{"id":5726,"date":"2015-04-15T17:29:17","date_gmt":"2015-04-15T20:29:17","guid":{"rendered":"http:\/\/catolicanet.net\/wp-cnet\/bula-rosto-da-misericordia-texto-integral\/"},"modified":"2017-04-07T13:13:33","modified_gmt":"2017-04-07T16:13:33","slug":"bula-rosto-da-misericordia-texto-integral","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/catolicanet.net\/wp-cnet\/bula-rosto-da-misericordia-texto-integral\/","title":{"rendered":"Bula \u201cRosto da Miseric\u00f3rdia\u201d \u2013 texto integral"},"content":{"rendered":"<p><img decoding=\"async\" src=\"http:\/\/catolicanet.com.br\/images\/stories\/noticias\/bula.jpg\" border=\"0\" align=\"right\" \/><\/p>\n<p>1. Jesus Cristo \u00e9 o rosto da miseric\u00f3rdia do Pai. O mist\u00e9rio da f\u00e9 crist\u00e3 parece encontrar nestas palavras a sua s\u00edntese. Tal miseric\u00f3rdia tornou-se viva, vis\u00edvel e atingiu o seu cl\u00edmax em Jesus de Nazar\u00e9. O Pai, \u00ab rico em miseric\u00f3rdia \u00bb (Ef 2, 4), depois de ter revelado o seu nome a Mois\u00e9s como \u00ab Deus misericordioso e clemente, vagaroso na ira, cheio de bondade e fidelidade \u00bb (Ex 34, 6), n\u00e3o cessou de dar a conhecer, de v\u00e1rios modos e em muitos momentos da hist\u00f3ria, a sua natureza divina. Na \u00ab plenitude do tempo \u00bb (Gl 4, 4), quando tudo estava pronto segundo o seu plano de salva\u00e7\u00e3o, mandou o seu Filho, nascido da Virgem Maria, para nos revelar, de modo definitivo, o seu amor. Quem O v\u00ea, v\u00ea o Pai (cf. Jo 14, 9). Com a sua palavra, os seus gestos e toda a sua pessoa,[1]Jesus de Nazar\u00e9 revela a miseric\u00f3rdia de Deus.<\/p>\n<p>2. Precisamos sempre de contemplar o mist\u00e9rio da miseric\u00f3rdia. \u00c9 fonte de alegria, serenidade e paz. \u00c9 condi\u00e7\u00e3o da nossa salva\u00e7\u00e3o. Miseric\u00f3rdia: \u00e9 a palavra que revela o mist\u00e9rio da Sant\u00edssima Trindade. Miseric\u00f3rdia: \u00e9 o acto \u00faltimo e supremo pelo qual Deus vem ao nosso encontro. Miseric\u00f3rdia: \u00e9 a lei fundamental que mora no cora\u00e7\u00e3o de cada pessoa, quando v\u00ea com olhos sinceros o irm\u00e3o que encontra no caminho da vida. Miseric\u00f3rdia: \u00e9 o caminho que une Deus e o homem, porque nos abre o cora\u00e7\u00e3o \u00e0 esperan\u00e7a de sermos amados para sempre, apesar da limita\u00e7\u00e3o do nosso pecado.<\/p>\n<p>3. H\u00e1 momentos em que somos chamados, de maneira ainda mais intensa, a fixar o olhar na miseric\u00f3rdia, para nos tornarmos n\u00f3s mesmos sinal eficaz do agir do Pai. Foi por isso que proclamei um Jubileu Extraordin\u00e1rio da Miseric\u00f3rdia como tempo favor\u00e1vel para a Igreja, a fim de se tornar mais forte e eficaz o testemunho dos crentes.<\/p>\n<p>O Ano Santo abrir-se-\u00e1 no dia 8 de Dezembro de 2015, solenidade da Imaculada Concei\u00e7\u00e3o. Esta festa lit\u00fargica indica o modo de agir de Deus desde os prim\u00f3rdios da nossa hist\u00f3ria. Depois do pecado de Ad\u00e3o e Eva, Deus n\u00e3o quis deixar a humanidade sozinha e \u00e0 merc\u00ea do mal. Por isso, pensou e quis Maria santa e imaculada no amor (cf. Ef 1, 4), para que Se tornasse a M\u00e3e do Redentor do homem. Perante a gravidade do pecado, Deus responde com a plenitude do perd\u00e3o. A miseric\u00f3rdia ser\u00e1 sempre maior do que qualquer pecado, e ningu\u00e9m pode colocar um limite ao amor de Deus que perdoa. Na festa da Imaculada Concei\u00e7\u00e3o, terei a alegria de abrir a Porta Santa. Ser\u00e1 ent\u00e3o uma Porta da Miseric\u00f3rdia, onde qualquer pessoa que entre poder\u00e1 experimentar o amor de Deus que consola, perdoa e d\u00e1 esperan\u00e7a.<\/p>\n<p>No domingo seguinte, o Terceiro Domingo de Advento, abrir-se-\u00e1 a Porta Santa na Catedral de Roma, a Bas\u00edlica de S\u00e3o Jo\u00e3o de Latr\u00e3o. E em seguida ser\u00e1 aberta a Porta Santa nas outras Bas\u00edlicas Papais. Estabele\u00e7o que no mesmo domingo, em cada Igreja particular \u2013 na Catedral, que \u00e9 a Igreja-M\u00e3e para todos os fi\u00e9is, ou na Concatedral ou ent\u00e3o numa Igreja de significado especial \u2013 se abra igualmente, durante todo o Ano Santo, uma Porta da Miseric\u00f3rdia. Por op\u00e7\u00e3o do Ordin\u00e1rio, a mesma poder\u00e1 ser aberta tamb\u00e9m nos Santu\u00e1rios, meta de muitos peregrinos que frequentemente, nestes lugares sagrados, se sentem tocados no cora\u00e7\u00e3o pela gra\u00e7a e encontram o caminho da convers\u00e3o. Assim, cada Igreja particular estar\u00e1 directamente envolvida na viv\u00eancia deste Ano Santo como um momento extraordin\u00e1rio de gra\u00e7a e renova\u00e7\u00e3o espiritual. Portanto o Jubileu ser\u00e1 celebrado, quer em Roma quer nas Igrejas particulares, como sinal vis\u00edvel da comunh\u00e3o da Igreja inteira.<\/p>\n<p>4. Escolhi a data de 8 de Dezembro, porque \u00e9 cheia de significado na hist\u00f3ria recente da Igreja. Com efeito, abrirei a Porta Santa no cinquenten\u00e1rio da conclus\u00e3o do Conc\u00edlio Ecum\u00e9nico Vaticano II. A Igreja sente a necessidade de manter vivo aquele acontecimento. Come\u00e7ava ent\u00e3o, para ela, um percurso novo da sua hist\u00f3ria. Os Padres, reunidos no Conc\u00edlio, tinham sentido forte, como um verdadeiro sopro do Esp\u00edrito, a exig\u00eancia de falar de Deus aos homens do seu tempo de modo mais compreens\u00edvel. Derrubadas as muralhas que, por demasiado tempo, tinham encerrado a Igreja numa cidadela privilegiada, chegara o tempo de anunciar o Evangelho de maneira nova. Uma nova etapa na evangeliza\u00e7\u00e3o de sempre. Um novo compromisso para todos os crist\u00e3os de testemunharem, com mais entusiasmo e convic\u00e7\u00e3o, a sua f\u00e9. A Igreja sentia a responsabilidade de ser, no mundo, o sinal vivo do amor do Pai.<\/p>\n<p>Voltam \u00e0 mente aquelas palavras, cheias de significado, que S\u00e3o Jo\u00e3o XXIII pronunciou na abertura do Conc\u00edlio para indicar a senda a seguir: \u00ab Nos nossos dias, a Esposa de Cristo prefere usar mais o rem\u00e9dio da miseric\u00f3rdia que o da severidade. (\u2026) A Igreja Cat\u00f3lica, levantando por meio deste Conc\u00edlio Ecum\u00e9nico o facho da verdade religiosa, deseja mostrar-se m\u00e3e amorosa de todos, benigna, paciente, cheia de miseric\u00f3rdia e bondade com os filhos dela separados \u00bb.[2] E, no mesmo horizonte, havia de colocar-se o Beato Paulo VI, que assim falou na conclus\u00e3o do Conc\u00edlio: \u00ab Desejamos notar que a religi\u00e3o do nosso Conc\u00edlio foi, antes de mais, a caridade. (&#8230;) Aquela antiga hist\u00f3ria do bom samaritano foi exemplo e norma segundo os quais se orientou o nosso Conc\u00edlio. (\u2026) Uma corrente de interesse e admira\u00e7\u00e3o saiu do Conc\u00edlio sobre o mundo actual. Rejeitaram-se os erros, como a pr\u00f3pria caridade e verdade exigiam, mas os homens, salvaguardado sempre o preceito do respeito e do amor, foram apenas advertidos do erro. Assim se fez, para que, em vez de diagn\u00f3sticos desalentadores, se dessem rem\u00e9dios cheios de esperan\u00e7a; para que o Conc\u00edlio falasse ao mundo actual n\u00e3o com press\u00e1gios funestos mas com mensagens de esperan\u00e7a e palavras de confian\u00e7a. N\u00e3o s\u00f3 respeitou mas tamb\u00e9m honrou os valores humanos, apoiou todas as suas iniciativas e, depois de os purificar, aprovou todos os seus esfor\u00e7os. (\u2026) Uma outra coisa, julgamos digna de considera\u00e7\u00e3o. Toda esta riqueza doutrinal orienta-se apenas a isto: servir o homem, em todas as circunst\u00e2ncias da sua vida, em todas as suas fraquezas, em todas as suas necessidades \u00bb.