{"id":56543,"date":"2020-01-31T11:38:56","date_gmt":"2020-01-31T14:38:56","guid":{"rendered":"https:\/\/catolicanet.net\/wp-cnet\/?p=56543"},"modified":"2020-01-31T11:38:56","modified_gmt":"2020-01-31T14:38:56","slug":"a-maior-parte-do-trabalho-escravo-ainda-e-invisivel-para-a-sociedade-dom-evaristo-spengler","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/catolicanet.net\/wp-cnet\/a-maior-parte-do-trabalho-escravo-ainda-e-invisivel-para-a-sociedade-dom-evaristo-spengler\/","title":{"rendered":"\u201cA maior parte do trabalho escravo ainda \u00e9 invis\u00edvel para a sociedade\u201d, dom Evaristo Spengler"},"content":{"rendered":"<p style=\"text-align: justify;\"><em>Nesta Semana Nacional de Combate ao Trabalho Escravo, o bispo da prelazia de Maraj\u00f3 (PA) e da Comiss\u00e3o Especial Pastoral para o Enfrentamento ao Tr\u00e1fico Humano da Confer\u00eancia Nacional dos Bispos do Brasil (CNBB), dom Evaristo Pascoal Spengler fala sobre a triste realidade de trabalhadores que s\u00e3o submetidos a situa\u00e7\u00f5es an\u00e1logas ao trabalho escravo no Brasil. S\u00f3 em 2019, segundo dados da Secretaria de Inspe\u00e7\u00e3o do Trabalho do Governo Federal (SIT), foram encontrados 1.054 trabalhadores nessa situa\u00e7\u00e3o, um n\u00famero que se mant\u00e9m na m\u00e9dia dos \u00faltimos 5 anos, abaixo da metade do n\u00famero registrado entre 2010 e 2014. <\/em><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><em>Para marcar esta semana, a Comiss\u00e3o Pastoral da Terra e a Comiss\u00e3o Especial Pastoral para o Enfrentamento ao Tr\u00e1fico Humano da Confer\u00eancia Nacional dos Bispos do Brasil (CNBB) publicaram dia 24 de janeiro uma Nota para o Dia Nacional de Combate ao Trabalho Escravo, marcado no dia 28 de janeiro, no link abaixo. <\/em><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><em>O presidente da Comiss\u00e3o Especial Pastoral para o Enfrentamento ao Tr\u00e1fico Humano da CNBB disse que esta realidade \u00e9 um pecado que brada aos c\u00e9us. \u201cN\u00e3o podemos nos acostumar com esse crime como sendo algo normal. N\u00e3o \u00e9 normal. Assim como no passado n\u00e3o foi normal a escravid\u00e3o dos negros, o nazismo e toda forma de explora\u00e7\u00e3o humana. Qualquer pessoa que saiba que outra pessoa vive em uma situa\u00e7\u00e3o degradante ela tem que denunciar. Isto \u00e9 ser crist\u00e3o<\/em>\u201d, disse. Veja, abaixo, a \u00edntegra da entrevista concedida ao site da CNBB.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>1 \u2013 Por que os n\u00fameros de trabalhadores submetidos a condi\u00e7\u00f5es an\u00e1logas ao trabalho escravo ainda s\u00e3o muito altos no Brasil?<br \/>\n<\/strong><br \/>\nA pergunta traz \u00e0 tona uma realidade muito invisibilizada no Brasil. Muitos pensam que n\u00e3o existe trabalho escravo e que isto pertence ao passado, mas os n\u00fameros desta tr\u00e1gica chaga humana s\u00e3o ainda estarrecedores em nossos dias. Em 2019, foram encontradas 1.050 pessoas submetidas ao trabalho escravo no Brasil. Se voltarmos um pouco mais tempo, nos \u00faltimos sete anos, de 2013 a 2019, foram encontradas mais de 8.500 pessoas em situa\u00e7\u00e3o de escravid\u00e3o. Onde est\u00e3o estas pessoas? Dois ter\u00e7os delas, 67% s\u00e3o encontradas nas \u00e1reas rurais, um ter\u00e7o na \u00e1rea urbana. Onde elas trabalham na \u00e1rea rural? Sobretudo na lavoura e na pecu\u00e1ria, mas tamb\u00e9m em menor n\u00famero foram encontradas pessoas na fabrica\u00e7\u00e3o de carv\u00e3o vegetal, minera\u00e7\u00e3o, desmatamento\u2026 J\u00e1 na cidade, se concentram sobretudo na constru\u00e7\u00e3o civil e nas confec\u00e7\u00f5es.