{"id":55721,"date":"2019-12-12T09:02:32","date_gmt":"2019-12-12T12:02:32","guid":{"rendered":"https:\/\/catolicanet.net\/wp-cnet\/?p=55721"},"modified":"2019-12-12T09:02:32","modified_gmt":"2019-12-12T12:02:32","slug":"mensagem-do-papa-francisco-para-o-dia-mundial-da-paz-2020","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/catolicanet.net\/wp-cnet\/mensagem-do-papa-francisco-para-o-dia-mundial-da-paz-2020\/","title":{"rendered":"Mensagem do Papa Francisco para o Dia Mundial da Paz 2020"},"content":{"rendered":"<p style=\"text-align: justify;\">O Vaticano publicou neste dia 12 de dezembro a mensagem do Papa Francisco por ocasi\u00e3o do Dia Mundial da Paz, que ser\u00e1 celebrado em 1\u00ba de janeiro de 2020, com o tema \u201cA paz como caminho de esperan\u00e7a: di\u00e1logo, reconcilia\u00e7\u00e3o e convers\u00e3o ecol\u00f3gica\u201d.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Na mensagem, o Santo Padre afirmou que \u201ca fratura entre os membros de uma sociedade, o aumento das desigualdades sociais e a recusa de empregar os meios para um desenvolvimento humano integral colocam em perigo a prossecu\u00e7\u00e3o do bem comum. Inversamente, o trabalho paciente, baseado na for\u00e7a da palavra e da verdade, pode despertar nas pessoas a capacidade de compaix\u00e3o e solidariedade criativa\u201d.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">A seguir, o texto completo da mensagem do Papa Francisco:<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>1. A paz, caminho de esperan\u00e7a face aos obst\u00e1culos e prova\u00e7\u00f5es<\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">A paz \u00e9 um bem precioso, objeto da nossa esperan\u00e7a; por ela aspira toda a humanidade. Depor esperan\u00e7a na paz \u00e9 um comportamento humano que alberga uma tal tens\u00e3o existencial, que o momento presente, \u00e0s vezes at\u00e9 custoso, \u00abpode ser vivido e aceite, se levar a uma meta e se pudermos estar seguros dessa meta, se esta meta for t\u00e3o grande que justifique a canseira do caminho\u00bb[1]. Assim, a esperan\u00e7a \u00e9 a virtude que nos coloca a caminho, d\u00e1 asas para continuar, mesmo quando os obst\u00e1culos parecem intranspon\u00edveis.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">A nossa comunidade humana traz, na mem\u00f3ria e na carne, os sinais das guerras e conflitos que t\u00eam vindo a suceder-se, com crescente capacidade destruidora, afetando especialmente os mais pobres e fr\u00e1geis. H\u00e1 na\u00e7\u00f5es inteiras que n\u00e3o conseguem libertar-se das cadeias de explora\u00e7\u00e3o e corrup\u00e7\u00e3o que alimentam \u00f3dios e viol\u00eancias. A muitos homens e mulheres, crian\u00e7as e idosos, ainda hoje se nega a dignidade, a integridade f\u00edsica, a liberdade \u2013 incluindo a liberdade religiosa \u2013, a solidariedade comunit\u00e1ria, a esperan\u00e7a no futuro. In\u00fameras v\u00edtimas inocentes carregam sobre si o tormento da humilha\u00e7\u00e3o e da exclus\u00e3o, do luto e da injusti\u00e7a, se n\u00e3o mesmo os traumas resultantes da opress\u00e3o sistem\u00e1tica contra o seu povo e os seus entes queridos.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">As terr\u00edveis prova\u00e7\u00f5es dos conflitos civis e dos conflitos internacionais, agravadas muitas vezes por viol\u00eancias desalmadas, marcam prolongadamente o corpo e a alma da humanidade. Na realidade, toda a guerra se revela um fratric\u00eddio que destr\u00f3i o pr\u00f3prio projeto de fraternidade, inscrito na voca\u00e7\u00e3o da fam\u00edlia humana.