[3]<\/p>\n<p>Com estes sentimentos de gratid\u00e3o pelo que a Igreja recebeu e de responsabilidade quanto \u00e0 tarefa que nos espera, atravessaremos a Porta Santa com plena confian\u00e7a de ser acompanhados pela for\u00e7a do Senhor Ressuscitado, que continua a sustentar a nossa peregrina\u00e7\u00e3o. O Esp\u00edrito Santo, que conduz os passos dos crentes de forma a cooperarem para a obra de salva\u00e7\u00e3o realizada por Cristo, seja guia e apoio do povo de Deus a fim de o ajudar a contemplar o rosto da miseric\u00f3rdia. [4]<\/p>\n<p>5. O Ano Jubilar terminar\u00e1 na solenidade lit\u00fargica de Jesus Cristo, Rei do Universo, 20 de Novembro de 2016. Naquele dia, ao fechar a Porta Santa, animar-nos-\u00e3o, antes de tudo, sentimentos de gratid\u00e3o e agradecimento \u00e0 Sant\u00edssima Trindade por nos ter concedido este tempo extraordin\u00e1rio de gra\u00e7a. Confiaremos a vida da Igreja, a humanidade inteira e o universo imenso \u00e0 Realeza de Cristo, para que derrame a sua miseric\u00f3rdia, como o orvalho da manh\u00e3, para a constru\u00e7\u00e3o duma hist\u00f3ria fecunda com o compromisso de todos no futuro pr\u00f3ximo. Quanto desejo que os anos futuros sejam permeados de miseric\u00f3rdia para ir ao encontro de todas as pessoas levando-lhes a bondade e a ternura de Deus! A todos, crentes e afastados, possa chegar o b\u00e1lsamo da miseric\u00f3rdia como sinal do Reino de Deus j\u00e1 presente no meio de n\u00f3s.<\/p>\n<p>6. \u00ab \u00c9 pr\u00f3prio de Deus usar de miseric\u00f3rdia e, nisto, se manifesta de modo especial a sua omnipot\u00eancia \u00bb.[5] Estas palavras de S\u00e3o Tom\u00e1s de Aquino mostram como a miseric\u00f3rdia divina n\u00e3o seja, de modo algum, um sinal de fraqueza, mas antes a qualidade da omnipot\u00eancia de Deus. \u00c9 por isso que a liturgia, numa das suas colectas mais antigas, convida a rezar assim: \u00ab Senhor, que dais a maior prova do vosso poder quando perdoais e Vos compadeceis\u2026\u00bb[6] Deus permanecer\u00e1 para sempre na hist\u00f3ria da humanidade como Aquele que est\u00e1 presente, Aquele que \u00e9 pr\u00f3ximo, providente, santo e misericordioso.<\/p>\n<p>\u00ab Paciente e misericordioso \u00bb \u00e9 o bin\u00f3mio que aparece, frequentemente, no Antigo Testamento para descrever a natureza de Deus. O facto de Ele ser misericordioso encontra um reflexo concreto em muitas ac\u00e7\u00f5es da hist\u00f3ria da salva\u00e7\u00e3o, onde a sua bondade prevalece sobre o castigo e a destrui\u00e7\u00e3o. Os Salmos, em particular, fazem sobressair esta grandeza do agir divino: \u00ab \u00c9 Ele quem perdoa as tuas culpas e cura todas as tuas enfermidades. \u00c9 Ele quem resgata a tua vida do t\u00famulo e te enche de gra\u00e7a e ternura \u00bb (103\/102, 3-4). E outro Salmo atesta, de forma ainda mais expl\u00edcita, os sinais concretos da miseric\u00f3rdia: \u00ab O Senhor liberta os prisioneiros. O Senhor d\u00e1 vista aos cegos, o Senhor levanta os abatidos, o Senhor ama o homem justo. O Senhor protege os que vivem em terra estranha e ampara o \u00f3rf\u00e3o e a vi\u00fava, mas entrava o caminho aos pecadores \u00bb (146\/145, 7-9). E, para terminar, aqui est\u00e3o outras express\u00f5es do Salmista: \u00ab [O Senhor] cura os de cora\u00e7\u00e3o atribulado e trata-lhes as feridas. (&#8230;) O Senhor ampara os humildes, mas abate os malfeitores at\u00e9 ao ch\u00e3o \u00bb (147\/146, 3.6). Em suma, a miseric\u00f3rdia de Deus n\u00e3o \u00e9 uma ideia abstracta mas uma realidade concreta, pela qual Ele revela o seu amor como o de um pai e de uma m\u00e3e que se comovem pelo pr\u00f3prio filho at\u00e9 ao mais \u00edntimo das suas v\u00edsceras. \u00c9 verdadeiramente caso para dizer que se trata de um amor \u00ab visceral \u00bb. Prov\u00e9m do \u00edntimo como um sentimento profundo, natural, feito de ternura e compaix\u00e3o, de indulg\u00eancia e perd\u00e3o.<\/p>\n<p>7. \u00ab Eterna \u00e9 a sua miseric\u00f3rdia \u00bb: tal \u00e9 o refr\u00e3o que aparece em cada vers\u00edculo do Salmo 136, ao mesmo tempo que se narra a hist\u00f3ria da revela\u00e7\u00e3o de Deus. Em virtude da miseric\u00f3rdia, todos os acontecimentos do Antigo Testamento aparecem cheios dum valor salv\u00edfico profundo. A miseric\u00f3rdia torna a hist\u00f3ria de Deus com Israel uma hist\u00f3ria da salva\u00e7\u00e3o. O facto de repetir continuamente \u00ab eterna \u00e9 a sua miseric\u00f3rdia \u00bb, como faz o Salmo, parece querer romper o c\u00edrculo do espa\u00e7o e do tempo para inserir tudo no mist\u00e9rio eterno do amor. \u00c9 como se se quisesse dizer que o homem, n\u00e3o s\u00f3 na hist\u00f3ria mas tamb\u00e9m pela eternidade, estar\u00e1 sempre sob o olhar misericordioso do Pai. N\u00e3o \u00e9 por acaso que o povo de Israel tenha querido inserir este Salmo \u2013 o \u00ab grande hallel \u00bb, como lhe chamam \u2013 nas festas lit\u00fargicas mais importantes.<\/p>\n<p>Antes da Paix\u00e3o, Jesus rezou ao Pai com este Salmo da miseric\u00f3rdia. Assim o atesta o evangelista Mateus quando afirma que \u00ab depois de cantarem os salmos \u00bb (26, 30), Jesus e os disc\u00edpulos sa\u00edram para o Monte das Oliveiras. Enquanto institu\u00eda a Eucaristia, como memorial perp\u00e9tuo d\u2019Ele e da sua P\u00e1scoa, Jesus colocava simbolicamente este acto supremo da Revela\u00e7\u00e3o sob a luz da miseric\u00f3rdia. No mesmo horizonte da miseric\u00f3rdia, viveu Ele a sua paix\u00e3o e morte, ciente do grande mist\u00e9rio de amor que se realizaria na cruz. O facto de saber que o pr\u00f3prio Jesus rezou com este Salmo torna-o, para n\u00f3s crist\u00e3os, ainda mais importante e compromete-nos a assumir o refr\u00e3o na nossa ora\u00e7\u00e3o de louvor di\u00e1ria: \u00ab eterna \u00e9 a sua miseric\u00f3rdia \u00bb.<\/p>\n<p>8. Com o olhar fixo em Jesus e no seu rosto misericordioso, podemos individuar o amor da Sant\u00edssima Trindade. A miss\u00e3o, que Jesus recebeu do Pai, foi a de revelar o mist\u00e9rio do amor divino na sua plenitude. \u00ab Deus \u00e9 amor \u00bb (1 Jo 4, 8.16): afirma-o, pela primeira e \u00fanica vez em toda a Escritura, o evangelista Jo\u00e3o. Agora este amor tornou-se vis\u00edvel e palp\u00e1vel em toda a vida de Jesus. A sua pessoa n\u00e3o \u00e9 sen\u00e3o amor, um amor que se d\u00e1 gratuitamente. O seu relacionamento com as pessoas, que se abeiram d\u2019Ele, manifesta algo de \u00fanico e irrepet\u00edvel. Os sinais que realiza, sobretudo para com os pecadores, as pessoas pobres, marginalizadas, doentes e atribuladas, decorrem sob o signo da miseric\u00f3rdia. Tudo n\u2019Ele fala de miseric\u00f3rdia. N\u2019Ele, nada h\u00e1 que seja desprovido de compaix\u00e3o.<\/p>\n<p>Vendo que a multid\u00e3o de pessoas que O seguia estava cansada e abatida, Jesus sentiu, no fundo do cora\u00e7\u00e3o, uma intensa compaix\u00e3o por elas (cf. Mt 9, 36). Em virtude deste amor compassivo, curou os doentes que Lhe foram apresentados (cf. Mt 14, 14) e, com poucos p\u00e3es e peixes, saciou grandes multid\u00f5es (cf. Mt 15, 37). Em todas as circunst\u00e2ncias, o que movia Jesus era apenas a miseric\u00f3rdia, com a qual lia no cora\u00e7\u00e3o dos seus interlocutores e dava resposta \u00e0s necessidades mais aut\u00eanticas que tinham. Quando encontrou a vi\u00fava de Naim que levava o seu \u00fanico filho a sepultar, sentiu grande compaix\u00e3o pela dor imensa daquela m\u00e3e em l\u00e1grimas e entregou-lhe de novo o filho, ressuscitando-o da morte (cf. Lc 7, 15). Depois de ter libertado o endemoninhado de Gerasa, confia-lhe esta miss\u00e3o: \u00ab Conta tudo o que o Senhor fez por ti e como teve miseric\u00f3rdia de ti \u00bb (Mc 5, 19). A pr\u00f3pria voca\u00e7\u00e3o de Mateus se insere no horizonte da miseric\u00f3rdia. Ao passar diante do posto de cobran\u00e7a dos impostos, os olhos de Jesus fixaram-se nos de Mateus. Era um olhar cheio de miseric\u00f3rdia que perdoava os pecados daquele homem e, vencendo as resist\u00eancias dos outros disc\u00edpulos, escolheu-o, a ele pecador e publicano, para se tornar um dos Doze. S\u00e3o Beda o Vener\u00e1vel, ao comentar esta cena do Evangelho, escreveu que Jesus olhou Mateus com amor misericordioso e escolheu-o: miserando atque eligendo.