{"id":53337,"date":"2019-09-06T09:20:41","date_gmt":"2019-09-06T12:20:41","guid":{"rendered":"http:\/\/catolicanet.net\/wp-cnet\/?p=53337"},"modified":"2019-09-06T09:20:41","modified_gmt":"2019-09-06T12:20:41","slug":"homilia-do-papa-francisco-na-missa-celebrada-em-mocambique","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/catolicanet.net\/wp-cnet\/homilia-do-papa-francisco-na-missa-celebrada-em-mocambique\/","title":{"rendered":"Homilia do Papa Francisco na Missa celebrada em Mo\u00e7ambique"},"content":{"rendered":"<p>O Papa Francisco presidiu nesta sexta-feira, 6 de setembro, a Santa Missa no Est\u00e1dio Zimpeto, em Maputo, diante de 60 mil pessoas, \u00faltimo evento de sua visita apost\u00f3lica a Mo\u00e7ambique antes de continuar sua viagem \u00e0 \u00c1frica.<\/p>\n<p>Em sua homilia, o Santo Padre falou da reconcilia\u00e7\u00e3o, da luta contra a pobreza, da deteriora\u00e7\u00e3o do meio ambiente e da explora\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>\u201cJesus quer encerrar para sempre a pr\u00e1tica t\u00e3o usual \u2013 ontem como hoje \u2013 de ser crist\u00e3o e viver sob a lei de tali\u00e3o. N\u00e3o se pode pensar o futuro, construir uma na\u00e7\u00e3o, uma sociedade sustentada na \u2018equidade\u2019 da viol\u00eancia. N\u00e3o posso seguir Jesus, se a ordem que promovo e vivo \u00e9 \u2018olho por olho, dente por dente\u2019\u201d.<\/p>\n<p>A seguir, a homilia completa do Papa Francisco:<\/p>\n<p>Amados irm\u00e3os e irm\u00e3s!<\/p>\n<p>Ouvimos no Evangelho de Lucas uma passagem do Serm\u00e3o da Plan\u00edcie. Depois de escolher os seus disc\u00edpulos e ter proclamado as Bem-aventuran\u00e7as, Jesus acrescenta: \u00abDigo-vos a v\u00f3s que Me escutais: \u201cAmai os vossos inimigos\u201d\u00bb (Lc 6, 27). Uma palavra dirigida hoje tamb\u00e9m a n\u00f3s, que O escutamos neste Est\u00e1dio.<\/p>\n<div class=\"ad_inline\"><\/div>\n<p>Di-lo com clareza, simplicidade e firmeza tra\u00e7ando uma senda, um caminho estreito que requer algumas virtudes. Porque Jesus n\u00e3o \u00e9 um idealista, que ignora a realidade; est\u00e1 a falar do inimigo concreto, do inimigo real, que descrevera na Bem-aventuran\u00e7a anterior (6, 22): aquele que nos odeia, expulsa, insulta e rejeita como infame.<\/p>\n<p>Muitos de v\u00f3s podem ainda contar, em primeira pessoa, hist\u00f3rias de viol\u00eancia, \u00f3dio e disc\u00f3rdias; alguns, em sua pr\u00f3pria carne; outros, de algu\u00e9m conhecido que j\u00e1 c\u00e1 n\u00e3o est\u00e1; e outros ainda pelo temor de que feridas do passado se repitam e tentem apagar o caminho de paz j\u00e1 percorrido, como em Cabo Delgado.<\/p>\n<p>Jesus n\u00e3o nos convida a um amor abstrato, et\u00e9reo ou te\u00f3rico, redigido em escrivaninhas para discursos. O caminho que nos prop\u00f5e \u00e9 o que Ele percorreu primeiro, o caminho que O fez amar aqueles que O tra\u00edram, julgaram injustamente, aqueles que O matariam.