{"id":47588,"date":"2019-03-14T14:30:44","date_gmt":"2019-03-14T17:30:44","guid":{"rendered":"http:\/\/catolicanet.net\/wp-cnet\/?p=47588"},"modified":"2019-03-14T15:05:12","modified_gmt":"2019-03-14T18:05:12","slug":"quaresma-a-esmola-e-o-amor-que-vem-de-deus","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/catolicanet.net\/wp-cnet\/quaresma-a-esmola-e-o-amor-que-vem-de-deus\/","title":{"rendered":"Quaresma: a esmola \u00e9 o amor que vem de Deus"},"content":{"rendered":"<div class=\"article__subTitle\">Em entrevista ao jornal vaticano L\u2019Osservatore Romano, o secret\u00e1rio do Dicast\u00e9rio para o Servi\u00e7o do Desenvolvimento Humano Integral, Pe. Bruno-Marie Duff\u00e9, revela o que d\u00e1 sentido \u00e0 esmola: \u201c\u00e9 o olhar que oferecemos, antes da ajuda material que podemos dar a quem precisa\u201d; \u00e9 a experi\u00eancia de sermos tocados por aquilo que vive o outro: \u201csua hist\u00f3ria, seu sofrimento, sua esperan\u00e7a\u201d.<\/div>\n<div class=\"title__separator\"><\/div>\n<div class=\"article__text\">\n<p><b>Nicola Gori, Andressa Collet \u2013 Cidade do Vaticano<\/b><\/p>\n<p>A esmola, o compartilhar, o cuidado a quem sofre, mas tamb\u00e9m o empenho pol\u00edtico e as rela\u00e7\u00f5es nas redes sociais: s\u00e3o tantos os \u00e2mbitos em que \u00e9 poss\u00edvel viver a caridade durante a Quaresma. O secret\u00e1rio do Dicast\u00e9rio para o Servi\u00e7o do Desenvolvimento Humano Integral, Pe. Bruno-Marie Duff\u00e9, concedeu entrevista ao jornal vaticano L\u2019Osservatore Romano e iniciou abordando a liga\u00e7\u00e3o entre a esmola e a penit\u00eancia.<\/p>\n<h2>A esmola \u00e9 a express\u00e3o da convers\u00e3o na Quaresma<\/h2>\n<p><i>Pe. Duff\u00e9 \u2013 A Quaresma \u00e9 um per\u00edodo de convers\u00e3o. Retornamos \u00e0 fonte da nossa f\u00e9 e percorremos estes 40 dias deixando-nos tocar pela Palavra de Deus.<\/i><\/p>\n<p>\u201c A esmola \u2013 ag\u00e0pe \u2013 \u00e9 o amor que vem de Deus, nos chama e nos leva a aprender de novo a amar os outros, com respeito e humildade. \u201d<\/p>\n<p><i>A penit\u00eancia \u00e9 uma atitude em que reconhecemos de n\u00e3o amar. Pode-se dizer, ent\u00e3o, que <b>a esmola \u00e9 a express\u00e3o da nossa convers\u00e3o: passamos do ego\u00edsmo ao encontro.<\/b> Essa passagem \u2013 da morte para a vida \u2013 atrav\u00e9s do amor aos irm\u00e3os e irm\u00e3s, est\u00e1 no centro da exist\u00eancia crist\u00e3 e prossegue obviamente al\u00e9m do per\u00edodo da Quaresma. Prossegue todos os dias como um caminho de renova\u00e7\u00e3o, com a gra\u00e7a de Deus. As tr\u00eas exig\u00eancias propostas para o per\u00edodo da Quaresma \u2013 a ora\u00e7\u00e3o, o jejum e a esmola \u2013 culminam na pr\u00e1tica do perd\u00e3o que \u00e9 a express\u00e3o\u00a0 do amor maior: devemos nos reconhecer pecadores diante de Deus e pedir perd\u00e3o \u00e0quele ou \u00e0quela que ferimos. Deus \u00e9 o nosso perd\u00e3o e nos leva a viver o perd\u00e3o entre n\u00f3s.