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">E n\u00f3s poder\u00edamos perguntar: por que ainda hoje se perpetua este crime? Eu penso que a chave para entender a perpetua\u00e7\u00e3o deste crime \u00e9 a vulnerabilidade das pessoas em situa\u00e7\u00e3o extrema de pobreza e que n\u00e3o conhecem os seus direitos. Al\u00e9m disto, n\u00f3s n\u00e3o podemos esquecer que convivemos com um modelo econ\u00f4mico que prioriza sempre mais o lucro. As pessoas n\u00e3o s\u00e3o vistas como seres humanos, para serem respeitadas e terem os seus direitos preservados. S\u00e3o vistas como m\u00e1quinas que devem gerar lucros para outras pessoas. Por isto, tantas pessoas s\u00e3o escravizadas com tanta naturalidade. E at\u00e9 mesmo pessoas s\u00e3o traficadas: outro crime que brada aos c\u00e9us.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">O problema \u00e9 que a maior parte do trabalho escravo ainda \u00e9 invis\u00edvel para a sociedade. Sem fiscaliza\u00e7\u00e3o, n\u00e3o h\u00e1 como flagrar esta pr\u00e1tica de crime. Neste sentido, o tr\u00e1gico \u00e9 que temos uma situa\u00e7\u00e3o que se agrava a cada dia. Aponto aqui dois problemas muitos s\u00e9rios: o primeiro, \u00e9 a diminui\u00e7\u00e3o da fiscaliza\u00e7\u00e3o, dos cargos de fiscais criados por lei, criados no Brasil; Hoje temos um d\u00e9ficit de 40% e o mais grave \u00e9 que prev\u00ea-se que o or\u00e7amento para a fiscaliza\u00e7\u00e3o do ano 2020 ser\u00e1 cortado pela metade. Em 2018, foram R$ 71 milh\u00f5es; em 2019, R$ 70 milh\u00f5es e agora a previs\u00e3o \u00e9 que seja reduzido para m\u00edseros R$ 36 milh\u00f5es. E a pergunta \u00e9: onde vamos chegar com tudo isto? E a Amaz\u00f4nia \u00e9 que tem sido a mais prejudicada com estes cortes. Historicamente, mais da metade dos estabelecimentos fiscalizados eram na Amaz\u00f4nia. Em 2019, das 267 fiscaliza\u00e7\u00f5es que ocorreram no pa\u00eds inteiro, apenas 78, ou seja 29%, foram na regi\u00e3o Amaz\u00f4nica. Em segundo lugar, tamb\u00e9m houve uma quebra da parceria do governo federal com a sociedade civil. Havia um grande n\u00famero de organiza\u00e7\u00f5es da sociedade civil que acompanham, denunciavam e fiscalizavam o trabalho escravo. E hoje estas organiza\u00e7\u00f5es s\u00e3o vistas como suspeitas, at\u00e9 como inimigas e at\u00e9 perseguidas.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>2 \u2013 Quais os impactos desta pr\u00e1tica na vida das pessoas que s\u00e3o submetidas \u00e0 estas situa\u00e7\u00f5es?<\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Os impactos s\u00e3o muito fortes na vida de uma pessoa que \u00e9 submetida \u00e0 esta pr\u00e1tica similar ao trabalho escravo. Atinge at\u00e9 a sua alma. A pessoa tem a sensa\u00e7\u00e3o de perda de tudo, perda em primeiro lugar da sua dignidade, perda da sua auto-estima e liberdade. Estas pessoas s\u00e3o vistas, muitas vezes, como um lixo. A grande maioria delas n\u00e3o conhece nada de seus direitos e convivem com situa\u00e7\u00f5es de humilha\u00e7\u00e3o e degrada\u00e7\u00e3o permanente da sua vida. As pessoas que a submetem ao trabalho escravo se aproveitam desta situa\u00e7\u00e3o de mis\u00e9ria, vulnerabilidade e fragilidade das pessoas.