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Sabemos que, muitas vezes, a guerra come\u00e7a pelo facto de n\u00e3o se suportar a diversidade do outro, que fomenta o desejo de posse e a vontade de dom\u00ednio. Nasce, no cora\u00e7\u00e3o do homem, a partir do ego\u00edsmo e do orgulho, do \u00f3dio que induz a destruir, a dar uma imagem negativa do outro, a exclu\u00ed-lo e cancel\u00e1-lo. A guerra nutre-se com a pervers\u00e3o das rela\u00e7\u00f5es, com as ambi\u00e7\u00f5es hegem\u00f3nicas, os abusos de poder, com o medo do outro e a diferen\u00e7a vista como obst\u00e1culo; e simultaneamente alimenta tudo isso.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Como fiz notar durante a recente viagem ao Jap\u00e3o, \u00e9 paradoxal que \u00abo nosso mundo viva a dicotomia perversa de querer defender e garantir a estabilidade e a paz com base numa falsa seguran\u00e7a sustentada por uma mentalidade de medo e desconfian\u00e7a, que acaba por envenenar as rela\u00e7\u00f5es entre os povos e impedir a possibilidade de qualquer di\u00e1logo. A paz e a estabilidade internacional s\u00e3o incompat\u00edveis com qualquer tentativa de as construir sobre o medo de m\u00fatua destrui\u00e7\u00e3o ou sobre uma amea\u00e7a de aniquila\u00e7\u00e3o total. S\u00e3o poss\u00edveis s\u00f3 a partir duma \u00e9tica global de solidariedade e coopera\u00e7\u00e3o ao servi\u00e7o dum futuro modelado pela interdepend\u00eancia e a corresponsabilidade na fam\u00edlia humana inteira de hoje e de amanh\u00e3\u00bb[2].<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Toda a situa\u00e7\u00e3o de amea\u00e7a alimenta a desconfian\u00e7a e a retirada para dentro da pr\u00f3pria condi\u00e7\u00e3o. Desconfian\u00e7a e medo aumentam a fragilidade das rela\u00e7\u00f5es e o risco de viol\u00eancia, num c\u00edrculo vicioso que nunca poder\u00e1 levar a uma rela\u00e7\u00e3o de paz. Neste sentido, a pr\u00f3pria dissuas\u00e3o nuclear s\u00f3 pode criar uma seguran\u00e7a ilus\u00f3ria.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Por isso, n\u00e3o podemos pretender manter a estabilidade no mundo atrav\u00e9s do medo da aniquila\u00e7\u00e3o, num equil\u00edbrio muito inst\u00e1vel, pendente sobre o abismo nuclear e fechado dentro dos muros da indiferen\u00e7a, onde se tomam decis\u00f5es socioecon\u00f3micas que abrem a estrada para os dramas do descarte do homem e da cria\u00e7\u00e3o, em vez de nos guardarmos uns aos outros[3]. Ent\u00e3o como construir um caminho de paz e m\u00fatuo reconhecimento? Como romper a l\u00f3gica morbosa da amea\u00e7a e do medo? Como quebrar a din\u00e2mica de desconfian\u00e7a atualmente prevalecente?<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Devemos procurar uma fraternidade real, baseada na origem comum de Deus e vivida no di\u00e1logo e na confian\u00e7a m\u00fatua. O desejo de paz est\u00e1 profundamente inscrito no cora\u00e7\u00e3o do homem e n\u00e3o devemos resignar-nos com nada de menos.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>2. A paz, caminho de escuta baseado na mem\u00f3ria, solidariedade e fraternidade<\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Os sobreviventes aos bombardeamentos at\u00f3micos de Hiroshima e Nagasaki \u2013 denominados os hibakusha \u2013 contam-se entre aqueles que, hoje, mant\u00eam viva a chama da consci\u00eancia coletiva, testemunhando \u00e0s sucessivas gera\u00e7\u00f5es o horror daquilo que aconteceu em agosto de 1945 e os sofrimentos indescrit\u00edveis que se seguiram at\u00e9 aos dias de hoje. Assim, o seu testemunho aviva e preserva a mem\u00f3ria das v\u00edtimas, para que a consci\u00eancia humana se torne cada vez mais forte contra toda a vontade de dom\u00ednio e destrui\u00e7\u00e3o. \u00abN\u00e3o podemos permitir que as atuais e as novas gera\u00e7\u00f5es percam a mem\u00f3ria do que aconteceu, aquela mem\u00f3ria que \u00e9 garantia e est\u00edmulo para construir um futuro mais justo e fraterno\u00bb[4].