecol\u00f3gico, dado que este \u00e9 trabalho de longo prazo.<br \/>Ora, muitos pol\u00edticos pensam mais na politicagem do que na verdadeira pol\u00edtica que visa ao bem comum, com projetos a serem desenvolvidos em tempo que ultrapassa um mandato eletivo apenas. Fora, por\u00e9m, do ambiente pol\u00edtico-administrativo propriamente h\u00e1 iniciativas populares importantes no que toca \u00e0 luta por energias renov\u00e1veis e n\u00e3o poluentes, agricultura familiar n\u00e3o predat\u00f3ria, reciclagem do lixo e venda dos excessos de produ\u00e7\u00e3o, pela forma\u00e7\u00e3o de cooperativas, especialmente entre os abor\u00edgenes, reafirmando, assim, o verdadeiro sentido de comunidade.<br \/>Para que isso ocorra \u00e9 necess\u00e1ria uma press\u00e3o popular ordeira, a fim de que os governos assumam um projeto ecol\u00f3gico s\u00e9rio e com grandes metas a serem alcan\u00e7adas, independentemente se ser\u00e1 ou n\u00e3o bem compreendido pelos seus contempor\u00e2neos. Da\u00ed a quest\u00e3o: a troca de que esse pol\u00edtico faria isso? \u2013 responde o Papa que faria como reconhecedor da dignidade que Deus lhe deu e com a responsabilidade que tem perante o pr\u00f3ximo; ele ser\u00e1, por isso, reconhecido pela hist\u00f3ria (n. 181).<br \/>Nesse processo de debates e a\u00e7\u00f5es sobre o meio ambiente \u00e9 preciso que ningu\u00e9m fique exclu\u00eddo, que haja consenso, que sejam avaliados os riscos e benef\u00edcios do que ser\u00e1 feito e sejam rejeitadas as propostas favorecedoras do consumismo imediatista, cercadas, n\u00e3o raras vezes, de corrup\u00e7\u00e3o e desinteresse pelos pobres. Ainda que a Igreja n\u00e3o entre na atua\u00e7\u00e3o concreta das quest\u00f5es em si (n. 188), Ela incentiva todo debate honesto sobre os assuntos ligados \u00e0 vida humana sadia e ao meio ambiente. Ali\u00e1s, \u201cem qualquer discuss\u00e3o sobre um empreendimento, dever-se-ia p\u00f4r uma s\u00e9rie de perguntas, para poder discernir se o mesmo levar\u00e1 a um desenvolvimento verdadeiramente integral: Para que fim? Por qual motivo? Onde? Quando? De que maneira? A quem ajuda? Quais s\u00e3o os riscos? A que pre\u00e7o? Quem paga as despesas e como o far\u00e1? Neste exame, h\u00e1 quest\u00f5es que devem ter prioridade. Por exemplo, sabemos que a \u00e1gua \u00e9 um recurso escasso e indispens\u00e1vel, sendo um direito fundamental que condiciona o exerc\u00edcio doutros direitos humanos. Isto est\u00e1, sem d\u00favida, acima de toda a an\u00e1lise de impacto ambiental duma regi\u00e3o\u201d (n. 185).<br \/>H\u00e1, no entanto, o perigo de a pol\u00edtica submeter-se aos paradigmas eficientistas da tecnocracia, esquecendo-se do valor da vida, de um modo especial da vida humana t\u00e3o desvalorizada; o dinheiro predomina nas rela\u00e7\u00f5es humanas apenas visando ao lucro, sem levar em conta a biodiversidade e os pobres. Aqui \u00e9 preciso, no entanto, evitar dois perigos: um que tenta segurar qualquer progresso como se fosse mau, e outro desejoso do progresso a qualquer custo, esquecendo-se dos graves problemas da humanidade, pois imbu\u00eddo da cultura do consumismo e da destrui\u00e7\u00e3o.<br \/>Ora, \u00e9 necess\u00e1rio converter-se ao modelo de desenvolvimento global, como pedia Bento XVI, a fim de que entre o ganho e a preserva\u00e7\u00e3o ambiental n\u00e3o se interponham apenas meias-medidas ditadas pelo capital que leva ao lucro de poucos \u00e0s custas do sacrif\u00edcio de muitos, como ocorre nas sociedades cheias de individualismo e \u00eaxitos em que a pol\u00edtica \u00e9 comandada pela economia e o desejo de poder, ou nos Estados totalit\u00e1rios. Da\u00ed a quest\u00e3o colocada e respondida por Francisco: \u201cQual \u00e9 o lugar da pol\u00edtica? Recordemos o princ\u00edpio da subsidiariedade, que d\u00e1 liberdade para o desenvolvimento das capacidades presentes a todos os n\u00edveis, mas simultaneamente exige mais responsabilidade pelo bem comum a quem tem mais poder\u201d (n. 196).