{"id":54492,"date":"2019-10-07T10:36:05","date_gmt":"2019-10-07T13:36:05","guid":{"rendered":"http:\/\/catolicanet.net\/wp-cnet\/?p=54492"},"modified":"2019-10-07T10:36:05","modified_gmt":"2019-10-07T13:36:05","slug":"cardeal-hummes-a-missao-da-igreja-hoje-na-amazonia-e-o-nucleo-central-do-sinodo","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/catolicanet.net\/wp-cnet\/cardeal-hummes-a-missao-da-igreja-hoje-na-amazonia-e-o-nucleo-central-do-sinodo\/","title":{"rendered":"Cardeal Hummes: &#8220;A miss\u00e3o da Igreja hoje na Amaz\u00f4nia \u00e9 o n\u00facleo central do S\u00ednodo&#8221;"},"content":{"rendered":"<div class=\"article__subTitle\" style=\"text-align: justify;\">O S\u00ednodo dos Bispos para a Amaz\u00f4nia tem como tema &#8220;Amaz\u00f4nia: Novos caminhos para a Igreja e para uma ecologia integral\u201d. &#8220;O tema ressoa grandes linhas pastorais caracter\u00edsticas do Papa Francisco. Definir novos caminhos. Desde o in\u00edcio de seu minist\u00e9rio papal, Francisco sublinha a necessidade de a Igreja caminhar&#8221;, disse o cardeal Hummes em seu discurso.<\/div>\n<div class=\"title__separator\" style=\"text-align: justify;\"><\/div>\n<div class=\"article__text\">\n<p style=\"text-align: justify;\"><b>Cidade do Vaticano<\/b><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">O relator-geral do S\u00ednodo para a Amaz\u00f4nia, cardeal Cl\u00e1udio Hummes, presidente da Rede Eclesial Pan-amaz\u00f4nica (REPAM), fez seu pronunciamento na abertura do S\u00ednodo, nesta segunda-feira (07\/10).<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Segue a \u00edntegra do texto.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">O tema do S\u00ednodo, que ora iniciamos, \u00e9 o seguinte: <b>\u201cAmaz\u00f4nia: Novos caminhos para a Igreja e para uma ecologia integral\u201d. <\/b>O tema ressoa grandes linhas pastorais caracter\u00edsticas do Papa Francisco. Definir novos caminhos. Desde o in\u00edcio de seu minist\u00e9rio papal, Francisco sublinha a necessidade de a Igreja caminhar. Ela n\u00e3o pode ficar sentada em casa,\u00a0 cuidando de si mesma, cercada de muros de prote\u00e7\u00e3o. Muito menos ainda, olhando para tr\u00e1s com certa nostalgia de tempos passados. Ela precisa abrir as portas, derrubar\u00a0 muros que a cercam e construir pontes, sair e p\u00f4r-se a caminho na hist\u00f3ria, nos tempos atuais de mudan\u00e7a de \u00e9poca, caminhando sempre pr\u00f3xima de todos, principalmente de quem vive nas periferias da humanidade.\u00a0 <b>Igreja \u201cem sa\u00edda\u201d. Para que sair? <\/b>Para acender luzes e aquecer cora\u00e7\u00f5es, que ajudem as pessoas, as comunidades, os pa\u00edses e a humanidade global a encontrar o sentido da vida e da hist\u00f3ria. <b>Essas luzes s\u00e3o principalmente o an\u00fancio da pessoa de Jesus Cristo, morto e ressuscitado e seu reino, bem como a pr\u00e1tica da miseric\u00f3rdia, da caridade e da solidariedade\u00a0 sobretudo para com os pobres, os sofridos, os esquecidos e descartados do mundo de hoje, os migrantes e os ind\u00edgenas.