[7] Sempre me causou impress\u00e3o esta frase, a ponto de a tomar para meu lema.<\/p>\n<p>9. Nas par\u00e1bolas dedicadas \u00e0 miseric\u00f3rdia, Jesus revela a natureza de Deus como a dum Pai que nunca se d\u00e1 por vencido enquanto n\u00e3o tiver dissolvido o pecado e superada a recusa com a compaix\u00e3o e a miseric\u00f3rdia. Conhecemos estas par\u00e1bolas, tr\u00eas em especial: as da ovelha extraviada e da moeda perdida, e a do pai com os seus dois filhos (cf. Lc 15, 1-32). Nestas par\u00e1bolas, Deus \u00e9 apresentado sempre cheio de alegria, sobretudo quando perdoa. Nelas, encontramos o n\u00facleo do Evangelho e da nossa f\u00e9, porque a miseric\u00f3rdia \u00e9 apresentada como a for\u00e7a que tudo vence, enche o cora\u00e7\u00e3o de amor e consola com o perd\u00e3o.<\/p>\n<p>Temos depois outra par\u00e1bola da qual tiramos uma li\u00e7\u00e3o para o nosso estilo de vida crist\u00e3. Interpelado pela pergunta de Pedro sobre quantas vezes fosse necess\u00e1rio perdoar, Jesus respondeu: \u00ab N\u00e3o te digo at\u00e9 sete vezes, mas at\u00e9 setenta vezes sete \u00bb (Mt 18, 22) e contou a par\u00e1bola do \u00ab servo sem compaix\u00e3o \u00bb. Este, convidado pelo senhor a devolver uma grande quantia, suplica-lhe de joelhos e o senhor perdoa-lhe a d\u00edvida. Mas, imediatamente depois, encontra outro servo como ele, que lhe devia poucos cent\u00e9simos; este suplica-lhe de joelhos que tenha piedade, mas aquele recusa-se e f\u00e1-lo meter na pris\u00e3o. Ent\u00e3o o senhor, tendo sabido do facto, zanga-se muito e, convocando aquele servo, diz-lhe: \u00ab N\u00e3o devias tamb\u00e9m ter piedade do teu companheiro, como eu tive de ti? \u00bb (Mt 18, 33). E Jesus concluiu: \u00ab Assim proceder\u00e1 convosco meu Pai celeste, se cada um de v\u00f3s n\u00e3o perdoar ao seu irm\u00e3o do \u00edntimo do cora\u00e7\u00e3o \u00bb (Mt 18, 35).<\/p>\n<p>A par\u00e1bola cont\u00e9m um ensinamento profundo para cada um de n\u00f3s. Jesus declara que a miseric\u00f3rdia n\u00e3o \u00e9 apenas o agir do Pai, mas torna-se o crit\u00e9rio para individuar quem s\u00e3o os seus verdadeiros filhos. Em suma, somos chamados a viver de miseric\u00f3rdia, porque, primeiro, foi usada miseric\u00f3rdia para connosco. O perd\u00e3o das ofensas torna-se a express\u00e3o mais evidente do amor misericordioso e, para n\u00f3s crist\u00e3os, \u00e9 um imperativo de que n\u00e3o podemos prescindir. Tantas vezes, como parece dif\u00edcil perdoar! E, no entanto, o perd\u00e3o \u00e9 o instrumento colocado nas nossas fr\u00e1geis m\u00e3os para alcan\u00e7ar a serenidade do cora\u00e7\u00e3o. Deixar de lado o ressentimento, a raiva, a viol\u00eancia e a vingan\u00e7a s\u00e3o condi\u00e7\u00f5es necess\u00e1rias para se viver feliz. Acolhamos, pois, a exorta\u00e7\u00e3o do Ap\u00f3stolo: \u00ab Que o sol n\u00e3o se ponha sobre o vosso ressentimento \u00bb (Ef 4, 26). E sobretudo escutemos a palavra de Jesus que colocou a miseric\u00f3rdia como um ideal de vida e como crit\u00e9rio de credibilidade para a nossa f\u00e9: \u00ab Felizes os misericordiosos, porque alcan\u00e7ar\u00e3o miseric\u00f3rdia \u00bb (Mt 5, 7) \u00e9 a bem-aventuran\u00e7a a que devemos inspirar-nos, com particular empenho, neste Ano Santo.<\/p>\n<p>Na Sagrada Escritura, como se v\u00ea, a miseric\u00f3rdia \u00e9 a palavra-chave para indicar o agir de Deus para connosco. Ele n\u00e3o Se limita a afirmar o seu amor, mas torna-o vis\u00edvel e palp\u00e1vel. Ali\u00e1s, o amor nunca poderia ser uma palavra abstracta. Por sua pr\u00f3pria natureza, \u00e9 vida concreta: inten\u00e7\u00f5es, atitudes, comportamentos que se verificam na actividade de todos os dias. A miseric\u00f3rdia de Deus \u00e9 a sua responsabilidade por n\u00f3s. Ele sente-Se respons\u00e1vel, isto \u00e9, deseja o nosso bem e quer ver-nos felizes, cheios de alegria e serenos. E, em sintonia com isto, se deve orientar o amor misericordioso dos crist\u00e3os. Tal como ama o Pai, assim tamb\u00e9m amam os filhos. Tal como Ele \u00e9 misericordioso, assim somos chamados tamb\u00e9m n\u00f3s a ser misericordiosos uns para com os outros.<\/p>\n<p>10. A arquitrave que suporta a vida da Igreja \u00e9 a miseric\u00f3rdia. Toda a sua ac\u00e7\u00e3o pastoral deveria estar envolvida pela ternura com que se dirige aos crentes; no an\u00fancio e testemunho que oferece ao mundo, nada pode ser desprovido de miseric\u00f3rdia. A credibilidade da Igreja passa pela estrada do amor misericordioso e compassivo. A Igreja \u00ab vive um desejo inexaur\u00edvel de oferecer miseric\u00f3rdia \u00bb.[8] Talvez, demasiado tempo, nos tenhamos esquecido de apontar e viver o caminho da miseric\u00f3rdia. Por um lado, a tenta\u00e7\u00e3o de pretender sempre e s\u00f3 a justi\u00e7a fez esquecer que esta \u00e9 apenas o primeiro passo, necess\u00e1rio e indispens\u00e1vel, mas a Igreja precisa de ir mais al\u00e9m a fim de alcan\u00e7ar uma meta mais alta e significativa. Por outro lado, \u00e9 triste ver como a experi\u00eancia do perd\u00e3o na nossa cultura vai rareando cada vez mais. Em certos momentos, at\u00e9 a pr\u00f3pria palavra parece desaparecer. Todavia, sem o testemunho do perd\u00e3o, resta apenas uma vida infecunda e est\u00e9ril, como se se vivesse num deserto desolador. Chegou de novo, para a Igreja, o tempo de assumir o an\u00fancio jubiloso do perd\u00e3o. \u00c9 o tempo de regresso ao essencial, para cuidar das fraquezas e dificuldades dos nossos irm\u00e3os. O perd\u00e3o \u00e9 uma for\u00e7a que ressuscita para nova vida e infunde a coragem para olhar o futuro com esperan\u00e7a.<\/p>\n<p>11. N\u00e3o podemos esquecer o grande ensinamento que ofereceu S\u00e3o Jo\u00e3o Paulo II com a sua segunda enc\u00edclica, a Dives in misericordia, que ent\u00e3o surgiu inesperada suscitando a surpresa de muitos pelo tema que era abordado. Desejo recordar especialmente dois trechos. No primeiro deles, o Santo Papa assinalava o esquecimento em que ca\u00edra o tema da miseric\u00f3rdia na cultura dos nossos dias: \u00ab A mentalidade contempor\u00e2nea, talvez mais que a do homem do passado, parece opor-se ao Deus de miseric\u00f3rdia e, al\u00e9m disso, tende a separar da vida e a tirar do cora\u00e7\u00e3o humano a pr\u00f3pria ideia da miseric\u00f3rdia. A palavra e o conceito de miseric\u00f3rdia parecem causar mal-estar ao homem, o qual, gra\u00e7as ao enorme desenvolvimento da ci\u00eancia e da t\u00e9cnica nunca antes verificado na hist\u00f3ria, se tornou senhor da terra, a subjugou e a dominou (cf. Gn 1, 28). Um tal dom\u00ednio sobre a terra, entendido por vezes unilateral e superficialmente, parece n\u00e3o deixar espa\u00e7o para a miseric\u00f3rdia. (&#8230;) Por esse motivo, na hodierna situa\u00e7\u00e3o da Igreja e do mundo, muitos homens e muitos ambientes guiados por um vivo sentido de f\u00e9, voltam-se quase espontaneamente, por assim dizer, para a miseric\u00f3rdia de Deus \u00bb.