{"id":4959,"date":"2014-08-08T17:40:34","date_gmt":"2014-08-08T20:40:34","guid":{"rendered":"http:\/\/catolicanet.net\/wp-cnet\/obediencia-e-desobediencia\/"},"modified":"2017-04-06T11:08:02","modified_gmt":"2017-04-06T14:08:02","slug":"obediencia-e-desobediencia","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/catolicanet.net\/wp-cnet\/obediencia-e-desobediencia\/","title":{"rendered":"Obedi\u00eancia e Desobedi\u00eancia"},"content":{"rendered":"<p style=\"text-align: justify;\">O dilema de viver a obedi\u00eancia, na gra\u00e7a de Deus, ou cair na desobedi\u00eancia, por capricho diab\u00f3lico, est\u00e1 presente ao longo da hist\u00f3ria humana. Come\u00e7a no livro do G\u00eanesis, ou seja, nas primeiras p\u00e1ginas da Sagrada Escritura, chega at\u00e9 nossos dias e perdurar\u00e1 ao longo do tempo.<br \/> No G\u00eanesis 3, \u00e9 bem conhecida de todos n\u00f3s a narrativa, em linguagem b\u00edblica muito pr\u00f3pria, da queda do primeiro casal, Ad\u00e3o e Eva, no para\u00edso terrestre, mas que vale a pena recordar, ainda que de passagem, nesta nossa reflex\u00e3o.<br \/> Nos dois cap\u00edtulos precedentes do mesmo livro, se l\u00ea que Deus criou tudo o que existe na natureza. Por \u00faltimo, fez o homem e a mulher e colocou-os no Jardim do \u00c9den para ali viverem cuidando da cria\u00e7\u00e3o divina, sem, por\u00e9m, poderem tocar na \u00e1rvore do bem e do mal, localizada no meio do jardim. Enquanto obedeceram \u00e0 ordem divina, tudo ia bem. Eis, por\u00e9m, que, um dia, tentados pelo dem\u00f4nio, em forma de serpente, cederam \u00e0 tenta\u00e7\u00e3o e comeram do fruto proibido.<br \/> Perceberam, nesse momento, suas fraquezas, pois ao contr\u00e1rio do que dissera o diabo, n\u00e3o se tornaram deuses, mas, sim, perderam o que tinham como criaturas humanas. Viram-se na pen\u00faria em pouco tempo. Da\u00ed o prov\u00e9rbio popular que diz, com acerto: \u201cO diabo n\u00e3o d\u00e1 o que promete\u201d. Realmente, se ele \u00e9 o grande deserdado da hist\u00f3ria, como pode oferecer aos outros aquilo que n\u00e3o tem a n\u00e3o ser por meio da sedu\u00e7\u00e3o e da mentira, arte da qual ele \u00e9 o pai (cf. Jo 8,44)?<br \/> Sim, esse grito sedutor da mentira \u00e9 consequ\u00eancia do horrendo brado anterior que L\u00facifer havia dado contra Deus ao ser colocado \u00e0 prova \u201cNon serviam (N\u00e3o servirei!)\u201d (cf. no Catecismo da Igreja Cat\u00f3lica n. 391-395, os dados da f\u00e9 sobre o assunto). Reflitamos: primeiro o n\u00e3o ao pr\u00f3prio Deus por soberba (\u201cEu sou mais que o Senhor!\u201d), obviamente, essa loucura leva, em um segundo momento, sat\u00e3 a perceber que n\u00e3o conseguiu seu intento. Desapontado, mas maldoso, tenta o ser humano a fim de que, como ele, se torne outro grande deserdado dos favores divinos.