<\/i><\/p>\n<h2>Deixar sermos tocados pela hist\u00f3ria do outro<\/h2>\n<p>A esmola \u00e9 frequentemente s\u00f3 uma maneira de \u201cn\u00e3o pesar na consci\u00eancia\u201d diante dos pobres. Como fazer da solidariedade um estilo de vida?<\/p>\n<p>Pe. Duff\u00e9 \u2013 <b><i>Aquilo que d\u00e1 sentido \u00e0 esmola \u00e9 o olhar que oferecemos, antes da ajuda material que podemos dar a quem precisa.<\/i><\/b><i> \u00c9 o cora\u00e7\u00e3o a se oferecer e que se oferece; o apoio material \u00e9 a express\u00e3o de uma humanidade que se doa com joia. A \u201cconsci\u00eancia tranquila\u201d consiste em doar sem colocar na nossa doa\u00e7\u00e3o aquele amor que alivia e une. A \u201cconsci\u00eancia tranquila\u201d est\u00e1 voltada para si mesma: o amor aut\u00eantico se satisfaz ao cruzar o olhar com o outro<b>.<\/b><\/i><\/p>\n<p>\u201c A solidariedade \u00e9, de fato, a experi\u00eancia de ser tocados por aquilo que vive o outro: a sua hist\u00f3ria, o seu sofrimento e a sua esperan\u00e7a. Podemos, assim dizer, que a esmola \u00e9 um compartilhar e que cada um oferece ao outro, atrav\u00e9s do seu olhar, o seu cora\u00e7\u00e3o e a sua m\u00e3o aberta, de viver e de continuar o caminho. O \u201cpouco\u201d que oferecemos vira sinal de fraternidade, inspirada pelo amor superabundante de Deus Pai. A solidariedade vira um estilo de vida quando aceitamos encontrar e nos aproximar de quem n\u00e3o conhecemos. \u201d<\/p>\n<p><i>Isso faz de cada homem um mensageiro de luz e de esperan\u00e7a. Doando, no gesto da esmola, recebemos aquilo que o outro tem dentro de si e vivemos a alegria da troca. De fato, ningu\u00e9m \u00e9 t\u00e3o pobre de n\u00e3o ter nada para oferecer. Dito isso, \u00e9, por\u00e9m, sempre importante unir a esmola \u00e0 ora\u00e7\u00e3o e ao jejum.<\/i><\/p>\n<h2>De m\u00e3os dadas com a solidariedade<\/h2>\n<p>Uma das obras de caridade \u00e9 tamb\u00e9m aquela de levar o Evangelho a quem mais sofre. De que maneira se pode combater a cultura do descarte que abre a porta \u00e0 eutan\u00e1sia?<\/p>\n<p>Pe. Duff\u00e9 \u2013 <i>N\u00e3o \u00e9 necess\u00e1rio dizer \u201ctamb\u00e9m\u201d, mas \u201cessencialmente\u201d. O Evangelho \u00e9 \u201co alegre an\u00fancio aos m\u00edseros\u201d: \u201ca liberta\u00e7\u00e3o dos prisioneiros\u201d, \u201ca luz aos cegos\u201d, \u201ca consola\u00e7\u00e3o a todos os aflitos\u201d, para retomar as palavras do Livro de Isa\u00edas em que Jesus apresenta como a realiza\u00e7\u00e3o da sua miss\u00e3o. Antes de qualquer outra coisa, <b>o Evangelho \u00e9 uma consola\u00e7\u00e3o, um cuidado a todas as pessoas que sofrem<\/b>.