{"id":5988,"date":"2015-07-13T12:46:36","date_gmt":"2015-07-13T15:46:36","guid":{"rendered":"http:\/\/catolicanet.net\/wp-cnet\/o-sofrimento-e-escola-e-nao-castigo\/"},"modified":"2017-04-10T13:54:51","modified_gmt":"2017-04-10T16:54:51","slug":"o-sofrimento-e-escola-e-nao-castigo","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/catolicanet.net\/wp-cnet\/o-sofrimento-e-escola-e-nao-castigo\/","title":{"rendered":"O sofrimento \u00e9 escola e n\u00e3o castigo"},"content":{"rendered":"<p style=\"text-align: justify;\">\n<p>Logo depois do assalto em que foi v\u00edtima, pela segunda vez, na cidade do Rio de Janeiro, o seu Cardeal Arcebispo, Dom Orani Jo\u00e3o Tempesta, come\u00e7aram aparecer no facebook algumas inadequadas publica\u00e7\u00f5es, de ateus, dizendo que nunca foram assaltados e que o Cardeal Arcebispo, em menos de um ano foi assaltado duas vezes. O Senhor Cardeal Tempesta apenas foi v\u00edtima de todo o sofrimento e \u201cachaque\u201d que diariamente passam milhares de milhares de seus fi\u00e9is cariocas.\u00a0 Com a gra\u00e7a de Deus o Senhor Cardeal Tempesta apresentou a Deus este seu sofrimento em favor da paz na cidade do Rio de Janeiro. Por isso h\u00e1 quem, diante dos sofrimentos alheios, especialmente de pessoas de f\u00e9, se pergunte: \u201cComo ela pode sofrer desse modo, se \u00e9 algu\u00e9m \u2018de Deus\u2019? N\u00e3o poderia Ele, que \u00e9 todo poderoso, livr\u00e1-la desse mal, uma vez que eu, um simples descrente de tudo, n\u00e3o sofro assim?\u201d E ainda se justifica: \u201cNunca fui assaltado, n\u00e3o perdi parentes de forma tr\u00e1gica, n\u00e3o tenho doen\u00e7a alguma, jamais sofri acidente etc.\u201d.<br \/>Esse grito vem de longe na hist\u00f3ria e por isso tanto a Filosofia cl\u00e1ssica quanto a Teologia (a pr\u00f3pria Sagrada Escritura registra queixas dos homens contra Deus devido aos sofrimentos humanos, especialmente dos justos: Jr 12,1s; Ml 2,17; J\u00f3 21,7s; Sl 73&#8230;) buscam refletir sobre o problema com argumentos que n\u00e3o respondem cabalmente a quest\u00e3o, pois ela pertence, em sua ess\u00eancia, aos insond\u00e1veis des\u00edgnios de Deus, mas lan\u00e7am luzes sobre o enigma e nos encorajam a lutar sem esmorecer frente aos percal\u00e7os da vida dos quais ningu\u00e9m \u2013 por melhor que se julgue em rela\u00e7\u00e3o aos semelhantes \u2013 est\u00e1 isento.<br \/>Desse modo, podemos dizer que por mais estranho que pare\u00e7a, a reflex\u00e3o a respeito do sofrimento nos leva a melhor entender o lugar de destaque do ser humano ante as demais criaturas. Sim, o mineral n\u00e3o sofre. Por mais que seja talhado ou sacudido pelos homens ou pelos abalos da pr\u00f3pria natureza n\u00e3o reage; o vegetal j\u00e1 esbo\u00e7a rea\u00e7\u00e3o ao ser atacado com sua capacidade pr\u00f3pria de se defender soltando, por exemplo, l\u00edquido leitoso e irritante ao agressor, espinhando-o ou se restaurando com o tempo; o animal irracional al\u00e9m de sofrer demonstra esse padecimento ao esbravejar, atacar com seus meios ou gemer ante as agonias que lhes s\u00e3o impostos por outros animais ou mesmo pelos homens.