{"id":4768,"date":"2014-06-30T16:28:52","date_gmt":"2014-06-30T19:28:52","guid":{"rendered":"http:\/\/catolicanet.net\/wp-cnet\/paulo-vi-e-a-alegria-no-senhor\/"},"modified":"2017-04-05T17:05:29","modified_gmt":"2017-04-05T20:05:29","slug":"paulo-vi-e-a-alegria-no-senhor","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/catolicanet.net\/wp-cnet\/paulo-vi-e-a-alegria-no-senhor\/","title":{"rendered":"Paulo VI e a alegria no Senhor"},"content":{"rendered":"<p style=\"text-align: justify;\">No pr\u00f3ximo dia 6 de agosto iremos comemorar 36 anos da P\u00e1scoa do Papa Paulo VI, que no dia 19 de outubro ser\u00e1 beatificado pelo Papa Francisco, na Pra\u00e7a de S\u00e3o Pedro, em Roma. Ele permaneceu \u00e0 frente da Igreja de 1963 a 1978, de modo que teve, enquanto sucessor de Pedro, um bom tempo \u2013 quinze anos \u2013 para exercer seu minist\u00e9rio como Bispo de Roma e, portanto, Sumo Pont\u00edfice da Igreja Cat\u00f3lica.<br \/> Coube a ele \u2013 diplomata e pastor, que ap\u00f3s servir na Secretaria de Estado da Santa S\u00e9 de 1922 a 1954, e na Arquidiocese de Mil\u00e3o, de 1954 a 1963 \u2013 a \u00e1rdua miss\u00e3o de conduzir os trabalhos do Conc\u00edlio Ecum\u00eanico Vaticano II (1963-1965), iniciados por seu imediato antecessor, S\u00e3o Jo\u00e3o XXIII. Esta miss\u00e3o, nobil\u00edssima por sinal, rendeu ao Papa Montini grandes alegrias, mas tamb\u00e9m n\u00e3o poucos dissabores. Recorr\u00eancias comuns de uma fase p\u00f3s-conciliar na vida da Igreja.<br \/> Como quer que seja, pode-se dizer, sem sombra de d\u00favidas, que Paulo VI foi um grande Pont\u00edfice e, apesar de todos os sofrimentos que o cercaram, n\u00e3o se deixou abater, mas, ao contr\u00e1rio, refugiado na ora\u00e7\u00e3o pessoal, especialmente pela recita\u00e7\u00e3o do Ros\u00e1rio de Nossa Senhora, e comunit\u00e1ria, a Liturgia das Horas e a Santa Missa, encontrou, at\u00e9 o fim de seus dias neste mundo, for\u00e7as para guiar a Barca do Senhor, que \u00e9 a Igreja.<br \/> Elevado \u00e0 C\u00e1tedra de Pedro em 21 de junho de 1963, deu a conhecer ao mundo, em 6 de agosto de 1964, seu programa de Pontificado por meio da Enc\u00edclica Ecclesiam Suam [a Sua Igreja] ao escrever que \u201cA Igreja deve entrar em di\u00e1logo com o mundo em que vive. A Igreja faz-se palavra, faz-se mensagem, faz-se col\u00f3quio. (&#8230;) Em qualquer esfor\u00e7o que o homem fa\u00e7a para compreender a si mesmo e ao mundo, pode contar com a nossa simpatia; onde quer que as assembleias dos povos se re\u00fanam para determinar os direitos e deveres do homem, sentimo-nos honrados, quando no-lo permitem, tomando lugar nelas\u201d (n. 38 e 54).<br \/> O historiador da Igreja, Henrique Cristiano Jos\u00e9 de Matos, escreve que ao atender o desejo colegiado dos Padres Conciliares, reunidos em Roma, Paulo VI \u201co fez com a preocupa\u00e7\u00e3o de n\u00e3o romper com a tradi\u00e7\u00e3o eclesi\u00e1stica. Interveio pessoalmente em todas as quest\u00f5es pol\u00eamicas. Nesse sentido, podemos citar a Nota Pr\u00e9via (nov. de 1964, acrescentada \u00e0 Constitui\u00e7\u00e3o Lumen Fidei, que visava a reafirmar a doutrina do Conc\u00edlio Vaticano I sobre o Papado; a Enc\u00edclica Mysterium Fidei (1965) sobre a Eucaristia, corrigindo os debates sobre a