{"id":5111,"date":"2014-09-29T13:13:07","date_gmt":"2014-09-29T16:13:07","guid":{"rendered":"http:\/\/catolicanet.net\/wp-cnet\/a-vida-da-fe-ela-e-encontro-com-deus\/"},"modified":"2017-04-06T14:41:50","modified_gmt":"2017-04-06T17:41:50","slug":"a-vida-da-fe-ela-e-encontro-com-deus","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/catolicanet.net\/wp-cnet\/a-vida-da-fe-ela-e-encontro-com-deus\/","title":{"rendered":"A vida da f\u00e9: ela \u00e9 encontro com Deus"},"content":{"rendered":"<p style=\"text-align: justify;\">\u201cO homem: olhando para o \u00edntimo de n\u00f3s mesmos, nos damos conta de que possu\u00edmos uma sede de infinito que nos impede a avan\u00e7ar sempre mais na dire\u00e7\u00e3o de Deus, o \u00fanico capaz de nos saciar. A vida da f\u00e9: ela \u00e9 encontro com Deus que nos fala, interv\u00e9m na hist\u00f3ria e nos transforma\u201d, (Papa Bento XVI, Audi\u00eancia Geral, 14\/11\/2012). <br \/> Em diversas entrevistas, Joseph Ratzinger descreveu a si mesmo como um \u201cagostiniano convicto\u201d e \u201cat\u00e9 certo ponto, um plat\u00f4nico\u201d. Quanto \u00e0 primeira afirma\u00e7\u00e3o, \u00e9 seguidor da m\u00e1xima agostiniana credo ut intelligam, de acordo com a qual a cren\u00e7a \u00e9 um pr\u00e9-requisito necess\u00e1rio para a busca do entendimento; \u201cassim como a cria\u00e7\u00e3o procede da raz\u00e3o e \u00e9 razo\u00e1vel, a f\u00e9 \u00e9, por assim dizer, a consuma\u00e7\u00e3o da cria\u00e7\u00e3o, e, por conseguinte, a prova para o entendimento.\u201d Quanto \u00e0 segunda afirma\u00e7\u00e3o, relativa \u00e0 influ\u00eancia plat\u00f4nica, como escreveu Ratzinger, ele acredita que \u201ch\u00e1 no homem, como que gravada, uma esp\u00e9cie de mem\u00f3ria, de recorda\u00e7\u00e3o de Deus, que \u00e9 necess\u00e1rio despertar\u201d. <br \/> Na sua alocu\u00e7\u00e3o do Angelus, na festividade de Santo Tom\u00e1s de Aquino do ano de 2007, Bento XVI disse que Santo Tom\u00e1s, com seu carisma como fil\u00f3sofo e te\u00f3logo, ofereceu um \u201ceficaz modelo de harmonia entre f\u00e9 e raz\u00e3o\u201d, e depois concluiu que \u201ca f\u00e9 pressup\u00f5e a raz\u00e3o e a aperfei\u00e7oa, e a raz\u00e3o, iluminada pela f\u00e9, encontra a for\u00e7a para se elevar at\u00e9 o conhecimento de Deus e das realidades espirituais\u201d, Para Ratzinger, f\u00e9 e raz\u00e3o, teologia e filosofia, est\u00e3o relacionadas simbioticamente e n\u00e3o extrinsecamente. A f\u00e9 sem a raz\u00e3o termina em fide\u00edsmo, mas a raz\u00e3o sem a f\u00e9 acaba em niilismo. <br \/> Escreve o cardeal George Pell, arcebispo de Sydney: \u201cNenhum Papa em toda a hist\u00f3ria tem publicado teologia de t\u00e3o alta qualidade, sobre tal variedade de temas, como o Papa Bento XVI.\u201d Bento XVI \u00e9 um homem de profunda espiritualidade, genu\u00edna virtude e grande erudi\u00e7\u00e3o, desenvolvimento ao longo de toda uma vida dedicada ao estudo e \u00e0 pesquisa. \u201cUm te\u00f3logo dos te\u00f3logos\u201d (1). <\/p>\n<p> O Cristianismo e uma Revela\u00e7\u00e3o<br \/>\u201cA grande dificuldade da aventura do cristianismo \u00e9 o que a faz bela\u201d. <br \/> Papa Bento XVI<\/p>\n<p> Em uma carta escrita para o Papa Paulo VI em 1965, Romano Guardini, que foi uma das influ\u00eancias seminais na