{"id":59391,"date":"2020-05-25T09:26:26","date_gmt":"2020-05-25T12:26:26","guid":{"rendered":"https:\/\/catolicanet.net\/wp-cnet\/?p=59391"},"modified":"2020-05-25T00:27:08","modified_gmt":"2020-05-25T03:27:08","slug":"angustia","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/catolicanet.net\/wp-cnet\/angustia\/","title":{"rendered":"ANG\u00daSTIA"},"content":{"rendered":"<p style=\"text-align: justify;\">Quando o escritor brasileiro Graciliano Ramos escreveu Ang\u00fastia, seu terceiro romance, cumpria pena em uma pris\u00e3o de Macei\u00f3. Era o ano de 1936. Seu crime n\u00e3o vem ao caso, mas as motiva\u00e7\u00f5es dessa escrita sim. Nordestino sofrido, mas renitente, viveu a saga do vai e vem migrat\u00f3rio e perdeu tr\u00eas de seus irm\u00e3os e familiares para a peste bub\u00f4nica. Tornou-se militante pol\u00edtico e grande defensor das causas populares, deixando consignado em Vidas Secas o drama social do seu povo. Em Ang\u00fastia \u2013 originalmente titulado com Colch\u00e3o de Painas, refer\u00eancia ao colch\u00e3o de sua pris\u00e3o \u2013 retratou todo o dilema de algu\u00e9m manietado e impedido de realizar seus sonhos.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0 Por que utilizo esses fatos num espa\u00e7o tradicionalmente religioso? Num momento cr\u00edtico da hist\u00f3ria que vivemos? Na pris\u00e3o involunt\u00e1ria \u00e0 qual muitos se submetem? Na ang\u00fastia asfixiante das incertezas de uma peste? Nas muitas perdas que sofremos, dentre elas nossa liberdade de ir e vir, de se solidarizar com os amigos, de sorrir sem m\u00e1scaras, de abra\u00e7ar, comungar?&#8230;<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0 O colch\u00e3o macio tamb\u00e9m cansa. De nada adianta uma retaguarda protetiva, uma seguran\u00e7a restritiva sem possibilidades concretas de vit\u00f3rias futuras. Em Ang\u00fastia, o conflito existencialista de um matuto apaixonado por uma musa inspiradora esbarra na concorr\u00eancia de outro, que lhe rouba a raz\u00e3o de sua vida, sua paix\u00e3o. Quantos assim se veem impossibilitados de realizar seus sonhos! O conflito \u00e9 tamb\u00e9m social, coletivo, pois esbarra na luta de classes do senhor da Fazenda e do caboclo sertanejo, do sistema dominante e da classe operante, da pol\u00edtica ditatorial e da realidade sem norte, sem rumo certo. Retrata uma realidade social da qual fazemos parte, na qual o mundo se afunda em uma polariza\u00e7\u00e3o sempre conflitante. Essa ang\u00fastia nos asfixia. Mata sonhos, corr\u00f3i a alma, esconde a esperan\u00e7a.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0 H\u00e1, no entanto, uma ang\u00fastia positiva, uma for\u00e7a maior capaz de superar conflitos, amadurecer nossos dilemas, ascender sobre problemas. A ressurrei\u00e7\u00e3o n\u00e3o termina na transposi\u00e7\u00e3o de um t\u00famulo, uma derrota superada, mas vai al\u00e9m&#8230; \u00c9 preciso tamb\u00e9m ascender, superar, subir a um novo patamar de vida, alcan\u00e7ar os c\u00e9us. \u00c9 preciso libertar-se das pris\u00f5es, das amarras que toldam nossas exist\u00eancias, tolhem nossas almas sedentas de liberdade, de plenitude na vida. Gritar n\u00e3o \u00e0s pandemias existencialistas, as cadeias do individualismo. Essa ang\u00fastia \u00e9 pr\u00f3pria das pessoas de f\u00e9, capazes de transformar dramas circunstanciais em trampolins de supera\u00e7\u00e3o. Pessoas que, como Cristo, ascendem aos c\u00e9us na supera\u00e7\u00e3o das amarras, das pris\u00f5es circunstanciais dessa vida passageira. Essa \u00e9 a ang\u00fastia dos escolhidos, anjos e santos de Deus, que compreendem momentos de priva\u00e7\u00f5es como instrumentos de purifica\u00e7\u00e3o, n\u00e3o mais que isso.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0 No romance da vida a ang\u00fastia \u00e9 t\u00e3o finita quanto ela pr\u00f3pria. Um dia acaba. O protagonista do escritor brasileiro, um Luis da Silva qualquer, n\u00e3o enxergou essa possibilidade e acabou assassinando seu oponente, sem com isso resgatar sua amada, seu sonho de vida. Faltou-lhe maior introspec\u00e7\u00e3o da realidade, para encarar a falta de horizonte moment\u00e2nea. Esse \u00e9 o perigo dos romances sem perspectivas, dos dramas imposs\u00edveis de final feliz, que muitos de n\u00f3s escrevemos sem o horizonte da f\u00e9 e da esperan\u00e7a. A pris\u00e3o e a morte sentenciam seus protagonistas. Aos que enxergam al\u00e9m da pr\u00f3pria realidade est\u00e1 reservada uma vit\u00f3ria maior, uma perspectiva de vida al\u00e9m das ang\u00fastias pr\u00f3prias de nossas limita\u00e7\u00f5es pessoais. Olhem para os c\u00e9us: N\u00e3o fiquem a\u00ed parados, na mesmice de uma ang\u00fastia circunstancial. \u201cEste Jesus que acaba de vos ser arrebatado&#8230; voltar\u00e1 do mesmo modo&#8230;\u201d (At 1,11).<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Quando o escritor brasileiro Graciliano Ramos escreveu Ang\u00fastia, seu terceiro romance, cumpria pena em uma pris\u00e3o de Macei\u00f3. Era o ano de 1936. Seu crime n\u00e3o vem ao caso, mas as motiva\u00e7\u00f5es dessa escrita sim. 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