{"id":47461,"date":"2019-03-11T13:40:10","date_gmt":"2019-03-11T16:40:10","guid":{"rendered":"http:\/\/catolicanet.net\/wp-cnet\/?p=47461"},"modified":"2019-03-11T15:08:07","modified_gmt":"2019-03-11T18:08:07","slug":"falando-as-paredes-2","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/catolicanet.net\/wp-cnet\/falando-as-paredes-2\/","title":{"rendered":"Falando \u00e0s paredes"},"content":{"rendered":"<p>A prega\u00e7\u00e3o da Igreja, muitas vezes, parece ecoar no vazio. Falar de uma doutrina de paz e amor num mundo atribulado pelo \u00f3dio racial e guerras constantes soa, quase sempre, como utopia. Por mais coerente que uma proposta de mudan\u00e7as possa ser, ela se esbarra e se dilui na beliger\u00e2ncia e no conflito de interesses que governa a humanidade. Isso n\u00e3o \u00e9 nenhuma descoberta recente, pois desde os prim\u00f3rdios da civiliza\u00e7\u00e3o assim se comporta o g\u00eanero humano. \u00c0 \u00e9poca de Cristo a situa\u00e7\u00e3o n\u00e3o era diferente. Imaginem agora, quando a sofistica\u00e7\u00e3o das armas e o conflito entre os povos se eleva a um ponto equidistante, que nem Pit\u00e1goras seria capaz de calcular&#8230;<\/p>\n<p>O que temos \u00e9 mais que um teorema insol\u00favel. A realidade em nada se altera com a indiferen\u00e7a humana. Se quisermos uma rea\u00e7\u00e3o \u2013 ou ao menos a separa\u00e7\u00e3o entre doutrina e realidade, f\u00e9 e raz\u00e3o, joio e trigo \u2013 \u00e9 preciso por primeiro confrontar ambas as situa\u00e7\u00f5es. O medo \u00e9 a primeira grande parede que impede o avan\u00e7o de propostas capazes de transforma\u00e7\u00f5es radicais na ordem dos fatos. Se o mundo faz ouvidos moucos para aceitar desafios de mudan\u00e7as \u00e9 porque o descr\u00e9dito generalizado toma conta e ningu\u00e9m mais defende aquilo que \u00e9 sonho de todos, mas s\u00f3 aceit\u00e1vel por uma minoria. A proposta crist\u00e3 \u00e9 simp\u00e1tica ao mundo, mas sua pr\u00e1tica aparentemente invi\u00e1vel. Ser\u00e1? Onde fracassamos, ent\u00e3o? Foi em v\u00e3o o sacrif\u00edcio de Cristo?<\/p>\n<p>Tais perguntas, mesmo que feitas \u00e0 surdina em nossos cora\u00e7\u00f5es, s\u00e3o fundamentais nesse processo de busca humana por novos dias, novos rumos, novo sentido \u00e0 vida. Mais do que \u00e0queles que interrogam a Igreja apontando seus erros e fracassos, a resposta a essas quest\u00f5es \u00e9 de compet\u00eancia primeira dos pr\u00f3prios crist\u00e3os. Estamos, pois, encurralados entre quatro paredes. Marcel Proust um dia escreveu: \u201cNa brusca dire\u00e7\u00e3o do cotovelo das paredes, eu sentia as restri\u00e7\u00f5es impostas pelo mar e a parcim\u00f4nia do solo\u201d. Quem nunca se sentiu assim, diante dos desafios, da impossibilidade de apontar solu\u00e7\u00f5es ou buscar outros rumos para a realidade que nos oprime? O mar \u00e9 s\u00edmbolo dos mist\u00e9rios \u2013 gestor dos perigos, mas tamb\u00e9m provedor de riquezas e descobertas maravilhosas \u2013 que sempre rondou a curiosidade humana. J\u00e1 a terra, o solo onde pisamos e constru\u00edmos nossa hist\u00f3ria, esta nos afeta por primeiro, posto a defendermos com unhas e dentes, seja ela o pequeno territ\u00f3rio de nossas posses e interesses ou a na\u00e7\u00e3o que herdamos de nossos antepassados e desejamos transferi-la integralmente aos nossos filhos e netos.\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0 Como vemos, tudo que temos e somos possui um v\u00ednculo afetivo, uma ilus\u00e3o de posse. At\u00e9 nossos sonhos, nossas cren\u00e7as, nossas ilus\u00f5es. Dessa forma, nossa f\u00e9. Um detalhe nos escapa: separar \u00e1guas e terras, o mar e o solo (Gn 1,9) \u00e9 o primeiro passo. Simbolicamente, \u00e9 isso que ordena o aparente caos do universo. Cada coisa, cada ato em seu devido tempo e lugar. A Palavra de Deus, desde o princ\u00edpio, \u00e9 propiciadora de nova ordem, de transforma\u00e7\u00f5es. N\u00e3o nos compete cobrar seus resultados imediatos, mas t\u00e3o somente proclam\u00e1-la, divulga-la, insistir em sua propaga\u00e7\u00e3o. Assim, nunca falaremos \u00e0s paredes, pois estas deixam de existir quando nossa f\u00e9 vai al\u00e9m das fronteiras que nos separam. Poderemos n\u00e3o colher de imediato, mas semeando hoje, colher-se-\u00e1 amanh\u00e3. Falta-nos essa compreens\u00e3o da paci\u00eancia hist\u00f3rica de Deus para com a humanidade. O temor e a inseguran\u00e7a nos afetam diretamente, quando hesitamos em proclamar sua Verdade e anunciar ao mundo novos tempos, novos dias&#8230; Enquanto houver um crist\u00e3o inseguro em sua miss\u00e3o, enquanto a d\u00favida for maior que essa certeza de mudan\u00e7as, ah!\u00a0 &#8211; continuaremos claudicando em nossos gestos de amor \u00e0 vida, aos semelhantes. \u201cNo amor n\u00e3o existe medo; pelo contr\u00e1rio, o amor perfeito lan\u00e7a fora o medo, porque o medo sup\u00f5e castigo. Por conseguinte, quem sente medo ainda n\u00e3o est\u00e1 realizado no amor\u201d (1Jo 4, 18).<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>A prega\u00e7\u00e3o da Igreja, muitas vezes, parece ecoar no vazio. Falar de uma doutrina de paz e amor num mundo atribulado pelo \u00f3dio racial e guerras constantes soa, quase sempre, como utopia. 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