transubstancia\u00e7\u00e3o; a Enc\u00edclica Humanae Vitae, sobre a quest\u00e3o do controle de natalidades e do planejamento familiar [na verdade, \u201cpaternidade respons\u00e1vel\u201d, dizemos com a Igreja] (1968); a interven\u00e7\u00e3o sobre o celibato sacerdotal, cuja discuss\u00e3o fora subtra\u00edda ao Conc\u00edlio (Sacerdotalis Caelibatus, 1967; S\u00ednodo dos Bispos, 1971: Documento sobre o Minist\u00e9rio Sacerdotal); interven\u00e7\u00e3o sobre o papel da mulher na Igreja (Comiss\u00e3o de Estudos para o Ano da Mulher), 1975\u201d (Introdu\u00e7\u00e3o \u00e0 Hist\u00f3ria da Igreja. Belo Horizonte: O Lutador, 1987, p. 168).<br \/> Paulo VI foi um Papa aberto \u00e0s quest\u00f5es da Igreja de seu tempo, fiel \u00e0s pegadas do Vaticano II. Implementou o di\u00e1logo com o mundo moderno, com outros crist\u00e3os (ecumenismo) e com outras religi\u00f5es (di\u00e1logo interreligioso); defendeu a paz mundial; empreendeu viagens internacionais, sendo o primeiro Papa depois de Pedro a estar em Jerusal\u00e9m, no ano de 1964; deu impulso \u00e0 colegialidade dos Bispos instituindo o S\u00ednodo deles em 1975; reformou parcialmente a elei\u00e7\u00e3o do Sumo Pont\u00edfice e a escolha dos Bispos; abriu ainda mais a C\u00faria Romana para Cardeais n\u00e3o italianos e criou a Comiss\u00e3o Teol\u00f3gica Internacional (CTI).<br \/> Com essas atua\u00e7\u00f5es, que poderiam assomar-se a muitas outras, Paulo VI, segundo o historiador citado acima, fez duas coisas ou agiu em duas frentes, para dentro e para fora da Igreja. Sim, \u201cpor um lado, realizou a ingente tarefa de renovar a Igreja na sua vida interna, dando-lhe instrumentos v\u00e1lidos para o trabalho de atualiza\u00e7\u00e3o, enriquecendo-a de orienta\u00e7\u00f5es adequadas para a forma\u00e7\u00e3o dos sacerdotes, dos religiosos e do laicato, adaptando a liturgia de acordo com os desejos do Conc\u00edlio, criando uma viva consci\u00eancia mission\u00e1ria, estimulando a forma\u00e7\u00e3o de v\u00e1rios organismos que levam os membros da Igreja a uma participa\u00e7\u00e3o maior na sua vida e na sua caminhada, n\u00e3o deixando nenhum setor sem sua presen\u00e7a, sua palavra, seu incentivo e seu admir\u00e1vel equil\u00edbrio de moderador, fiel ao que \u00e9 intang\u00edvel sem deixar de ser fiel aos apelos dos tempos novos\u201d.<br \/> \u201cPor outro lado, soube o Papa Paulo VI abrir-se para o mundo inteiro, conseguindo que a Igreja fosse o que dela profetizou Isa\u00edas: \u2018Um estandarte levantado no meio das Na\u00e7\u00f5es\u2019 (Is 11,12). \u00c9 dif\u00edcil sintetizar aqui tudo o que ele fez na \u00e1rea do ecumenismo, em rela\u00e7\u00e3o \u00e0s Igrejas do Oriente e do Ocidente; com as culturas da \u00c1sia e da \u00c1frica; suas viagens \u00e0 \u00cdndia, \u00e0 Austr\u00e1lia, \u00e0s Filipinas, \u00e0 Am\u00e9rica Latina, \u00e0 ONU. De fato, esteve presente no mundo, levando a mensagem do Evangelho, a palavra da justi\u00e7a, o apelo da paz. Paulo VI parece ter herdado de seu predecessor Jo\u00e3o XXIII a vontade de atravessar as fronteiras, de procurar o di\u00e1logo em vez de lan\u00e7ar an\u00e1temas\u201d (idem, p. 168-169).