{"id":51013,"date":"2019-07-11T08:58:27","date_gmt":"2019-07-11T11:58:27","guid":{"rendered":"http:\/\/catolicanet.net\/wp-cnet\/?p=51013"},"modified":"2019-07-11T08:58:27","modified_gmt":"2019-07-11T11:58:27","slug":"o-dia-em-que-encontrei-uma-santa","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/catolicanet.net\/wp-cnet\/o-dia-em-que-encontrei-uma-santa\/","title":{"rendered":"O dia em que encontrei uma santa"},"content":{"rendered":"<div class=\"io-div\" data-io-article-url=\"https:\/\/pt.aleteia.org\/2019\/07\/11\/o-dia-em-que-encontrei-uma-santa\/\">\n<h2 class=\"subtitle\">Apesar de sua sa\u00fade fr\u00e1gil, era percept\u00edvel sua for\u00e7a e determina\u00e7\u00e3o<\/h2>\n<div class=\"base-post-content\">\n<p dir=\"ltr\">Por Isabeli Cristini de Oliveira\u00a0*<\/p>\n<p dir=\"ltr\">Era outono de 1988. J\u00e1 naquela \u00e9poca, in\u00fameras vezes, o meu grupo de jovens ia ao hospital da Irm\u00e3 Dulce, em Salvador (BA), tocar na missa dominical. Era sempre assim: uma vez por m\u00eas, aos domingos, pela manh\u00e3, sa\u00edmos cedo para animar a missa dos enfermos no hospital, n\u00e3o sem antes fazer uma pequena coleta de produtos de higiene na par\u00f3quia de Santo Ant\u00f4nio al\u00e9m do Carmo, para levarmos aos doentes e idosos.<\/p>\n<p dir=\"ltr\">Era o grupo \u201cS\u00e3o Tarc\u00edsio\u201d e a a\u00e7\u00e3o, de certa forma, fazia jus ao nome do santo que deu sua vida levando a comunh\u00e3o para os crist\u00e3os prisioneiros. N\u00f3s, lev\u00e1vamos a m\u00fasica e a alegria de uma juventude disposta a fazer um pouco por aqueles que quase nada tinham e ainda eram privados de sua sa\u00fade, e que encontravam naquele hospital n\u00e3o apenas o al\u00edvio para suas doen\u00e7as, mas o consolo para as dores da alma.<\/p>\n<p dir=\"ltr\">N\u00e3o consigo dizer o n\u00famero de vezes que fui \u00e0quele hospital, ao longo de cinco ou seis anos, mas lembro bem que ao t\u00e9rmino da missa sempre \u00edamos visitar os idosos nos leitos, convers\u00e1vamos, rez\u00e1vamos por eles, alguns jovens at\u00e9 ajudavam as enfermeiras a cortar as unhas de um, pentear o cabelo de outro, rezar o ter\u00e7o ou afagar aqueles que choravam.<\/p>\n<p dir=\"ltr\">Contudo, eu sempre queria dar um jeito de conhecer a tal da Irm\u00e3 Dulce. No auge da minha juventude a imaginava alta, determinada e destemida, porque manter um hospital como aquele com tantos doentes, sem nenhum recurso, n\u00e3o era uma tarefa f\u00e1cil. In\u00fameras vezes, entrava em salas e locais tentando ver se a encontrava, mas sem sucesso. \u00c0s vezes, eu entrava por uma porta pela qual ela tinha sa\u00eddo minutos antes.<\/p>\n<p dir=\"ltr\">Ficava imaginando de onde viera aquela freira, que desde a sua juventude tinha um apre\u00e7o pelos pobres, a ponto de transformar a porta da casa de seus pais em um centro de atendimento \u00e0s pessoas necessitadas, conhecida como \u201ca portaria de S\u00e3o Francisco\u201d. Aos 22 anos, j\u00e1 como religiosa, criou o primeiro movimento crist\u00e3o oper\u00e1rio da Bahia e nos anos seguintes o col\u00e9gio Santo Ant\u00f4nio, voltado para a educa\u00e7\u00e3o dos filhos dos oper\u00e1rios; e que chegou a um ato extremo de amor pelos doentes,\u00a0 invadindo cinco casas abandonadas para acolh\u00ea-los.<\/p>\n<div class=\"nativo-inread\"><\/div>\n<p dir=\"ltr\">Quando perguntada sobre o motivo pelo qual acolhia tantas pessoas, ela dizia: \u201cSe Deus viesse \u00e0 nossa porta, como seria recebido? Aquele que bate \u00e0 nossa porta, em busca de conforto para a sua dor, para o seu sofrimento, \u00e9 um outro Cristo que nos procura.