<br \/>\u00c9 preciso reconhecer que as ci\u00eancias emp\u00edricas s\u00e3o limitadas, de modo que podem se enriquecer no di\u00e1logo com outras fontes do saber, incluindo as religiosas, dado que seria anticient\u00edfico negar o valor de um texto s\u00f3 porque veio de um ambiente religioso. Todavia, \u00e9 preciso que todas as pessoas de f\u00e9 \u2013 maioria da humanidade (n. 201) \u2013 sejam coerentes, na pr\u00e1tica, com o discurso que fazem e, reconhecendo os erros passados, talvez causados pelos condicionamentos culturais da \u00e9poca, saber que eles n\u00e3o v\u00eam da fonte, Deus, mas dos fi\u00e9is que O entenderam mal. Nada disso, impede, no entanto, o di\u00e1logo entre as diversas religi\u00f5es do mundo entre si e com outras fontes do saber, inclusive com grupos ideologizados, valendo-se para isso, no fundo, da ora\u00e7\u00e3o e da ascese pessoal.<\/p>\n<p>Cap\u00edtulo VI: Educa\u00e7\u00e3o e espiritualidade ecol\u00f3gicas<\/p>\n<p>Se \u00e9 certo que muitas coisas precisam ajustar seu rumo, tamb\u00e9m o \u00e9 que a pr\u00f3pria humanidade necessita de mudan\u00e7as na sua consci\u00eancia de que tem uma origem comum, uma perten\u00e7a rec\u00edproca e um futuro partilhado por todos, o que implica grande desafio cultural, espiritual e educativo para um longo processo de mudan\u00e7a (n. 202).<br \/>Ora, isso se d\u00e1 por uma transforma\u00e7\u00e3o radical no pr\u00f3prio estilo de vida, que o Papa chama de \u201cregenera\u00e7\u00e3o\u201d, pois vivemos em um mundo dominado pelo mercado, e isso leva as pessoas a se sentirem livres para comprar tudo o que desejam, mas, na verdade, essa falsa liberdade \u00e9 uma escravid\u00e3o ao poder econ\u00f4mico e financeiro do qual precisam se libertar.<br \/>Essa liberta\u00e7\u00e3o faz-se necess\u00e1ria, pois no ego\u00edsmo coletivo em que vivemos cada um se acha a fonte de todas as normas sociais: o que \u00e9 bom para ele, \u00e9 bom para os outros. Isso n\u00e3o \u00e9 correto, precisamos recuperar a dignidade do ser humano, dignidade que ningu\u00e9m tem o direito de lhe tirar (n. 205). A recupera\u00e7\u00e3o dessa forma aut\u00eantica de ser humano poder\u00e1 trazer mudan\u00e7as no mercado, pois se as pessoas se convertem e mudam o seu estilo de vida, n\u00e3o se adaptando ao mercado, pode haver um processo inverso (o mercado adaptar-se a elas), o que ser\u00e1 de grande valor \u00e0 humanidade na supera\u00e7\u00e3o do individualismo e acolhimento dos outros, repensando os problemas de nossa casa comum, o planeta.<br \/>Essa convers\u00e3o nos levar\u00e1 a novos h\u00e1bitos, por meio de uma educa\u00e7\u00e3o s\u00e9ria que n\u00e3o s\u00f3 informa, mas tamb\u00e9m transforma pela conscientiza\u00e7\u00e3o e n\u00e3o apenas por imposi\u00e7\u00e3o de leis. Uma educa\u00e7\u00e3o que ensine coisas b\u00e1sicas como n\u00e3o desperdi\u00e7ar \u00e1gua, separar o lixo org\u00e2nico e inorg\u00e2nico, apagar as luzes do c\u00f4modo vazio, cozinhar apenas o que vai comer para evitar desperd\u00edcios etc. Tal educa\u00e7\u00e3o \u00e9 tarefa de muitas institui\u00e7\u00f5es, tamb\u00e9m da Igreja, e deve ser feita por meio da escola, da fam\u00edlia, dos ve\u00edculos de comunica\u00e7\u00e3o, da catequese, entre outros, mas com acento especial \u00e0 fam\u00edlia, lugar onde a vida \u00e9 acolhida e ensinada.