{"id":59489,"date":"2020-05-26T10:36:56","date_gmt":"2020-05-26T13:36:56","guid":{"rendered":"https:\/\/catolicanet.net\/wp-cnet\/?p=59489"},"modified":"2020-05-26T10:36:56","modified_gmt":"2020-05-26T13:36:56","slug":"medico-catolico-sobre-a-pandemia-jesus-esta-pronto-para-acalmar-esse-mar","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/catolicanet.net\/wp-cnet\/medico-catolico-sobre-a-pandemia-jesus-esta-pronto-para-acalmar-esse-mar\/","title":{"rendered":"M\u00e9dico cat\u00f3lico sobre a pandemia: \u201cJesus est\u00e1 pronto para acalmar esse mar\u201d"},"content":{"rendered":"<h2 class=\"subtitle\" style=\"text-align: justify;\">Um testemunho de quem trabalha exaustivamente no combate ao coronav\u00edrus<\/h2>\n<div class=\"base-post-content\">\n<div style=\"text-align: justify;\">ODr. M\u00e1rcio Rufino Barbosa J\u00fanior \u00e9 m\u00e9dico cirurgi\u00e3o cardiovascular. Nos primeiros meses de 2020, ele passou por momentos desafiadores, mas sua f\u00e9 cat\u00f3lica n\u00e3o o permitiu desanimar. O jovem m\u00e9dico, de 33 anos, acompanhou o in\u00edcio da pandemia no exterior e, hoje, atua na linha de frente contra a Covid-19 no Brasil.<\/div>\n<div style=\"text-align: justify;\"><\/div>\n<div style=\"text-align: justify;\">No testemunho que publicamos abaixo, o Dr. M\u00e1rcio, que tamb\u00e9m \u00e9 integrante da\u00a0<a href=\"https:\/\/pt.aleteia.org\/2020\/05\/21\/uma-musica-para-nos-ajudar-a-refletir-sobre-os-tempos-de-pandemia\/\">banda cat\u00f3lica Ventoleve<\/a>, fala sobre suas impress\u00f5es acerca da pandemia, o que tem visto no hospital em que atua e como, na opini\u00e3o dele, vamos sai dessa crise.<\/div>\n<div style=\"text-align: justify;\"><\/div>\n<div style=\"text-align: justify;\"><em>\u201cEm novembro de 2019, um m\u00eas antes de eclodir a epidemia do COVID-19 na cidade chinesa de Wuhan, estive pela primeira vez no continente asi\u00e1tico. Passei um m\u00eas trabalhando no Hospital Universit\u00e1rio de Juntendo, em T\u00f3quio. Sou cirurgi\u00e3o cardiovascular, rec\u00e9m-formado pelo Instituto Dante Pazzanese de Cardiologia, mas na ocasi\u00e3o eu ainda era um residente em busca de novos conhecimentos.<\/em><\/div>\n<div style=\"text-align: justify;\"><\/div>\n<div style=\"text-align: justify;\"><em>J\u00e1 era esperado que esta seria uma rica experi\u00eancia profissional, no entanto, eu n\u00e3o imaginava que esta viagem mudaria tamb\u00e9m minha forma de enxergar a vida. Um pa\u00eds completamente diferente de tudo o que eu havia encontrado, um povo extremamente disciplinado, reservado, simples e acolhedor.<\/em><em>Ali me deparei com o primeiro choque cultural: a extrema densidade populacional.<\/em><em>Cruzamentos e cal\u00e7adas lotadas de pessoas circulando, como um imenso formigueiro humano. Um fluxo t\u00e3o intenso, que fazia a cidade de S\u00e3o Paulo parecer tranquila, e me dava a certeza que eu estava literalmente do outro lado do mundo. Olhar as pessoas nas ruas usando m\u00e1scaras foi muito estranho. Parecia exagerado. \u00a0Entrar nos museus e perceber uma preocupa\u00e7\u00e3o coletiva dos visitantes com uma simples tosse ou espirro foi at\u00e9 engra\u00e7ado. Para mim, soava como uma neurose coletiva; o medo de um inimigo inexistente.