<br \/>No entanto, o ser humano mentalmente sadio \u00e9 o que mais padece (o psicopata, por exemplo, se caracteriza entre outras coisas pelo racioc\u00ednio programado, pela aus\u00eancia de sentimentos e, sobretudo de compaix\u00e3o \u2013 sofrer com \u2013 para com quem o rodeia), pois, al\u00e9m de sentir uma dor ou sofrer com os problemas da humanidade, tamb\u00e9m reflete a respeito dessas mazelas. Sua dor nas costas, por exemplo, al\u00e9m do inc\u00f4modo f\u00edsico o faz pensar nos neg\u00f3cios a resolver, mas que ter\u00e3o de ser adiados causando preju\u00edzos financeiros a si e \u00e0 sua fam\u00edlia; a crise socioecon\u00f4mica, infelizmente, deixar\u00e1 muitas pessoas desempregadas acarretando fome, quebra nas vendas e, portanto, mais desempregos ou mesmo ondas de assaltos etc. Ora, refletir sobre isso \u00e9 ser nobre. Nenhuma pessoa com grandeza de alma \u00e9 imune ao sofrimento pr\u00f3prio ou de terceiros.<br \/>Os antigos gregos em seu bom-senso natural \u2013 sem conhecerem, evidentemente, a Reden\u00e7\u00e3o de Cristo \u2013 j\u00e1 refletiram sobre os sofrimentos que nos cercam e chegaram a conclus\u00f5es muito interessantes a ponto de conceberem o trocadilho: ph\u00e1tos=m\u00e1thos. Ele quer dizer que o sofrimento (ph\u00e1tos deu passio, passionis no latim, paix\u00e3o ou sofrimento em portugu\u00eas) \u00e9 uma escola ou aprendizado. Ningu\u00e9m aprende sem passar pela dor ou por problemas de ordens diversas, em grau maior ou menor.<br \/>Na tradi\u00e7\u00e3o crist\u00e3, vemos que Deus n\u00e3o tira o sofrimento da vida do ser humano, mas o transfigura. Sim, o mal \u00e9 uma desordem que Deus n\u00e3o quer, mas, em sua s\u00e1bia provid\u00eancia, insond\u00e1vel a n\u00f3s, permite e acompanha esse mal para nos levar a uma melhor realiza\u00e7\u00e3o enquanto seres humanos; n\u00e3o sofremos em v\u00e3o (Santo Agostinho. Livro sobre a f\u00e9, a esperan\u00e7a e a caridade, cap. 27), mas em uni\u00e3o com o pr\u00f3prio Senhor Jesus que mostrou-nos a import\u00e2ncia de padecermos com Ele a fim de nos tornarmos co-herdeiros do Reino (cf. Rm 8,17).<br \/>Ali\u00e1s, Deus n\u00e3o prometeu e nem promete uma vida de mera prosperidade aqui na terra \u00e0queles que se fizeram seus disc\u00edpulos. Ao contr\u00e1rio, convida-nos a tomar a nossa cruz e segui-lo (cf. Mt 16,24) ou a n\u00e3o nos gloriarmos sen\u00e3o na sua cruz (cf. Gl 6,14) que \u00e9 esc\u00e2ndalo e loucura (1Cor 1,18-25), mas tamb\u00e9m instrumento de salva\u00e7\u00e3o j\u00e1 prefigurado no Antigo Testamento no epis\u00f3dio da serpente de bronze (cf. Nm 21,8-9).<br \/>Mais: o Pai que ama os filhos deseja educ\u00e1-los aplicando-lhes a devida corre\u00e7\u00e3o \u2013 que pode trazer sofrimento \u2013 a fim de faz\u00ea-los cada vez menos mesquinhos e mais nobres a fim de que, aos poucos, possam ir se assemelhando a Ele na santidade a que todos somos chamados por meio da perfei\u00e7\u00e3o (cf. Lv 19,2; Mt 5,48; 1Pd 1,16). Da\u00ed o autor da carta aos Hebreus ter escrito longamente e com uma linguagem forte aos sofredores de seu tempo, mas que serve tamb\u00e9m, certamente, a n\u00f3s hoje o seguinte: \u201cV\u00f3s esquecestes a exorta\u00e7\u00e3o que vos foi dirigida como a filhos: Meu filho n\u00e3o desprezes a corre\u00e7\u00e3o do Senhor, n\u00e3o desanimes quando ele te repreende; pois o Senhor educa a quem ama, e castiga a quem acolhe como filho. \u00c9 para a vossa corre\u00e7\u00e3o que sofreis. Deus vos trata como filhos. Qual \u00e9, com efeito, o filho cujo pai n\u00e3o corrige? Se estais privados da corre\u00e7\u00e3o da qual todos participam, ent\u00e3o sois bastardos e n\u00e3o filhos. N\u00f3s tivemos nossos pais segundo a carne para nos corrigir, e os respeit\u00e1vamos. N\u00e3o haveremos de ser muito mais submissos ao Pai dos esp\u00edritos, a fim de vivermos? Pois eles nos corrigiram por pouco tempo, segundo o que lhes parecia bem. Deus, por\u00e9m, nos educa para o nosso bem, a fim de nos comunicar a sua santidade. Toda corre\u00e7\u00e3o, com efeito, no momento n\u00e3o parece motivo de alegria, mas de tristeza. Depois, no entanto, produz naqueles que assim foram exercitados um fruto de paz e de justi\u00e7a\u201d (Hb 12,5-11).