{"id":57963,"date":"2020-03-31T11:00:42","date_gmt":"2020-03-31T14:00:42","guid":{"rendered":"https:\/\/catolicanet.net\/wp-cnet\/?p=57963"},"modified":"2020-03-31T11:00:42","modified_gmt":"2020-03-31T14:00:42","slug":"ethos-e-pandemia","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/catolicanet.net\/wp-cnet\/ethos-e-pandemia\/","title":{"rendered":"Ethos e pandemia"},"content":{"rendered":"<p style=\"text-align: justify;\">A \u00e9tica, na sua defini\u00e7\u00e3o mais elementar, significa ci\u00eancia dos costumes ou modo habitual de proceder. \u00c9 a reflex\u00e3o sobre as a\u00e7\u00f5es humanas como tais. Ela visa sempre orientar o ser humano a agir segundo o bem. O bem constitui, por assim dizer, o seu foco objetivo. O bem que \u00e9 capaz de dar sentido e valor \u00e0 vida, na medida em que ele se torna o objeto do agir e da realiza\u00e7\u00e3o do sujeito. Parece uma ousadia em uma cultura marcada por uma forte autonomia do sujeito, repropor o tema do Ethos \u00e0s consci\u00eancias que buscam respostas e sobreviv\u00eancia em um momento tr\u00e1gico e sem precedente da nossa hist\u00f3ria. Ser o sujeito e n\u00e3o o objeto do pr\u00f3prio destino sempre pareceu um plano ou sonho a ser atingido, como ideal de uma vida moral emancipada e emancipante. A sede de uma total subjetividade seria capaz de nos orientar na escolha do bem em uma sociedade l\u00edquida, ferida, insatisfeita e inquieta consigo mesma? \u00c9 a partir desta quest\u00e3o que deve emergir um Ethos futuro, pautado na redescoberta de nossa identidade aberta ao outro. No atual per\u00edodo de<br \/>\n\u201cclausura\u201d temos sentido a falta do outro que, mesmo estando fisicamente distante de n\u00f3s, est\u00e1 sempre no horizonte do nosso pensamento, confirmando que somos ser para o outro. De fato, o homem \u00e9 um ser de rela\u00e7\u00e3o. O ser humano foi criado para o encontro com o outro e com o totalmente Outro. O encontro s\u00f3 \u00e9 poss\u00edvel sob a condi\u00e7\u00e3o de um estar de frente. Esse \u00e9 o nosso Ethos; como bem enfatiza o Papa Francisco ao falar da cultura do encontro. Trata-se de uma \u00e9tica do encontro livre e consciente, constru\u00edda na rela\u00e7\u00e3o interpessoal. \u00c9 a \u00e9tica da humanidade plena do ser humano que necessita, mais do que nunca, edificar o seu amanh\u00e3. Portanto, ela sup\u00f5e a realiza\u00e7\u00e3o de uma constru\u00e7\u00e3o moral capaz de revelar plenamente o ser humano e de ajud\u00e1-lo a realizar-se, como bem refletiu o c\u00e9lebre te\u00f3logo Romano Guardini. Quando emerge no mundo de nossa consci\u00eancia a exig\u00eancia de uma melhor conviv\u00eancia humana, ent\u00e3o surge uma nova ordem moral, um novo Ethos. Neste aflora n\u00e3o o dom\u00ednio conflitivo sobre o outro, pautado no frenesi do ser mais ou ter mais; mas na for\u00e7a do encontro, da comunh\u00e3o com o outro no despojamento do eu para o tu, tornando poss\u00edvel a vida humana como um viver juntos na busca de um mesmo ideal que transcende ra\u00e7as, l\u00ednguas, na\u00e7\u00f5es e condi\u00e7\u00e3o social. O mist\u00e9rio dram\u00e1tico e invis\u00edvel da praga, da dor e da morte, de repente, uniu toda a humanidade em um s\u00f3 Ethos: o de pensar a vida como dom e compromisso, como o existir um para o outro, onde a regra suprema \u00e9 o amor e a comunh\u00e3o fraterna universal. N\u00e3o avan\u00e7ar nesse itiner\u00e1rio, significa enveredar na plan\u00edcie da solid\u00e3o, onde perderemos o ponto de refer\u00eancia existencial e o valor infinito da pessoa. Tal \u00e9 o dinamismo racional da vida. \u201cA tempestade nos mostra que n\u00e3o somos autossuficientes, que sozinhos afundamos. Por isso, devemos convidar Jesus a embarcar em nossas vidas. Com Ele a bordo, n\u00e3o naufragamos, porque esta \u00e9 a for\u00e7a de Deus: transformar em bem tudo o que nos acontece, inclusive as coisas negativas. Com Deus, a vida jamais morre\u201d (Papa Francisco, Hora Santa. Vaticano,<br \/>\n27\/03\/2020). Por fim, se n\u00e3o sairmos melhores depois deste mal que assola todo o mundo, sem nenhuma dose de pessimismo, confirmaremos a globaliza\u00e7\u00e3o da indiferen\u00e7a, pelo fato de n\u00e3o colocarmos mais o outro na dimens\u00e3o relacional do nosso ser; mas tamb\u00e9m, por confirmarmos que desaprendemos a aprender as li\u00e7\u00f5es da nossa hist\u00f3ria. Prefiro acreditar, com otimismo e esperan\u00e7a, numa humanidade renovada e apontada para um novo destino p\u00f3s-pand\u00eamico. A vida voltar\u00e1 a florescer com toda for\u00e7a. O amor far\u00e1 a vida vencer. E, assim, esperamos o surgimento de um novo Ethos, isto \u00e9, de um ser mais humanizado; onde todos se sentir\u00e3o membros de uma s\u00f3 fam\u00edlia.<\/p>\n<p>D. Pedro Cunha Cruz<br \/>\nBispo diocesano da Campanha-MG<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>A \u00e9tica, na sua defini\u00e7\u00e3o mais elementar, significa ci\u00eancia dos costumes ou modo habitual de proceder. \u00c9 a reflex\u00e3o sobre as a\u00e7\u00f5es humanas como tais. Ela visa sempre orientar o ser humano a agir segundo o bem. O bem constitui, por assim dizer, o seu foco objetivo. 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