forma\u00e7\u00e3o intelectual de Ratzinger, ao aconselhar o Pont\u00edfice disse que, na sua opini\u00e3o, \u201co que pode convencer as pessoas modernas n\u00e3o \u00e9 um cristianismo hist\u00f3rico ou psicol\u00f3gico, ou em permanente moderniza\u00e7\u00e3o, mas somente a mensagem sem restri\u00e7\u00f5es e n\u00e3o interrompida da Revela\u00e7\u00e3o\u201d. Este \u00e9 um resumo sucinto e correto do posicionamento de Ratzinger. Em sua obra Cooperadores da Verdade, publicada em 1992, Ratzinger escreveu: <br \/> \u201cO cristianismo n\u00e3o \u00e9 uma especula\u00e7\u00e3o filos\u00f3fica; n\u00e3o \u00e9 uma constru\u00e7\u00e3o do intelecto. O cristianismo n\u00e3o \u00e9 uma obra \u2018nossa\u2019, \u00e9 uma Revela\u00e7\u00e3o, uma mensagem que nos foi dada, e n\u00e3o temos nenhum direito de reconstru\u00ed-la ao nosso gosto\u201d. Este ponto foi retirado nos primeiros par\u00e1grafos da enc\u00edclica Deus caritas est, nos quais Ratzinger afirmou que o cristianismo n\u00e3o \u00e9 um sistema moral, mas um encontro com a Pessoa de Cristo, certamente com toda a Trindade. Ele concluiu que \u201c\u00e9 necess\u00e1ria uma afirma\u00e7\u00e3o intelectual pela qual a pessoa compreende a beleza e a estrutura org\u00e2nica da f\u00e9\u201d. <br \/> \u201cA f\u00e9, que toma consci\u00eancia do amor de Deus revelado no cora\u00e7\u00e3o trespassado de Jesus na Cruz, suscita por sua vez o amor, Aquele amor divino \u00e9 a luz fundamentalmente, a \u00fanica que ilumina incessantemente um mundo \u00e0s escuras e nos d\u00e1 a coragem de viver e agir\u201d, (Deus Caritas Est, n\u00ba 39).<br \/> \u201cComo se Deus Existisse\u201d (*)<br \/> Mas ao chegar nesse ponto, gostaria na minha qualidade de crente, de fazer uma proposta aos laicistas. Na \u00e9poca do iluminismo se tentou entender e definir as normas morais essenciais dizendo-se que elas seriam v\u00e1lidas \u201cetsi Deus non daretur\u201d, mesmo no caso de Deus n\u00e3o existir. Na contraposi\u00e7\u00e3o das confiss\u00f5es religiosas e na iminente crise da imagem de Deus, tentou-se manter os valores essenciais da moral por cima das contradi\u00e7\u00f5es e buscar uma evid\u00eancia que os tornasse independentes das m\u00faltiplas divis\u00f5es e incertezas das diferentes filosofias e confiss\u00f5es. Deste modo, se pretendia assegurar os fundamentos da conviv\u00eancia e, de uma forma mais geral, os fundamentos da humanidade. Naquele momento da hist\u00f3ria, pareceu que isso era poss\u00edvel, porque as grandes convic\u00e7\u00f5es de fundo surgidas no cristianismo em grande parte resistiam e pareciam ineg\u00e1veis. Mas agora j\u00e1 n\u00e3o \u00e9 assim. \u00a0\u00a0\u00a0 <br \/> A busca de tal certeza tranquilizadora, que pudesse permanecer incontestada independentemente de todas as diferen\u00e7as, falhou. Nem sequer o esfor\u00e7o, realmente grandioso, de Kant foi capaz de criar a necess\u00e1ria certeza compartilhada por todos. Kant havia negado que Deus possa ser conhecido no \u00e2mbito da raz\u00e3o pura, mas ao mesmo tempo, colocou Deus, a liberdade e a imortalidade como postulados da raz\u00e3o pr\u00e1tica, sem a qual, coerentemente, para ele n\u00e3o era poss\u00edvel a a\u00e7\u00e3o moral.