{"id":4983,"date":"2014-08-13T13:44:35","date_gmt":"2014-08-13T16:44:35","guid":{"rendered":"http:\/\/catolicanet.net\/wp-cnet\/a-dama-do-folclore\/"},"modified":"2017-04-06T11:28:20","modified_gmt":"2017-04-06T14:28:20","slug":"a-dama-do-folclore","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/catolicanet.net\/wp-cnet\/a-dama-do-folclore\/","title":{"rendered":"A dama do folclore"},"content":{"rendered":"<p style=\"text-align: justify;\"><img decoding=\"async\" src=\"http:\/\/catolicanet.com.br\/images\/stories\/inezitabarroso.jpg\" border=\"0\" align=\"left\" \/>Formada em Biblioteconomia pela Universidade de S\u00e3o Paulo, Inezita Barroso deixou o amor pela cultura caipira falar mais alto em sua vida. Tornou-se cantora, instrumentista, atriz, apresentadora e, acima de tudo, grande incentivadora da m\u00fasica de raiz, tendo gravado diversas obras do cancioneiro popular. Aos 89 anos de idade, j\u00e1 percorreu todo o pa\u00eds conhecendo e estudando as tradi\u00e7\u00f5es regionalistas e, por isso, \u00e9 considerada refer\u00eancia no assunto; chegou a receber da Universidade de Lisboa o t\u00edtulo de doutora Honoris Causa em folclore brasileiro. <br \/>Aos sete anos de idade come\u00e7ou a cantar e a estudar viol\u00e3o. Esse interesse musical foi influ\u00eancia da fam\u00edlia?<br \/>A minha fam\u00edlia sempre teve uma tradi\u00e7\u00e3o musical. Quase todos estudaram m\u00fasica, mas era r\u00edgida, tinha que ser tudo certinho, com professor. Mulher tocar viol\u00e3o era uma coisa bem dif\u00edcil, havia preconceito. Ent\u00e3o, eu estudava escondida enquanto uma tia minha fazia aula em casa. Assim aprendi a tocar. Quando viram que eu estava me desenvolvendo sozinha, meu pai e minha m\u00e3e me colocaram em uma escola para crian\u00e7as. A partir da\u00ed o interesse s\u00f3 foi aumentando. Fiz algumas aulas de canto para crian\u00e7as, depois conheci a viola caipira e minha vida foi seguindo dentro da m\u00fasica. <\/p>\n<p>Quando e como resolveu estudar o folclore brasileiro?<br \/>Come\u00e7ou nas fazendas dos meus tios no interior de S\u00e3o Paulo. Nas f\u00e9rias escolares, eu passava os dias nas fazendas deles com os primos, brincando com tudo que \u00e9 da ro\u00e7a. Cada ano eu ia para uma fazenda diferente. Assim conheci colonos caipiras que tocavam viola e me apaixonei por essa musica. Acho que a primeira m\u00fasica que aprendi foi a &#8220;Moda do Boi Amarelinho&#8221;, coisa triste, mas maravilhosa. A partir da\u00ed sempre fiquei em contato com esse mundo. Aprendi a tocar viola, gravei muita coisa e me agarrei nesse g\u00eanero para sempre. Ou seja, meus contatos iniciais com a viola j\u00e1 me colocaram como uma &#8220;ouvinte&#8221;, como uma &#8220;recolhedora&#8221; de hist\u00f3rias. Com esse mesmo jeito fui conhecer os interiores do Brasil inteiro. A infinidade de ritmos que eu conhecia em viagens ia gravando; cada disco gravado era uma empreitada nova em melodia e ritmo. <br \/>Como a senhora define a palavra folclore?<br \/>Folclore \u00e9 o estudo das coisas do povo. Os mitos, as lendas, as hist\u00f3rias, os ditados populares, as rezas, o artesanato, os cantos de trabalho, os ritmos mais puros do povo, enfim, o que est\u00e1 ligado \u00e0s tradi\u00e7\u00f5es mais ancestrais da forma\u00e7\u00e3o cultural do povo. Geralmente, tudo isso n\u00e3o tem um autor ou um criador espec\u00edfico. S\u00e3o aspectos que v\u00e3o se acumulando e se modificando de gera\u00e7\u00e3o em gera\u00e7\u00e3o. <br \/>Existem diferen\u00e7as entre folclore, mito e cultura popular?