\u00a0<\/b><\/p>\n<div style=\"text-align: justify;\">\n<div class=\"article__embed article__embed--border embed_style\">\n<blockquote><p>\u201c Esse caminhar a torna fiel \u00e0 verdadeira tradi\u00e7\u00e3o. Uma coisa \u00e9 o tradicionalismo que fica preso no passado, outra \u00e9 a verdadeira tradi\u00e7\u00e3o que \u00e9 a hist\u00f3ria viva da Igreja, em que cada gera\u00e7\u00e3o, acolhendo o que lhe \u00e9 entregue pelas gera\u00e7\u00f5es anteriores como compreens\u00e3o e viv\u00eancia da f\u00e9 em Jesus Cristo, enriquece esta tradi\u00e7\u00e3o com sua pr\u00f3pria viv\u00eancia e compreens\u00e3o desta mesma f\u00e9 em Jesus Cristo no tempo atual. \u201d<\/p><\/blockquote>\n<\/div>\n<\/div>\n<p style=\"text-align: justify;\">Essas luzes: o an\u00fancio de Jesus Cristo e a pr\u00e1tica incans\u00e1vel da miseric\u00f3rdia, na tradi\u00e7\u00e3o viva da Igreja, indicam o caminho a seguir num caminhar inclusivo que convida, acolhe e encoraja a todos, sem exce\u00e7\u00e3o, a caminharem juntos como amigos e como irm\u00e3os, respeitando as nossas diferen\u00e7as, rumo ao futuro.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\u201cNovos caminhos\u201d. Novos. N\u00e3o ter medo do novo. Na <b>homilia de Pentecostes de 2013, o Papa Francisco<\/b> j\u00e1 afirmava: \u201cA novidade causa sempre um pouco de medo, porque nos sentimos mais seguros se temos tudo sob controle, se somos n\u00f3s a construir, programar, projetar a nossa vida de acordo com os nossos esquemas, as nossas seguran\u00e7as, os nossos gostos. (&#8230;) Temos medo de que Deus nos fa\u00e7a seguir novos caminhos, nos fa\u00e7a sair de nosso horizonte muitas vezes limitado, fechado, ego\u00edsta, para nos abrir aos seus horizontes. Mas, em toda hist\u00f3ria da salva\u00e7\u00e3o, quando Deus se revela, traz novidade \u2013 Deus traz sempre novidade -, transforma e pede para confiar nele\u201d. Na <b>Evangelii Gaudium<\/b> (n. 11), o Papa mostra Jesus Cristo como \u201ca eterna novidade\u201d. Ele \u00e9 sempre o novo. Ele \u00e9 sempre o mesmo, o novo, \u201contem, hoje e sempre\u201d (Heb 13,8) o novo. Por isso, a Igreja reza: \u201cEnviai, Senhor, o vosso Esp\u00edrito e tudo ser\u00e1 criado e renovareis a face da terra\u201d. Ent\u00e3o, n\u00e3o tenhamos medo do novo. N\u00e3o tenhamos medo de Cristo, o novo. Este s\u00ednodo procura novos caminhos.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">No seu discurso aos bispos brasileiros, durante a <b>Jornada Mundial da Juventude, no Rio de Janeiro, em 2013<\/b>,\u00a0 ao falar da Amaz\u00f4nia como \u201cteste decisivo, banco de prova para a Igreja e a sociedade brasileiras\u201d, o Papa prop\u00f5e \u201crelan\u00e7ar [ali, na Amaz\u00f4nia] a obra da Igreja\u201d, \u201cconsolidar o rosto amaz\u00f4nico da Igreja\u201d e \u201cformar clero aut\u00f3ctone\u201d, acrescentando: \u201cSobre isso, pe\u00e7o, por favor, para serem corajosos, para terem ousadia\u201d. Isso nos remete necessariamente \u00e0 hist\u00f3ria da Igreja na regi\u00e3o. Desde os prim\u00f3rdios da coloniza\u00e7\u00e3o da Amaz\u00f4nia, ali tamb\u00e9m estiveram mission\u00e1rios cat\u00f3licos, seja para dar assist\u00eancia aos colonizadores, seja para evangelizar os ind\u00edgenas, na \u00e9poca.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Assim come\u00e7ava a miss\u00e3o evangelizadora da Igreja na regi\u00e3o. Entre luzes e sombras \u2013 mas certamente com preval\u00eancia das luzes \u2013 gera\u00e7\u00f5es subsequentes de mission\u00e1rios e mission\u00e1rias, principalmente de Ordens e Congrega\u00e7\u00f5es religiosas, mas tamb\u00e9m de padres diocesanos e de leigos \u2013 com destaque para as mulheres &#8211;\u00a0 procuraram levar Jesus Cristo aos povos do territ\u00f3rio e constituir comunidades cat\u00f3licas. \u00c9 justo recordar, reconhecer e enaltecer, neste s\u00ednodo, a hist\u00f3ria heroica &#8211; e muitas vezes m\u00e1rtir &#8211; de todos os mission\u00e1rios e mission\u00e1rias do passado e tamb\u00e9m daqueles e daquelas de hoje na Pan-amaz\u00f4nia.