<br \/> A situa\u00e7\u00e3o atual do mundo n\u00e3o nos leva talvez a pensar de novo que ele possa ter raz\u00e3o? Digo-o com outras palavras: a tentativa, levada ao extremo, de plasmar as coisas humanas menosprezando Deus completamente nos leva cada vez mais ao abismo, ao isolamento total do homem. Dever\u00edamos, ent\u00e3o, voltar ao axioma dos iluministas e dizer: mesmo quem n\u00e3o consiga encontrar o caminho da aceita\u00e7\u00e3o de Deus deveria buscar viver e dirigir sua vida \u201cVeluti si Deus daretur\u201d, como se Deus existisse. Este \u00e9 o conselho que dava Pascal a seus amigos n\u00e3o crentes; \u00e9 o conselho que quer\u00edamos tamb\u00e9m dar a nossos amigos que n\u00e3o creem. Deste modo, ningu\u00e9m fica limitado em sua liberdade, mas todas as nossas preocupa\u00e7\u00f5es encontram um sustent\u00e1culo e um crit\u00e9rio cuja necessidade \u00e9 urgente.<br \/> O que mais necessitamos nesse momento da hist\u00f3ria s\u00e3o homens que, atrav\u00e9s de uma f\u00e9 iluminada e vivida, fa\u00e7am que Deus seja cr\u00edvel neste mundo. O testemunho negativo de crist\u00e3os que falavam de Deus, e viviam de costas para ele, obscureceu a imagem de Deus e abriu a porta \u00e1 incredulidade. Necessitamos de homens que tenham o olhar fixo em Deus, aprendendo d\u2019Ele a verdadeira humanidade. Necessitamos de homens cujo intelecto seja iluminado pela luz de Deus e a quem Deus abra o cora\u00e7\u00e3o, de maneira que seu intelecto possa falar ao intelecto dos demais e seu cora\u00e7\u00e3o possa abrir o cora\u00e7\u00e3o dos demais.<br \/> Somente atrav\u00e9s de homens que tenham sido tocados por Deus \u00e9 que Deus pode retornar para perto dos homens. Necessitamos de homens como Bento de Nursia, que em um tempo de dissipa\u00e7\u00e3o e decad\u00eancia penetrou na solid\u00e3o mais profunda e, depois de todas as purifica\u00e7\u00f5es que deveria padecer, conseguiu se erguer at\u00e9 a luz, regressar e fundar Monte Cassino, a cidade sobre o monte que, com tantas ru\u00ednas, reuniu as for\u00e7as das quais se formou um mundo novo.<br \/> Deste modo, como Abra\u00e3o, Bento tornou-se pai de muitos povos. As recomenda\u00e7\u00f5es a seus monges apresentadas no final de sua \u201cRegra\u201d s\u00e3o indica\u00e7\u00f5es que nos mostram o caminho que conduz para o alto, al\u00e9m da crise e das ru\u00ednas.<br \/> \u201cAssim como h\u00e1 um mau zelo de amargura que separa de Deus e leva ao inferno, h\u00e1 tamb\u00e9m um zelo bom que separa dos v\u00edcios e conduz a Deus e \u00e1 vida eterna. Pratiquem, pois, os monges este zelo com a mais ardente caridade, isto \u00e9, adiantando-se para honrar uns aos outros; tolerem com suma paci\u00eancia suas debilidades, tanto corporais como morais (&#8230;) pratiquem a caridade fraterna castamente; temam a Deus com amor; (&#8230;) e absolutamente nada anteponham a Cristo, que nos poder\u00e1 conduzir todos juntos \u00e1 vida eterna\u201d (cap\u00edtulo 72).<br \/>(*) O Discurso de Subiaco. Proferido pelo Cardeal Ratzinger em 1 de abril de 2005,no Mosteiro de Santa Escol\u00e1stica, em Subiaco.<br \/>A Igreja<br \/> \u201cA Igreja n\u00e3o existe para nos manter ocupados, como uma institui\u00e7\u00e3o mundana, nem para se conservar, ela existe, para ser em todos n\u00f3s abertura e passagem para a vida eterna\u201d, Papa Bento XVI (2).