{"id":56940,"date":"2020-02-17T16:35:23","date_gmt":"2020-02-17T19:35:23","guid":{"rendered":"https:\/\/catolicanet.net\/wp-cnet\/?p=56940"},"modified":"2020-02-19T09:40:42","modified_gmt":"2020-02-19T12:40:42","slug":"notas-para-a-leitura-de-querida-amazonia","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/catolicanet.net\/wp-cnet\/notas-para-a-leitura-de-querida-amazonia\/","title":{"rendered":"Notas para a leitura de Querida Amaz\u00f4nia"},"content":{"rendered":"<p style=\"text-align: justify;\">A Exorta\u00e7\u00e3o \u201cQuerida Amaz\u00f4nia\u201d (QAm), do Papa Francisco, tem dois pontos de partida bem evidentes: (a) a indigna\u00e7\u00e3o diante das viola\u00e7\u00f5es dos direitos das pessoas e dos povos, bem como da pr\u00f3pria natureza; e (b) o fasc\u00ednio diante da beleza e do equil\u00edbrio da cria\u00e7\u00e3o, da sabedoria e da harmonia dos povos tradicionais da regi\u00e3o. Avan\u00e7a refor\u00e7ando a necessidade de uma s\u00edntese entre social e espiritual, numa perspectiva crist\u00e3 (cf. QAm 62-65) e desenvolvendo as ideias de valoriza\u00e7\u00e3o das culturas locais e da incultura\u00e7\u00e3o do Evangelho (cf. QAm 70-75).<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Francisco n\u00e3o deixa de reconhecer a import\u00e2ncia do progresso, nem a possibilidade de um desenvolvimento sustent\u00e1vel e harmonioso da regi\u00e3o. Tamb\u00e9m reconhece a necessidade de uma pol\u00edtica indigenista que se encaminhe para a integra\u00e7\u00e3o e a interculturalidade. Contudo, o texto n\u00e3o deixa d\u00favidas quanto ao fato de que os exemplos positivos ainda s\u00e3o poucos e insuficientes diante das injusti\u00e7as praticadas e das amea\u00e7as aos ecossistemas. Al\u00e9m disso, a integra\u00e7\u00e3o e a interculturalidade devem partir do respeito \u00e0 autonomia e \u00e0 autodetermina\u00e7\u00e3o dos povos \u2013 reconhecendo inclusive o direito ao isolamento volunt\u00e1rio (QAm 29). Ainda nesse ponto, deve-se sublinhar que o Papa acompanha a posi\u00e7\u00e3o da comunidade cient\u00edfica internacional, que tem apontado os perigos que a devasta\u00e7\u00e3o da Amaz\u00f4nia apresenta para o mundo, em fun\u00e7\u00e3o do impacto que trar\u00e1 particularmente para as mudan\u00e7as clim\u00e1ticas globais (QAm 48). Referindo-se tamb\u00e9m \u00e0 chamada \u201cinternacionaliza\u00e7\u00e3o\u201d da Amaz\u00f4nia, apontando que esse n\u00e3o \u00e9 um caminho de solu\u00e7\u00e3o dos problemas, ainda que sejam louv\u00e1veis e necess\u00e1rias as colabora\u00e7\u00f5es de organismos multinacionais e organiza\u00e7\u00f5es da sociedade civil\u201d. Em lugar de uma \u201cinternacionaliza\u00e7\u00e3o\u201d, o importante \u00e9 a atua\u00e7\u00e3o respons\u00e1vel dos governos nacionais (QAm 50). Nesse sentido, a Exorta\u00e7\u00e3o \u00e9 um poderoso grito de den\u00fancia contra os erros hist\u00f3ricos praticados na regi\u00e3o.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Esse quadro da Amaz\u00f4nia s\u00f3 se completa, por\u00e9m, com a percep\u00e7\u00e3o de \u201ctodo o seu esplendor, o seu drama e o seu mist\u00e9rio\u201d (QAm 1). Mesmo os erros (o drama) ganham sua justa perspectiva s\u00f3 a partir do fasc\u00ednio pela obra de Deus. Como na <em>Laudato si\u2019<\/em>, o jogo entre indigna\u00e7\u00e3o e den\u00fancia, beleza e fasc\u00ednio orienta a posi\u00e7\u00e3o humana mais adequada, capaz de valorizar o que deve ser valorizado e condenar o que deve ser condenado. Nessa perspectiva, o texto faz v\u00e1rias refer\u00eancias a poetas latino-americanos, cat\u00f3licos ou n\u00e3o; \u00e0 sabedoria dos povos ind\u00edgenas, sua sobriedade feliz e sua vida em comunidade (QAm 71); \u00e0 diversidade de esp\u00e9cies, querida pelo pr\u00f3prio Criador (QAm 49,54). Nas palavras de Andrea Tornielli, no Editorial de apresenta\u00e7\u00e3o da Exorta\u00e7\u00e3o, \u201cum texto escrito como uma carta de amor [&#8230;] que ajudam o leitor a entrar em contato com a maravilhosa beleza daquela regi\u00e3o, mas tamb\u00e9m com seus dramas di\u00e1rios\u201d. A trilha da beleza, na sensibilidade de Francisco, \u00e9 o caminho que nos afasta de uma milit\u00e2ncia raivosa, meramente negativa, e nos aproxima da contempla\u00e7\u00e3o do mist\u00e9rio e da capacidade de valorizar o bem que existe no mundo.