[9]<\/p>\n<p>Al\u00e9m disso, S\u00e3o Jo\u00e3o Paulo II motivava assim a urg\u00eancia de anunciar e testemunhar a miseric\u00f3rdia no mundo contempor\u00e2neo: \u00ab Ela \u00e9 ditada pelo amor para com o homem, para com tudo o que \u00e9 humano e que, segundo a intui\u00e7\u00e3o de grande parte dos contempor\u00e2neos, est\u00e1 amea\u00e7ado por um perigo imenso. O pr\u00f3prio mist\u00e9rio de Cristo (&#8230;) obriga-me igualmente a proclamar a miseric\u00f3rdia como amor misericordioso de Deus, revelada tamb\u00e9m no mist\u00e9rio de Cristo. Ele me impele ainda a apelar para esta miseric\u00f3rdia e a implor\u00e1-la nesta fase dif\u00edcil e cr\u00edtica da hist\u00f3ria da Igreja e do mundo \u00bb.[10] Tal ensinamento \u00e9 hoje mais actual do que nunca e merece ser retomado neste Ano Santo. Acolhamos novamente as suas palavras: \u00ab A Igreja vive uma vida aut\u00eantica quando professa e proclama a miseric\u00f3rdia, o mais admir\u00e1vel atributo do Criador e do Redentor, e quando aproxima os homens das fontes da miseric\u00f3rdia do Salvador, das quais ela \u00e9 deposit\u00e1ria e dispensadora \u00bb.[11]<\/p>\n<p>12. A Igreja tem a miss\u00e3o de anunciar a miseric\u00f3rdia de Deus, cora\u00e7\u00e3o pulsante do Evangelho, que por meio dela deve chegar ao cora\u00e7\u00e3o e \u00e0 mente de cada pessoa. A Esposa de Cristo assume o comportamento do Filho de Deus, que vai ao encontro de todos sem excluir ningu\u00e9m. No nosso tempo, em que a Igreja est\u00e1 comprometida na nova evangeliza\u00e7\u00e3o, o tema da miseric\u00f3rdia exige ser reproposto com novo entusiasmo e uma ac\u00e7\u00e3o pastoral renovada. \u00c9 determinante para a Igreja e para a credibilidade do seu an\u00fancio que viva e testemunhe, ela mesma, a miseric\u00f3rdia. A sua linguagem e os seus gestos, para penetrarem no cora\u00e7\u00e3o das pessoas e desafi\u00e1-las a encontrar novamente a estrada para regressar ao Pai, devem irradiar miseric\u00f3rdia.<\/p>\n<p>A primeira verdade da Igreja \u00e9 o amor de Cristo. E, deste amor que vai at\u00e9 ao perd\u00e3o e ao dom de si mesmo, a Igreja faz-se serva e mediadora junto dos homens. Por isso, onde a Igreja estiver presente, a\u00ed deve ser evidente a miseric\u00f3rdia do Pai. Nas nossas par\u00f3quias, nas comunidades, nas associa\u00e7\u00f5es e nos movimentos \u2013 em suma, onde houver crist\u00e3os \u2013, qualquer pessoa deve poder encontrar um o\u00e1sis de miseric\u00f3rdia.<\/p>\n<p>13. Queremos viver este Ano Jubilar \u00e0 luz desta palavra do Senhor: Misericordiosos como o Pai. O evangelista refere o ensinamento de Jesus, que diz: \u00ab Sede misericordiosos, como o vosso Pai \u00e9 misericordioso \u00bb (Lc 6, 36). \u00c9 um programa de vida t\u00e3o empenhativo como rico de alegria e paz. O imperativo de Jesus \u00e9 dirigido a quantos ouvem a sua voz (cf. Lc 6, 27). Portanto, para ser capazes de miseric\u00f3rdia, devemos primeiro p\u00f4r-nos \u00e0 escuta da Palavra de Deus. Isso significa recuperar o valor do sil\u00eancio, para meditar a Palavra que nos \u00e9 dirigida. Deste modo, \u00e9 poss\u00edvel contemplar a miseric\u00f3rdia de Deus e assumi-la como pr\u00f3prio estilo de vida.<\/p>\n<p>14. A peregrina\u00e7\u00e3o \u00e9 um sinal peculiar no Ano Santo, enquanto \u00edcone do caminho que cada pessoa realiza na sua exist\u00eancia. A vida \u00e9 uma peregrina\u00e7\u00e3o e o ser humano \u00e9 viator, um peregrino que percorre uma estrada at\u00e9 \u00e0 meta anelada. Tamb\u00e9m para chegar \u00e0 Porta Santa, tanto em Roma como em cada um dos outros lugares, cada pessoa dever\u00e1 fazer, segundo as pr\u00f3prias for\u00e7as, uma peregrina\u00e7\u00e3o. Esta ser\u00e1 sinal de que a pr\u00f3pria miseric\u00f3rdia \u00e9 uma meta a alcan\u00e7ar que exige empenho e sacrif\u00edcio. Por isso, a peregrina\u00e7\u00e3o h\u00e1-de servir de est\u00edmulo \u00e0 convers\u00e3o: ao atravessar a Porta Santa, deixar-nos-emos abra\u00e7ar pela miseric\u00f3rdia de Deus e comprometer-nos-emos a ser misericordiosos com os outros como o Pai o \u00e9 connosco.<\/p>\n<p>O Senhor Jesus indica as etapas da peregrina\u00e7\u00e3o atrav\u00e9s das quais \u00e9 poss\u00edvel atingir esta meta: \u00ab N\u00e3o julgueis e n\u00e3o sereis julgados; n\u00e3o condeneis e n\u00e3o sereis condenados; perdoai e sereis perdoados. Dai e ser-vos-\u00e1 dado: uma boa medida, cheia, recalcada, transbordante ser\u00e1 lan\u00e7ada no vosso rega\u00e7o. A medida que usardes com os outros ser\u00e1 usada convosco \u00bb (Lc 6, 37-38). Ele come\u00e7a por dizer para n\u00e3o julgar nem condenar. Se uma pessoa n\u00e3o quer incorrer no ju\u00edzo de Deus, n\u00e3o pode tornar-se juiz do seu irm\u00e3o. \u00c9 que os homens, no seu ju\u00edzo, limitam-se a ler a superf\u00edcie, enquanto o Pai v\u00ea o \u00edntimo. Que grande mal fazem as palavras, quando s\u00e3o movidas por sentimentos de ci\u00fame e inveja! Falar mal do irm\u00e3o, na sua aus\u00eancia, equivale a deix\u00e1-lo mal visto, a comprometer a sua reputa\u00e7\u00e3o e deix\u00e1-lo \u00e0 merc\u00ea das murmura\u00e7\u00f5es. N\u00e3o julgar nem condenar significa, positivamente, saber individuar o que h\u00e1 de bom em cada pessoa e n\u00e3o permitir que venha a sofrer pelo nosso ju\u00edzo parcial e a nossa pretens\u00e3o de saber tudo. Mas isto ainda n\u00e3o \u00e9 suficiente para se exprimir a miseric\u00f3rdia. Jesus pede tamb\u00e9m para perdoar e dar. Ser instrumentos do perd\u00e3o, porque primeiro o obtivemos n\u00f3s de Deus. Ser generosos para com todos, sabendo que tamb\u00e9m Deus derrama a sua benevol\u00eancia sobre n\u00f3s com grande magnanimidade.<\/p>\n<p>Misericordiosos como o Pai \u00e9, pois, o \u00ab lema \u00bb do Ano Santo. Na miseric\u00f3rdia, temos a prova de como Deus ama. Ele d\u00e1 tudo de Si mesmo, para sempre, gratuitamente e sem pedir nada em troca. Vem em nosso aux\u00edlio, quando O invocamos. \u00c9 significativo que a ora\u00e7\u00e3o di\u00e1ria da Igreja comece com estas palavras: \u00ab Deus, vinde em nosso aux\u00edlio! Senhor, socorrei-nos e salvai-nos \u00bb (Sal 70\/69, 2). O aux\u00edlio que invocamos \u00e9 j\u00e1 o primeiro passo da miseric\u00f3rdia de Deus para connosco. Ele vem para nos salvar da condi\u00e7\u00e3o de fraqueza em que vivemos. E a ajuda d\u2019Ele consiste em fazer-nos sentir a sua presen\u00e7a e proximidade. Dia ap\u00f3s dia, tocados pela sua compaix\u00e3o, podemos tamb\u00e9m n\u00f3s tornar-nos compassivos para com todos.<\/p>\n<p>15. Neste Ano Santo, poderemos fazer a experi\u00eancia de abrir o cora\u00e7\u00e3o \u00e0queles que vivem nas mais variadas periferias existenciais, que muitas vezes o mundo contempor\u00e2neo cria de forma dram\u00e1tica. Quantas situa\u00e7\u00f5es de precariedade e sofrimento presentes no mundo actual! Quantas feridas gravadas na carne de muitos que j\u00e1 n\u00e3o t\u00eam voz, porque o seu grito foi esmorecendo e se apagou por causa da indiferen\u00e7a dos povos ricos. Neste Jubileu, a Igreja sentir-se-\u00e1 chamada ainda mais a cuidar destas feridas, alivi\u00e1-las com o \u00f3leo da consola\u00e7\u00e3o, enfaix\u00e1-las com a miseric\u00f3rdia e trat\u00e1-las com a solidariedade e a aten\u00e7\u00e3o devidas. N\u00e3o nos deixemos cair na indiferen\u00e7a que humilha, na habitua\u00e7\u00e3o que anestesia o esp\u00edrito e impede de descobrir a novidade, no cinismo que destr\u00f3i. Abramos os nossos olhos para ver as mis\u00e9rias do mundo, as feridas de tantos irm\u00e3os e irm\u00e3s privados da pr\u00f3pria dignidade e sintamo-nos desafiados a escutar o seu grito de ajuda. As nossas m\u00e3os apertem as suas m\u00e3os e estreitemo-los a n\u00f3s para que sintam o calor da nossa presen\u00e7a, da amizade e da fraternidade. Que o seu grito se torne o nosso e, juntos, possamos romper a barreira de indiferen\u00e7a que frequentemente reina soberana para esconder a hipocrisia e o ego\u00edsmo.