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><b>Ao lado dos mission\u00e1rios, houve tamb\u00e9m sempre numerosas lideran\u00e7as leigas e ind\u00edgenas que deram testemunho heroico e por isso muitas vezes foram e ainda continuam a ser assassinadas. Deve-se ter presente tamb\u00e9m que a Igreja mission\u00e1ria da Amaz\u00f4nia se destacou\u00a0 atrav\u00e9s de sua hist\u00f3ria \u2013 e ainda hoje se destaca &#8211; com grandes e fundamentais servi\u00e7os para a popula\u00e7\u00e3o local na \u00e1rea da escolariza\u00e7\u00e3o, da sa\u00fade, do combate \u00e0 pobreza e \u00e0 viola\u00e7\u00e3o dos direitos humanos.\u00a0<\/b> Por outro lado, a hist\u00f3ria da Igreja na Pan-amaz\u00f4nia mostra que sempre houve grande car\u00eancia de recursos materiais e de mission\u00e1rios para um desenvolvimento pleno das comunidades, destacando-se a aus\u00eancia quase total da Eucaristia e de outros sacramentos essenciais para a viv\u00eancia crist\u00e3 cotidiana.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><b>O rosto amaz\u00f4nico da Igreja local deve ser consolidado, como disse o Papa Francisco no j\u00e1 citado discurso aos bispos brasileiros e mesmo seu rosto ind\u00edgena nas comunidades ind\u00edgenas, como exortou o Papa em Puerto Maldonado <\/b>(19.01.2018). Desde o an\u00fancio do s\u00ednodo, o Papa deixou claro que a rela\u00e7\u00e3o da Igreja com os povos ind\u00edgenas e com a floresta na Amaz\u00f4nia, \u00e9 um de seus temas centrais. De fato, <b>anunciando o s\u00ednodo e indicando sua finalidade, Francisco disse: <\/b><i>\u201cFinalidade principal desta convoca\u00e7\u00e3o \u00e9 encontrar novos caminhos para a evangeliza\u00e7\u00e3o daquela por\u00e7\u00e3o do Povo de Deus, sobretudo dos ind\u00edgenas, muitas vezes esquecidos e sem perspectiva de um futuro sereno, tamb\u00e9m por causa da floresta amaz\u00f4nica, pulm\u00e3o de import\u00e2ncia fundamental para o nosso planeta\u201d<\/i> (Vaticano, 15.10.17).<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">E em Puerto Maldonado, disse aos povos ind\u00edgenas: <i>\u201cQuis vir visitar-vos e escutar-vos, para estarmos juntos no cora\u00e7\u00e3o da Igreja, solidarizarmo-nos com os vossos desafios e, convosco, reafirmarmos uma op\u00e7\u00e3o sincera em prol da defesa da vida, defesa da terra e defesa das culturas\u201d. <\/i>Na fase da escuta sinodal, os povos ind\u00edgenas tem manifestado de muitos modos que querem o apoio da Igreja na defesa e promo\u00e7\u00e3o de seus direitos, na constru\u00e7\u00e3o de seu futuro e pedem que a Igreja seja uma aliada constante.