{"id":50332,"date":"2019-06-24T08:42:13","date_gmt":"2019-06-24T11:42:13","guid":{"rendered":"http:\/\/catolicanet.net\/wp-cnet\/?p=50332"},"modified":"2019-06-24T08:42:13","modified_gmt":"2019-06-24T11:42:13","slug":"simplesmente-a-fe","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/catolicanet.net\/wp-cnet\/simplesmente-a-fe\/","title":{"rendered":"Simplesmente a F\u00e9"},"content":{"rendered":"<p><strong>\u00a0<\/strong><\/p>\n<p>A dualidade do ser humano, dividido que est\u00e1 entre corpo e alma, mat\u00e9ria e espirito, faz dele um animal acuado. Parece exagero, mas \u00e9 exatamente assim que muitos transitam pela vida, divididos que est\u00e3o nessa busca desenfreada da pr\u00f3pria verdade. Crer ou n\u00e3o crer. Eis a quest\u00e3o.<\/p>\n<p>Essa era a quest\u00e3o central das prega\u00e7\u00f5es do grande m\u00edstico Paulo de Tarso, o ap\u00f3stolo dos gentios. Fez da doutrina da d\u00favida a teologia da verdade. Do crucificado o ressuscitado. Da f\u00e9 il\u00edcita a mais pura das certezas. Da l\u00f3gica racional a racionalidade em pessoa, na pessoa dum mestre com o qual n\u00e3o conviveu, pessoalmente ao menos. Mas sempre falou do Mestre como algu\u00e9m que lhe era \u00edntimo, de quem recebia as revela\u00e7\u00f5es; desvendava-lhe os mist\u00e9rios da f\u00e9 com naturalidade sem igual. Procurava decifrar os mist\u00e9rios com a simplicidade das palavras que lhe eram reveladas, com a sabedoria que inundava sua mente aberta aos mist\u00e9rios da pr\u00f3pria f\u00e9.<\/p>\n<p>Talvez seja esse o segredo que ainda n\u00e3o desvendamos dentro da realidade assaz materialista do mundo moderno. Procuramos muito, mas nada achamos de concreto quando a quest\u00e3o ultrapassa essa realidade tang\u00edvel e limitada da mat\u00e9ria que somos. A doutrina budista, por exemplo, tenta justificar essa busca. Sidarta, um dos seus pregadores, assim pensava: \u201cProcurar significa ter uma meta. Mas achar significa: estar livre, abrir-se a tudo, n\u00e3o ter meta alguma\u201d. Ent\u00e3o, quem encontra o caminho da verdade \u00e9 algu\u00e9m livre, at\u00e9 mesmo de um objetivo de vida? Pensar assim \u00e9 perigoso. O pr\u00f3prio formulador dessa quest\u00e3o a rejeita: \u201cPode ser que tu, \u00f3 Vener\u00e1vel, sejas realmente um buscador, j\u00e1 que, no af\u00e3 de te aproximares da tua meta, n\u00e3o enxerga certas coisas que se encontram bem perto dos teus olhos\u201d.\u00a0 Verdade nua e crua.<\/p>\n<p>O livre arb\u00edtrio justifica essa busca humana. A raz\u00e3o de sua f\u00e9 \u00e9 inerente aos sonhos de liberdade. Dizia Paulo: \u201cTudo \u00e9 permitido, mas nem tudo \u00e9 oportuno. Tudo \u00e9 permitido, mas nem tudo edifica. Ningu\u00e9m busque o seu interesse, mas o do pr\u00f3ximo\u201d (1Cor 10, 23-24). Eureka! O segredo est\u00e1 aqui, bem aos nossos olhos, realmente. Tudo nos \u00e9 permitido, se considerarmos os direitos, as necessidades, os interesses, desejos e ideais do outro, daquele que caminha conosco, nossos pr\u00f3ximos&#8230; Aquilo que fazemos em benef\u00edcio dos semelhantes \u00e9 que vai dignificar e justificar nossas a\u00e7\u00f5es de edifica\u00e7\u00e3o e aprimoramento da f\u00e9 que dizemos ter. Ter f\u00e9 \u00e9 construir a solidariedade, edificar a fraternidade entre n\u00f3s. Para tanto, tudo nos \u00e9 permitido.<\/p>\n<p>A ilicitude est\u00e1 no ego\u00edsmo de n\u00e3o dividir esse aprendizado de vida. Partilhar a f\u00e9 \u00e9 o primeiro ato de quem busca praticar o que de gra\u00e7a recebeu. \u201cEu recebi do Senhor o que vos transmiti\u201d, justificava o ap\u00f3stolo ao partilhar o p\u00e3o eucar\u00edstico, o centro de sua f\u00e9 voltada tamb\u00e9m aos irm\u00e3os mais fracos. Dizia a respeito: \u201cEsta \u00e9 a raz\u00e3o por que entre v\u00f3s h\u00e1 muitos adoentados e fracos e muitos mortos\u201d (1 Cor 11,30). Sem a partilha da f\u00e9, sem o p\u00e3o da Vida presente e renovado nas nossas liturgias di\u00e1rias, sem a divis\u00e3o deste como centro da f\u00e9 que nos une e nos nutre, nunca alcan\u00e7aremos a plenitude de uma vida digna. Continuaremos mais mat\u00e9ria putrefata, perec\u00edvel, passageira, do que esp\u00edrito transcendente de luz e esperan\u00e7a.\u00a0 A f\u00e9 n\u00e3o se tem gratuitamente. Se busca, se aprimora. N\u00e3o vem do ber\u00e7o, mas nele d\u00e1 seus primeiros passos. Resta saber se a m\u00e3o que embala esse ber\u00e7o tamb\u00e9m ensina a sair dele. A enfrentar a vida, o mundo, a sociedade como instrumentos de crescimento e solidariedades humanas, nunca ninho de intrigas e defesas pessoais. A f\u00e9, sem vistas \u00e0s necessidades comunit\u00e1rias, sem olhos para a integridade humana e fraternidade universal, n\u00e3o existe. Simplesmente assim. N\u00e3o \u00e9 f\u00e9.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>\u00a0 A dualidade do ser humano, dividido que est\u00e1 entre corpo e alma, mat\u00e9ria e espirito, faz dele um animal acuado. Parece exagero, mas \u00e9 exatamente assim que muitos transitam pela vida, divididos que est\u00e3o nessa busca desenfreada da pr\u00f3pria verdade. Crer ou n\u00e3o crer. Eis a quest\u00e3o. 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