{"id":4962,"date":"2014-08-11T12:44:54","date_gmt":"2014-08-11T15:44:54","guid":{"rendered":"http:\/\/catolicanet.net\/wp-cnet\/tempo-de-opcoes\/"},"modified":"2017-04-06T11:13:17","modified_gmt":"2017-04-06T14:13:17","slug":"tempo-de-opcoes","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/catolicanet.net\/wp-cnet\/tempo-de-opcoes\/","title":{"rendered":"Tempo de op\u00e7\u00f5es"},"content":{"rendered":"<p style=\"text-align: justify;\">Ao tratar o tema da paz\/viol\u00eancia, o ser humano se defronta com o mais profundo de si mesmo. Defronta-se com for\u00e7as obscuras, instintivas que o processo de humaniza\u00e7\u00e3o foi domesticando, domando. Tema que a psican\u00e1lise e a antropologia desenvolveram e que a filosofia de Nietzsche sistematizou. O pre\u00e7o pago pela civiliza\u00e7\u00e3o foi a repress\u00e3o das for\u00e7as biol\u00f3gicas prim\u00e1rias: a luta pelo alimento e pelo parceiro sexual e a imposi\u00e7\u00e3o violenta sobre o mais fraco. A civiliza\u00e7\u00e3o, fruto da repress\u00e3o, dependia desta para se manter.<\/p>\n<p>Do ponto de vista pol\u00edtico, Engels via na viol\u00eancia \u201ca parteira da hist\u00f3ria\u201d, a for\u00e7a que move as rela\u00e7\u00f5es sociais marcadas pelo conflito de interesses. Vis\u00e3o frequentemente associada \u00e0 de Marx, que, entretanto, segundo algumas hermen\u00eauticas n\u00e3o defendia a viol\u00eancia como arma pol\u00edtica (nem todos interpretam assim). Por\u00e9m, quem pensou assim com certeza foi a nova esquerda dos anos 60 e 70, fortemente influenciada pelo pensamento de Mao-Tse-Tung, que vinculava poder e viol\u00eancia. Para ele, o poder estava \u201cno cano de uma arma\u201d.<br \/>Uma defesa apaixonada da viol\u00eancia como arma pol\u00edtica revolucion\u00e1ria foi feita por Sartre no pref\u00e1cio do livro-manifesto: Os condenados da terra, de Frantz Fanon. Origin\u00e1rio da ilha de Martinica, Fanon formou-se m\u00e9dico em Paris e testemunhou a viol\u00eancia colonialista na Arg\u00e9lia. A viol\u00eancia do colonizador tornava \u201cbela\u201d a viol\u00eancia heroica do colonizado. No pref\u00e1cio do livro, Sartre diz: Essa viol\u00eancia irreprim\u00edvel, ele (Fanon) o demonstra cabalmente, n\u00e3o \u00e9 uma tempestade absurda nem a ressurrei\u00e7\u00e3o dos instintos selvagens e nem mesmo um efeito do ressentimento: \u00e9 o pr\u00f3prio homem que se recomp\u00f5e.<\/p>\n<p>Era uma apologia da viol\u00eancia, que ia al\u00e9m da simples an\u00e1lise pol\u00edtica, fazendo dela a express\u00e3o da humanidade do ser humano, o qual afirma sua dignidade e liberdade no enfrentamento com o opressor. Era a voz do colonizado argelino que, em nome dos pr\u00f3prios ideais (na realidade, ideologia) do colonizador se opunha a ele. N\u00e3o percamos tempo com litanias est\u00e9reis ou mimetismos nauseabundos. Deixemos essa Europa que n\u00e3o cessa de falar do homem enquanto o massacra por toda a parte onde o encontra, em todas as esquinas de suas pr\u00f3prias ruas, em todas as esquinas do mundo. H\u00e1 s\u00e9culos\u2026 que em nome de uma suposta aventura espiritual vem asfixiando a quase totalidade da humanidade.<br \/>\u00c9 uma linguagem passional, explosiva, panflet\u00e1ria, express\u00e3o do clima emocional dos franceses na guerra colonial argelina. A seu modo, Fanon expressava um pensamento substitutivo \u00e0 vis\u00e3o puramente moralista que justificava (ou n\u00e3o) a viol\u00eancia em nome de um homem abstrato, idealizado. Agora contava o homem real, concreto, situado, relacionado com a natureza e com os outros pelo trabalho. Rela\u00e7\u00f5es que se fundavam na explora\u00e7\u00e3o do homem pelo homem e o impediam de ser ele mesmo. A viol\u00eancia \u201cconstitu\u00eda\u201d esse mundo. Dessa forma, a viol\u00eancia dos oprimidos era, na realidade, uma contra viol\u00eancia. A guerra do Vietn\u00e3 exacerbou ao m\u00e1ximo esse \u201csentimento\u201d: era a luta de Davi contra Golias.