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">H\u00e1 muitos que at\u00e9 j\u00e1 nascem em uma fam\u00edlia submetida como escrava com os pais vivendo assim e eles continuam a trabalhar da mesma forma. Trabalham do amanhecer at\u00e9 \u00e0 noite, comem comida sem qualidade, bem \u00e1gua contaminada, dormem em ambientes sujos e por vezes convivem at\u00e9 com animais. H\u00e1 relatos de pessoas que armam suas redes e os porcos ficam passando embaixo. As pessoas n\u00e3o s\u00e3o registradas, n\u00e3o t\u00eam direitos trabalhistas, n\u00e3o podem estudar, n\u00e3o t\u00eam descanso e assist\u00eancia m\u00e9dica. H\u00e1 casos de pessoas que s\u00e3o vendidas para garimpos e fazendas. O modo de vida a que estas pessoas submetem \u00e9 estarrecedor. Os danos psicol\u00f3gicos, certamente, v\u00e3o ser insuper\u00e1veis. Muitos tamb\u00e9m ficam com sequelas f\u00edsicas. Normalmente a sa\u00fade fica t\u00e3o debilitada que estas pessoas acabam morrendo muito mais cedo.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>3 \u2013 O que a Igreja no Brasil e os crist\u00e3os podem fazer para enfrentar a situa\u00e7\u00e3o?<\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><a href=\"https:\/\/www.cnbb.org.br\/a-maior-parte-do-trabalho-escravo-ainda-e-invisivel-para-a-sociedade-dom-evaristo-spengler\/domevaristoepapa\/\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"size-full wp-image-232621 alignleft\" src=\"https:\/\/www.cnbb.org.br\/wp-content\/uploads\/sites\/32\/2020\/01\/DomEvaristoepapa.jpeg\" srcset=\"https:\/\/www.cnbb.org.br\/wp-content\/uploads\/sites\/32\/2020\/01\/DomEvaristoepapa.jpeg 399w, https:\/\/www.cnbb.org.br\/wp-content\/uploads\/sites\/32\/2020\/01\/DomEvaristoepapa-225x300.jpeg 225w\" alt=\"\" width=\"399\" height=\"532\" \/><\/a>A Igreja Cat\u00f3lica no Brasil vem de longa data denunciado profeticamente o trabalho escravo em todas as suas facetas e v\u00ea esta realidade como um pecado que brada aos c\u00e9us. Porque degrada o ser humano que \u00e9 um filho de Deus, imagem e semelhan\u00e7a do criador, que tem uma imagem a ser respeitada. A Confer\u00eancia Nacional dos Bispos do Brasil tem se pronunciado, reiteradamente, contra este crime e pecado.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">A pr\u00f3pria Igreja Cat\u00f3lica tem v\u00e1rios organismos, tem pastorais sociais e servi\u00e7os que t\u00eam se posicionado, acompanhado v\u00edtimas e denunciado a situa\u00e7\u00e3o. Eu posso citar aqui a Comiss\u00e3o Pastoral da Terra, um organismo ligado \u00e0 Igreja Cat\u00f3lica, que tem acompanhado tantas situa\u00e7\u00f5es de trabalho escravo no Brasil e o pr\u00f3prio Conselho Indigenista Mission\u00e1rio (CIMI), nas \u00e1reas ind\u00edgenas; a Pastoral do Migrante e v\u00e1rias outras institui\u00e7\u00f5es ligadas \u00e0 Igreja que trabalham o enfrentamento da explora\u00e7\u00e3o sexual, do tr\u00e1fico humano e do trabalho escravo, como por exemplo A Rede Um Grito pela Vida e mais recentemente temos a Comiss\u00e3o, criada pela CNBB, de enfrentamento ao tr\u00e1fico humano que tem tamb\u00e9m como foco o enfrentamento ao trabalho escravo e \u00e0 explora\u00e7\u00e3o sexual.