<br \/> A consequ\u00eancia da desobedi\u00eancia vem, mas, junto \u00e0 puni\u00e7\u00e3o Deus faz tamb\u00e9m uma promessa de grande alcance: \u201cPorei hostilidade entre ti e a mulher, entre tua linhagem e a linhagem dela. Ela te esmagar\u00e1 a cabe\u00e7a e tu lhe ferir\u00e1s o calcanhar\u201d. A nota \u201cj\u201d da B\u00edblia de Jerusal\u00e9m explica que \u201co texto hebraico, anunciando uma hostilidade entre a ra\u00e7a da serpente e a da mulher, op\u00f5e o homem ao Diabo e \u00e0 sua \u2018ra\u00e7a\u2019 e deixa entrever a vit\u00f3ria final do homem: \u00e9 um primeiro vislumbre de salva\u00e7\u00e3o: o \u2018Proto-Evangelho\u2019. A tradu\u00e7\u00e3o grega, come\u00e7ando a \u00faltima frase por um pronome masculino, atribui essa vit\u00f3ria n\u00e3o \u00e0 linhagem da mulher em geral, mas a um dos filhos da mulher. Assim, fica esbo\u00e7ada a interpreta\u00e7\u00e3o messi\u00e2nica que muitos Padres (escritores da Igreja nos primeiros setes s\u00e9culos) explicitar\u00e3o. Com o Messias fica implicada sua M\u00e3e, e a interpreta\u00e7\u00e3o mariol\u00f3gica da tradu\u00e7\u00e3o latina ipsa conteret tornou-se tradicional na Igreja\u201d.<br \/> Eis, realmente, que \u201cna plenitude dos tempos\u201d, o Senhor manda o seu Filho \u201cnascido de mulher\u201d (cf. Gl 4,4), para resgatar pela obedi\u00eancia o que os primeiros pais perderam pela desobedi\u00eancia. E obediente at\u00e9 a morte e morte de cruz, o Senhor Jesus venceu o dem\u00f4nio, o mundo e a morte, sendo elevado \u00e0 direita do Pai, de onde h\u00e1 de vir para julgar os vivos e os mortos e seu reino n\u00e3o ter\u00e1 fim, conforme ensina o Credo Niceno-constantinopolitano.<br \/> Tudo isso nos mostra que o \u00fanico caminho ou a \u201cporta estreita\u201d para seguir o Senhor Jesus \u00e9 a via da obedi\u00eancia, pela qual Ele mesmo, sendo Deus e homem verdadeiro, quis trilhar para mostrar, como exemplar por excel\u00eancia, a estrada segura que dever\u00edamos percorrer deste vale de l\u00e1grimas at\u00e9 a Jerusal\u00e9m celeste.<br \/> Da\u00ed entendermos, nos nossos tempos, que a primeira grande obedi\u00eancia requerida de todo fiel cat\u00f3lico \u00e9 bem concreta. D. Est\u00eav\u00e3o Bettencourt, OSB, grande te\u00f3logo brasileiro, escreve: \u201cDeus n\u00e3o nos fala por canais particulares ou secretos, mas pela Igreja que Ele fundou e \u00e0 qual Ele assiste para que transmita integralmente as verdades da f\u00e9 (cf. Mt 28,19; Rm 10,17; Jo 14,26; 16,13-15). O Conc\u00edlio Vaticano II nos lembra que o Senhor Deus quis confiar aos Bispos e \u00e0 hierarquia da Igreja o carisma da verdade, isto \u00e9, um dom especial para discernir e transmitir as verdades reveladas (ver Dei Verbum n. 8). (&#8230;) \u00c9 claro, por\u00e9m, que nem todos os pronunciamentos das inst\u00e2ncias eclesi\u00e1sticas gozam da mesma autoridade: existem defini\u00e7\u00f5es de f\u00e9 e de moral ao lado de orienta\u00e7\u00f5es e diretrizes cujo peso \u00e9 geralmente indicado pelo documento que as promulga; o fiel cat\u00f3lico as respeita e deve-lhes a obedi\u00eancia que exigem\u201d (Curso de Teologia Moral. Rio de Janeiro: Mater Ecclesiae, 1986, p. 53).<br \/> Ora, quem possui a f\u00e9 fraca tem imensa dificuldade de aceitar o que acima est\u00e1 dito. Tal pessoa \u00e9 capaz de recusar a palavra do Magist\u00e9rio da Igreja a fim de seguir orienta\u00e7\u00f5es de correntes filos\u00f3fico-religiosas ou, ainda, de acompanhar sua pr\u00f3pria mente revoltada contra Deus e a Igreja.