<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Como eles, h\u00e1 muitos, em todas as partes do mundo, que oferecem \u00e0s gera\u00e7\u00f5es futuras o servi\u00e7o imprescind\u00edvel da mem\u00f3ria, que deve ser preservada n\u00e3o apenas para evitar que se voltem a cometer os mesmos erros ou se reproponham os esquemas ilus\u00f3rios do passado, mas tamb\u00e9m para que a mem\u00f3ria, fruto da experi\u00eancia, constitua a raiz e sugira a vereda para as op\u00e7\u00f5es de paz presentes e futuras.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Mais ainda, a mem\u00f3ria \u00e9 o horizonte da esperan\u00e7a: muitas vezes, na escurid\u00e3o das guerras e dos conflitos, a lembran\u00e7a mesmo dum pequeno gesto de solidariedade recebida pode inspirar op\u00e7\u00f5es corajosas e at\u00e9 heroicas, pode colocar em movimento novas energias e reacender nova esperan\u00e7a nos indiv\u00edduos e nas comunidades.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Abrir e tra\u00e7ar um caminho de paz \u00e9 um desafio muito complexo, pois os interesses em jogo, nas rela\u00e7\u00f5es entre pessoas, comunidades e na\u00e7\u00f5es, s\u00e3o m\u00faltiplos e contradit\u00f3rios. \u00c9 preciso, antes de mais nada, fazer apelo \u00e0 consci\u00eancia moral e \u00e0 vontade pessoal e pol\u00edtica. Com efeito, a paz alcan\u00e7a-se no mais fundo do cora\u00e7\u00e3o humano, e a vontade pol\u00edtica deve ser incessantemente revigorada para abrir novos processos que reconciliem e unam pessoas e comunidades.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">O mundo n\u00e3o precisa de palavras vazias, mas de testemunhas convictas, artes\u00e3os da paz abertos ao di\u00e1logo sem exclus\u00f5es nem manipula\u00e7\u00f5es. De facto, s\u00f3 se pode chegar verdadeiramente \u00e0 paz quando houver um convicto di\u00e1logo de homens e mulheres que buscam a verdade mais al\u00e9m das ideologias e das diferentes opini\u00f5es. A paz \u00e9 uma constru\u00e7\u00e3o que \u00abdeve estar constantemente a ser edificada\u00bb[5], um caminho que percorremos juntos procurando sempre o bem comum e comprometendo-nos a manter a palavra dada e a respeitar o direito. Na escuta m\u00fatua, podem crescer tamb\u00e9m o conhecimento e a estima do outro, at\u00e9 ao ponto de reconhecer no inimigo o rosto dum irm\u00e3o.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Por conseguinte, o processo de paz \u00e9 um empenho que se prolonga no tempo. \u00c9 um trabalho paciente de busca da verdade e da justi\u00e7a, que honra a mem\u00f3ria das v\u00edtimas e abre, passo a passo, para uma esperan\u00e7a comum, mais forte que a vingan\u00e7a. Num Estado de direito, a democracia pode ser um paradigma significativo deste processo, se estiver baseada na justi\u00e7a e no compromisso de tutelar os direitos de cada um, especialmente se vulner\u00e1vel ou marginalizado, na busca cont\u00ednua da verdade[6]. Trata-se duma constru\u00e7\u00e3o social em cont\u00ednua elabora\u00e7\u00e3o, para a qual cada um presta responsavelmente a pr\u00f3pria contribui\u00e7\u00e3o, a todos os n\u00edveis da comunidade local, nacional e mundial.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Como assinalava o Papa S\u00e3o Paulo VI, \u00aba dupla aspira\u00e7\u00e3o \u2013 \u00e0 igualdade e \u00e0 participa\u00e7\u00e3o \u2013 procura promover um tipo de sociedade democr\u00e1tica. (&#8230;). Isto, de per si, j\u00e1 diz bem qual a import\u00e2ncia de uma educa\u00e7\u00e3o para a vida em sociedade, em que, para al\u00e9m da informa\u00e7\u00e3o sobre os direitos de cada um, seja recordado tamb\u00e9m o seu necess\u00e1rio correlativo: o reconhecimento dos deveres de cada um em rela\u00e7\u00e3o aos outros. O sentido e a pr\u00e1tica do dever s\u00e3o, por sua vez, condicionados pelo dom\u00ednio de si mesmo, pela aceita\u00e7\u00e3o das responsabilidades e das limita\u00e7\u00f5es impostas ao exerc\u00edcio da liberdade do indiv\u00edduo ou do grupo\u00bb[7].