<\/p>\n<p>N\u00e3o podemos escapar \u00e0s palavras do Senhor, com base nas quais seremos julgados: se demos de comer a quem tem fome e de beber a quem tem sede; se acolhemos o estrangeiro e vestimos quem est\u00e1 nu; se reservamos tempo para visitar quem est\u00e1 doente e preso (cf. Mt 25, 31-45). De igual modo ser-nos-\u00e1 perguntado se ajudamos a tirar da d\u00favida, que faz cair no medo e muitas vezes \u00e9 fonte de solid\u00e3o; se fomos capazes de vencer a ignor\u00e2ncia em que vivem milh\u00f5es de pessoas, sobretudo as crian\u00e7as desprovidas da ajuda necess\u00e1ria para se resgatarem da pobreza; se nos detivemos junto de quem est\u00e1 sozinho e aflito; se perdoamos a quem nos ofende e rejeitamos todas as formas de ressentimento e \u00f3dio que levam \u00e0 viol\u00eancia; se tivemos paci\u00eancia, a exemplo de Deus que \u00e9 t\u00e3o paciente connosco; enfim se, na ora\u00e7\u00e3o, confiamos ao Senhor os nossos irm\u00e3os e irm\u00e3s. Em cada um destes \u00ab mais pequeninos \u00bb, est\u00e1 presente o pr\u00f3prio Cristo. A sua carne torna-se de novo vis\u00edvel como corpo martirizado, chagado, flagelado, desnutrido, em fuga &#8230; a fim de ser reconhecido, tocado e assistido cuidadosamente por n\u00f3s. N\u00e3o esque\u00e7amos as palavras de S\u00e3o Jo\u00e3o da Cruz: \u00ab Ao entardecer desta vida, examinar-nos-\u00e3o no amor \u00bb.[12]<\/p>\n<p>16. No Evangelho de Lucas, encontramos outro aspecto importante para viver, com f\u00e9, o Jubileu. Conta o evangelista que Jesus voltou a Nazar\u00e9 e ao s\u00e1bado, como era seu costume, entrou na sinagoga. Chamaram-No para ler a Escritura e coment\u00e1-la. A passagem era aquela do profeta Isa\u00edas onde est\u00e1 escrito: \u00ab O esp\u00edrito do Senhor Deus est\u00e1 sobre mim, porque o Senhor me ungiu: enviou-me para levar a boa-nova aos que sofrem, para curar os desesperados, para anunciar a liberta\u00e7\u00e3o aos exilados e a liberdade aos prisioneiros; para proclamar um ano de miseric\u00f3rdia do Senhor \u00bb (61,1-2). \u00ab Um ano de miseric\u00f3rdia \u00bb: isto \u00e9 o que o Senhor anuncia e que n\u00f3s desejamos viver. Este Ano Santo traz consigo a riqueza da miss\u00e3o de Jesus que ressoa nas palavras do Profeta: levar uma palavra e um gesto de consola\u00e7\u00e3o aos pobres, anunciar a liberta\u00e7\u00e3o a quantos s\u00e3o prisioneiros das novas escravid\u00f5es da sociedade contempor\u00e2nea, devolver a vista a quem j\u00e1 n\u00e3o consegue ver porque vive curvado sobre si mesmo, e restituir dignidade \u00e0queles que dela se viram privados. A prega\u00e7\u00e3o de Jesus torna-se novamente vis\u00edvel nas respostas de f\u00e9 que o testemunho dos crist\u00e3os \u00e9 chamado a dar. Acompanhem-nos as palavras do Ap\u00f3stolo: \u00ab Quem pratica a miseric\u00f3rdia, fa\u00e7a-o com alegria \u00bb (Rm 12, 8).<\/p>\n<p>17. A Quaresma deste Ano Jubilar seja vivida mais intensamente como tempo forte para celebrar e experimentar a miseric\u00f3rdia de Deus. Quantas p\u00e1ginas da Sagrada Escritura se podem meditar, nas semanas da Quaresma, para redescobrir o rosto misericordioso do Pai! Com as palavras do profeta Miqueias, podemos tamb\u00e9m n\u00f3s repetir: V\u00f3s, Senhor, sois um Deus que tira a iniquidade e perdoa o pecado, que n\u00e3o Se obstina na ira mas Se compraz em usar de miseric\u00f3rdia. V\u00f3s, Senhor, voltareis para n\u00f3s e tereis compaix\u00e3o do vosso povo. Apagareis as nossas iniquidades e lan\u00e7areis ao fundo do mar todos os nossos pecados (cf. 7, 18-19).<\/p>\n<p>As p\u00e1ginas do profeta Isa\u00edas poder\u00e3o ser meditadas, de forma mais concreta, neste tempo de ora\u00e7\u00e3o, jejum e caridade. \u00ab O jejum que me agrada \u00e9 este: libertar os que foram presos injustamente, livr\u00e1-los do jugo que levam \u00e0s costas, p\u00f4r em liberdade os oprimidos, quebrar toda a esp\u00e9cie de opress\u00e3o, repartir o teu p\u00e3o com os esfomeados, dar abrigo aos infelizes sem casa, atender e vestir os nus e n\u00e3o desprezar o teu irm\u00e3o. Ent\u00e3o, a tua luz surgir\u00e1 como a aurora, e as tuas feridas n\u00e3o tardar\u00e3o a cicatrizar-se. A tua justi\u00e7a ir\u00e1 \u00e0 tua frente, e a gl\u00f3ria do Senhor atr\u00e1s de ti. Ent\u00e3o invocar\u00e1s o Senhor e Ele te atender\u00e1, pedir\u00e1s aux\u00edlio e te dir\u00e1: \u201cAqui estou!\u201d Se retirares da tua vida toda a opress\u00e3o, o gesto amea\u00e7ador e o falar ofensivo, se repartires o teu p\u00e3o com o faminto e matares a fome ao pobre, a tua luz brilhar\u00e1 na escurid\u00e3o, e as tuas trevas tornar-se-\u00e3o como o meio-dia. O Senhor te guiar\u00e1 constantemente, saciar\u00e1 a tua alma no \u00e1rido deserto, dar\u00e1 vigor aos teus ossos. Ser\u00e1s como um jardim bem regado, como uma fonte de \u00e1guas inesgot\u00e1veis \u00bb (58, 6-11).<\/p>\n<p>A iniciativa \u00ab 24 horas para o Senhor \u00bb, que ser\u00e1 celebrada na sexta-feira e no s\u00e1bado anteriores ao IV Domingo da Quaresma, deve ser incrementada nas dioceses. H\u00e1 muitas pessoas \u2013 e, em grande n\u00famero, jovens \u2013 que est\u00e3o a aproximar-se do sacramento da Reconcilia\u00e7\u00e3o e que frequentemente, nesta experi\u00eancia, reencontram o caminho para voltar ao Senhor, viver um momento de intensa ora\u00e7\u00e3o e redescobrir o sentido da sua vida. Com convic\u00e7\u00e3o, ponhamos novamente no centro o sacramento da Reconcilia\u00e7\u00e3o, porque permite tocar sensivelmente a grandeza da miseric\u00f3rdia. Ser\u00e1, para cada penitente, fonte de verdadeira paz interior.<\/p>\n<p>N\u00e3o me cansarei jamais de insistir com os confessores para que sejam um verdadeiro sinal da miseric\u00f3rdia do Pai. Ser confessor n\u00e3o se improvisa. Tornamo-nos tal quando come\u00e7amos, n\u00f3s mesmos, por nos fazer penitentes em busca do perd\u00e3o. Nunca esque\u00e7amos que ser confessor significa participar da mesma miss\u00e3o de Jesus e ser sinal concreto da continuidade de um amor divino que perdoa e salva. Cada um de n\u00f3s recebeu o dom do Esp\u00edrito Santo para o perd\u00e3o dos pecados; disto somos respons\u00e1veis. Nenhum de n\u00f3s \u00e9 senhor do sacramento, mas apenas servo fiel do perd\u00e3o de Deus. Cada confessor dever\u00e1 acolher os fi\u00e9is como o pai na par\u00e1bola do filho pr\u00f3digo: um pai que corre ao encontro do filho, apesar de lhe ter dissipado os bens. Os confessores s\u00e3o chamados a estreitar a si aquele filho arrependido que volta a casa e a exprimir a alegria por o ter reencontrado. N\u00e3o nos cansemos de ir tamb\u00e9m ao encontro do outro filho, que ficou fora incapaz de se alegrar, para lhe explicar que o seu ju\u00edzo severo \u00e9 injusto e sem sentido diante da miseric\u00f3rdia do Pai que n\u00e3o tem limites. N\u00e3o h\u00e3o-de fazer perguntas impertinentes, mas como o pai da par\u00e1bola interromper\u00e3o o discurso preparado pelo filho pr\u00f3digo, porque saber\u00e3o individuar, no cora\u00e7\u00e3o de cada penitente, a invoca\u00e7\u00e3o de ajuda e o pedido de perd\u00e3o. Em suma, os confessores s\u00e3o chamados a ser sempre e por todo o lado, em cada situa\u00e7\u00e3o e apesar de tudo, o sinal do primado da miseric\u00f3rdia.