<\/em><\/div>\n<div style=\"text-align: justify;\">\n<p><em>Apesar de todas estas diferen\u00e7as, as semelhan\u00e7as foram maiores.\u00a0Conheci um colega chamado Shunya Ohno, que me acolheu no hospital onde trabalhei. Ele traduzia as visitas m\u00e9dicas matinais da UTI para mim, e tamb\u00e9m entravamos em cirurgia quase todos os dias juntos. N\u00f3s dois t\u00ednhamos uma conex\u00e3o interessante. Ele tinha a mesma idade que eu, os mesmos objetivos profissionais. Assim como eu, era casado e tinha uma filha de dois anos. Assim como a minha, a m\u00e3e dele \u00a0era professora de alfabetiza\u00e7\u00e3o. Havia ainda uma s\u00e9rie de outras semelhan\u00e7as inacredit\u00e1veis. Parecia um irm\u00e3o g\u00eameo, ou melhor, outro \u201ceu\u201d no Jap\u00e3o.<\/em><\/p>\n<\/div>\n<div style=\"text-align: justify;\"><em>Ao passear pelo Parque Ueno, no cora\u00e7\u00e3o da cidade, \u00e0s vezes me dava a leve impress\u00e3o que eu estava caminhando pelo Parque Ibirapuera. A vegeta\u00e7\u00e3o era completamente diferente, mas algo ali me trazia a lembran\u00e7a.\u00a0Quanto mais eu conhecia o povo, mais eu descobria os regionalismos, at\u00e9 o ponto de entender que o povo de Osaka era o mineiro do Jap\u00e3o.<\/em><\/div>\n<div style=\"text-align: justify;\"><\/div>\n<div style=\"text-align: justify;\"><em>Em Jo\u00e3o, cap\u00edtulo 19, vers\u00edculo 11, Jesus pede ao Pai que n\u00f3s sejamos um, assim como Eles s\u00e3o.\u00a0Retornei ao Brasil tendo visto e vivido tantas coisas naquele pa\u00eds, que hoje, mais do que nunca, reverberam em mim n\u00e3o apenas como uma lembran\u00e7a, mas ditando uma convic\u00e7\u00e3o de que somos um. Esta \u00e9 a minha percep\u00e7\u00e3o.<\/em><\/div>\n<div style=\"text-align: justify;\"><\/div>\n<div style=\"text-align: justify;\"><em>Vi a epidemia transformar-se em uma pandemia de perto. Em mar\u00e7o deste ano, quando a It\u00e1lia ganhou a aten\u00e7\u00e3o do mundo de forma s\u00fabita, eu estava na capital da Su\u00ed\u00e7a, a menos de tr\u00eas horas de trem de Mil\u00e3o, o segundo epicentro do coronavirus.<\/em><\/div>\n<div style=\"text-align: justify;\"><\/div>\n<div style=\"text-align: justify;\"><em>Vi a transforma\u00e7\u00e3o das pessoas. De alguma forma, os moradores de Berna pareciam muito tranquilos, como se os alpes pudessem conter a transmiss\u00e3o do pa\u00eds vizinho. Inicialmente, havia entre os su\u00ed\u00e7os um sensa\u00e7\u00e3o coletiva de que tudo n\u00e3o passava de uma histeria, e que a infec\u00e7\u00e3o teria outro comportamento em um pa\u00eds rico como o deles. Riram de mim quando andei de mascara nas ruas.\u00a0Vi o comportamento das pessoas de certa forma arrogante, as pra\u00e7as cheias no final de semana, muitas fam\u00edlias viajando para as lotadas esta\u00e7\u00f5es de esqui, ruas, correios, supermercados lotados e sem restri\u00e7\u00f5es.<\/em><\/div>\n<div style=\"text-align: justify;\"><\/div>\n<div style=\"text-align: justify;\"><em>No meu caminho dentro do Hospital Universit\u00e1rio de Berna, Inselspital, em dire\u00e7\u00e3o ao centro cir\u00fargico, passava diariamente por um setor direcionado aos pacientes com suspeita de COVID-19. Vi as cadeiras deste setor vazias nos primeiros dias, e as filas que davam voltas no quarteir\u00e3o de um dia para o outro.