<\/p>\n<p>\u00c9 dif\u00edcil falar de reconcilia\u00e7\u00e3o, quando ainda est\u00e3o vivas as feridas causadas durante tantos anos de disc\u00f3rdia, ou convidar a dar um passo de perd\u00e3o que n\u00e3o signifique ignorar o sofrimento nem pedir que se cancele a mem\u00f3ria ou os ideais (cf. Francisco, Exort. ap. Evangelii gaudium, 100). Mesmo assim, Jesus convida a amar e a fazer o bem. E isto \u00e9 muito mais do que ignorar a pessoa que nos prejudicou ou esfor\u00e7ar-se por que n\u00e3o se cruzem as nossas vidas: \u00e9 um mandato que visa uma benevol\u00eancia ativa, desinteressada e extraordin\u00e1ria para com aqueles que nos feriram. Mas Jesus n\u00e3o fica por a\u00ed; pede-nos tamb\u00e9m que os aben\u00e7oemos e rezemos por eles; isto \u00e9, que o nosso falar deles seja um bendizer, gerador de vida e n\u00e3o de morte, que pronunciemos os seus nomes n\u00e3o para insulto ou vingan\u00e7a, mas para inaugurar um novo v\u00ednculo que leve \u00e0 paz. Alta \u00e9 a medida que o Mestre nos prop\u00f5e!<\/p>\n<p>Com tal convite, Jesus quer encerrar para sempre a pr\u00e1tica t\u00e3o usual \u2013 ontem como hoje \u2013 de ser crist\u00e3o e viver sob a lei de tali\u00e3o. N\u00e3o se pode pensar o futuro, construir uma na\u00e7\u00e3o, uma sociedade sustentada na \u00abequidade\u00bb da viol\u00eancia. N\u00e3o posso seguir Jesus, se a ordem que promovo e vivo \u00e9 \u00abolho por olho, dente por dente\u00bb.<\/p>\n<p>Nenhuma fam\u00edlia, nenhum grupo de vizinhos ou uma etnia e menos ainda um pa\u00eds tem futuro, se o motor que os une, congrega e cobre as diferen\u00e7as \u00e9 a vingan\u00e7a e o \u00f3dio. N\u00e3o podemos p\u00f4r-nos de acordo e unir-nos para nos vingarmos, para fazermos \u00e0quele que foi violento o mesmo que ele nos fez, para planearmos ocasi\u00f5es de retalia\u00e7\u00e3o sob formatos aparentemente legais. \u00abAs armas e a repress\u00e3o violenta, mais do que dar solu\u00e7\u00e3o, criam novos e piores conflitos\u00bb (Ibid., 60). A \u00abequidade\u00bb da viol\u00eancia \u00e9 sempre uma espiral sem sa\u00edda; e o seu custo, muito alto. H\u00e1 outro caminho poss\u00edvel, porque \u00e9 crucial n\u00e3o esquecer que os nossos povos t\u00eam direito \u00e0 paz. V\u00f3s tendes direito \u00e0 paz.<\/p>\n<p>Para tornar o seu convite mais concreto e aplic\u00e1vel no dia a dia, Jesus prop\u00f5e uma primeira regra de ouro ao alcance de todos \u2013 \u00abcomo quereis que os outros vos fa\u00e7am, fazei-lho v\u00f3s tamb\u00e9m\u00bb (Lc 6, 31) \u2013 e ajuda-nos a descobrir o que \u00e9 mais importante nesta reciprocidade de trato: amar-nos, ajudar-nos e emprestar sem esperar nada em troca.<\/p>\n<p>\u00abAmar-nos\u00bb: diz-nos Jesus. E Paulo traduz isso como \u00abrevestir-nos de sentimentos de miseric\u00f3rdia e de bondade\u00bb (Col 3, 12). O mundo desconhecia \u2013 e continua sem conhecer \u2013 a virtude da miseric\u00f3rdia, da compaix\u00e3o, matando ou abandonando deficientes e idosos, eliminando feridos e enfermos, ou divertindo-se com os sofrimentos dos animais. Tamb\u00e9m n\u00e3o praticava a bondade, a amabilidade, que nos move a considerar o bem do pr\u00f3ximo t\u00e3o querido como o pr\u00f3prio.<\/p>\n<p>Superar os tempos de divis\u00e3o e viol\u00eancia sup\u00f5e n\u00e3o s\u00f3 um ato de reconcilia\u00e7\u00e3o ou a paz entendida como aus\u00eancia de conflito, implica tamb\u00e9m o compromisso di\u00e1rio de cada um de n\u00f3s ter um olhar atento e ativo que nos leva a tratar os outros com aquela miseric\u00f3rdia e bondade com que queremos ser tratados; miseric\u00f3rdia e bondade sobretudo com aqueles que, pela sua condi\u00e7\u00e3o, rapidamente acabam rejeitados e exclu\u00eddos. Trata-se de uma atitude, n\u00e3o de d\u00e9beis, mas de fortes, uma atitude de homens e mulheres que descobrem que n\u00e3o \u00e9 necess\u00e1rio maltratar, denegrir ou esmagar para se sentirem importantes; antes pelo contr\u00e1rio&#8230; E esta atitude \u00e9 a for\u00e7a prof\u00e9tica que o pr\u00f3prio Jesus Cristo nos ensinou ao querer identificar-Se com eles (cf. Mt 25, 35-45) e ao mostrar-nos que o servi\u00e7o \u00e9 o caminho.