<br \/>Esta passagem est\u00e1 em plena conson\u00e2ncia com outras que trazem li\u00e7\u00f5es muito semelhantes como, por exemplo, Ap 3,19: \u201cQuanto a mim, repreendo e corrijo a todos os que amo. Recobra, pois, o fervor e converte-te\u201d ou\u00a0 Pr 3,11-12: \u201cMeu filho, n\u00e3o desprezes a disciplina de Iahweh, nem te canses com a sua exorta\u00e7\u00e3o; porque Iahweh repreende os que ele ama, como um pai ao filho que preza\u201d.<br \/>V\u00ea-se, assim, que o crist\u00e3o n\u00e3o busca o sofrimento com sadismo, mas o aceita como instrumento de purifica\u00e7\u00e3o \u2013 o que, evidentemente, n\u00e3o o impede de tudo fazer para ameniz\u00e1-lo ou mesmo debel\u00e1-lo \u2013 em sua vida de crescimento interior na chamada acesse passiva (para diferenciar da acesse ativa, aquela que o pr\u00f3prio homem realiza por conta pr\u00f3pria a fim de combater as for\u00e7as do mal aninhadas em seu \u00edntimo), por sinal, muito merit\u00f3ria.<br \/>Desse modo, n\u00e3o \u00e9 cab\u00edvel queixar-se de Deus s\u00e1bio e santo ou question\u00e1-lo com petul\u00e2ncia sobre as raz\u00f5es de nossos sofrimentos ou dos problemas alheios, pois ainda que n\u00e3o entendamos agora (s\u00f3 o Ju\u00edzo Final revelar\u00e1 tudo, conforme o Catecismo da Igreja Cat\u00f3lica n. 1040) o porqu\u00ea desta ou daquela dificuldade em espec\u00edfico, de forma geral temos a certeza de que o Senhor deseja nos purificar rasgando o nosso \u00edntimo cheio de orgulhos, vaidades ou apegos a bens passageiros e at\u00e9 sup\u00e9rfluos a fim de que nos abramos a Ele. Aqueles que n\u00e3o sofrem, nada aprendem e, consequentemente, n\u00e3o progridem; ficam estagnados na sua caminhada rumo \u00e0 santidade a qual todos somos chamados. <br \/>Todos sabemos que o Cardeal Tempesta perdeu a sua cruz que portava para os assaltantes. O pr\u00f3prio Cardeal Tempesta disse em uma de suas catequeses desta semana: \u201cDias atr\u00e1s fiquei privado de um s\u00edmbolo que me acompanhava desde a visita \u201cad limina\u201d que fiz ao Papa Jo\u00e3o Paulo II em janeiro de 2003, quando ainda bispo de S\u00e3o Jos\u00e9 do Rio Preto. Foi a \u00faltima vez que o encontrei pessoalmente, estava j\u00e1 bem adoentado e em 2005 ele partiria para a eternidade. Em sua mensagem aos Bispos do Regional Sul 1, na \u00e9poca, ele recordou: \u201ca \u00e9poca em que vivemos \u00e9 ao mesmo tempo dram\u00e1tica e fascinante. Se por um lado parece que os homens v\u00e3o ao encal\u00e7o da prosperidade material, mergulhando cada vez mais no consumismo materialista, por outro lado manifestam a angustiante procura de sentido de vida interior, o desejo de aprender novas formas e meios de concentra\u00e7\u00e3o e de ora\u00e7\u00e3o\u201d. No dia desse pronunciamento ele entregou a cada bispo uma cruz peitoral. Receber uma cruz com um cord\u00e3o de um santo n\u00e3o \u00e9 presente de todos os dias! Nos \u00faltimos anos tenho-a usado sempre. Uma cruz prateada simples, com o bras\u00e3o do Papa santo no seu verso. Era uma recorda\u00e7\u00e3o de um grande amigo e do chamado \u00e0 