<br \/> Apesar de tudo isso, como j\u00e1 acenamos, Paulo VI foi chamado de \u201co Papa do sofrimento\u201d, dados os dissabores que enfrentou dentro e fora da Igreja na fase imediatamente seguinte ao Conc\u00edlio. Se isso \u00e9 real, podemos dizer, a justo t\u00edtulo, que Montini foi tamb\u00e9m \u201co Papa da verdadeira alegria que vem do Senhor\u201d. <br \/> Para evocar o lado sereno e feliz desse Pont\u00edfice, que em breve ser\u00e1 beatificado, desejamos lembrar aqui um documento pouco conhecido, mas de grande profundidade espiritual, que foi assinado por ele em 9 de maio de 1975. Trata-se da Exorta\u00e7\u00e3o Apost\u00f3lica Gaudete in Domino, que, em portugu\u00eas, significa Alegrai-vos no Senhor!, escrita por Paulo VI em prepara\u00e7\u00e3o \u00e0 solenidade de Pentecostes do Ano Jubilar de 1975.<br \/> Nessa Exorta\u00e7\u00e3o, o Santo Padre come\u00e7a dizendo, com fundamento em Filipenses 4,45 e no Salmo 145,18: \u201cAlegrai-vos no Senhor, porque Ele est\u00e1 perto de todos os que O invocam com sinceridade\u201d e a partir da\u00ed vai desenvolvendo a no\u00e7\u00e3o da alegria crist\u00e3, que \u00e9 a alegria no Esp\u00edrito Santo como um dom d\u2019Ele mesmo para cada um de n\u00f3s (cf. Gl 5,22), mas que \u00e9, n\u00e3o raras vezes, esquecido, como se ser crist\u00e3o e ser santo fosse ter cara feia e triste. Ali\u00e1s, duas constata\u00e7\u00f5es v\u00eam ao caso a prop\u00f3sito: a primeira lembra aquele dito popular, \u00e0s vezes tamb\u00e9m atribu\u00eddo a algum santo: \u201cUm santo triste \u00e9 um triste santo\u201d; a segunda \u00e9 a fala do Papa Francisco, no dia 1\u00ba de junho de 2013, quando diz, recordando, inclusive, Paulo VI, que \u201cmuitas vezes os crist\u00e3os t\u00eam mais cara de que est\u00e3o num cortejo f\u00fanebre do que louvando a Deus\u201d, mas isso est\u00e1 errado, pois \u201csem a alegria, o crist\u00e3o n\u00e3o pode ser livre, mas, ao contr\u00e1rio, torna-se escravo da tristeza\u201d.<br \/> \u00c9 precisamente este o ponto em que os Papas Bergoglio e Montini se encontram, uma vez que, na conclus\u00e3o da Gaudete in Domino se l\u00ea: \u201cIrm\u00e3os e filhos car\u00edssimos: n\u00e3o ser\u00e1 normal que a alegria habite dentro de n\u00f3s, quando os nossos cora\u00e7\u00f5es contemplam e descobrem de novo, na f\u00e9, os seus motivos fundamentais? E estes motivos s\u00e3o simples, ali\u00e1s: tanto amou Deus o mundo, que lhe deu o seu Filho \u00fanico. Pelo seu Esp\u00edrito, a sua presen\u00e7a n\u00e3o cessa de envolver-nos na sua ternura e de nos impregnar com a sua vida; e n\u00f3s caminhamos para a transfigura\u00e7\u00e3o ditosa das nossas exist\u00eancias, seguindo rumo \u00e0 ressurrei\u00e7\u00e3o de Jesus. Sim, seria muito estranho que esta Boa-Nova que provoca os aleluias da Igreja n\u00e3o nos deixasse com o semblante de pessoas salvas!\u201d<br \/> Isso posto, surge uma pergunta comum e interessante: mas, afinal, que tipo de alegria \u00e9 a crist\u00e3? \u2013 Responde, ent\u00e3o, Paulo VI, citando S\u00e3o Tom\u00e1s de Aquino, que a express\u00e3o mais elevada da alegria ou da felicidade \u00e9 aquela entendida no sentido estrito da palavra, \u201cquando o homem, ao n\u00edvel de suas faculdades superiores, encontra a sua satisfa\u00e7\u00e3o na posse de um bem conhecido e amado. Assim, o homem experimenta a alegria quando se encontra em harmonia com a natureza, e, sobretudo, no encontro, na partilha, na comunh\u00e3o com o outro. Com muito mais raz\u00e3o, pois, chegar\u00e1 ele a conhecer a alegria e a felicidade espiritual quando o seu esp\u00edrito entra na posse de Deus, conhecido e amado como o bem supremo e imut\u00e1vel\u201d (Summa Theologica, I-II, q.31,a 3).