<\/p>\n<div style=\"text-align: justify;\">\n<div class=\"article__embed article__embed--border embed_style\">\n<blockquote><p>\u201c De fato, a humanidade tem uma grande d\u00edvida para com os povos ind\u00edgenas nos diferentes continentes da terra e tamb\u00e9m na Amaz\u00f4nia. \u00c9 preciso que aos povos ind\u00edgenas seja devolvido e garantido o direito de serem sujeitos de sua hist\u00f3ria, protagonistas e n\u00e3o objetos do esp\u00edrito e pr\u00e1tica de colonialismo de quem quer que seja. Suas culturas, l\u00ednguas, hist\u00f3ria, identidade, espiritualidade constituem riquezas da humanidade e devem ser respeitadas, preservadas e inclu\u00eddas na cultura mundial. \u201d<\/p><\/blockquote>\n<\/div>\n<\/div>\n<p style=\"text-align: justify;\"><b>A miss\u00e3o da Igreja hoje na Amaz\u00f4nia \u00e9 o n\u00facleo central do s\u00ednodo. \u00c9 um s\u00ednodo da Igreja e para a Igreja. <\/b>N\u00e3o uma Igreja cerrada em si mesma, mas integrada na hist\u00f3ria e na realidade do territ\u00f3rio \u2013 no caso, a Amaz\u00f4nia \u2013 atenta aos gritos de socorro e \u00e0s aspira\u00e7\u00f5es da popula\u00e7\u00e3o e da \u201ccasa comum\u201d [a cria\u00e7\u00e3o],\u00a0 aberta ao di\u00e1logo, sobretudo ao di\u00e1logo inter-religioso e intercultural, acolhedora e desejosa de\u00a0 compartilhar um caminho sinodal com as outras Igrejas, religi\u00f5es, ci\u00eancia, governos, institui\u00e7\u00f5es, povos, comunidades e pessoas, respeitando as nossas diferen\u00e7as,\u00a0 no intuito de defender e promover a vida das popula\u00e7\u00f5es da \u00e1rea, especialmente dos povos origin\u00e1rios e a biodiversidade do territ\u00f3rio na regi\u00e3o amaz\u00f4nica.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Uma Igreja atualizada, \u201csemper reformanda\u201d,\u00a0 segundo a <b>Evangelii Gaudium<\/b>, isto \u00e9, uma Igreja em sa\u00edda, mission\u00e1ria, com an\u00fancio expl\u00edcito de Jesus Cristo, dialogante e acolhedora, que caminha junto e pr\u00f3xima das pessoas e comunidades, misericordiosa, pobre e para os pobres e com os pobres,\u00a0 e em consequ\u00eancia com uma op\u00e7\u00e3o preferencial pelos pobres, inculturada, intercultural e sempre mais sinodal. Uma Igreja de dimens\u00e3o mariana, alimentada com a devo\u00e7\u00e3o a Maria Sant\u00edssima, segundo muitos t\u00edtulos locais, em especial o de Maria de Nazar\u00e9, cuja festa em Bel\u00e9m do Par\u00e1 re\u00fane todos os anos milh\u00f5es de devotos e romeiros.\u00a0<b>A incultura\u00e7\u00e3o da f\u00e9 crist\u00e3 nas v\u00e1rias culturas dos povos<\/b> se imp\u00f5e, como disse S\u00e3o Jo\u00e3o Paulo II: \u201cEsta [a incultura\u00e7\u00e3o] constitui uma exig\u00eancia que marcou todo o seu [da Igreja] caminho hist\u00f3rico, mas hoje \u00e9 particularmente aguda e urgente\u201d (Redemptoris Missio, 52). Junto com a incultura\u00e7\u00e3o, a evangeliza\u00e7\u00e3o dos povos amaz\u00f4nicos exige tamb\u00e9m aten\u00e7\u00e3o a interculturalidade, pois ali s\u00e3o muitas e diversificadas as culturas, que contudo mant\u00e9m algumas ra\u00edzes comuns. <b>A tarefa da incultura\u00e7\u00e3o e da interculturalidade se realiza particularmente na liturgia, no di\u00e1logo inter-religioso e ecum\u00eanico, na piedade popular, na catequese, na conviv\u00eancia dialogal quotidiana com as popula\u00e7\u00f5es aut\u00f3ctones, nas obras sociais e caritativas, na vida consagrada, na pastoral urbana.<\/b><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Mas n\u00e3o se pode esquecer, entretanto, que hoje e h\u00e1 bastante tempo j\u00e1 a Igreja na Amaz\u00f4nia sofre de muita car\u00eancia de recursos materiais necess\u00e1rios para sua miss\u00e3o e com necessidade de aumentar seu potencial de comunica\u00e7\u00e3o (r\u00e1dio e Tv).