<\/p>\n<p>18. Na Quaresma deste Ano Santo, \u00e9 minha inten\u00e7\u00e3o enviar os Mission\u00e1rios da Miseric\u00f3rdia. Ser\u00e3o um sinal da solicitude materna da Igreja pelo povo de Deus, para que entre em profundidade na riqueza deste mist\u00e9rio t\u00e3o fundamental para a f\u00e9. Ser\u00e3o sacerdotes a quem darei autoridade de perdoar mesmo os pecados reservados \u00e0 S\u00e9 Apost\u00f3lica, para que se torne evidente a amplitude do seu mandato. Ser\u00e3o sobretudo sinal vivo de como o Pai acolhe a todos aqueles que andam \u00e0 procura do seu perd\u00e3o. Ser\u00e3o mission\u00e1rios da miseric\u00f3rdia, porque se far\u00e3o, junto de todos, art\u00edfices dum encontro cheio de humanidade, fonte de liberta\u00e7\u00e3o, rico de responsabilidade para superar os obst\u00e1culos e retomar a vida nova do Baptismo. Na sua miss\u00e3o, deixar-se-\u00e3o guiar pelas palavras do Ap\u00f3stolo: \u00ab Deus encerrou a todos na desobedi\u00eancia, para com todos usar de miseric\u00f3rdia \u00bb (Rm 11, 32). Na verdade todos, sem excluir ningu\u00e9m, est\u00e3o chamados a acolher o apelo \u00e0 miseric\u00f3rdia. Os mission\u00e1rios vivam esta chamada, sabendo que podem fixar o olhar em Jesus, \u00ab Sumo Sacerdote misericordioso e fiel \u00bb (Hb 2, 17).<\/p>\n<p>Pe\u00e7o aos irm\u00e3os bispos que convidem e acolham estes Mission\u00e1rios, para que sejam, antes de tudo, pregadores convincentes da miseric\u00f3rdia. Organizem-se, nas dioceses, \u00ab miss\u00f5es populares \u00bb, de modo que estes Mission\u00e1rios sejam anunciadores da alegria do perd\u00e3o. Seja-lhes pedido que celebrem o sacramento da Reconcilia\u00e7\u00e3o para o povo, para que o tempo de gra\u00e7a, concedido neste Ano Jubilar, permita a tantos filhos afastados encontrar de novo o caminho para a casa paterna. Os pastores, especialmente durante o tempo forte da Quaresma, sejam sol\u00edcitos em convidar os fi\u00e9is a aproximar-se \u00ab do trono da gra\u00e7a, a fim de alcan\u00e7ar miseric\u00f3rdia e encontrar gra\u00e7a \u00bb (Hb 4, 16).<\/p>\n<p>19. Que a palavra do perd\u00e3o possa chegar a todos e a chamada para experimentar a miseric\u00f3rdia n\u00e3o deixe ningu\u00e9m indiferente. O meu convite \u00e0 convers\u00e3o dirige-se, com insist\u00eancia ainda maior, \u00e0quelas pessoas que est\u00e3o longe da gra\u00e7a de Deus pela sua conduta de vida. Penso de modo particular nos homens e mulheres que pertencem a um grupo criminoso, seja ele qual for. Para vosso bem, pe\u00e7o-vos que mudeis de vida. Pe\u00e7o-vo-lo em nome do Filho de Deus que, embora combatendo o pecado, nunca rejeitou qualquer pecador. N\u00e3o caiais na terr\u00edvel cilada de pensar que a vida depende do dinheiro e que, \u00e0 vista dele, tudo o mais se torna desprovido de valor e dignidade. N\u00e3o passa de uma ilus\u00e3o. N\u00e3o levamos o dinheiro connosco para o al\u00e9m. O dinheiro n\u00e3o nos d\u00e1 a verdadeira felicidade. A viol\u00eancia usada para acumular dinheiro que transuda sangue n\u00e3o nos torna poderosos nem imortais. Para todos, mais cedo ou mais tarde, vem o ju\u00edzo de Deus, do qual ningu\u00e9m pode escapar.<\/p>\n<p>O mesmo convite chegue tamb\u00e9m \u00e0s pessoas fautoras ou c\u00famplices de corrup\u00e7\u00e3o. Esta praga putrefacta da sociedade \u00e9 um pecado grave que brada aos c\u00e9us, porque mina as pr\u00f3prias bases da vida pessoal e social. A corrup\u00e7\u00e3o impede de olhar para o futuro com esperan\u00e7a, porque, com a sua prepot\u00eancia e avidez, destr\u00f3i os projectos dos fracos e esmaga os mais pobres. \u00c9 um mal que se esconde nos gestos di\u00e1rios para se estender depois aos esc\u00e2ndalos p\u00fablicos. A corrup\u00e7\u00e3o \u00e9 uma contum\u00e1cia no pecado, que pretende substituir Deus com a ilus\u00e3o do dinheiro como forma de poder. \u00c9 uma obra das trevas, alimentada pela suspeita e a intriga. Corruptio optimi pessima: dizia, com raz\u00e3o, S\u00e3o Greg\u00f3rio Magno, querendo indicar que ningu\u00e9m pode sentir-se imune desta tenta\u00e7\u00e3o. Para a erradicar da vida pessoal e social s\u00e3o necess\u00e1rias prud\u00eancia, vigil\u00e2ncia, lealdade, transpar\u00eancia, juntamente com a coragem da den\u00fancia. Se n\u00e3o se combate abertamente, mais cedo ou mais tarde torna-nos c\u00famplices e destr\u00f3i-nos a vida.<\/p>\n<p>Este \u00e9 o momento favor\u00e1vel para mudar de vida! Este \u00e9 o tempo de se deixar tocar o cora\u00e7\u00e3o. Diante do mal cometido, mesmo crimes graves, \u00e9 o momento de ouvir o pranto das pessoas inocentes espoliadas dos bens, da dignidade, dos afectos, da pr\u00f3pria vida. Permanecer no caminho do mal \u00e9 fonte apenas de ilus\u00e3o e tristeza. A verdadeira vida \u00e9 outra coisa. Deus n\u00e3o se cansa de estender a m\u00e3o. Est\u00e1 sempre disposto a ouvir, e eu tamb\u00e9m estou, tal como os meus irm\u00e3os bispos e sacerdotes. Basta acolher o convite \u00e0 convers\u00e3o e submeter-se \u00e0 justi\u00e7a, enquanto a Igreja oferece a miseric\u00f3rdia.<\/p>\n<p>20. Neste contexto, n\u00e3o ser\u00e1 in\u00fatil recordar a rela\u00e7\u00e3o entre justi\u00e7a e miseric\u00f3rdia. N\u00e3o s\u00e3o dois aspectos em contraste entre si, mas duas dimens\u00f5es duma \u00fanica realidade que se desenvolve gradualmente at\u00e9 atingir o seu cl\u00edmax na plenitude do amor. A justi\u00e7a \u00e9 um conceito fundamental para a sociedade civil, normalmente quando se faz referimento a uma ordem jur\u00eddica atrav\u00e9s da qual se aplica a lei. Por justi\u00e7a entende-se tamb\u00e9m que a cada um deve ser dado o que lhe \u00e9 devido. Na B\u00edblia, alude-se muitas vezes \u00e0 justi\u00e7a divina, e a Deus como juiz. Habitualmente \u00e9 entendida como a observ\u00e2ncia integral da Lei e o comportamento de todo o bom judeu conforme aos mandamentos dados por Deus. Esta vis\u00e3o, por\u00e9m, levou n\u00e3o poucas vezes a cair no legalismo, mistificando o sentido original e obscurecendo o valor profundo que a justi\u00e7a possui. Para superar a perspectiva legalista, seria preciso lembrar que, na Sagrada Escritura, a justi\u00e7a \u00e9 concebida essencialmente como um abandonar-se confiante \u00e0 vontade de Deus.<\/p>\n<p>Por sua vez, Jesus fala mais vezes da import\u00e2ncia da f\u00e9 que da observ\u00e2ncia da lei. \u00c9 neste sentido que devemos compreender as suas palavras, quando, encontrando-Se \u00e0 mesa com Mateus e outros publicanos e pecadores, disse aos fariseus que O acusavam por isso mesmo: \u00ab Ide aprender o que significa: Prefiro a miseric\u00f3rdia ao sacrif\u00edcio. Porque Eu n\u00e3o vim chamar os justos, mas os pecadores \u00bb (Mt 9, 13). Diante da vis\u00e3o duma justi\u00e7a como mera observ\u00e2ncia da lei, que julga dividindo as pessoas em justos e pecadores, Jesus procura mostrar o grande dom da miseric\u00f3rdia que busca os pecadores para lhes oferecer o perd\u00e3o e a salva\u00e7\u00e3o. Compreende-se que Jesus, por causa desta sua vis\u00e3o t\u00e3o libertadora e fonte de renova\u00e7\u00e3o, tenha sido rejeitado pelos fariseus e os doutores da lei. Estes, para ser fi\u00e9is \u00e0 lei, limitavam-se a colocar pesos sobre os ombros das pessoas, anulando por\u00e9m a miseric\u00f3rdia do Pai. O apelo \u00e0 observ\u00e2ncia da lei n\u00e3o pode obstaculizar a aten\u00e7\u00e3o \u00e0s necessidades que afectam a dignidade das pessoas.<\/p>\n<p>A prop\u00f3sito, \u00e9 muito significativo o apelo que Jesus faz ao texto do profeta Oseias: \u00ab Eu quero a miseric\u00f3rdia e n\u00e3o os sacrif\u00edcios \u00bb (6, 6). Jesus afirma que, a partir de agora, a regra de vida dos seus disc\u00edpulos dever\u00e1 ser aquela que prev\u00ea o primado da miseric\u00f3rdia, como Ele mesmo d\u00e1 testemunho partilhando a refei\u00e7\u00e3o com os pecadores. A miseric\u00f3rdia revela-se, mais uma vez, como dimens\u00e3o fundamental da miss\u00e3o de Jesus. \u00c9 um verdadeiro desafio posto aos seus interlocutores, que se contentavam com o respeito formal da lei. Jesus, pelo contr\u00e1rio, vai al\u00e9m da lei, a sua partilha da mesa com aqueles que a lei considerava pecadores permite compreender at\u00e9 onde chega a sua miseric\u00f3rdia.