<br \/> Isso se d\u00e1 sem que, talvez, o(a) pr\u00f3prio(a) desobediente perceba. Na sua sele\u00e7\u00e3o muito subjetiva das coisas, ele (ela) vai separando o que quer do que n\u00e3o quer crer, quem ele quer e quem n\u00e3o quer obedecer, quando deseja ou n\u00e3o aceitar uma norma superior (ainda que seja no campo administrativo apenas)&#8230; Enfim, acaba sem quase se dar conta, criando um modo pr\u00f3prio e, portanto, aut\u00f4nomo de viver a sua f\u00e9. T\u00e3o aut\u00f4nomo que as palavras dos leg\u00edtimos Pastores da Igreja j\u00e1 n\u00e3o lhes fazem sentido. Apenas o seu modo de ser e agir \u00e9 que valem, afinal por que obedecer se no dia em que desobedecer ser\u00e1 \u201ccomo deuses\u201d?<br \/>S\u00e3o Cipriano de Cartago (\u2020258) nos ensina: \u201cA Igreja \u00e9 o povo unido ao seu Pont\u00edfice e o rebanho que adere ao seu Pastor. Em consequ\u00eancia, devemos compreender que o Bispo est\u00e1 na Igreja e a Igreja est\u00e1 no Bispo, e que, se algu\u00e9m n\u00e3o est\u00e1 com o Bispo, n\u00e3o est\u00e1 na Igreja\u201d (Ep\u00edstola 66, 8,3).<br \/> Para S\u00e3o Cipriano, querer separar a Igreja do Bispo \u00e9 \u201cdesmantelar os membros de Cristo, despeda\u00e7ar o corpo da Igreja Cat\u00f3lica\u201d (Ep\u00edstola 44, 3,1). Em sentido contr\u00e1rio e positivo, respeitar o Bispo significa \u201caproximar entre si os membros do corpo dilacerado na unidade da Igreja Cat\u00f3lica, reatar o v\u00ednculo da caridade crist\u00e3&#8230; voltar ao rega\u00e7o e aos bra\u00e7os da pr\u00f3pria M\u00e3e\u201d [a Igreja] (Epistola 45, 1s).<br \/> V\u00ea-se, assim, que, entre os fi\u00e9is dos primeiros s\u00e9culos, a figura do Bispo j\u00e1 tinha o destaque necess\u00e1rio que chega at\u00e9 nossos dias. Com efeito, \u00e9 Dom Dadeus Grings, Arcebispo-em\u00e9rito de Porto Alegre (RS), que foi meu bispo em S\u00e3o Jo\u00e3o da Boa Vista, e no meu tempo de padre prometi e cumpri minha obedi\u00eancia ministerial, quem, ap\u00f3s recordar o ensinamento acima, escreve que, diferentemente do que alguns pensam, \u201cO Bispo possui \u2018todo poder ordin\u00e1rio pr\u00f3prio e imediato\u2019, que requer para o exerc\u00edcio de sua tarefa pastoral, exceto naquelas causas que o Sumo Pont\u00edfice houve por bem reservar a si\u201d (&#8230;) E mais: o Bispo cumula, no governo da Diocese, o poder executivo, legislativo e judici\u00e1rio (Curso de Direito Can\u00f4nico. Rio de Janeiro: Mater Ecclesiae, 2004, p. 25-26). <br \/>Em novembro de 1998, em visita ao solo austr\u00edaco, o Santo Padre Jo\u00e3o Paulo II lembrou que a Igreja n\u00e3o \u00e9 uma democracia, mas, sim, o povo de Deus que substitui a qahal (assembleia) do Antigo Testamento. Esse povo de Deus tem uma constitui\u00e7\u00e3o hier\u00e1rquica querida pelo pr\u00f3prio Senhor, pois, diferentemente de um governo republicano, eleito pelo povo, na Igreja \u00e9 Cristo quem escolhe, por meio do sucessor de Pedro (o Papa) e dos outros Ap\u00f3stolos (Bispos), aqueles que estar\u00e3o \u00e0 frente das comunidades (cf. Pergunte e Responderemos n. 441, fevereiro de 1999, p. 96).