<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Neste amplo contexto,\u00a0 <b>Igreja e ecologia integral no territ\u00f3rio est\u00e3o interligados. <\/b>Trata-se de uma Igreja consciente de que sua miss\u00e3o religiosa, em coer\u00eancia com sua f\u00e9 em Jesus Cristo, inclui necessariamente <b>\u201co cuidado da casa comum\u201d.<\/b> <b>Tal interliga\u00e7\u00e3o demonstra tamb\u00e9m que o grito da terra e o grito dos pobres na regi\u00e3o \u00e9 o mesmo grito.<\/b><\/p>\n<div style=\"text-align: justify;\">\n<div class=\"article__embed article__embed--border embed_style\">\n<blockquote><p>\u201c A vida na Amaz\u00f4nia talvez nunca tenha estado t\u00e3o amea\u00e7ada como hoje, \u201cpela destrui\u00e7\u00e3o e explora\u00e7\u00e3o ambiental, pela viola\u00e7\u00e3o sistem\u00e1tica dos direitos humanos elementares da popula\u00e7\u00e3o amaz\u00f4nica, de modo especial, a viola\u00e7\u00e3o dos direitos dos povos ind\u00edgenas, como o direito ao territ\u00f3rio, \u00e0 autodetermina\u00e7\u00e3o, \u00e0 demarca\u00e7\u00e3o dos territ\u00f3rios e \u00e0 consulta e ao consentimento pr\u00e9vios\u201d (IL,14). \u201d<\/p><\/blockquote>\n<\/div>\n<\/div>\n<p style=\"text-align: justify;\"><b>Segundo o processo de escuta sinodal da popula\u00e7\u00e3o, na Amaz\u00f4nia a amea\u00e7a \u00e0 vida deriva de interesses econ\u00f4micos e pol\u00edticos dos setores dominantes da sociedade atual, de maneira especial de empresas que extraem de modo predat\u00f3rio e irrespons\u00e1vel [legal ou ilegalmente] as riquezas do subsolo e da biodiversidade, muitas vezes em coniv\u00eancia ou com permissividade dos governos locais e nacionais e por vezes at\u00e9 com o consenso de alguma autoridade ind\u00edgena.<\/b><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><b>A consulta sinodal ainda registra que as comunidades consideram que a vida na Amaz\u00f4nia est\u00e1 amea\u00e7ada a) pela criminaliza\u00e7\u00e3o e assassinato de l\u00edderes e defensores do territ\u00f3rio; b) pela apropria\u00e7\u00e3o e privatiza\u00e7\u00e3o de bens da natureza, como a pr\u00f3pria \u00e1gua; c) por concess\u00f5es madeireiras legais e pela entrada de madeireiras ilegais; d) pela ca\u00e7a e pesca predat\u00f3rias, principalmente nos rios; e) por megaprojetos: hidrel\u00e9tricas, concess\u00f5es florestais, desmatamento para produzir monoculturas, estradas e ferrovias, projetos mineiros e petroleiros; f) pela contamina\u00e7\u00e3o ocasionada por todas as ind\u00fastrias extrativistas que causam problemas e enfermidades, principalmente para crian\u00e7as e jovens; g) pelo narcotr\u00e1fico; h) pelos consequentes problemas sociais associados a tais amea\u00e7as, como alcoolismo, viol\u00eancia contra a mulher, prostitui\u00e7\u00e3o de menores, tr\u00e1fico de pessoas, perda de sua cultura origin\u00e1ria e de sua identidade (idioma, pr\u00e1ticas espirituais e costumes) e de todas as condi\u00e7\u00f5es de pobreza \u00e0s quais est\u00e3o condenados os povos da Amaz\u00f4nia\u201d <\/b>(IL,15).<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><b>A ecologia integral nos manifesta que tudo est\u00e1 interligado, os seres humanos e a natureza. Todos os seres vivos do Planeta s\u00e3o filhos da terra.