<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Pelo contr\u00e1rio, a fratura entre os membros duma sociedade, o aumento das desigualdades sociais e a recusa de empregar os meios para um desenvolvimento humano integral colocam em perigo a prossecu\u00e7\u00e3o do bem comum. Inversamente, o trabalho paciente, baseado na for\u00e7a da palavra e da verdade, pode despertar nas pessoas a capacidade de compaix\u00e3o e solidariedade criativa.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Na nossa experi\u00eancia crist\u00e3, fazemos constantemente mem\u00f3ria de Cristo, que deu a sua vida pela nossa reconcilia\u00e7\u00e3o (cf. Rm 5, 6-11). A Igreja participa plenamente na busca duma ordem justa, continuando a servir o bem comum e a alimentar a esperan\u00e7a da paz, atrav\u00e9s da transmiss\u00e3o dos valores crist\u00e3os, do ensinamento moral e das obras sociais e educacionais.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>3. A paz, caminho de reconcilia\u00e7\u00e3o na comunh\u00e3o fraterna<\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">A B\u00edblia, particularmente atrav\u00e9s da palavra dos profetas, chama as consci\u00eancias e os povos \u00e0 alian\u00e7a de Deus com a humanidade. Trata-se de abandonar o desejo de dominar os outros e aprender a olhar-se mutuamente como pessoas, como filhos de Deus, como irm\u00e3os. O outro nunca h\u00e1 de ser circunscrito \u00e0quilo que p\u00f4de ter dito ou feito, mas deve ser considerado pela promessa que traz em si mesmo. Somente escolhendo a senda do respeito \u00e9 que ser\u00e1 poss\u00edvel romper a espiral da vingan\u00e7a e empreender o caminho da esperan\u00e7a.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Guia-nos a passagem do Evangelho que reproduz o seguinte di\u00e1logo entre Pedro e Jesus: \u00ab\u201cSenhor, se o meu irm\u00e3o me ofender, quantas vezes lhe deverei perdoar? At\u00e9 sete vezes?\u201d Jesus respondeu: \u201cN\u00e3o te digo at\u00e9 sete vezes, mas at\u00e9 setenta vezes sete\u201d\u00bb (Mt 18, 21-22). Este caminho de reconcilia\u00e7\u00e3o convida-nos a encontrar no mais fundo do nosso cora\u00e7\u00e3o a for\u00e7a do perd\u00e3o e a capacidade de nos reconhecermos como irm\u00e3os e irm\u00e3s. Aprender a viver no perd\u00e3o aumenta a nossa capacidade de nos tornarmos mulheres e homens de paz.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">O que \u00e9 verdade em rela\u00e7\u00e3o \u00e0 paz na esfera social, \u00e9 verdadeiro tamb\u00e9m no campo pol\u00edtico e econ\u00f3mico, pois a quest\u00e3o da paz permeia todas as dimens\u00f5es da vida comunit\u00e1ria: nunca haver\u00e1 paz verdadeira, se n\u00e3o formos capazes de construir um sistema econ\u00f3mico mais justo. Como escreveu Bento XVI, \u00aba vit\u00f3ria sobre o subdesenvolvimento exige que se atue n\u00e3o s\u00f3 sobre a melhoria das transa\u00e7\u00f5es fundadas sobre o interc\u00e2mbio, nem apenas sobre as transfer\u00eancias das estruturas assistenciais de natureza p\u00fablica, mas sobretudo sobre a progressiva abertura, em contexto mundial, para formas de atividade econ\u00f3mica caraterizadas por quotas de gratuidade e de comunh\u00e3o\u00bb[8].<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>4. A paz, caminho de convers\u00e3o ecol\u00f3gica<\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\u00abSe \u00e0s vezes uma m\u00e1 compreens\u00e3o dos nossos princ\u00edpios nos levou a justificar o abuso da natureza, ou o dom\u00ednio desp\u00f3tico do ser humano sobre a cria\u00e7\u00e3o, ou as guerras, a injusti\u00e7a e a viol\u00eancia, n\u00f3s, crentes, podemos reconhecer que ent\u00e3o fomos infi\u00e9is ao tesouro de sabedoria que dev\u00edamos guardar\u00bb[9].