santidade. \u00c9 claro que o sentido continua. O sentido n\u00e3o est\u00e1 no objeto que se perdeu. A imprensa deu grande destaque a esse s\u00edmbolo que me foi subtra\u00eddo no \u00faltimo domingo, por\u00e9m, eu fa\u00e7o um pedido: que por onde estiver que ajude muitos jovens no encontro com Jesus Cristo, que deu sua vida na Cruz e que, como passou pelas m\u00e3os do Papa Santo, S\u00e3o Jo\u00e3o Paulo II, leve as pessoas a serem santas! \u00c9 a minha ora\u00e7\u00e3o e confian\u00e7a. Essa ser\u00e1 para mim mais uma mem\u00f3ria deste rico m\u00eas de julho. \u00c9 o nosso compromisso com uma cidade mais justa e fraterna. Que chegue aos cora\u00e7\u00f5es de muitos e toque a vida das pessoas\u201d.<br \/>A prop\u00f3sito da pretensa \u201cimunidade\u201d dos crist\u00e3os ante o sofrimento, especialmente daqueles que trazem consigo algum s\u00edmbolo religioso (sacramental), o Pe. Marcel-Marie Desmarais, OP, assegura com raz\u00e3o o seguinte: \u201ccreio piamente nas interven\u00e7\u00f5es miraculosas de Deus, mas digo e repito pela cent\u00e9sima vez que Deus n\u00e3o \u00e9 um rob\u00f4, uma engrenagem que se ponha automaticamente em funcionamento, gra\u00e7as a certos gestos ou atitudes que produzissem, por assim dizer, efeitos m\u00e1gicos. N\u00e3o. Deus n\u00e3o \u00e9 um rob\u00f4, Deus \u00e9 um Pai. Sabe melhor que n\u00f3s o que precisamos. E, sobretudo tem em vista a salva\u00e7\u00e3o da nossa alma, bem mais do que os bens materiais a que tanto nos apegamos\u201d (Cl\u00ednica do cora\u00e7\u00e3o. 2\u00aa ed. Petr\u00f3polis: Vozes, 1979, p. 12-13).<br \/>Em suma, o crist\u00e3o reflete sobre tudo isso e busca, apesar de sua condi\u00e7\u00e3o de criatura limitada, realizar os planos de Deus em sua vida. Ele n\u00e3o procura, como dito, o sofrimento \u00e0 moda de um s\u00e1dico, mas, ainda que licitamente os combata, tenta, sem revoltas, entend\u00ea-los dentro dos s\u00e1bios planos divinos buscando for\u00e7as para suport\u00e1-los na ora\u00e7\u00e3o cont\u00ednua e na pr\u00e1tica dos sacramentos, especialmente da Confiss\u00e3o e da Eucaristia. Afinal, na comunh\u00e3o ele recebe o pr\u00f3prio Cristo em seu corpo, sangue, alma e divindade como alimento e sustento para as agruras desta vida em demanda da p\u00e1tria definitiva.<br \/>Sem essa for\u00e7a divina, o ser humano pode tornar-se algu\u00e9m mesquinho que s\u00f3 reclama, critica ou mesmo blasfema frente aos problemas que o angustiam, mas n\u00e3o encontra a for\u00e7a necess\u00e1ria para venc\u00ea-los, caindo, por isso, n\u00e3o raras vezes, em terr\u00edveis desatinos&#8230; At\u00e9 mesmo em suic\u00eddio. Por isso agradecemos a Deus o exemplo de serenidade do nosso amado irm\u00e3o, Cardeal Tempesta, que nos ensinou a ir ao encontro de Cristo, a sermos santos, a praticarmos o bem e a confiarmos em Deus, porque Ele sempre guia nossos caminhos! O sofrimento, a perda da cruz peitoral do Cardeal Tempesta, nos matricula na escola de Jesus que nos chama a vivermos como irm\u00e3os!<\/p>\n<p><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Logo depois do assalto em que foi v\u00edtima, pela segunda vez, na cidade do Rio de Janeiro, o seu Cardeal Arcebispo, Dom Orani Jo\u00e3o Tempesta, come\u00e7aram aparecer no facebook algumas inadequadas publica\u00e7\u00f5es, de ateus, dizendo que nunca foram assaltados e que o Cardeal Arcebispo, em menos de um ano foi assaltado duas vezes. 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