<br \/>S\u00e3o conceitos distintos. O folclore \u00e9 o nome que se d\u00e1 para o estudo das coisas do povo. Logo, os mitos est\u00e3o inclu\u00eddos nessas coisas do povo, um est\u00e1 inserido no outro. J\u00e1 cultura popular \u00e9 uma express\u00e3o posterior \u00e0 do folclore, tem seu uso mais ligado \u00e0 sociologia moderna e \u00e0 antropologia. Cultura popular, inclusive, abrange conceitos mais amplos que o foco dos estudos folcl\u00f3ricos, como, por exemplo, os impactos da ind\u00fastria cultural. Mas os tr\u00eas s\u00e3o conceitos que dialogam entre si. <br \/>Ao estudar o folclore in loco de todo o interior &#8221;brasileiro, o que mais lhe chamou a aten\u00e7\u00e3o? <br \/>Nossa, pergunta dif\u00edcil. Na verdade, dif\u00edcil \u00e9 escolher uma s\u00f3. Mas fico admirada com a caracter\u00edstica do que posso chamar de &#8220;talento nato&#8221;. Cansei de conhecer pessoas, trabalhadores e trabalhadoras, que nunca estudaram uma s\u00e9rie na escola, n\u00e3o sabiam ler nem escrever, por\u00e9m, compunham como poetas letrados nas grandes cidades. A percep\u00e7\u00e3o art\u00edstica deles \u00e9 absurda. Como \u00e9 que pode isso? E uma pergunta que eu me fa\u00e7o sempre. De onde vem a inspira\u00e7\u00e3o sem estudo? A poesia est\u00e1 em qualquer lugar. <br \/>Com o tempo, as manifesta\u00e7\u00f5es folcl\u00f3ricas se perder\u00e3o? <br \/>Olha, se pensarmos nas manifesta\u00e7\u00f5es folcl\u00f3ricas da minha inf\u00e2ncia, com certeza, sim. Mas o folclore tamb\u00e9m muda, tamb\u00e9m tem evolu\u00e7\u00e3o. Os mitos, os cantos, as hist\u00f3rias, v\u00e3o mudando. Algumas resistem mais, outras desaparecem do dia a dia das pessoas. Ficam registros e estudos. Mas o folclore permanecer\u00e1. De um jeito diferente, claro, mas sempre existir\u00e1. <br \/>Seu programa de tev\u00ea, Viola, Minha Viola, que existe h\u00e1 mais de 30 anos, resgata a m\u00fasica regional. Qual a motiva\u00e7\u00e3o que a senhora tem em continuar lutando para que a m\u00fasica de raiz n\u00e3o se perca? <br \/>J\u00e1 s\u00e3o 34 anos de programa, comemorados agora em maio. Por ali j\u00e1 passou muita coisa boa, inclusive o folclore que ningu\u00e9m leva para a televis\u00e3o: folias de reis, cururu, capoeira, congada, batuque de umbigada, coco. Al\u00e9m, claro, do que temos mais forte para nosso p\u00fablico, que s\u00e3o os compositores, os int\u00e9rpretes e os violeiros caipiras. \u00c9 um formato simples, mas que ningu\u00e9m faz na televis\u00e3o. E assim vou lutar pela m\u00fasica de raiz at\u00e9 morrer. E n\u00e3o quero que seja logo n\u00e3o, viu? [risos]<br \/> Com qual cultura regional mais se identifica? <br \/>Por ser paulista, nascida na Barra Funda, na rua Lopes de Oliveira, naturalmente me afei\u00e7oei \u00e0s tradi\u00e7\u00f5es do caipira. Isso desde pequena. Mas gosto muito tamb\u00e9m da cultura das dan\u00e7as, da m\u00fasica ga\u00facha e dos ritmos nordestinos. Fiz longas pesquisas nesses lugares e conheci pessoas maravilhosas. <br \/>Dia 22 de agosto, comemora-se o Dia Mundial do Folclore. Qual mensagem a senhora deixaria \u00e0s pessoas sobre a import\u00e2ncia do folclore na vida de um povo? <br \/>O m\u00eas de agosto \u00e9 uma marca interessante para que a gente fale do folclore, mas tenha certeza de que ele est\u00e1 mais no cotidiano das pessoas do que elas imaginam. Acho que o brasileiro precisa olhar sempre para dentro do pr\u00f3prio pa\u00eds, entender a cultura, os elementos que nos formaram como na\u00e7\u00e3o. Entender essas origens nos ajuda a conhecer o que somos e o que n\u00e3o somos. Assim, \u00e9 mais interessante entender se gostamos ou n\u00e3o do que nos \u00e9 oferecido pela televis\u00e3o (e, hoje, mais at\u00e9 pela internet) como exemplos de qualidade na m\u00fasica, no cinema, no teatro, enfim, na arte em geral. Podem ter certeza de que o folclore nos indica caminhos s\u00e9rios. <\/p>\n<p><strong>Fonte:<\/strong> Informativo Nossa Voz<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Formada em Biblioteconomia pela Universidade de S\u00e3o Paulo, Inezita Barroso deixou o amor pela cultura caipira falar mais alto em sua vida. Tornou-se cantora, instrumentista, atriz, apresentadora e, acima de tudo, grande incentivadora da m\u00fasica de raiz, tendo gravado diversas obras do cancioneiro popular. 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