<\/p>\n<p>Tamb\u00e9m o ap\u00f3stolo Paulo fez um percurso semelhante. Antes de encontrar Cristo no caminho de Damasco, a sua vida era dedicada a servir de maneira irrepreens\u00edvel a justi\u00e7a da lei (cf. Fl 3, 6). A convers\u00e3o a Cristo levou-o a inverter a sua vis\u00e3o, a ponto de afirmar na Carta aos G\u00e1latas: \u00ab Tamb\u00e9m n\u00f3s acredit\u00e1mos em Cristo Jesus, para sermos justificados pela f\u00e9 em Cristo e n\u00e3o pelas obras da lei \u00bb (2, 16). A sua compreens\u00e3o da justi\u00e7a muda radicalmente: Paulo agora p\u00f5e no primeiro lugar a f\u00e9, e j\u00e1 n\u00e3o a lei. N\u00e3o \u00e9 a observ\u00e2ncia da lei que salva, mas a f\u00e9 em Jesus Cristo, que, pela sua morte e ressurrei\u00e7\u00e3o, traz a salva\u00e7\u00e3o com a miseric\u00f3rdia que justifica. A justi\u00e7a de Deus torna-se agora a liberta\u00e7\u00e3o para quantos est\u00e3o oprimidos pela escravid\u00e3o do pecado e todas as suas consequ\u00eancias. A justi\u00e7a de Deus \u00e9 o seu perd\u00e3o (cf. Sl 51\/50, 11-16).<\/p>\n<p>21. A miseric\u00f3rdia n\u00e3o \u00e9 contr\u00e1ria \u00e0 justi\u00e7a, mas exprime o comportamento de Deus para com o pecador, oferecendo-lhe uma nova possibilidade de se arrepender, converter e acreditar. A experi\u00eancia do profeta Oseias ajuda-nos, mostrando-nos a supera\u00e7\u00e3o da justi\u00e7a na linha da miseric\u00f3rdia. A \u00e9poca em que viveu este profeta conta-se entre as mais dram\u00e1ticas da hist\u00f3ria do povo judeu. O Reino est\u00e1 pr\u00f3ximo da destrui\u00e7\u00e3o; o povo n\u00e3o permaneceu fiel \u00e0 alian\u00e7a, afastou-se de Deus e perdeu a f\u00e9 dos pais. Segundo uma l\u00f3gica humana, \u00e9 justo que Deus pense em rejeitar o povo infiel: n\u00e3o observou o pacto estipulado e, consequentemente, merece a devida pena, ou seja, o ex\u00edlio. Assim o atestam as palavras do profeta: \u00ab N\u00e3o voltar\u00e1 para o Egipto, mas a Ass\u00edria ser\u00e1 o seu rei, porque recusaram converter-se \u00bb (Os 11, 5). E todavia, depois desta reac\u00e7\u00e3o que faz apelo \u00e0 justi\u00e7a, o profeta muda radicalmente a sua linguagem e revela o verdadeiro rosto de Deus: \u00ab O meu cora\u00e7\u00e3o d\u00e1 voltas dentro de mim, comovem-se as minhas entranhas. N\u00e3o desafogarei o furor da minha c\u00f3lera, n\u00e3o voltarei a destruir Efraim; porque sou Deus e n\u00e3o um homem, sou o Santo no meio de ti e n\u00e3o me deixo levar pela ira \u00bb (11, 8-9). Santo Agostinho, de certo modo comentando as palavras do profeta, diz: \u00ab \u00c9 mais f\u00e1cil que Deus contenha a ira do que a miseric\u00f3rdia \u00bb.[13] \u00c9 mesmo assim! A ira de Deus dura um instante, ao passo que a sua miseric\u00f3rdia \u00e9 eterna.<\/p>\n<p>Se Deus Se detivesse na justi\u00e7a, deixaria de ser Deus; seria como todos os homens que clamam pelo respeito da lei. A justi\u00e7a por si s\u00f3 n\u00e3o \u00e9 suficiente, e a experi\u00eancia mostra que, limitando-se a apelar para ela, corre-se o risco de a destruir. Por isso Deus, com a miseric\u00f3rdia e o perd\u00e3o, passa al\u00e9m da justi\u00e7a. Isto n\u00e3o significa desvalorizar a justi\u00e7a ou torn\u00e1-la sup\u00e9rflua. Antes pelo contr\u00e1rio! Quem erra, deve descontar a pena; s\u00f3 que isto n\u00e3o \u00e9 o fim, mas o in\u00edcio da convers\u00e3o, porque se experimenta a ternura do perd\u00e3o. Deus n\u00e3o rejeita a justi\u00e7a. Ele engloba-a e supera-a num evento superior onde se experimenta o amor, que est\u00e1 na base duma verdadeira justi\u00e7a. Devemos prestar muita aten\u00e7\u00e3o \u00e0quilo que escreve Paulo, para n\u00e3o cair no mesmo erro que o ap\u00f3stolo censurava nos judeus seus contempor\u00e2neos: \u00ab Por n\u00e3o terem reconhecido a justi\u00e7a que vem de Deus e terem procurado estabelecer a sua pr\u00f3pria justi\u00e7a, n\u00e3o se submeteram \u00e0 justi\u00e7a de Deus. \u00c9 que o fim da Lei \u00e9 Cristo, para que, deste modo, a justi\u00e7a seja concedida a todo o que tem f\u00e9 \u00bb (Rm 10, 3-4). Esta justi\u00e7a de Deus \u00e9 a miseric\u00f3rdia concedida a todos como gra\u00e7a, em virtude da morte e ressurrei\u00e7\u00e3o de Jesus Cristo. Portanto a Cruz de Cristo \u00e9 o ju\u00edzo de Deus sobre todos n\u00f3s e sobre o mundo, porque nos oferece a certeza do amor e da vida nova.<\/p>\n<p>22. O Jubileu inclui tamb\u00e9m o referimento \u00e0 indulg\u00eancia. Esta, no Ano Santo da Miseric\u00f3rdia, adquire uma relev\u00e2ncia particular. O perd\u00e3o de Deus para os nossos pecados n\u00e3o conhece limites. Na morte e ressurrei\u00e7\u00e3o de Jesus Cristo, Deus torna evidente este seu amor que chega ao ponto de destruir o pecado dos homens. \u00c9 poss\u00edvel deixar-se reconciliar com Deus atrav\u00e9s do mist\u00e9rio pascal e da media\u00e7\u00e3o da Igreja. Por isso, Deus est\u00e1 sempre dispon\u00edvel para o perd\u00e3o, n\u00e3o Se cansando de o oferecer de maneira sempre nova e inesperada. No entanto todos n\u00f3s fazemos experi\u00eancia do pecado. Sabemos que somos chamados \u00e0 perfei\u00e7\u00e3o (cf. Mt 5, 48), mas sentimos fortemente o peso do pecado. Ao mesmo tempo que notamos o poder da gra\u00e7a que nos transforma, experimentamos tamb\u00e9m a for\u00e7a do pecado que nos condiciona. Apesar do perd\u00e3o, carregamos na nossa vida as contradi\u00e7\u00f5es que s\u00e3o consequ\u00eancia dos nossos pecados. No sacramento da Reconcilia\u00e7\u00e3o, Deus perdoa os pecados, que s\u00e3o verdadeiramente apagados; mas o cunho negativo que os pecados deixaram nos nossos comportamentos e pensamentos permanece. A miseric\u00f3rdia de Deus, por\u00e9m, \u00e9 mais forte tamb\u00e9m do que isso. Ela torna-se indulg\u00eancia do Pai que, atrav\u00e9s da Esposa de Cristo, alcan\u00e7a o pecador perdoado e liberta-o de qualquer res\u00edduo das consequ\u00eancias do pecado, habilitando-o a agir com caridade, a crescer no amor em vez de recair no pecado.<\/p>\n<p>A Igreja vive a comunh\u00e3o dos Santos. Na Eucaristia, esta comunh\u00e3o, que \u00e9 dom de Deus, realiza-se como uni\u00e3o espiritual que nos une, a n\u00f3s crentes, com os Santos e Beatos cujo n\u00famero \u00e9 incalcul\u00e1vel (Ap 7, 4). A sua santidade vem em ajuda da nossa fragilidade, e assim a M\u00e3e-Igreja, com a sua ora\u00e7\u00e3o e a sua vida, \u00e9 capaz de acudir \u00e0 fraqueza de uns com a santidade de outros. Portanto viver a indulg\u00eancia no Ano Santo significa aproximar-se da miseric\u00f3rdia do Pai, com a certeza de que o seu perd\u00e3o cobre toda a vida do crente. A indulg\u00eancia \u00e9 experimentar a santidade da Igreja que participa em todos os benef\u00edcios da reden\u00e7\u00e3o de Cristo, para que o perd\u00e3o se estenda at\u00e9 \u00e0s \u00faltimas consequ\u00eancias aonde chega o amor de Deus. Vivamos intensamente o Jubileu, pedindo ao Pai o perd\u00e3o dos pecados e a indulg\u00eancia misericordiosa em toda a sua extens\u00e3o.