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Mas, certamente, nos \u00faltimos tempos podemos citar que a maior den\u00fancia foi feita pelo S\u00ednodo para a Amaz\u00f4nia onde todos os bispos da regi\u00e3o se reuniram com o Papa Francisco, em outubro de 2019, juntamente com cardeais da c\u00faria romana e bispos de todo mundo. No documento final, h\u00e1 uma forte den\u00fancia contra o trabalho escravo em toda panamaz\u00f4nia. N\u00e3o podemos nos acostumar com esse crime como sendo algo normal. N\u00e3o \u00e9 normal. Assim como no passado n\u00e3o foi normal a escravid\u00e3o dos negros, o nazismo, e toda forma de explora\u00e7\u00e3o humana. Qualquer pessoa que saiba que outra pessoa vive em uma situa\u00e7\u00e3o degradante ela tem que denunciar. Isto \u00e9 ser crist\u00e3o. Muitos que denunciaram at\u00e9 j\u00e1 foram perseguidos e mortos. Mas o crist\u00e3o n\u00e3o pode se acovardar. Nosso modelo e exemplo \u00e9 Jesus Cristo, que deu a sua vida pelos irm\u00e3os.<\/p>\n<blockquote class=\"wp-embedded-content\"><p><a href=\"https:\/\/www.cnbb.org.br\/pastoral-da-terra-e-comissao-contra-o-trafico-humano-lancam-nota-sobre-trabalho-escravo\/\">Pastoral da Terra e Comiss\u00e3o contra o Tr\u00e1fico Humano lan\u00e7am nota sobre trabalho Escravo<\/a><\/p><\/blockquote>\n<p><iframe loading=\"lazy\" class=\"wp-embedded-content\" src=\"https:\/\/www.cnbb.org.br\/pastoral-da-terra-e-comissao-contra-o-trafico-humano-lancam-nota-sobre-trabalho-escravo\/embed\/#?secret=4gllkfeyms#?secret=s78up5utg3\" width=\"600\" height=\"504\" frameborder=\"0\" data-secret=\"s78up5utg3\" data-mce-fragment=\"1\"><\/iframe><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Nesta Semana Nacional de Combate ao Trabalho Escravo, o bispo da prelazia de Maraj\u00f3 (PA) e da Comiss\u00e3o Especial Pastoral para o Enfrentamento ao Tr\u00e1fico Humano da Confer\u00eancia Nacional dos Bispos do Brasil (CNBB), dom Evaristo Pascoal Spengler fala sobre a triste realidade de trabalhadores que s\u00e3o submetidos a situa\u00e7\u00f5es an\u00e1logas ao trabalho escravo no [&hellip;]<\/p>\n","protected":false},"author":1,"featured_media":56544,"comment_status":"open","ping_status":"closed","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"footnotes":""},"categories":[7],"tags":[],"class_list":["post-56543","post","type-post","status-publish","format-standard","has-post-thumbnail","hentry","category-cnbb"],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/catolicanet.net\/wp-cnet\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/56543","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/catolicanet.net\/wp-cnet\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/catolicanet.net\/wp-cnet\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/catolicanet.net\/wp-cnet\/wp-json\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/catolicanet.net\/wp-cnet\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=56543"}],"version-history":[{"count":1,"href":"https:\/\/catolicanet.net\/wp-cnet\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/56543\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":56545,"href":"https:\/\/catolicanet.net\/wp-cnet\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/56543\/revisions\/56545"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/catolicanet.net\/wp-cnet\/wp-json\/wp\/v2\/media\/56544"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/catolicanet.net\/wp-cnet\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=56543"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/catolicanet.net\/wp-cnet\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=56543"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/catolicanet.net\/wp-cnet\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=56543"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}