<\/b> O corpo humano \u00e9 feito do \u201cbarro da terra\u201d, no qual Deus \u201csoprou\u201d o esp\u00edrito de vida, como diz a B\u00edblia (cf. Gen 2,7). Em consequ\u00eancia, tudo o que se faz em preju\u00edzo da terra, se faz em preju\u00edzo dos seres humanos e de todos os outros seres vivos da terra. Isso mostra que n\u00e3o se pode tratar separadamente ecologia, economia, cultura etc. <b>A Laudato si\u2019 afirma que precisam ser pensadas juntas: uma ecologia ambiental, econ\u00f4mica, social, cultural <\/b>(cf. LS, cap. V). O pr\u00f3prio Filho de Deus se encarnou e seu corpo humano vem da terra. Neste corpo, Jesus morreu por n\u00f3s na cruz pIara vencer o mal e a morte, ressuscitou dos mortos e est\u00e1 sentado \u00e0 direita de Deus Pai na gl\u00f3ria eterna e imortal. Diz o ap\u00f3stolo Paulo: \u201cFoi n\u2019Ele [em Jesus ressuscitado] que aprouve a Deus fazer habitar toda a plenitude, por Ele e para Ele, reconciliar todas as coisas (&#8230;) tanto as que est\u00e3o na terra como as que est\u00e3o nos c\u00e9us\u201d(Cl 1,19-20). A <b>Laudato si\u2019<\/b> acrescenta, dizendo: \u201cIsto lan\u00e7a-nos para o fim dos tempos, quando o Filho entregar ao Pai todas as coisas \u201ca fim de que Deus seja tudo em todos (1Cor 15,28). Assim, as criaturas deste mundo j\u00e1 n\u00e3o nos aparecem como realidade meramente natural, porque o Ressuscitado as envolve misteriosamente e as guia para um destino de plenitude\u201d (LS, 100). Assim, o pr\u00f3prio Deus se interligou definitivamente com toda sua cria\u00e7\u00e3o. Este mist\u00e9rio se torna tamb\u00e9m presente sacramentalmente na Eucaristia.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><b>O\u00a0 s\u00ednodo se realiza num contexto de uma grave e urgente crise clim\u00e1tica e ecol\u00f3gica que atinge todo o nosso planeta. O aquecimento global do planeta pelo efeito estufa gerou uma crise clim\u00e1tica sem precedentes, grave e urgente, como mostrou a Laudato si\u2019 e a COP21 de Paris, na qual foi assinado por praticamente todos os pa\u00edses do mundo o Acordo Clim\u00e1tico at\u00e9 hoje pouco implementado, apesar da urg\u00eancia. Ao mesmo tempo, ocorre no planeta uma devasta\u00e7\u00e3o, depreda\u00e7\u00e3o e degrada\u00e7\u00e3o galopante dos recursos da terra, promovidas por um paradigma tecnocr\u00e1tico globalizado, predat\u00f3rio e devastador, denunciado pela Laudato si\u2019. A terra n\u00e3o aguenta mais.\u00a0<\/b><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">A vasta realidade urbana da Amaz\u00f4nia, em parte consequ\u00eancia das migra\u00e7\u00f5es internas, e a presen\u00e7a da Igreja nas cidades \u00e9 outro tema central deste s\u00ednodo, <b>pois tamb\u00e9m a Igreja na cidade deve desenvolver e consolidar seu rosto amaz\u00f4nico.\u00a0<\/b> Ela n\u00e3o pode ser uma reprodu\u00e7\u00e3o da Igreja urbana de outras regi\u00f5es. Sua miss\u00e3o na Amaz\u00f4nia inclui o cuidado e a defesa da floresta amaz\u00f4nica e de seus povos: ind\u00edgenas, caboclos, ribeirinhos, quilombolas, pobres de todo tipo, pequenos agricultores, pescadores, seringueiros, quebradeiras de coco e outros, conforme a regi\u00e3o. Esta miss\u00e3o n\u00e3o ser\u00e1 certamente um peso, mas uma alegria que s\u00f3 o Evangelho oferece.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><b>As migra\u00e7\u00f5es, fen\u00f4meno mundial hoje, tamb\u00e9m marcaram os tempos atuais da Pan-amaz\u00f4nia, entre elas, tempos atr\u00e1s, a migra\u00e7\u00e3o dos haitianos, hoje a dos venezuelanos, mas sobretudo dos pr\u00f3prios ind\u00edgenas e outros segmentos pobres do interior da regi\u00e3o.