<\/p>\n<p>23. A miseric\u00f3rdia possui uma val\u00eancia que ultrapassa as fronteiras da Igreja. Ela relaciona-nos com o juda\u00edsmo e o islamismo, que a consideram um dos atributos mais marcantes de Deus. Israel foi o primeiro que recebeu esta revela\u00e7\u00e3o, permanecendo esta na hist\u00f3ria como o in\u00edcio duma riqueza incomensur\u00e1vel para oferecer \u00e0 humanidade inteira. Como vimos, as p\u00e1ginas do Antigo Testamento est\u00e3o permeadas de miseric\u00f3rdia, porque narram as obras que o Senhor realizou em favor do seu povo, nos momentos mais dif\u00edceis da sua hist\u00f3ria. O islamismo, por sua vez, coloca entre os nomes dados ao Criador o de Misericordioso e Clemente. Esta invoca\u00e7\u00e3o aparece com frequ\u00eancia nos l\u00e1bios dos fi\u00e9is mu\u00e7ulmanos, que se sentem acompanhados e sustentados pela miseric\u00f3rdia na sua fraqueza di\u00e1ria. Tamb\u00e9m eles acreditam que ningu\u00e9m pode p\u00f4r limites \u00e0 miseric\u00f3rdia divina, porque as suas portas est\u00e3o sempre abertas.<\/p>\n<p>Possa este Ano Jubilar, vivido na miseric\u00f3rdia, favorecer o encontro com estas religi\u00f5es e com as outras nobres tradi\u00e7\u00f5es religiosas; que ele nos torne mais abertos ao di\u00e1logo, para melhor nos conhecermos e compreendermos; elimine todas as formas de fechamento e desprezo e expulse todas as formas de viol\u00eancia e discrimina\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>24. O pensamento volta-se agora para a M\u00e3e da Miseric\u00f3rdia. A do\u00e7ura do seu olhar nos acompanhe neste Ano Santo, para podermos todos n\u00f3s redescobrir a alegria da ternura de Deus. Ningu\u00e9m, como Maria, conheceu a profundidade do mist\u00e9rio de Deus feito homem. Na sua vida, tudo foi plasmado pela presen\u00e7a da miseric\u00f3rdia feita carne. A M\u00e3e do Crucificado Ressuscitado entrou no santu\u00e1rio da miseric\u00f3rdia divina, porque participou intimamente no mist\u00e9rio do seu amor.<\/p>\n<p>Escolhida para ser a M\u00e3e do Filho de Deus, Maria foi preparada desde sempre, pelo amor do Pai, para ser Arca da Alian\u00e7a entre Deus e os homens. Guardou, no seu cora\u00e7\u00e3o, a miseric\u00f3rdia divina em perfeita sintonia com o seu Filho Jesus. O seu c\u00e2ntico de louvor, no limiar da casa de Isabel, foi dedicado \u00e0 miseric\u00f3rdia que se estende \u00ab de gera\u00e7\u00e3o em gera\u00e7\u00e3o \u00bb (Lc 1, 50). Tamb\u00e9m n\u00f3s est\u00e1vamos presentes naquelas palavras prof\u00e9ticas da Virgem Maria. Isto servir-nos-\u00e1 de conforto e apoio no momento de atravessarmos a Porta Santa para experimentar os frutos da miseric\u00f3rdia divina.<\/p>\n<p>Ao p\u00e9 da cruz, Maria, juntamente com Jo\u00e3o, o disc\u00edpulo do amor, \u00e9 testemunha das palavras de perd\u00e3o que saem dos l\u00e1bios de Jesus. O perd\u00e3o supremo oferecido a quem O crucificou, mostra-nos at\u00e9 onde pode chegar a miseric\u00f3rdia de Deus. Maria atesta que a miseric\u00f3rdia do Filho de Deus n\u00e3o conhece limites e alcan\u00e7a a todos, sem excluir ningu\u00e9m. Dirijamos-Lhe a ora\u00e7\u00e3o, antiga e sempre nova, da Salve Rainha, pedindo-Lhe que nunca se canse de volver para n\u00f3s os seus olhos misericordiosos e nos fa\u00e7a dignos de contemplar o rosto da miseric\u00f3rdia, seu Filho Jesus.<\/p>\n<p>E a nossa ora\u00e7\u00e3o estenda-se tamb\u00e9m a tantos Santos e Beatos que fizeram da miseric\u00f3rdia a sua miss\u00e3o vital. Em particular, o pensamento volta-se para a grande ap\u00f3stola da Miseric\u00f3rdia, Santa Faustina Kowalska. Ela, que foi chamada a entrar nas profundezas da miseric\u00f3rdia divina, interceda por n\u00f3s e nos obtenha a gra\u00e7a de viver e caminhar sempre no perd\u00e3o de Deus e na confian\u00e7a inabal\u00e1vel do seu amor.<\/p>\n<p>25. Ser\u00e1, portanto, um Ano Santo extraordin\u00e1rio para viver, na exist\u00eancia de cada dia, a miseric\u00f3rdia que o Pai, desde sempre, estende sobre n\u00f3s. Neste Jubileu, deixemo-nos surpreender por Deus. Ele nunca Se cansa de escancarar a porta do seu cora\u00e7\u00e3o, para repetir que nos ama e deseja partilhar connosco a sua vida. A Igreja sente, fortemente, a urg\u00eancia de anunciar a miseric\u00f3rdia de Deus. A sua vida \u00e9 aut\u00eantica e cred\u00edvel, quando faz da miseric\u00f3rdia seu convicto an\u00fancio. Sabe que a sua miss\u00e3o primeira, sobretudo numa \u00e9poca como a nossa cheia de grandes esperan\u00e7as e fortes contradi\u00e7\u00f5es, \u00e9 a de introduzir a todos no grande mist\u00e9rio da miseric\u00f3rdia de Deus, contemplando o rosto de Cristo. A Igreja \u00e9 chamada, em primeiro lugar, a ser verdadeira testemunha da miseric\u00f3rdia, professando-a e vivendo-a como o centro da Revela\u00e7\u00e3o de Jesus Cristo. Do cora\u00e7\u00e3o da Trindade, do \u00edntimo mais profundo do mist\u00e9rio de Deus, brota e flui incessantemente a grande torrente da miseric\u00f3rdia. Esta fonte nunca poder\u00e1 esgotar-se, por maior que seja o n\u00famero daqueles que dela se abeirem. Sempre que algu\u00e9m tiver necessidade poder\u00e1 aceder a ela, porque a miseric\u00f3rdia de Deus n\u00e3o tem fim. Quanto insond\u00e1vel \u00e9 a profundidade do mist\u00e9rio que encerra, tanto \u00e9 inesgot\u00e1vel a riqueza que dela prov\u00e9m.<\/p>\n<p>Neste Ano Jubilar, que a Igreja se fa\u00e7a eco da Palavra de Deus que ressoa, forte e convincente, como uma palavra e um gesto de perd\u00e3o, apoio, ajuda, amor. Que ela nunca se canse de oferecer miseric\u00f3rdia e seja sempre paciente a confortar e perdoar. Que a Igreja se fa\u00e7a voz de cada homem e mulher e repita com confian\u00e7a e sem cessar: \u00ab Lembra-te, Senhor, da tua miseric\u00f3rdia e do teu amor, pois eles existem desde sempre \u00bb (Sl 25\/24, 6).<\/p>\n<p>Dado em Roma, junto de S\u00e3o Pedro, no dia 11 de Abril \u2013 v\u00e9spera do II Domingo de P\u00e1scoa ou da Divina Miseric\u00f3rdia \u2013 do Ano do Senhor de 2015, o terceiro de pontificado<\/p>\n<p>Fonte: R\u00e1dio Vaticano<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>1. Jesus Cristo \u00e9 o rosto da miseric\u00f3rdia do Pai. 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O Pai, \u00ab rico em miseric\u00f3rdia \u00bb (Ef 2, 4), depois de ter revelado o seu nome a Mois\u00e9s [&hellip;]<\/p>\n","protected":false},"author":1,"featured_media":0,"comment_status":"closed","ping_status":"closed","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"footnotes":""},"categories":[3],"tags":[],"class_list":["post-5726","post","type-post","status-publish","format-standard","hentry","category-vaticano"],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/catolicanet.net\/wp-cnet\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/5726","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/catolicanet.net\/wp-cnet\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/catolicanet.net\/wp-cnet\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/catolicanet.net\/wp-cnet\/wp-json\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/catolicanet.net\/wp-cnet\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=5726"}],"version-history":[{"count":1,"href":"https:\/\/catolicanet.net\/wp-cnet\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/5726\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":10428,"href":"https:\/\/catolicanet.net\/wp-cnet\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/5726\/revisions\/10428"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/catolicanet.net\/wp-cnet\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=5726"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/catolicanet.net\/wp-cnet\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=5726"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/catolicanet.net\/wp-cnet\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=5726"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}