<br \/>Sem descuidar da beleza da natureza, cada um viva a austeridade de usar do mundo apenas aquilo que precisa com equil\u00edbrio e desse modo teremos uma nova rela\u00e7\u00e3o do ser humano com a vida, a sociedade e a natureza. Escreve Francisco: \u201cA educa\u00e7\u00e3o ambiental tem vindo a ampliar os seus objetivos. Se, no come\u00e7o, estava muito centrada na informa\u00e7\u00e3o cient\u00edfica e na consciencializa\u00e7\u00e3o e preven\u00e7\u00e3o dos riscos ambientais, agora tende a incluir uma cr\u00edtica dos \u2018mitos\u2019 da modernidade, baseados na raz\u00e3o instrumental (individualismo, progresso ilimitado, concorr\u00eancia, consumismo, mercado sem regras) e tende tamb\u00e9m a recuperar os distintos n\u00edveis de equil\u00edbrio ecol\u00f3gico: o interior consigo mesmo, o solid\u00e1rio com os outros, o natural com todos os seres vivos, o espiritual com Deus. A educa\u00e7\u00e3o ambiental deveria predispor-nos para dar este salto para o Mist\u00e9rio, do qual uma \u00e9tica ecol\u00f3gica recebe o seu sentido mais profundo. Al\u00e9m disso, h\u00e1 educadores capazes de reordenar os itiner\u00e1rios pedag\u00f3gicos duma \u00e9tica ecol\u00f3gica, de modo que ajudem efetivamente a crescer na solidariedade, na responsabilidade e no cuidado assente na compaix\u00e3o\u201d (n. 210).<br \/>Fundamentado nos vinte s\u00e9culos de hist\u00f3ria da Igreja, o Papa recorda, centrado no Evangelho, que \u00e9 preciso, por meio n\u00e3o s\u00f3 da doutrina, mas da m\u00edstica, uma convers\u00e3o ecol\u00f3gica que nos leve a deixar os erros e v\u00edcios pessoais a fim de nos tornarmos, de fato, guardi\u00f5es da obra de Deus como parte essencial do compromisso crist\u00e3o. Que saiamos do nosso individualismo a fim de agirmos em favor de todos os irm\u00e3os e do todo, que \u00e9 a cria\u00e7\u00e3o inteira. Tendo Cristo como centro da reden\u00e7\u00e3o de toda a humanidade ao tomar contato com tudo o que existe neste mundo e que disse serem at\u00e9 os p\u00e1ssaros queridos por Deus, o homem, por seu lugar especial na cria\u00e7\u00e3o, n\u00e3o pode se arvorar como dono de tudo, mas, sim, cuidador da obra divina em uma verdadeira fraternidade universal, ao estilo de Francisco de Assis.<br \/>Quem se p\u00f5e a cuidar da cria\u00e7\u00e3o, obra de Deus, tem alegria e paz. De um modo especial, os religiosos contemplativos conseguem se opor, por sua sobriedade e austeridade, ao mercado e, assim, alegram-se com o pouco que livremente escolheram receber e s\u00e3o gratos ao Senhor por isso. Ora, cada um pode a seu modo viver essa sobriedade do ter, se colocarem o centro de suas vidas em Deus e n\u00e3o em si mesmos, e se dedicarem \u00e0s diversas formas de aux\u00edlio ao pr\u00f3ximo (m\u00fasica, arte, caridade etc.) chegando a uma profunda harmonia interior e com o universo que nos cerca (cf. Mt 10,21) a partir de um cora\u00e7\u00e3o puro e da consci\u00eancia de que tudo \u00e9 de Deus. Da\u00ed a import\u00e2ncia da recupera\u00e7\u00e3o do costume piedoso de rezarmos nas horas das refei\u00e7\u00f5es \u2013 e o Papa insiste nisso \u2013 agradecendo o que chega \u00e0 nossa mesa a partir da natureza por fruto do trabalho humano (n. 227).<br \/>A convers\u00e3o e a educa\u00e7\u00e3o no respeito \u00e0 natureza levam \u00e0 fraternidade universal, ou seja, com o pr\u00f3ximo e com toda a natureza, o que implica em amor rec\u00edproco, perd\u00e3o, amor aos inimigos, aceita\u00e7\u00e3o dos fen\u00f4menos naturais que n\u00e3o podemos mudar, sabendo, por\u00e9m, de nossa responsabilidade no cuidado com o meio ambiente a partir de pequenos gestos di\u00e1rio, como fez Santa Teresinha do Menino Jesus, com a certeza de que cuidar da obra de Deus \u00e9 fazer caridade. Recorda-nos ainda Francisco que a pol\u00edtica profissional \u00e9 um dos grandes meios de defender a natureza, mas como nem todos sentem voca\u00e7\u00e3o para ela, podem ajudar em associa\u00e7\u00f5es de bairros ou outras que se voltam especialmente para o cuidado da obra de Deus e ajudam-nos a libertar-nos da indiferen\u00e7a perante o mundo criado.