<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Vendo as consequ\u00eancias da nossa hostilidade contra os outros, da falta de respeito pela casa comum e da explora\u00e7\u00e3o abusiva dos recursos naturais \u2013 considerados como instrumentos \u00fateis apenas para o lucro de hoje, sem respeito pelas comunidades locais, pelo bem comum e pela natureza \u2013, precisamos duma convers\u00e3o ecol\u00f3gica.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">O S\u00ednodo recente sobre a Amaz\u00f3nia impele-nos a dirigir, de forma renovada, o apelo em prol duma rela\u00e7\u00e3o pac\u00edfica entre as comunidades e a terra, entre o presente e a mem\u00f3ria, entre as experi\u00eancias e as esperan\u00e7as.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Este caminho de reconcilia\u00e7\u00e3o inclui tamb\u00e9m escuta e contempla\u00e7\u00e3o do mundo que nos foi dado por Deus, para fazermos dele a nossa casa comum. De facto, os recursos naturais, as numerosas formas de vida e a pr\u00f3pria Terra foram-nos confiados para ser \u00abcultivados e guardados\u00bb (cf. Gn 2, 15) tamb\u00e9m para as gera\u00e7\u00f5es futuras, com a participa\u00e7\u00e3o respons\u00e1vel e diligente de cada um. Al\u00e9m disso, temos necessidade duma mudan\u00e7a nas convic\u00e7\u00f5es e na perspectiva, que nos abra mais ao encontro com o outro e \u00e0 recep\u00e7\u00e3o do dom da cria\u00e7\u00e3o, que reflete a beleza e a sabedoria do seu Art\u00edfice.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">De modo particular brotam daqui motiva\u00e7\u00f5es profundas e um novo modo de habitar na casa comum, de convivermos uns e outros com as pr\u00f3prias diversidades, de celebrar e respeitar a vida recebida e partilhada, de nos preocuparmos com condi\u00e7\u00f5es e modelos de sociedade que favore\u00e7am o desabrochar e a perman\u00eancia da vida no futuro, de desenvolver o bem comum de toda a fam\u00edlia humana.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Por conseguinte a convers\u00e3o ecol\u00f3gica, a que apelamos, leva-nos a uma nova perspectiva sobre a vida, considerando a generosidade do Criador que nos deu a Terra e nos chama \u00e0 jubilosa sobriedade da partilha. Esta convers\u00e3o deve ser entendida de maneira integral, como uma transforma\u00e7\u00e3o das rela\u00e7\u00f5es que mantemos com as nossas irm\u00e3s e irm\u00e3os, com os outros seres vivos, com a cria\u00e7\u00e3o na sua riqu\u00edssima variedade, com o Criador que \u00e9 origem de toda a vida. Para o crist\u00e3o, uma tal convers\u00e3o exige \u00abdeixar emergir, nas rela\u00e7\u00f5es com o mundo que o rodeia, todas as consequ\u00eancias do encontro com Jesus\u00bb[10].<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>5. Obt\u00e9m-se tanto quanto se espera<\/strong>[11]<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">O caminho da reconcilia\u00e7\u00e3o requer paci\u00eancia e confian\u00e7a. N\u00e3o se obt\u00e9m a paz, se n\u00e3o a esperamos.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Trata-se, antes de mais nada, de acreditar na possibilidade da paz, de crer que o outro tem a mesma necessidade de paz que n\u00f3s. Nisto, pode-nos inspirar o amor de Deus por cada um de n\u00f3s, amor libertador, ilimitado, gratuito, incans\u00e1vel.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">O medo \u00e9, frequentemente, fonte de conflito. Por isso, \u00e9 importante ir al\u00e9m dos nossos temores humanos, reconhecendo-nos filhos necessitados diante d\u2019Aquele que nos ama e espera por n\u00f3s, como o Pai do filho pr\u00f3digo (cf. Lc 15, 11-24). A cultura do encontro entre irm\u00e3os e irm\u00e3s rompe com a cultura da amea\u00e7a. Torna cada encontro uma possibilidade e um dom do amor generoso de Deus. Faz-nos de guia para ultrapassarmos os limites dos nossos horizontes estreitos, procurando sempre viver a fraternidade universal, como filhos do \u00fanico Pai celeste.