<br \/> No entanto, novamente, pode haver quem tente contradizer o Papa dizendo que, neste mundo finito e dilacerado por disc\u00f3rdias, \u00e9 praticamente imposs\u00edvel encontrar a felicidade. Da\u00ed responder Paulo VI que a quest\u00e3o, de certo modo, parece contradit\u00f3ria porque est\u00e1 mal colocada. Com efeito, pensa-se que a felicidade ou a alegria est\u00e1 no ter&#8230; Ter carros bons, casas, dinheiro, artefatos t\u00e9cnicos, enfim coisas materiais, quando, na realidade, a verdadeira alegria vem de outra fonte, \u00e9 espiritual, por isso nenhum bem material, por maior que seja, pode compr\u00e1-la ou conquist\u00e1-la.<br \/> \u00c9 por essa raz\u00e3o que, mergulhado no materialismo, o ser humano dos s\u00e9culos XX e XXI se sente impotente ante os males, especialmente os de ordem moral que os acomete, pois os recursos de natureza material de que disp\u00f5e s\u00e3o ineficientes para a batalha. Mais: se essa ang\u00fastia \u00e9 grande, h\u00e1 ainda outro agravante que o Papa, j\u00e1 em 1975, denunciou: s\u00e3o alguns meios de comunica\u00e7\u00e3o de massa que \u201cacabrunham as consci\u00eancias, sem lhes apresentar, normalmente, uma solu\u00e7\u00e3o humana adequada\u201d.<br \/> Contudo, apesar dos n\u00e3o poucos e nem pequenos desafios, Paulo VI nos convida a olharmos maravilhados, desde a nossa inf\u00e2ncia at\u00e9 a velhice, para tudo o que Deus fez e sentirmos a serena alegria que s\u00f3 Ele pode nos dar como um dom do Esp\u00edrito Santo, conforme se l\u00ea em G\u00e1latas 5,22. E acrescenta que \u201co homem s\u00f3 poder\u00e1 experimentar a verdadeira alegria espiritual quando se afastar do pecado e viver na presen\u00e7a de Deus. A carne e o sangue s\u00e3o, sem d\u00favida, incapazes disso (cf. Mt 16,17). Mas a revela\u00e7\u00e3o pode abrir esta perspectiva e a gra\u00e7a pode operar esta convers\u00e3o\u201d no cora\u00e7\u00e3o humano, \u00e0s vezes petrificado pelo pecado, por meio do sacramento da Penit\u00eancia.<br \/> Paulo VI recorda nessa exorta\u00e7\u00e3o o Ap\u00f3stolo das gentes: \u201cEstou cheio de consola\u00e7\u00e3o, estou inundado de alegria no meio de todas as tribula\u00e7\u00f5es\u201d (7,3-4). Elas mostram que, mesmo entre as intemp\u00e9ries da vida, o verdadeiro disc\u00edpulo de Cristo jamais perde a esperan\u00e7a, pois est\u00e1 inundado da alegria do Esp\u00edrito Santo.<br \/> Possa, portanto, a Virgem Maria, invocada em sua Ladainha como sendo a \u201cCausa de nossa alegria\u201d, interceder por n\u00f3s para que nossa vida, inundada pela for\u00e7a do Esp\u00edrito de Deus, seja fonte de verdadeira alegria e felicidade para n\u00f3s e para todos os que nos cercam. Am\u00e9m!<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>No pr\u00f3ximo dia 6 de agosto iremos comemorar 36 anos da P\u00e1scoa do Papa Paulo VI, que no dia 19 de outubro ser\u00e1 beatificado pelo Papa Francisco, na Pra\u00e7a de S\u00e3o Pedro, em Roma. 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