<\/b> A Igreja tem feito um enorme esfor\u00e7o de acolhimento. Mas \u00e9 preciso destacar a migra\u00e7\u00e3o de ind\u00edgenas \u00e0 cidade. Milhares e milhares. Eles\u00a0 necessitam de uma l\u00facida e misericordiosa aten\u00e7\u00e3o para n\u00e3o perecerem culturalmente e mesmo humanamente na cidade, enfrentando mis\u00e9ria, descaso, desprezo e rejei\u00e7\u00e3o e consequentemente provando um vazio interior desesperador. \u201c<b>Na cidade o ind\u00edgena \u00e9 um migrante, um ser humano sem-terra e o sobrevivente de uma batalha hist\u00f3rica pela demarca\u00e7\u00e3o de sua terra, com sua identidade cultural em crise\u201d (IL, 132). De muitas formas ele \u00e9 for\u00e7ado \u00e0 invisibilidade.\u00a0<\/b><\/p>\n<div style=\"text-align: justify;\">\n<div class=\"article__embed article__embed--border embed_style\">\n<blockquote><p>\u201c O grito muitas vezes silencioso, por\u00e9m n\u00e3o menos real e pungente, dos ind\u00edgenas urbanos precisa ser escutado. A Igreja na cidade enfrenta tamb\u00e9m toda a problem\u00e1tica social e religiosa de suas periferias pobres e da evangeliza\u00e7\u00e3o de todos os segmentos da popula\u00e7\u00e3o urbana. \u201d<\/p><\/blockquote>\n<\/div>\n<\/div>\n<p style=\"text-align: justify;\"><b>Outra quest\u00e3o \u00e9 a car\u00eancia de presb\u00edteros a servi\u00e7o das comunidades locais no territ\u00f3rio, com a consequente falta da Eucaristia ao menos dominical e de outros sacramentos, bem como a falta de presen\u00e7a dos padres encarregados, que resulta numa pastoral de visitas espor\u00e1dicas e n\u00e3o de uma adequada pastoral de presen\u00e7a quotidiana<\/b>. Ora, a Igreja vive da Eucaristia e a Eucaristia edifica a Igreja (S. Jo\u00e3o Paulo II). A participa\u00e7\u00e3o na celebra\u00e7\u00e3o da Eucaristia, ao menos aos domingos, \u00e9 decisiva para o desenvolvimento progressivo e pleno\u00a0 das comunidades crist\u00e3s e para a viv\u00eancia concreta da Palavra de Deus na vida das pessoas. Ser\u00e1 necess\u00e1rio definir novos caminhos para o futuro. Na fase da escuta, as comunidades locais, mission\u00e1rios e comunidades ind\u00edgenas pediram que, reafirmando o grande valor do carisma do celibato na Igreja, contudo, diante da gritante necessidade da imensa maioria das comunidades cat\u00f3licas na Amaz\u00f4nia, ali se abra caminho para ordena\u00e7\u00e3o presbiteral de homens casados, que residam nas comunidades. Ao mesmo tempo, diante do grande n\u00famero de mulheres que hoje dirigem comunidades na Amaz\u00f4nia, se reconhe\u00e7a este servi\u00e7o e se procure consolid\u00e1-lo com um minist\u00e9rio adequado de mulheres dirigentes de comunidade.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><b>Outro cap\u00edtulo importante \u00e9 a quest\u00e3o da \u00e1gua, \u201cporque \u00e9 indispens\u00e1vel para a vida humana e para sustentar os ecossistemas terrestres e aqu\u00e1ticos\u201d<\/b> (LS 28). A escassez de \u00e1gua pot\u00e1vel e segura \u00e9 uma amea\u00e7a crescente em todo o planeta. \u201cA quest\u00e3o n\u00e3o \u00e9 marginal, mas fundamental e urgente (&#8230;). Toda pessoa humana tem direito ao acesso de \u00e1gua pot\u00e1vel e segura; este \u00e9 um direito humano b\u00e1sico, e uma das quest\u00f5es nodais