<br \/> Finalmente, o Papa Bento XVI \u00e9 algu\u00e9m apaixonado pela Igreja, que para ele \u00e9 realmente a esposa m\u00edstica de Cristo. Ele considera que todos os modelos da Igreja derivados do mundo das grandes companhias de neg\u00f3cios s\u00e3o completamente defeituosos, e pensa que \u00e9 absurda qualquer sugest\u00e3o no sentido de que os ensinamentos da Igreja poderiam ser estabelecidos por comiss\u00f5es eleitas pelo voto. Sem duvida, ele est\u00e1 perfeitamente consciente, por uma quest\u00e3o de l\u00f3gica, de que se a hierarquia cat\u00f3lica n\u00e3o foi institu\u00edda por Cristo para transmitir e defender o dep\u00f3sito da f\u00e9 at\u00e9 o fim do mundo, ent\u00e3o os protestantes estariam certos ao criticar a hierarquia cat\u00f3lica. O congregacionalismo tem sua pr\u00f3pria l\u00f3gica interna, como tamb\u00e9m a tem o catolicismo, mas um catolicismo congregacionalista \u00e9 absurdo. O texto que segue abaixo \u00e9 um dos seus trechos favoritos da literatura, extra\u00eddo da obra intitulada A Marcha Radetzky, de Joseph Roth, uma vers\u00e3o eleg\u00edaca da vida no imp\u00e9rio austro-h\u00fangaro no crep\u00fasculo da gl\u00f3ria da dinastia dos Habsburgos. Atinge da forma mais certeira o cora\u00e7\u00e3o daquilo que anima a teologia do Papa Bento XVI:<br \/> \u201cNeste mundo decadente, a Igreja Romana \u00e9 a \u00fanica coisa que resta para dar forma \u00e0 vida, para ajudar a vida a conservar a sua forma. Sim, n\u00f3s poder\u00edamos ainda dizer que ela dispensa a forma&#8230; Ao identificar o pecado, ela j\u00e1 o est\u00e1 perdoando. Ela n\u00e3o admite a exist\u00eancia de seres humanos sem culpas: isto \u00e9 o realmente humano na Igreja&#8230; Deste modo, a Igreja Romana demonstra sua caracter\u00edstica mais eminente, a de ser clemente e perdoar\u201d.<br \/> A doutrina da sant\u00edssima f\u00e9 de Bento XVI capacita entender o mist\u00e9rio abissalmente: crer em Deus, no ser humano, na Igreja Corpo M\u00edstico de Cristo e no amor derramado em nossos cora\u00e7\u00f5es pelo Divino Esp\u00edrito Santo. Bento XVI \u00e9 o te\u00f3logo refinado como um Doutor da Igreja que defendeu a dogm\u00e1tica como \u00ednclito combatente pela dignidade da f\u00e9. Bento XVI passar\u00e1 \u00e0 Hist\u00f3ria como o papa da f\u00e9, da f\u00e9 como fundamento da intima comunh\u00e3o com Deus e em di\u00e1logo com a raz\u00e3o e com a cultura.<br \/>Pe. In\u00e1cio Jos\u00e9 do Vale<br \/>Professor de Hist\u00f3ria da Igreja<br \/>Instituto Teol\u00f3gico Bento XVI<br \/>Soci\u00f3logo em Ci\u00eancia da Religi\u00e3o<br \/>Doutor em Hist\u00f3ria do Cristianismo<br \/>E-mail: pe.inacio.jose@gmail.com<\/p>\n<p>Notas<br \/>(1)\u00a0\u00a0\u00a0 Rowland, Tracey. A F\u00e9 de Ratzinger. A teologia do Papa Bento XVI. Campinas, SP: Ecclesiae, 2013, pp. 15, 17, 200 e 210.<br \/>(2)\u00a0\u00a0\u00a0 Ratzinger. Cardeal Joseph. Compreender a Igreja hoje. Voca\u00e7\u00e3o para a comunh\u00e3o. Petr\u00f3polis, RJ: Vozes, 2006, p. 82.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>\u201cO homem: olhando para o \u00edntimo de n\u00f3s mesmos, nos damos conta de que possu\u00edmos uma sede de infinito que nos impede a avan\u00e7ar sempre mais na dire\u00e7\u00e3o de Deus, o \u00fanico capaz de nos saciar. 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