\u201d \u00a0Depois de 10 anos, ela\u00a0 transformou o galinheiro\u00a0 do Convento Santo Ant\u00f4nio em albergue para o os pobres, os doentes que a procuravam no local, onde atualmente \u00e9 o hospital Santo Ant\u00f4nio, carinhosamente chamado pelos baianos de hospital de Irm\u00e3 Dulce, \u201co anjo bom da Bahia\u201d. Um hospital que, como ela gostava de dizer, era uma porta aberta aos mais necessitados: \u201cQuando nenhum hospital quiser aceitar algum paciente, n\u00f3s aceitaremos. Essa \u00e9 a \u00faltima porta e por isso eu n\u00e3o posso fech\u00e1-la.\u201d<\/p>\n<p dir=\"ltr\">Irm\u00e3 Dulce dos pobres re\u00fane \u00e0 sua volta centenas de profissionais de sa\u00fade e de \u00e1reas afins para colaborar com sua miss\u00e3o, que se tornou a miss\u00e3o de muitos, gra\u00e7as ao seu testemunho de f\u00e9, coragem, humildade e amor aos pobres: \u201cEu nada fiz, porque nada sou. Quem faz tudo \u00e9 Deus, nunca se esque\u00e7a disso.\u201d<\/p>\n<p dir=\"ltr\">Foi no corredor deste mesmo hospital, me lembro bem, em um domingo chuvoso, como s\u00e3o os outonos em Salvador, que encontrei uma freira sentada, com ar de fragilidade, parada no fim do corredor, e meu cora\u00e7\u00e3o disparou: era ela, Irm\u00e3 Dulce! Me aproximei e a cumprimentei. Sua voz era rouca, seu olhar era firme e terno. Apesar de sua sa\u00fade fr\u00e1gil, era percept\u00edvel sua for\u00e7a e determina\u00e7\u00e3o. N\u00e3o me recordo das suas palavras, mas do seu olhar, do seu sorriso e de sua simplicidade. Pude ver nos seus olhos a determina\u00e7\u00e3o daquele anjo que dormia apenas quatro horas por dia, porque queria ter tempo para ajudar aos pobres; que tocava acordeom e cantava nas ruas para ganhar dinheiro para os mais necessitados; que fazia jejum e sacrif\u00edcios e que compreendia as diversas\u00a0 humilha\u00e7\u00f5es sofridas como crescimento espiritual.<\/p>\n<p dir=\"ltr\">Uma mulher empreendedora, que ainda na d\u00e9cada de 50 criou cinemas, bandej\u00e3o para os pobres e at\u00e9 uma rede de aleitamento materno. Uma verdadeira empreendedora dos pobres e para os pobres, que\u00a0 acolhia o mendigo, o doente, a crian\u00e7a carente, o sujo, abandonado, como ao pr\u00f3prio Jesus, cuidando, limpando, dando banho, cortando as unhas, colocando no colo, com um ardente desejo de amar e evangelizar, a todos os que batiam \u00e0 sua porta.<\/p>\n<p dir=\"ltr\">Irm\u00e3 Dulce nos ensinou com sua vida que o amor a Jesus passa pelo amor aos mais necessitados. Como ela mesma dizia: \u201cSempre que puder, fale de amor e com amor para algu\u00e9m. Faz bem aos ouvidos de quem ouve e \u00e0 alma de quem fala.\u201d<\/p>\n<p dir=\"ltr\">\u201cPois tive fome e me deste de comer, sede e em deste de beber, estava nu\u00a0 e me vestistes\u2026 Senhor quando fizemos tudo isso?\u2026 em verdade te digo quando fizeste isto a um s\u00f3 destes pequeninos, foi a mim que o fizeste\u201d (Mt 25, 35-40). Irm\u00e3 Dulce dos pobres,\u00a0 rogai por n\u00f3s.<\/p>\n<p dir=\"ltr\"><em>* Mission\u00e1ria da comunidade Can\u00e7\u00e3o Nova\u00a0 e jornalista<\/em><\/p>\n<\/div>\n<\/div>\n<div class=\"row\">\n<div class=\"col-xs-12 text-center pagination-cont-article\"><\/div>\n<\/div>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Apesar de sua sa\u00fade fr\u00e1gil, era percept\u00edvel sua for\u00e7a e determina\u00e7\u00e3o Por Isabeli Cristini de Oliveira\u00a0* Era outono de 1988. J\u00e1 naquela \u00e9poca, in\u00fameras vezes, o meu grupo de jovens ia ao hospital da Irm\u00e3 Dulce, em Salvador (BA), tocar na missa dominical. 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