<br \/>\u00c9 de notar ainda que a Igreja n\u00e3o \u00e9 a mera soma dos seus membros, mas uma realidade divino-humana, por isso transcendente aos humanos. Ela \u00e9 o Corpo M\u00edstico de Cristo prolongado na hist\u00f3ria dos homens (cf. 1Cor 12,12-21; Cl 1,24), tendo, assim, diferen\u00e7a em rela\u00e7\u00e3o aos governos meramente terrenos que, mesmo eleitos pelo povo, tamb\u00e9m n\u00e3o agradam a todos.<br \/>O fiel cat\u00f3lico tem, pois, a obriga\u00e7\u00e3o de aceitar com obedi\u00eancia filial aquele que a Igreja designa como Pastor de uma por\u00e7\u00e3o do povo de Deus, que \u00e9 a diocese, mas pode, sim, apresentar ao Bispo sua opini\u00e3o reverente e bem fundamentada acerca de temas que dizem respeito \u00e0 vida eclesial, conforme o c\u00e2non 212 do C\u00f3digo de Direito Can\u00f4nico. <br \/>Ali\u00e1s, ao comentar esse dispositivo legal, o Pe. Dr. J\u00e9sus Hortal, SJ, diz que \u201cAo direito dos fi\u00e9is de apresentar suas necessidades e suas opini\u00f5es aos Pastores, corresponde o dever destes de acolher com interesse essas manifesta\u00e7\u00f5es e de submet\u00ea-las a estudo s\u00e9rio\u201d. Para isso, h\u00e1 os hor\u00e1rios de atendimentos na C\u00faria Diocesana, momentos abertos n\u00e3o s\u00f3 aos cat\u00f3licos, mas a todas as pessoas de boa vontade desejosas de conversar com o Bispo assuntos importantes, a fim de agirem como filhos da luz e n\u00e3o das trevas (cf. Jo 3,19-21).<br \/>Finalizamos esta reflex\u00e3o com um ensinamento extra\u00eddo da cole\u00e7\u00e3o de Apoftegmas (senten\u00e7as dos primeiros monges do deserto) a fim de real\u00e7ar, no campo da f\u00e9, \u00fanico a dar sentido maior ao voto de obedi\u00eancia feito na vida religiosa, leiga consagrada ou no sacramento da Ordem.<br \/>A senten\u00e7a conta que \u201cquatro cetiotas (habitantes do deserto de C\u00e9tia), revestidos de peles, foram falar com o grande abade Pambo. Cada qual indicou a principal virtude de seus companheiros. Um deles jejuava muit\u00edssimo; o segundo nada possu\u00eda; o terceiro era dotado de muita caridade. Do quarto, por\u00e9m, disseram que havia vinte e dois anos que perseverava na obedi\u00eancia a um anci\u00e3o. Respondeu-lhes o Abade Pambo: \u2018Digo-vos que a virtude deste \u00faltimo \u00e9 a maior, pois cada um de v\u00f3s, por sua pr\u00f3pria vontade, alcan\u00e7ou a virtude em que se distingue; este, por\u00e9m, tendo amputado a pr\u00f3pria vontade, obedece \u00e0 vontade de outrem. Sem d\u00favida tais homens s\u00e3o confessores, caso mantenham at\u00e9 o fim essa observ\u00e2ncia\u201d (PG 65, 730).<br \/> Possam estas reflex\u00f5es calar fundo no cora\u00e7\u00e3o e na mente de todos quantos querem ver na Igreja a t\u00fanica incons\u00fatil de Cristo&#8230; Para a maior gl\u00f3ria de Deus!<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>O dilema de viver a obedi\u00eancia, na gra\u00e7a de Deus, ou cair na desobedi\u00eancia, por capricho diab\u00f3lico, est\u00e1 presente ao longo da hist\u00f3ria humana. 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