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Para os disc\u00edpulos de Cristo, este caminho \u00e9 apoiado tamb\u00e9m pelo sacramento da Reconcilia\u00e7\u00e3o, concedido pelo Senhor para a remiss\u00e3o dos pecados dos batizados. Este sacramento da Igreja, que renova as pessoas e as comunidades, convida a manter o olhar fixo em Jesus, que reconciliou \u00abtodas as coisas, pacificando pelo sangue da sua cruz, tanto as que est\u00e3o na terra como as que est\u00e3o no c\u00e9u\u00bb (Col 1, 20); e pede para depor toda a viol\u00eancia nos pensamentos, nas palavras e nas obras quer para com o pr\u00f3ximo quer para com a cria\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">A gra\u00e7a de Deus Pai oferece-se como amor sem condi\u00e7\u00f5es. Recebido o seu perd\u00e3o, em Cristo, podemos colocar-nos a caminho para ir oferec\u00ea-lo aos homens e mulheres do nosso tempo. Dia ap\u00f3s dia, o Esp\u00edrito Santo sugere-nos atitudes e palavras para nos tornarmos artes\u00e3os de justi\u00e7a e de paz.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Que o Deus da paz nos aben\u00e7oe e venha em nossa ajuda.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Que Maria, M\u00e3e do Pr\u00edncipe da paz e M\u00e3e de todos os povos da terra, nos acompanhe e apoie, passo a passo, no caminho da reconcilia\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">E que toda a pessoa que vem a este mundo possa conhecer uma exist\u00eancia de paz e desenvolver plenamente a promessa de amor e vida que traz em si.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Vaticano, 8 de dezembro de 2019.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>Franciscus<\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">[1] Bento XVI, Carta enc. Spe salvi, 30 de novembro de 2007, 1.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">[2] Discurso sobre as armas nucleares, Nagas\u00e1qui \u2013 Parque \u00abAtomic Bomb Hypocenter\u00bb, 24 de novembro de 2019.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">[3] Cf. Francisco, Homilia em Lampedusa, 8 de julho de 2013.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">[4] Francisco, Discurso sobre a Paz, Hiroxima \u2013 Memorial da Paz, 24 de novembro de 2019.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">[5] Conc. Ecum. Vat. II, Const. past. Gaudium et spes, 78.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">[6] Cf. Bento XVI, Discurso aos dirigentes e membros das Associa\u00e7\u00f5es Crist\u00e3s dos Trabalhadores Italianos (ACLI), 27 de janeiro de 2006.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">[7] Carta ap. Octogesima adveniens, 14 de maio de 1971, 24.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">[8] Carta enc. Caritas in veritate, 29 de junho de 2009, 39.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">[9] Francisco, Carta enc. Laudato si\u2019, 24 de maio de 2015, 200.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">[10] Ibid., 217.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">[11] Cf. S\u00e3o Jo\u00e3o da Cruz, Noite Escura, II, 21, 8.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>O Vaticano publicou neste dia 12 de dezembro a mensagem do Papa Francisco por ocasi\u00e3o do Dia Mundial da Paz, que ser\u00e1 celebrado em 1\u00ba de janeiro de 2020, com o tema \u201cA paz como caminho de esperan\u00e7a: di\u00e1logo, reconcilia\u00e7\u00e3o e convers\u00e3o ecol\u00f3gica\u201d. 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