<br \/>Afinal, o universo s\u00f3 se desenvolve e se preenche em Deus, de modo que, olhando para ele, devemos contemplar o Senhor. V\u00e1rios santos, em diversas \u00e9pocas, ensinaram que contempla melhor quem se relaciona bem com a natureza, pois tudo o que nela tem de bom remete-nos a uma analogia com Deus, o sumo Bem. Todavia, \u00e9 nos sacramentos que vemos os seres naturais (a \u00e1gua, o \u00f3leo, o trigo etc.) serem transformados, por for\u00e7a divina, em vida sobrenatural aos fi\u00e9is, de modo que n\u00e3o \u00e9 poss\u00edvel fugir da natureza para servir a Deus. Ao contr\u00e1rio, toda a natureza foi elevada por Cristo na Encarna\u00e7\u00e3o, e na Eucaristia Ele mesmo quis fazer-se p\u00e3o e entregar-se a n\u00f3s para ser comido pelas criaturas, de modo que a participa\u00e7\u00e3o na Santa Missa, especialmente aos domingos, deve ser o centro da semana do crist\u00e3o. Dia de louvor, repouso a si e aos seus, inclusive aos animais (cf. Ex 23,12). <br \/>Com essas reflex\u00f5es, o Papa ruma para a conclus\u00e3o do \u00faltimo cap\u00edtulo, lembrando-se da doutrina trinit\u00e1ria na cria\u00e7\u00e3o com as seguintes belas palavras do n. 238: \u201cO Pai \u00e9 a fonte \u00faltima de tudo, fundamento amoroso e comunicativo de tudo o que existe. O Filho, que O reflete e por Quem tudo foi criado, uniu-Se a esta terra quando foi formado no seio de Maria. O Esp\u00edrito, v\u00ednculo infinito de amor, est\u00e1 intimamente presente no cora\u00e7\u00e3o do universo, animando e suscitando novos caminhos\u201d. O mundo foi criado pelas tr\u00eas Pessoas como um \u00fanico princ\u00edpio divino, mas cada uma delas realiza esta obra comum segundo a pr\u00f3pria identidade pessoal. Por isso, \u2018quando, admirados, contemplamos o universo na sua grandeza e beleza, devemos louvar a inteira Trindade\u2019 (S\u00e3o Jo\u00e3o Paulo II, Ecclesia de Eucharistia).<br \/>Afinal, a natureza \u00e9 espelho da Trindade, como diz S\u00e3o Boaventura, mas devido ao pecado essa verdade fica ofuscada a n\u00f3s hoje; o ser humano \u00e9 um ser de rela\u00e7\u00f5es, a exemplo das tr\u00eas pessoas divinas que s\u00e3o rela\u00e7\u00f5es subsistentes entre si, de modo a convidar-nos \u00e0 comunh\u00e3o com Deus, com o pr\u00f3ximo e com toda a natureza. <br \/>Aqui ocupam papel de destaque a Virgem Maria, cuidadora de Jesus e deste mundo, e S\u00e3o Jos\u00e9, protetor da Sagrada Fam\u00edlia e que hoje nos ajuda a ser guardi\u00f5es do mundo em que vivemos, pois com a intercess\u00e3o deles chegaremos ao dia sem fim para contemplarmos o Senhor face a face no c\u00e9u; ser\u00e1 dia de gl\u00f3ria em que os pobres, enfim libertos, estar\u00e3o em Deus juntos com toda a cria\u00e7\u00e3o transformada. Da\u00ed o convite de Francisco, ao encerrar suas reflex\u00f5es jubilosas e dram\u00e1ticas, \u00e0 ora\u00e7\u00e3o, for\u00e7a capaz de nos dar esperan\u00e7as nas lutas deste mundo.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Fomos presenteados, h\u00e1 semanas, pela Enc\u00edclica Laudato Si\u2019 (Louvado sejas) do Papa Francisco, assinada em 24 de maio \u00faltimo, na Solenidade de Pentecostes. Aproveito para partilhar um pequeno resumo, n\u00e3o para, evidentemente, substituir a leitura e at\u00e9 mesmo \u2013 o que seria muito recomend\u00e1vel \u2013 o estudo dela, mas, sim, para estimular a tudo isso. 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