<\/i><\/p>\n<p>\u201c Trata-se, ent\u00e3o, para cada batizado, de \u201cestar pr\u00f3ximo\u201d dos que sofrem, por causa de doen\u00e7a, pela viol\u00eancia ou solid\u00e3o. N\u00e3o se trata tanto de falar, mas de estar ali para compartilhar o momento da escuta. \u201d<\/p>\n<p><i>Sabemos bem que aquele instante nos faz olhar a vida como uma oportunidade, mesmo quando fazemos a experi\u00eancia dos nossos pr\u00f3prios limites. \u00c9 de m\u00e3os dadas que fazemos a passagem para a Vida. N\u00e3o tem outra forma para combater aquela que chamamos \u201ca cultura do descarte\u201d, que descobrir, at\u00e9 o \u00faltimo instante da nossa exist\u00eancia, que a pessoa tem alguma coisa para nos oferecer e n\u00f3s temos alguma coisa para compartilhar com ela. E quando algumas t\u00eam um desejo de morte, cabe a n\u00f3s, com do\u00e7ura, transform\u00e1-lo num desejo de amor.<\/i><\/p>\n<h2>A sensibilidade com quem precisa<\/h2>\n<p>\u201cCuidem dos doentes\u201d \u00e9 um mandamento de Jesus. A Quaresma pode ser uma oportunidade para redescobrir essa forma de caridade?<\/p>\n<p>Pe. Duff\u00e9 \u2013 <i>Essa pergunta nos leva a nos questionar o que quer dizer \u201ccuidar\u201d. Trata-se de cuidar do outro e de despertar nele uma esperan\u00e7a mais forte que o sofrimento. \u00c9 justo dizer que \u201ccuidar\u201d \u00e9 uma forma especial de caridade, vista como um amor de prefer\u00eancia. A Quaresma \u00e9 um per\u00edodo para redescobrir quantos est\u00e3o \u201cem sofrimento\u201d, isto \u00e9, sozinhos e esperando. Sempre se est\u00e1 sozinho quando se sofre, porque est\u00e3o doentes ou porque s\u00e3o emarginados. Mas \u201cestar em sofrimento\u201d \u00e9 tamb\u00e9m \u201cestar em espera\u201d. A chamada de Jesus consiste, ent\u00e3o, no ser sens\u00edveis com aquele ou aquela que est\u00e1 esperando o gesto de amor que doa novamente a vida. Claro, procura-se sempre a cura do corpo, mas n\u00e3o tem cura sem aten\u00e7\u00e3o e delicadeza com aquele que est\u00e1 \u201cpr\u00f3ximo\u201d. A caridade que vem de Deus nos inspira a presen\u00e7a justa que ama, assegura e abre \u00e0 confian\u00e7a compartilhada. Confian\u00e7a quer dizer \u201ceu acredito contigo\u201d.<\/i><\/p>\n<h2>O an\u00fancio do Evangelho e a pol\u00edtica<\/h2>\n<p>Paulo VI repetiu muitas vezes que \u201ca pol\u00edtica \u00e9 a maior forma de caridade\u201d. Acredita que a presen\u00e7a e o empenho dos cat\u00f3licos sejam necess\u00e1rios na pol\u00edtica?<\/p>\n<p>Pe. Duff\u00e9 \u2013 <i>\u00c0s vezes se atribui essa frase a Pio XII, outras a Paulo VI. Ambos os Papas sublinharam a import\u00e2ncia do empenho dos cat\u00f3licos na cidade e na vida pol\u00edtica. Essa presen\u00e7a n\u00e3o \u00e9 somente necess\u00e1ria, \u00e9 tamb\u00e9m indispens\u00e1vel. Por dois motivos principais: o primeiro diz respeito \u00e0 realidade da vida pol\u00edtica, lugar de delibera\u00e7\u00e3o e da decis\u00e3o que implica no futuro da comunidade humana; o segundo \u00e9 que Cristo envia os seus disc\u00edpulos para que ofere\u00e7am a paz a \u201ctodas as casas\u201d e revelem a cada membro da comunidade o talento e a promessa que tem em si.