<\/p>\n<p>Mo\u00e7ambique possui um territ\u00f3rio cheio de riquezas naturais e culturais, mas paradoxalmente com uma quantidade enorme da sua popula\u00e7\u00e3o abaixo do n\u00edvel de pobreza. E por vezes parece que aqueles que se aproximam com o suposto desejo de ajudar, t\u00eam outros interesses. E \u00e9 triste quando isto se verifica entre irm\u00e3os da mesma terra, que se deixam corromper; \u00e9 muito perigoso aceitar que a corrup\u00e7\u00e3o seja o pre\u00e7o que temos de pagar pela ajuda externa.<\/p>\n<p>\u00abN\u00e3o seja assim entre v\u00f3s\u00bb (Mt 20, 26; cf. vv. 26-28). Com as suas palavras, Jesus impele-nos a ser protagonistas de outro trato: o do seu Reino. Aqui e agora, sementes de alegria e esperan\u00e7a, paz e reconcilia\u00e7\u00e3o. O que o Esp\u00edrito vem impelir n\u00e3o \u00e9 um ativismo transbordante, mas, antes de tudo, uma aten\u00e7\u00e3o prestada ao outro, reconhecendo-o e valorizando-o como irm\u00e3o at\u00e9 sentir a sua vida e a sua dor como a nossa vida e a nossa dor. Este \u00e9 o melhor term\u00f3metro para descobrir as ideologias de todo e qualquer tipo que tentam manipular os pobres e as situa\u00e7\u00f5es de injusti\u00e7a ao servi\u00e7o de interesses pol\u00edticos ou pessoais (cf. Evangelii gaudium, 199). S\u00f3 assim poderemos ser, no lugar onde nos encontrarmos, sementes e instrumentos de paz e reconcilia\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>Queremos que reine a paz nos nossos cora\u00e7\u00f5es e no palpitar do nosso povo. Queremos um futuro de paz. Queremos que \u00abreine em vossos cora\u00e7\u00f5es a paz de Cristo\u00bb (Col 3, 15), como justamente dizia a carta de S\u00e3o Paulo. Ele usa um verbo que vem do mundo do desporto e faz refer\u00eancia ao \u00e1rbitro que decide as coisas discut\u00edveis: \u00abque a paz de Cristo seja o \u00e1rbitro em vossos cora\u00e7\u00f5es\u00bb. Se a paz de Cristo \u00e9 o \u00e1rbitro nos nossos cora\u00e7\u00f5es, ent\u00e3o quando os sentimentos est\u00e3o em conflito e nos achamos indecisos entre dois sentidos opostos, \u00abfa\u00e7amos o jogo\u00bb de Cristo. A decis\u00e3o de Cristo manter-nos-\u00e1 no caminho do amor, na senda da miseric\u00f3rdia, na op\u00e7\u00e3o pelos mais pobres, na salvaguarda da natureza. No caminho da paz. Se Jesus for o \u00e1rbitro entre as emo\u00e7\u00f5es em conflito do nosso cora\u00e7\u00e3o, entre as decis\u00f5es complexas do nosso pa\u00eds, ent\u00e3o Mo\u00e7ambique tem garantido um futuro de esperan\u00e7a; ent\u00e3o o vosso pa\u00eds cantar\u00e1 \u00aba Deus, com gratid\u00e3o e de todo o cora\u00e7\u00e3o, salmos, hinos e c\u00e2nticos inspirados\u00bb (Col 3, 16).<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>O Papa Francisco presidiu nesta sexta-feira, 6 de setembro, a Santa Missa no Est\u00e1dio Zimpeto, em Maputo, diante de 60 mil pessoas, \u00faltimo evento de sua visita apost\u00f3lica a Mo\u00e7ambique antes de continuar sua viagem \u00e0 \u00c1frica. 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