<br \/>Com a mudan\u00e7a das condi\u00e7\u00f5es sociais, essa viol\u00eancia \u201ccostumeira\u201d cedeu lugar a uma viol\u00eancia inovadora que se manifestou, por exemplo, na Guerra do Contestado. A viol\u00eancia se inseria num quadro em que os desiguais se tratavam como pessoas, num g\u00eanero de vida que n\u00e3o contemplava o controle direto dos subordinados. Dominadores e dominados eram vistos como iguais dentro de um mundo homog\u00eaneo e indiferenciado. <br \/>A viol\u00eancia mais \u00f3bvia e, ao mesmo tempo, a mais escondida \u00e9 a cotidiana. Falar de viol\u00eancia urbana \u00e9 quase redund\u00e2ncia, uma vez que, nos centros urbanos, o medo \u00e9 a sensa\u00e7\u00e3o dominante. H\u00e1 a viol\u00eancia manifesta, vis\u00edvel \u2014 assalto, roubo, agress\u00e3o, ofensas, palavras e gestos obscenos no tr\u00e2nsito\u2026 \u2014, mas tamb\u00e9m h\u00e1 a invis\u00edvel, insidiosa, perversa, que se expressa na necessidade de se proteger, que torna o \u201cconfiar no outro\u201d num risco. A desconfian\u00e7a com rela\u00e7\u00e3o ao policial, ao vendedor, ao produto \u00e9 uma forma \u201cnecess\u00e1ria\u201d de se resguardar. Quando o vigia pode ser apenas informante, quando o policial pode ser o bra\u00e7o invis\u00edvel do criminoso, o que se tem \u00e9 um quadro de destrui\u00e7\u00e3o do tecido social.<br \/>No interior de uma descren\u00e7a generalizada nas institui\u00e7\u00f5es, o \u201cquem pode mais\u201d e o \u201ccada um por si\u201d tornam-se leis. A vida social tende a reduzir-se \u00e0 forma\u00e7\u00e3o de pequenos grupos aos quais se adere por interesses comuns. \u00c0s vezes eles mesmos violentos: as gangues, os pitboys, as torcidas organizadas, os skinheads. A xenofobia \u2014 \u00f3dio ao outro, ao diferente (\u00e9tnico, sexual, cultural) \u2014 vai al\u00e9m do simples preconceito discriminat\u00f3rio passivo. No limite, leva \u00e0 elimina\u00e7\u00e3o f\u00edsica, como o assassinato de homossexuais. \u00c9 a viol\u00eancia oculta no desemprego que faz o sem-trabalho sentir-se in\u00fatil, \u201cningu\u00e9m\u201d, at\u00e9 mesmo para os pr\u00f3prios familiares. \u00c9 interessante notar que o vocabul\u00e1rio ligado ao trabalho, no capitalismo, tem conota\u00e7\u00e3o \u201cviolenta\u201d: de explora\u00e7\u00e3o passa a direito; de direito, a privil\u00e9gio.<\/p>\n<p>Uma esp\u00e9cie de \u201ccultura da informalidade\u201d produz a sensa\u00e7\u00e3o de se viver em meio a for\u00e7as clandestinas e incontrol\u00e1veis, \u00e0 amea\u00e7a de um mundo \u00e0 margem: a falsifica\u00e7\u00e3o, o trabalho informal, a lavagem de dinheiro, o terrorismo, o tr\u00e1fico de drogas, de \u00f3rg\u00e3os, os para\u00edsos fiscais\u2026 constituem uma \u201csociedade\u201d dentro da sociedade. O crime organizado torna-se forma \u201cnecess\u00e1ria\u201d de sobreviv\u00eancia; o traficante pode aparecer como o protetor indispens\u00e1vel, o \u201cassistente dos desvalidos\u201d para as popula\u00e7\u00f5es marginalizadas; a guerrilha pol\u00edtica e o narcotr\u00e1fico trocam favores entre si em certos pa\u00edses.<br \/>Em um mundo religioso fluido, a busca de identidade torna-se crucial. Pluralismo religioso implica conflito. Afloram percep\u00e7\u00f5es e viv\u00eancias contradit\u00f3rias do fen\u00f4meno: a sensa\u00e7\u00e3o de liberdade \u2014 escolher a pr\u00f3pria cren\u00e7a \u2014 soma-se \u00e0 necessidade de certezas. A \u201cera do relativo\u201d suscita inquieta\u00e7\u00f5es e resist\u00eancias. P\u00f5e em quest\u00e3o identidades at\u00e9 aqui aparentemente est\u00e1veis, confi\u00e1veis, reconhecidas, garantidas por institui\u00e7\u00f5es religiosas ou n\u00e3o. E estas est\u00e3o em crise, com muita dificuldade para dizer a verdade \u2014 e, quando o fazem, s\u00e3o ouvidas como portadoras de uma opini\u00e3o entre outras. Apresentar-se como \u201ca verdade\u201d deslegitima mais do que qualifica uma institui\u00e7\u00e3o.<br \/>Eis as quest\u00f5es que nos s\u00e3o colocadas como pano de fundo de nosso caminhar nos tempos atuais. Cabe a n\u00f3s o discernimento e a pr\u00e1tica de atividades eivadas de uma profunda reflex\u00e3o sobre os rumos da sociedade. Um tempo que nos questiona e que exige de todos uma resposta da qual n\u00e3o nos podemos eximir. Isso poder\u00e1 direcionar o nosso futuro.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Ao tratar o tema da paz\/viol\u00eancia, o ser humano se defronta com o mais profundo de si mesmo. Defronta-se com for\u00e7as obscuras, instintivas que o processo de humaniza\u00e7\u00e3o foi domesticando, domando. 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