<\/em><\/div>\n<div style=\"text-align: justify;\"><\/div>\n<div style=\"text-align: justify;\"><em>As ruas mudaram do tom tranquilo para a inquietude diante do ex\u00e9rcito e da doen\u00e7a ganhando rostos familiares.\u00a0<\/em><em>Demorei um ano para conseguir este est\u00e1gio (que duraria 6 meses) e uma hora para decidir voltar para casa. Minha esposa estava em uma gravidez de risco no Brasil, minha filha n\u00e3o estava bem, e eu n\u00e3o tive outra escolha. A Su\u00ed\u00e7a fechou as fronteiras, e eu consegui voltar para casa em um dos \u00faltimos voos.<\/em><\/div>\n<div style=\"text-align: justify;\">\n<p><em>Retornando ao meu pa\u00eds, vi um controle fr\u00e1gil nos aeroportos. Uma permissividade que poderia ter sido evitada.\u00a0Fiz voluntariamente minha reclus\u00e3o quando tudo ainda era permitido aos brasileiros.<\/em><\/p>\n<\/div>\n<div style=\"text-align: justify;\"><em>Passada essa quarentena, reencontrei minha fam\u00edlia. Fizemos um novo exame para saber como estava minha filha, pois a gesta\u00e7\u00e3o j\u00e1 se aproximava do quinto m\u00eas. Infelizmente meu beb\u00ea n\u00e3o estava bem, e parecia quest\u00e3o de dias para ela partir. E assim foi. Pareceu que minha filha estava esperando eu voltar, cruzar o oceano para se despedir.<\/em><\/div>\n<div style=\"text-align: justify;\">\n<p><em>Aqui, vi a crise de perto. Dei plant\u00f5es vestido como um astronauta, triando pacientes com suspeita de coronav\u00edrus em uma emerg\u00eancia de hospital. A ansiedade e o medo dos funcion\u00e1rios eram not\u00f3rios. Todos estavam estressados de estar ali, frente a frente com a infec\u00e7\u00e3o.<\/em><\/p>\n<\/div>\n<div style=\"text-align: justify;\"><em>Vi fam\u00edlias se encontrando nas UTIs, como pacientes. Vi uma m\u00e3e culpando o filho pela infec\u00e7\u00e3o, colocando sobre os ombros do adolescente a poss\u00edvel morte dos av\u00f3s que moravam com eles e, provavelmente, seriam infectados. Era muito cansativo e o tempo parecia parar de correr.<\/em><\/div>\n<div style=\"text-align: justify;\"><\/div>\n<div style=\"text-align: justify;\"><em>Estar em uma sala com 20 leitos, onde todos eram portadores do v\u00edrus, e destes apenas dois ainda n\u00e3o respiravam com ajuda do aparelho de ventila\u00e7\u00e3o, era assustador. Nesta sala, vi o despreparo coletivo, vi que era virtualmente imposs\u00edvel de se protejer\u00a0da transmiss\u00e3o. Sem culpa nenhuma, t\u00e9cnicos de enfermagem que nunca haviam lidado com um paciente grave, eram redirecionados para atender a esta nova demanda. Assim como eles, enfermeiros e m\u00e9dicos davam seu melhor, mas n\u00e3o estavam preparados.<\/em><\/div>\n<div style=\"text-align: justify;\"><\/div>\n<div style=\"text-align: justify;\"><em>Ali\u00e1s, sobre estar preparado, ningu\u00e9m nunca esteve. Nem nos Estado Unidos, na Europa e nem em pa\u00eds nenhum do mundo. Quem poderia imaginar algo dessa propor\u00e7\u00e3o?<\/em><\/div>\n<div style=\"text-align: justify;\"><\/div>\n<div style=\"text-align: justify;\"><em>Toda crise gera um ruptura, e agora existir\u00e1 um mundo antes e outro depois do COVID-19. Sistemas de sa\u00fade, aeroportos, escolas e outros locais p\u00fablicos certamente ir\u00e3o se reorganizar.