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">A incultura\u00e7\u00e3o do Evangelho, particularmente entre as comunidades ind\u00edgenas, se torna um fio condutor, ora impl\u00edcito, ora expl\u00edcito, ao longo da Exorta\u00e7\u00e3o. Essa aten\u00e7\u00e3o n\u00e3o nasce de uma quest\u00e3o demogr\u00e1fica (as popula\u00e7\u00f5es ind\u00edgenas s\u00e3o realmente minorit\u00e1rias na Amaz\u00f4nia de hoje) ou midi\u00e1tica (ditada pela import\u00e2ncia dada ao tema pelos meios de comunica\u00e7\u00e3o). Nasce, em primeiro lugar, da aten\u00e7\u00e3o evang\u00e9lica aos mais fr\u00e1geis e vulner\u00e1veis (QAm 75), mas tamb\u00e9m a uma sabedoria acumulada em suas culturas (QAm 70-72), que permite a s\u00edntese que levar\u00e1 a uma \u201csantidade com rosto amaz\u00f4nico\u201d (QAm 77-78).<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">O caminho tanto para essa incultura\u00e7\u00e3o do Evangelho quanto para desenvolvimento socioambiental justo e inclusivo passa pela escuta (QAm 26-27). Francisco reafirma continuamente na Exorta\u00e7\u00e3o a import\u00e2ncia de ouvir, primeiro passo para dialogar e para encontrar solu\u00e7\u00f5es criativas e baseadas na realidade concreta, local e n\u00e3o de ideias abstratas e vindas de outros contextos (QAm 66-70).<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Toda a perspectiva socioambiental n\u00e3o estar\u00e1 completa, nem se realizar\u00e1 a contento, sem o an\u00fancio expl\u00edcito do encontro com Cristo. \u201cComo crist\u00e3os, n\u00e3o renunciamos \u00e0 proposta de f\u00e9 que recebemos do Evangelho\u201d, diz o Papa (QAm 62). Os povos amaz\u00f4nicos \u201ct\u00eam direito ao an\u00fancio do Evangelho\u201d (QAm 64). \u201cA incultura\u00e7\u00e3o do Evangelho na Amaz\u00f3nia deve integrar melhor a dimens\u00e3o social com a espiritual, para que os mais pobres n\u00e3o tenham necessidade de ir buscar fora da Igreja uma espiritualidade que d\u00ea resposta aos anseios da sua dimens\u00e3o transcendente. Naturalmente, n\u00e3o se trata duma religiosidade alienante ou individualista que fa\u00e7a calar as exig\u00eancias sociais duma vida mais digna, mas tamb\u00e9m n\u00e3o se trata de mutilar a dimens\u00e3o transcendente e espiritual como se bastasse ao ser humano o desenvolvimento material [&#8230;] Deste modo resplandecer\u00e1 a verdadeira beleza do Evangelho, que \u00e9 plenamente humanizadora, d\u00e1 plena dignidade \u00e0s pessoas e aos povos, cumula o cora\u00e7\u00e3o e a vida inteira\u201d (QAm 76).<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">As dificuldades pastorais da Amaz\u00f4nia recebem aten\u00e7\u00e3o numa extensa parte do documento (QAm 81-103). O Papa observa que essas quest\u00f5es ser\u00e3o resolvidas na medida que se desenvolve essa incultura\u00e7\u00e3o cheia do Esp\u00edrito, com comunidades cada vez mais vivas, leigos atuantes e solidariedade de outras comunidades (cedendo, por exemplo, mission\u00e1rios e sacerdotes para a regi\u00e3o).<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">O Papa j\u00e1 havia falado da Amaz\u00f4nia como algo \u201cnosso\u201d, n\u00e3o no sentido de uma posse, mas de uma responsabilidade e um afeto compartilhados (QAm 37, 55), termina a Exorta\u00e7\u00e3o defendendo o di\u00e1logo e o trabalhar juntos para superar os conflitos e as adversidades, inclusive numa postura ecum\u00eanica e inter-religiosa (QAm 104-110).<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>A Exorta\u00e7\u00e3o \u201cQuerida Amaz\u00f4nia\u201d (QAm), do Papa Francisco, tem dois pontos de partida bem evidentes: (a) a indigna\u00e7\u00e3o diante das viola\u00e7\u00f5es dos direitos das pessoas e dos povos, bem como da pr\u00f3pria natureza; e (b) o fasc\u00ednio diante da beleza e do equil\u00edbrio da cria\u00e7\u00e3o, da sabedoria e da harmonia dos povos tradicionais da regi\u00e3o. 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