<\/i><\/p>\n<p>\u201c Existe, ent\u00e3o, uma liga\u00e7\u00e3o muito estreita entre o an\u00fancio do Evangelho e a participa\u00e7\u00e3o \u00e0 constru\u00e7\u00e3o de uma sociedade de justi\u00e7a e de fraternidade. \u201d<\/p>\n<p><i>A pol\u00edtica n\u00e3o se reduz jamais nem ao exerc\u00edcio do poder, nem \u00e0 gest\u00e3o das institui\u00e7\u00f5es: esse \u00e9 o lugar da palavra, da promessa e do perd\u00e3o, sem os quais n\u00e3o pode existir um futuro compartilhado. Na vida coletiva, os batizados s\u00e3o convidados a serem servidores da Palavra doada, da justi\u00e7a que \u00e9 a condi\u00e7\u00e3o da paz e do perd\u00e3o que oferece possibilidade de um futuro juntos. Paulo VI insistia em dizer que esse empenho dos crist\u00e3os se fundamenta na refer\u00eancia do Evangelho, na necessidade de uma an\u00e1lise compreensiva das situa\u00e7\u00f5es e dos princ\u00edpios da doutrina social da Igreja: dignidade de cada pessoa, responsabilidade compartilhada, solidariedade e bem comum, aten\u00e7\u00e3o prim\u00e1ria aos mais pobres.<\/i><\/p>\n<h2>A Quaresma em \u00e9poca de redes sociais<\/h2>\n<p>Hoje, o uso das redes sociais reduz as possibilidades reais do encontro e do compartilhar. Pode-se viver a caridade tamb\u00e9m atrav\u00e9s desses instrumentos?<\/p>\n<p>Pe. Duff\u00e9 \u2013 <i>Aquilo que vale para qualquer instrumento vale tamb\u00e9m tamb\u00e9m para a tecnologia contempor\u00e2nea: pode ser um instrumento para a vida ou um instrumento para a morte. Depende do uso que fazemos ou da compreens\u00e3o que temos. \u00c9 justo dizer que o uso das redes sociais pode ser negativo: pode inclusive levar a transmitir mentiras que s\u00e3o fonte de injusti\u00e7a e at\u00e9 de viol\u00eancia. Mas \u00e9 preciso tamb\u00e9m dizer que o uso desses meios pode ajudar o conhecimento rec\u00edproco e a solidariedade. Pode tamb\u00e9m salvar vidas se usadas em modo correto, o que significa colocar o instrumento a servi\u00e7o do encontro. N\u00f3s precisamos, como prop\u00f5e o Papa Francisco, desenvolver uma \u201ccultura do encontro\u201d. O ponto central \u00e9 saber, ent\u00e3o, como permanecermos patr\u00f5es dos nossos conhecimentos e dos nossos objetivos. \u00c9 claro que depende de n\u00f3s \u2013 de cada um e de todos juntos \u2013 procurar o bem e rejeitar o mal.<\/i><\/p>\n<p>\u201c Uma mensagem violenta ou uma informa\u00e7\u00e3o falsa podem matar, a gente sabe, mas uma palavra de encorajamento pode salvar e nos tornar livres. \u201d<\/p>\n<p><i>O per\u00edodo da Quaresma \u00e9 tamb\u00e9m um per\u00edodo de reflex\u00e3o sobre o uso que fazemos dos bens que temos. \u00c9 necess\u00e1rio um discernimento. \u00c0s vezes tamb\u00e9m um \u201cjejum\u201d do telefone ou do computador pode nos permitir voltar \u00e0 escuta interior de Deus, para dar uma aten\u00e7\u00e3o renovada \u00e0s outras pessoas.<\/i><\/p>\n<\/div>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Em entrevista ao jornal vaticano L\u2019Osservatore Romano, o secret\u00e1rio do Dicast\u00e9rio para o Servi\u00e7o do Desenvolvimento Humano Integral, Pe. 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