\u00a0<\/em><\/div>\n<div style=\"text-align: justify;\"><\/div>\n<div style=\"text-align: justify;\"><em>No Brasil, a polariza\u00e7\u00e3o pol\u00edtica ainda \u00e9 t\u00e3o forte, que influencia at\u00e9 nas opini\u00f5es cient\u00edficas. Atualmente, as pessoas divergem entre si sobre o tema, apegadas \u00e0s suas convic\u00e7\u00f5es ideol\u00f3gicas, como se o v\u00edrus tivesse \u201cdireita e esquerda\u201d. Parece que ningu\u00e9m se permite dizer: eu n\u00e3o sei. Principalmente os m\u00e9dicos, pois estes deveriam conduzir a opini\u00e3o p\u00fablica com firmeza, mas divergem entre si nesta torre de Babel, onde cada um defende seus interesses.\u00a0<\/em><\/div>\n<div style=\"text-align: justify;\"><\/div>\n<div style=\"text-align: justify;\"><em>A cada dia surge uma nova pesquisa, melhor estruturada e desconstruindo a publica\u00e7\u00e3o anterior. Tenho a sensa\u00e7\u00e3o de que somos crian\u00e7as discutindo sobre um tema complexo e falando bobagens, ou um viajante descrevendo um rio enquanto navega.<\/em><\/div>\n<div style=\"text-align: justify;\"><\/div>\n<div style=\"text-align: justify;\"><em>Esta aus\u00eancia de consenso, gerou uma crise de confian\u00e7a na sociedade. As pessoas se perguntam em quem devem acreditar.\u00a0As lideran\u00e7as da sa\u00fade precisam falar a mesma l\u00edngua, com base na ci\u00eancia, e nos conceitos j\u00e1 solidificados.<\/em><\/div>\n<div style=\"text-align: justify;\"><\/div>\n<div style=\"text-align: justify;\"><em>\u00c9 doloroso notar que ainda levar\u00e1 um bom tempo para que tudo volte \u00e0 normalidade. Fam\u00edlias unidas, missas aos domingos, festas com amigos, abra\u00e7os e at\u00e9 o simples aperto de m\u00e3o, s\u00e3o priva\u00e7\u00f5es dif\u00edceis para um povo como o nosso.<\/em><\/div>\n<div style=\"text-align: justify;\"><\/div>\n<div style=\"text-align: justify;\"><em>Desejo que saibamos tirar desse per\u00edodo o melhor de n\u00f3s. Resgatar o valor do que realmente importa, ressignificar nossos objetivos e organizar novas prioridades. Menos tempo no celular, e mais aten\u00e7\u00e3o aos filhos. Mais carinho com nossos pais.<\/em><\/div>\n<div style=\"text-align: justify;\"><\/div>\n<div style=\"text-align: justify;\"><em>Que a fragilidade e vulnerabilidade que nos surpreenderam, coloquem o nosso cora\u00e7\u00e3o pronto para receber o \u00fanico que tem controle sobre todas as coisas.\u00a0<\/em><\/div>\n<div style=\"text-align: justify;\"><em>\u00c9 o doente quem precisa de um m\u00e9dico, disse o nosso mestre. Ent\u00e3o, esse \u00e9 o momento oportuno para reconhecermos humildemente que estamos todos no mesmo barco, sob a mesma tempestade, e um buraco no conv\u00e9s ou na proa pode afundar a todos. Mas quem dorme conosco, e precisa despertar no nosso cora\u00e7\u00e3o \u00e9 Jesus; que est\u00e1 pronto para acalmar esse mar.\u201d<\/em><\/div>\n<\/div>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Um testemunho de quem trabalha exaustivamente no combate ao coronav\u00edrus ODr. M\u00e1rcio Rufino Barbosa J\u00fanior \u00e9 m\u00e9dico cirurgi\u00e3o cardiovascular. 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