no mundo atual\u201d, afirmou o Papa Francisco em discurso de 24 de fevereiro de 2017. A Amaz\u00f4nia \u00e9\u00a0 uma das mais volumosas reservas de \u00e1gua doce do planeta. \u201dA bacia do rio Amazonas e as florestas tropicais que a circundam nutrem os solos e, atrav\u00e9s da reciclagem de umidade, regulam os ciclos de \u00e1gua, energia e carbono a n\u00edvel planet\u00e1rio. O rio Amazonas sozinho lan\u00e7a no oceano (&#8230;) 15% do total de \u00e1gua doce do planeta. Por isso, a Amaz\u00f4nia \u00e9 essencial para a distribui\u00e7\u00e3o das chuvas em outras regi\u00f5es remotas da Am\u00e9rica do Sul e contribui para os grandes movimentos de ar ao redor do planeta. Al\u00e9m disso, alimenta a natureza, a vida e as culturas de milhares de comunidades ind\u00edgenas, camponesas, afrodescendentes, tanto ribeirinhas como urbanas (&#8230;). A superabund\u00e2ncia natural de \u00e1gua, calor e umidade faz com que os ecossistemas da Amaz\u00f4nia abriguem cerca de 10 a 15% da biodiversidade terrestre\u201d (IL, 9). Entra aqui tamb\u00e9m a fun\u00e7\u00e3o da floresta e dos povos ind\u00edgenas. De fato, na Amaz\u00f4nia a floresta cuida da \u00e1gua, a \u00e1gua cuida da floresta e juntas produzem a biodiversidade, sendo os povos ind\u00edgenas os milenares guardi\u00f5es deste sistema. Por isso, a Igreja sente-se tamb\u00e9m chamada a cuidar da \u00e1gua da \u201ccasa comum\u201d, amea\u00e7ada na Amaz\u00f4nia principalmente pelo aquecimento clim\u00e1tico, pelo desmatamento e pela contamina\u00e7\u00e3o causada pela minera\u00e7\u00e3o e agrot\u00f3xicos.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Finalizando, <b>proponho para a din\u00e2mica dos trabalhos desta assembleia sinodal alguns n\u00facleos generativos<\/b>: a) Igreja em sa\u00edda na Amaz\u00f4nia e seus novos caminhos; b) O rosto amaz\u00f4nico da Igreja: incultura\u00e7\u00e3o e interculturalidade em \u00e2mbito mission\u00e1rio-eclesial; c) A ministerialidade da Igreja na Amaz\u00f4nia: presbiterado, diaconato, minist\u00e9rios, o papel da mulher; d) A a\u00e7\u00e3o da Igreja no cuidado com a Casa Comum: a escuta da Terra e dos pobres; ecologia integral ambiental, econ\u00f4mica, social e cultural; e) A Igreja amaz\u00f4nica na realidade urbana; f) A quest\u00e3o da \u00e1gua; g) outros.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Termino, convidando a todos para <b>deixarem-se guiar pelo Esp\u00edrito Santo nestes dias do s\u00ednodo.<\/b> Deixem-se envolver no manto da M\u00e3e de Deus e Rainha da Amaz\u00f4nia. N\u00e3o deixemos que nos ven\u00e7a a auto-referencialidade, mas sim a miseric\u00f3rdia diante do grito dos pobres e da terra. Ser\u00e1 necess\u00e1ria muita ora\u00e7\u00e3o, medita\u00e7\u00e3o e discernimento, al\u00e9m de uma pr\u00e1tica concreta de comunh\u00e3o eclesial e esp\u00edrito sinodal. Este s\u00ednodo \u00e9 como uma mesa que Deus preparou para os seus pobres e nos pede a n\u00f3s que\u00a0 sejamos aqueles que servem \u00e0 mesa.<\/p>\n<\/div>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>O S\u00ednodo dos Bispos para a Amaz\u00f4nia tem como tema &#8220;Amaz\u00f4nia: Novos caminhos para a Igreja e para uma ecologia integral\u201d. &#8220;O tema ressoa grandes linhas pastorais caracter\u00edsticas do Papa Francisco. Definir novos caminhos. 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